Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Variedades
Em noite justa, Grammy consagra os dois melhores álbuns do ano

Evento foi palco de manifestações políticas

Segunda, 29/1/2018 7:49.
Divulgação.
Bruno Mars o grande vencedor da noite.

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THALES DE MENEZES
(FOLHAPRESS) - Depois de ser crivado de críticas variadas em suas últimas edições, como servir apenas para recompensar quem vende mais discos para salvar o mercado, o principal prêmio da indústria da música foi justo ao extremo em 2018, dando 12 estatuetas para os dois melhores álbuns da temporada.

As glórias da noite deste domingo (28), no Madison Square Garden, em Nova York, foram para Bruno Mars, que levou seis pequenos gramofones dourados para casa, e Kendrick Lamar, que ficou com cinco. É o reconhecimento para dois tipos evidentes de como fazer música relevante: ser conservador e impecável, ou ser inovador e irregular.

Bruno Mars não inventa muita coisa, mas sabe fazer o que gosta com uma qualidade irrepreensível. Com seu álbum "24K Magic", levou os três principais prêmios: Gravação do Ano, Álbum do Ano e Canção do Ano, este por "That's What I Like".

Com a mesma canção, aumentou a sacola de prêmios em Melhor Performance de R&B e Canção de R&. "24K Magic" deu a Mars mais duas vitórias, de Melhor Álbum de R&B e de Álbum com Melhor Engenharia de Som.

O disco parece um catálogo do melhor que se pode alcançar em música negra americana. Estão lá as baladas cantadas em falsete, os funks de rachar assoalho, o soul sensual.

Claro que Bruno Mars não existiria sem Michael Jackson, Prince ou Smokie Robinson, mas ele recebeu o bastão desses ídolos e prossegue seus estilos com exuberância técnica e personalidade.

É muito mais do que tenta, sem conseguir, o ator Donald Glover, que levou um Grammy com seu projeto musical, Childish Gambino. Sua música "Redbone" foi premiada como Performance de R&B Tradicional, mas, como todo o seu álbum, é emulação sem alma do que artistas do passado já fizeram. Tem muito a aprender com Mars.

Já Kendrick Lamar passou o rodo nas categorias de rap, premiado por Canção, Álbum, Performance e Performance de Rap Cantado, categoria que foca músicas que misturam rap com canto. Esta ele levou com Rihanna, em "Loyalty". Seu quinto Grammy da noite veio com Melhor Clipe, para o hit "HUMBLE.".

Lamar é a prova de que o rap, e o hip hop como um todo, é o único gênero que está mostrando renovação e conteúdo relevante. Seu trabalho é irregular, mas a contundência nas letras e o risco sem medo nas construções musicais são impressionantes quando ele acerta.

Na apresentação que abriu a noite do Grammy, quando cantou trechos de várias músicas de seu álbum mais recente, Lamar deixou claro a força de seu arsenal de ritmo e poesia.

Pena que o resto da cerimônia não segurou a qualidade nas performances que se seguiram. Ninguém criou uma solução visual inovadora, e o pouco de emoção veio de momentos como o choro de Kesha em "Praying", que cantou acompanhada de várias vocalistas de apoio, entre elas o recente fenômeno teen Camila Cabello e a veterana Cyndi Lauper. A canção foi um desabafo de Kesha sobre os problemas que teve com o antigo empresário, que acusa de assédio.

Kesha formou com Lady Gaga, Pink e Miley Cirus um time de "meninas sérias" nas apresentações da noite. Todas discretas, até no guarda-roupa, cantando temas dramáticos e assumindo uma atitude que parecia dizer "sabemos cantar e podemos subir ao palco sem mostrar o corpo". Miley merece um comentário extra: quando os produtores do Grammy resolvem homenagear Elton John, um ícone do pop prestes a se aposentar, colocam o ídolo para cantar "Tiny Dancer" com Miley Cirus. Sinal triste dos tempos, como se os jovens que estavam vendo pela TV não fossem dar bola para aquele tiozinho no piano sem o chamariz da menina famosa a seu lado. Pior é isso ser a pura verdade.

"Despacito", a "Macarena" do século 21 e canção mais executada no mundo nos últimos meses, concorreu nas principais categorias sem levar nada. Cumpriu uma espécie de "cota de exotismo" na premiação, visando a grande audiência latina. Mas foi esnobada, a ponto de Luis Fonsi, Daddy Yankee e Justin Bieber perderem até na categoria Performance Pop de Duo ou Grupo para a banda medíocre Portugal. The Man.

Acostumado a ser contemplado com muitas indicações, Ed Sheeran nem foi ao prêmio, mas acabou se dando bem e vai receber duas estatuetas pelo correio: Performance Pop Solo, com "Shape of You", e Álbum Vocal Pop, com "Divide". O rock expôs o momento crítico do gênero, com premiados estranhos como o genial Leonard Cohen, que levou melhor Performance de Rock mais como homenagem póstuma, e a vitória de Performance de Metal para o Mastodon, um grupo pesado fraquinho que apenas o Grammy leva a sério.

A esforçada Alessia Cara ganhou como Artista Revelação, categoria em que muitos acreditavam na vitória de SZA, indicada a cinco estatuetas em sua estreia no Grammy. Não levou nenhuma e fez uma performance frouxa. Será só mais uma cantora nesse mercado infestado por vozes femininas em demasia.

A lista dos premiados

Álbum do Ano: "24K Magic", de Bruno Mars

Gravação do Ano: "24K Magic", de Bruno Mars

Canção do Ano: "That's What I Like", de Bruno Mars

Melhor Álbum Country: "From a Room: Volume 1", de Chris Stapleton

Melhor Álbum de Comédia: "The Age of Spin and Deep in the Heart of Texas", de Dave Chappelle

Melhor Álbum de Rap: "DAMN.", de Kendrick Lamar

Melhor Performance Solo Pop: "Shape of You", de Ed Sheeran

Artista Revelação: Alessia Cara

Melhor Performance de Rap: "Loyalty", de Kendrick Lamar com participação de Rihanna

Melhor Performance de Duo/Grupo Pop: "Feel It Still" - Portugal. The Man

Melhor Álbum Pop Vocal Tradicional: "Tony Bennett Celebrates 90" - Various Artists; Dae Bennett, producer

Melhor álbum vocal de pop: "÷" - Ed Sheeran

Melhor Gravação Dance: "Tonite" - LCD Soundsystem

Melhor Álbum de Dance/Eletrônica: "3-D The Catalogue" - Kraftwerk

Melhor Álbum Instrumental Pop: "Prototype" - Jeff Lorber Fusion

Melhor Performance de Rock: "You Want It Darker" - Leonard Cohen

Melhor Performance de Metal: "Sultan's Curse" - Mastodon

Melhor Canção de Rock: "Run" - Foo Fighters

Melhor Álbum de Rock: "A Deeper Understanding" - The War on Drugs

Melhor Álbum de Música Alternativa: "Sleep Well Beast" - The National

Melhor Performance de R&B: "That's What I Like" - Bruno Mars

Melhor Performance Tradicional de R&B: "Redbone" - Childish Gambino

Melhor Música R&B do Ano: "That's What I Like" - Christopher Brody Brown, James Fauntleroy, Philip Lawrence, Bruno Mars, Ray Charles McCullough II, Jeremy Reeves, Ray Romulus and Jonathan Yip, songwriters (Bruno Mars)

Melhor Álbum Urbano Contemporâneo: "Starboy" - The Weeknd

Melhor Álbum R&B: "24K Magic" - Bruno Mars

Melhor Performance de Rap: "HUMBLE." - Kendrick Lamar

Melhor Canção de Rap: "HUMBLE." - Duckworth, Asheton Hogan and M. Williams II, songwriters (Kendrick Lamar)

Melhor Performance Solo de Country: "Either Way" - Chris Stapleton

Melhor Performance Country em Duo ou Grupo: "Better Man" - Little Big Town

Melhor Canção Country: "Broken Halos" - Mike Henderson and Chris Stapleton (Chris Stapleton)

Melhor Álbum New Age: "Dancing on Water" - Peter Kater

Melhor Improvisação de jazz solo: "Miles Beyond" - John McLaughlin, soloist

Melhor Álbum de Jazz Vocal: "Dreams and Daggers" - Cécile McLorin Salvant

Melhor Álbum de Jazz Instrumental: "Rebirth" - Billy Childs

Melhor Álbum de um Grupo de Jazz: "Bringin' It" - Christian McBride Big Band

Melhor Álbum de Jazz Latino: "Jazz Tango" - Pablo Ziegler Trio

Melhor música/perfomance Gospel: "Never Have to Be Alone" - CeCe Winans

Melhor Performance de Música Cristã Contemporânea/Canção: "What a Beautiful Name" - Hillsong Worship

Melhor Álbum Gospel: "Let Them Fall in Love" - CeCe Winans

Melhor Álbum de Música Cristã Contemporânea: "Chain Breaker" - Zach Williams

Melhor Álbum de Gospel de Raiz: "Sing It Now: Songs of Faith & Hope" - Reba McEntire

Melhor Álbum de Pop Latino: "El Dorado" - Shakira

Melhor Álbum Latino de Rock, Urbano ou Alternativo: "Residente" - Residente

Melhor Álbum Regional Mexicano ou Tejano: "Arriero Somos Versiones Acústicas" - Aida Cuevas

Melhor Álbum Tradicional de Música Tropical Latina: "Salsa Big Band" - Rubén Blades con Roberto Delgado y Orquesta

Melhor Performance de Música de Raiz Americana: "Killer Diller Blues" - Alabama Shakes

Melhor Canção de Raiz Americana: "If We Were Vampires" - Jason Isbell and the 400 Unit

Melhor Álbum de Americana: "The Nashville Sound" - Jason Isbell and the 400 Unit

Melhor Álbum de Bluegrass: tie, "Laws of Gravity" - The Infamous Stringdusters and "All the Rage - In Concert Volume One" - Rhonda Vincent and the Rage

Melhor Álbum de Blues Tradicional: "Blue & Lonesome" - The Rolling Stones

Melhor Álbum de Blues Contemporâneo: "TajMo" - Taj Mahal e Keb' Mo'

Melhor Álbum de Folk: "Mental Illness" - Aimee Mann

Melhor Álbum de Música Regional: "Kalenda" - Lost Bayou Ramblers

Melhor Álbum de Reggae: "Stony Hill" - Damian "Jr. Gong" Marley

Melhor Álbum de World Music: "Shaka Zulu Revisited: 30th Anniversary Celebration" - Ladysmith Black Mambazo

Melhor Álbum Infantil: "Feel What U Feel" - Lisa Loeb

Melhor Álbum Falado: "The Princess Diarist" - Carrie Fisher

Melhor Álbum de Teatro Musical: "Dear Evan Hansen" - Ben Platt, principal soloist; Alex Lacamoire, Stacey Mindich, Benj Pasek and Justin Paul, producers; Benj Pasek and Justin Paul, composers/lyricists (original Broadway cast recording)

Melhor Compilação de Trilha Sonora para Mídia Visual: "La La Land" - Various Artists

Melhor Trilha Sonora Original para Mídia Visual: "La La Land" - Justin Hurwitz, composer

Melhor Canção Composta para Mídia Visual: "How Far I'll Go" - Lin-Manuel Miranda, songwriter (Auli'i Cravalho)

Melhor Composição Instrumental: "Three Revolutions" - Arturo O'Farrill, composer (Arturo O'Farrill and Chucho Valdés)

Melhor Arranjo Instrumental: "Escapades for Alto Saxophone and Orchestra From 'Catch Me If You Can'" - John Williams, arranger (John Williams)

Melhor Arranjo Instrumental com Acompanhamento de Voz: "Putin" - Randy Newman, arranger (Randy Newman)

Melhor Pacote de Gravação: tie, "Pure Comedy (Deluxe Edition)" - Sasha Barr, Ed Steed and Josh Tillman, art directors (Father John Misty) and "El Orisha de la Rosa" - Claudio Roncoli and Cactus Taller, art directors (Magín Díaz)

Melhor Disco em Edição Especial Limitada: "The Voyager Golden Record: 40th Anniversary Edition" - Lawrence Azerrad, Timothy Daly and David Pescovitz, art directors (Various Artists)

Melhor Encarte: "Live at the Whisky A Go Go: The Complete Recordings" - Lynell George, writer (Otis Redding)

Melhor Álbum Histórico: "Leonard Bernstein - The Composer" - Robert Russ, compilation producer; Martin Kistner and Andreas K. Meyer, mastering engineers (Leonard Bernstein)

Melhor engenharia de som de álbum não-clássico: "24K Magic" - Serban Ghenea, John Hanes and Charles Moniz, engineers; Tom Coyne, mastering engineer (Bruno Mars)

Produtor do Ano, Não-clássico: Greg Kurstin

Gravação Remixada, Não Clássica: "You Move (Latroit Remix)" - Dennis White, remixer (Depeche Mode)

Melhor Álbum em Surround Sound: "Early Americans" - Jim Anderson, surround mix engineer; Darcy Proper, surround mastering engineer; Jim Anderson and Jane Ira Bloom, surround producers (Jane Ira Bloom)

Melhor engenharia de som de álbum não-clássico: "Shostakovich: Symphony No. 5; Barber: Adagio" - Mark Donahue, engineer (Manfred Honeck and Pittsburgh Symphony Orchestra)

Produtor do Ano, Não-clássico: David Frost

Melhor Performance Orquestral: "Shostakovich: Symphony No. 5; Barber: Adagio" - Manfred Honeck, conductor (Pittsburgh Symphony Orchestra)

Melhor Clipe: "HUMBLE." - Kendrick Lamar

60ª edição foi palco de atos políticos

É simbólico que o show de abertura do 60º Grammy, na noite deste domingo (28), tenha sido o do rapper Kendrick Lamar, marcando uma cerimônia de atos políticos.

Lamar, que concorria em sete categorias -e venceu cinco, incluindo o de melhor álbum de rap por "DAMN."-, deu início à premiação da indústria fonográfica com a canção política "XXX", acompanhado de dançarinos com fardas camufladas e uma bandeira dos Estados Unidos ao fundo.

Além da letra, crítica ao presidente Donald Trump ("Em Wall Street, escritórios corporativos, bancos/ Empregados e patrões com pensamentos homicidas/ Donald Trump está no escritório, perdemos Barack/ E prometi nunca duvidar dele de novo/ Mas a América é honesta ou nos aquecemos no pecado?"), um letreiro informava: "Isso é uma sátira de Kendrick Lamar".

O comediante Dave Chappelle, que assim como o grupo U2 fez uma participação na apresentação, disse: "A única coisa mais assustadora do que assistir a um homem negro ser honesto na América é ser um homem negro honesto na América".

Trump seria novamente alvo de críticas em uma esquete em que personalidades como Cher, Snoop Dogg e Hillary Clinton liam trechos do polêmico recém-lançado livro sobre bastidores do governo do presidente americano, "Fire and Fury", de Michael Wolff.

Eric Church, Maren Morris e Brothers Osborne homenagearam as vítimas dos ataques em Las Vegas e em Manchester com "Tears in Heaven", mas não mencionaram a questão do porte de armas nos Estados Unidos, ao qual artistas country costumam fazer lobby.

Em outro momento da cerimônia, o rapper Logic cantou "1-800-273-8255", composição antissuicídio que concorria na categoria canção do ano. Ao fim da apresentação com Alessia Cara e Khalid, Logic discursou contrariando gafes de Trump.

"A todos os países repletos de cultura, diversidade e milhares de anos de história: vocês não são países de merda, vocês são lindos", disse, referindo-se a suposta declaração do presidente americano de que os Estados Unidos recebiam muitos imigrantes de "países de merda" (shithole, em inglês).

"E, por fim, em nome daqueles que lutam pela igualdade em um mundo que não é igual, não é justo e não está pronto para as mudanças que estamos propondo, digo-lhe que nos traga seus cansados, seus pobres e qualquer imigrante que busque refúgio. Porque juntos podemos construir não apenas um país melhor, mas um mundo que está destinado a ser unido", disse o cantor.

O discurso também enalteceu a população negra e as mulheres, "mais fortes do que qualquer homem" que já conheceu, enquanto era ladeado no palco de pessoas vestidas com camisetas com os dizeres "você não está sozinha".

"A elas, digo que permaneçam de pé e esmagem todos os predadores com o peso de seus corações que estão cheios de amor e que eles jamais tirarão. Não tenham medo de suas vozes, especialmente em ocasiões como essas em que vocês têm uma oportunidade", disse.

ME TOO

O teor político já estava evidente antes mesmo da abertura da cerimônia. No tapete vermelho, artistas como Lady Gaga e Nick Jonas apareceram com uma rosa branca em um ato contra o assédio sexual. Assim como os artistas que vestiram preto no Globo de Ouro, a proposta é apoiar a campanha #Metoo, contra casos de abuso.

O tema ressurgiu quando a atriz e cantora Janelle Monáe fez discurso potente sobre ocorrências na indústria musical e chamou ao palco a cantora Kesha, que tornou-se símbolo da causa após levar adiante uma luta judicial contra seu produtor, Dr. Luke, acusando-o de assediá-la por diversos anos.

Acompanhada de um coral de mulheres, além de cantoras como Cyndi Lauper, Camila Cabello e Julia Michaels, Kesha cantou a autobiográfica e feroz "Praying". Emocionada, foi abraçada pelas colegas no palco.

Apesar de protagonizarem o manifesto contra assédio sexual, as mulheres foram minoria na corrida pelos prêmios principais -a exceção foi Alessia Cara, premiada como artista revelação.

PREMIADOS E HOMENAGEADOS

Bruno Mars se consagrou o grande vencedor da noite, levando seis gramofones, incluindo os de canção do ano ("That's What I Like"), gravação do ano ("24K Magic") e álbum do ano ("24K Magic").

Ed Sheeran, principal hitmaker da indústria fonográfica, ausente na ocasião, foi premiado por melhor performance pop ("Shape of You") e melhor álbum pop ("÷").

Chuck Berry, Fats Domino e Tom Petty, mortos no último ano, foram homenageados. Elton John, que anunciou sua última turnê mundial, tocou e cantou "Tiny Dancer" acompanhado de Miley Cyrus.

Popstars como Taylor Swift, Drake, Justin Bieber, Frank Ocean e Kanye West não compareceram à cerimônia. Jay-Z e Lorde, que foram indicados, não se apresentaram e saíram sem prêmios.


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Página 3
Divulgação.
Bruno Mars o grande vencedor da noite.
Bruno Mars o grande vencedor da noite.

Em noite justa, Grammy consagra os dois melhores álbuns do ano

Evento foi palco de manifestações políticas

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Segunda, 29/1/2018 7:49.

THALES DE MENEZES
(FOLHAPRESS) - Depois de ser crivado de críticas variadas em suas últimas edições, como servir apenas para recompensar quem vende mais discos para salvar o mercado, o principal prêmio da indústria da música foi justo ao extremo em 2018, dando 12 estatuetas para os dois melhores álbuns da temporada.

As glórias da noite deste domingo (28), no Madison Square Garden, em Nova York, foram para Bruno Mars, que levou seis pequenos gramofones dourados para casa, e Kendrick Lamar, que ficou com cinco. É o reconhecimento para dois tipos evidentes de como fazer música relevante: ser conservador e impecável, ou ser inovador e irregular.

Bruno Mars não inventa muita coisa, mas sabe fazer o que gosta com uma qualidade irrepreensível. Com seu álbum "24K Magic", levou os três principais prêmios: Gravação do Ano, Álbum do Ano e Canção do Ano, este por "That's What I Like".

Com a mesma canção, aumentou a sacola de prêmios em Melhor Performance de R&B e Canção de R&. "24K Magic" deu a Mars mais duas vitórias, de Melhor Álbum de R&B e de Álbum com Melhor Engenharia de Som.

O disco parece um catálogo do melhor que se pode alcançar em música negra americana. Estão lá as baladas cantadas em falsete, os funks de rachar assoalho, o soul sensual.

Claro que Bruno Mars não existiria sem Michael Jackson, Prince ou Smokie Robinson, mas ele recebeu o bastão desses ídolos e prossegue seus estilos com exuberância técnica e personalidade.

É muito mais do que tenta, sem conseguir, o ator Donald Glover, que levou um Grammy com seu projeto musical, Childish Gambino. Sua música "Redbone" foi premiada como Performance de R&B Tradicional, mas, como todo o seu álbum, é emulação sem alma do que artistas do passado já fizeram. Tem muito a aprender com Mars.

Já Kendrick Lamar passou o rodo nas categorias de rap, premiado por Canção, Álbum, Performance e Performance de Rap Cantado, categoria que foca músicas que misturam rap com canto. Esta ele levou com Rihanna, em "Loyalty". Seu quinto Grammy da noite veio com Melhor Clipe, para o hit "HUMBLE.".

Lamar é a prova de que o rap, e o hip hop como um todo, é o único gênero que está mostrando renovação e conteúdo relevante. Seu trabalho é irregular, mas a contundência nas letras e o risco sem medo nas construções musicais são impressionantes quando ele acerta.

Na apresentação que abriu a noite do Grammy, quando cantou trechos de várias músicas de seu álbum mais recente, Lamar deixou claro a força de seu arsenal de ritmo e poesia.

Pena que o resto da cerimônia não segurou a qualidade nas performances que se seguiram. Ninguém criou uma solução visual inovadora, e o pouco de emoção veio de momentos como o choro de Kesha em "Praying", que cantou acompanhada de várias vocalistas de apoio, entre elas o recente fenômeno teen Camila Cabello e a veterana Cyndi Lauper. A canção foi um desabafo de Kesha sobre os problemas que teve com o antigo empresário, que acusa de assédio.

Kesha formou com Lady Gaga, Pink e Miley Cirus um time de "meninas sérias" nas apresentações da noite. Todas discretas, até no guarda-roupa, cantando temas dramáticos e assumindo uma atitude que parecia dizer "sabemos cantar e podemos subir ao palco sem mostrar o corpo". Miley merece um comentário extra: quando os produtores do Grammy resolvem homenagear Elton John, um ícone do pop prestes a se aposentar, colocam o ídolo para cantar "Tiny Dancer" com Miley Cirus. Sinal triste dos tempos, como se os jovens que estavam vendo pela TV não fossem dar bola para aquele tiozinho no piano sem o chamariz da menina famosa a seu lado. Pior é isso ser a pura verdade.

"Despacito", a "Macarena" do século 21 e canção mais executada no mundo nos últimos meses, concorreu nas principais categorias sem levar nada. Cumpriu uma espécie de "cota de exotismo" na premiação, visando a grande audiência latina. Mas foi esnobada, a ponto de Luis Fonsi, Daddy Yankee e Justin Bieber perderem até na categoria Performance Pop de Duo ou Grupo para a banda medíocre Portugal. The Man.

Acostumado a ser contemplado com muitas indicações, Ed Sheeran nem foi ao prêmio, mas acabou se dando bem e vai receber duas estatuetas pelo correio: Performance Pop Solo, com "Shape of You", e Álbum Vocal Pop, com "Divide". O rock expôs o momento crítico do gênero, com premiados estranhos como o genial Leonard Cohen, que levou melhor Performance de Rock mais como homenagem póstuma, e a vitória de Performance de Metal para o Mastodon, um grupo pesado fraquinho que apenas o Grammy leva a sério.

A esforçada Alessia Cara ganhou como Artista Revelação, categoria em que muitos acreditavam na vitória de SZA, indicada a cinco estatuetas em sua estreia no Grammy. Não levou nenhuma e fez uma performance frouxa. Será só mais uma cantora nesse mercado infestado por vozes femininas em demasia.

A lista dos premiados

Álbum do Ano: "24K Magic", de Bruno Mars

Gravação do Ano: "24K Magic", de Bruno Mars

Canção do Ano: "That's What I Like", de Bruno Mars

Melhor Álbum Country: "From a Room: Volume 1", de Chris Stapleton

Melhor Álbum de Comédia: "The Age of Spin and Deep in the Heart of Texas", de Dave Chappelle

Melhor Álbum de Rap: "DAMN.", de Kendrick Lamar

Melhor Performance Solo Pop: "Shape of You", de Ed Sheeran

Artista Revelação: Alessia Cara

Melhor Performance de Rap: "Loyalty", de Kendrick Lamar com participação de Rihanna

Melhor Performance de Duo/Grupo Pop: "Feel It Still" - Portugal. The Man

Melhor Álbum Pop Vocal Tradicional: "Tony Bennett Celebrates 90" - Various Artists; Dae Bennett, producer

Melhor álbum vocal de pop: "÷" - Ed Sheeran

Melhor Gravação Dance: "Tonite" - LCD Soundsystem

Melhor Álbum de Dance/Eletrônica: "3-D The Catalogue" - Kraftwerk

Melhor Álbum Instrumental Pop: "Prototype" - Jeff Lorber Fusion

Melhor Performance de Rock: "You Want It Darker" - Leonard Cohen

Melhor Performance de Metal: "Sultan's Curse" - Mastodon

Melhor Canção de Rock: "Run" - Foo Fighters

Melhor Álbum de Rock: "A Deeper Understanding" - The War on Drugs

Melhor Álbum de Música Alternativa: "Sleep Well Beast" - The National

Melhor Performance de R&B: "That's What I Like" - Bruno Mars

Melhor Performance Tradicional de R&B: "Redbone" - Childish Gambino

Melhor Música R&B do Ano: "That's What I Like" - Christopher Brody Brown, James Fauntleroy, Philip Lawrence, Bruno Mars, Ray Charles McCullough II, Jeremy Reeves, Ray Romulus and Jonathan Yip, songwriters (Bruno Mars)

Melhor Álbum Urbano Contemporâneo: "Starboy" - The Weeknd

Melhor Álbum R&B: "24K Magic" - Bruno Mars

Melhor Performance de Rap: "HUMBLE." - Kendrick Lamar

Melhor Canção de Rap: "HUMBLE." - Duckworth, Asheton Hogan and M. Williams II, songwriters (Kendrick Lamar)

Melhor Performance Solo de Country: "Either Way" - Chris Stapleton

Melhor Performance Country em Duo ou Grupo: "Better Man" - Little Big Town

Melhor Canção Country: "Broken Halos" - Mike Henderson and Chris Stapleton (Chris Stapleton)

Melhor Álbum New Age: "Dancing on Water" - Peter Kater

Melhor Improvisação de jazz solo: "Miles Beyond" - John McLaughlin, soloist

Melhor Álbum de Jazz Vocal: "Dreams and Daggers" - Cécile McLorin Salvant

Melhor Álbum de Jazz Instrumental: "Rebirth" - Billy Childs

Melhor Álbum de um Grupo de Jazz: "Bringin' It" - Christian McBride Big Band

Melhor Álbum de Jazz Latino: "Jazz Tango" - Pablo Ziegler Trio

Melhor música/perfomance Gospel: "Never Have to Be Alone" - CeCe Winans

Melhor Performance de Música Cristã Contemporânea/Canção: "What a Beautiful Name" - Hillsong Worship

Melhor Álbum Gospel: "Let Them Fall in Love" - CeCe Winans

Melhor Álbum de Música Cristã Contemporânea: "Chain Breaker" - Zach Williams

Melhor Álbum de Gospel de Raiz: "Sing It Now: Songs of Faith & Hope" - Reba McEntire

Melhor Álbum de Pop Latino: "El Dorado" - Shakira

Melhor Álbum Latino de Rock, Urbano ou Alternativo: "Residente" - Residente

Melhor Álbum Regional Mexicano ou Tejano: "Arriero Somos Versiones Acústicas" - Aida Cuevas

Melhor Álbum Tradicional de Música Tropical Latina: "Salsa Big Band" - Rubén Blades con Roberto Delgado y Orquesta

Melhor Performance de Música de Raiz Americana: "Killer Diller Blues" - Alabama Shakes

Melhor Canção de Raiz Americana: "If We Were Vampires" - Jason Isbell and the 400 Unit

Melhor Álbum de Americana: "The Nashville Sound" - Jason Isbell and the 400 Unit

Melhor Álbum de Bluegrass: tie, "Laws of Gravity" - The Infamous Stringdusters and "All the Rage - In Concert Volume One" - Rhonda Vincent and the Rage

Melhor Álbum de Blues Tradicional: "Blue & Lonesome" - The Rolling Stones

Melhor Álbum de Blues Contemporâneo: "TajMo" - Taj Mahal e Keb' Mo'

Melhor Álbum de Folk: "Mental Illness" - Aimee Mann

Melhor Álbum de Música Regional: "Kalenda" - Lost Bayou Ramblers

Melhor Álbum de Reggae: "Stony Hill" - Damian "Jr. Gong" Marley

Melhor Álbum de World Music: "Shaka Zulu Revisited: 30th Anniversary Celebration" - Ladysmith Black Mambazo

Melhor Álbum Infantil: "Feel What U Feel" - Lisa Loeb

Melhor Álbum Falado: "The Princess Diarist" - Carrie Fisher

Melhor Álbum de Teatro Musical: "Dear Evan Hansen" - Ben Platt, principal soloist; Alex Lacamoire, Stacey Mindich, Benj Pasek and Justin Paul, producers; Benj Pasek and Justin Paul, composers/lyricists (original Broadway cast recording)

Melhor Compilação de Trilha Sonora para Mídia Visual: "La La Land" - Various Artists

Melhor Trilha Sonora Original para Mídia Visual: "La La Land" - Justin Hurwitz, composer

Melhor Canção Composta para Mídia Visual: "How Far I'll Go" - Lin-Manuel Miranda, songwriter (Auli'i Cravalho)

Melhor Composição Instrumental: "Three Revolutions" - Arturo O'Farrill, composer (Arturo O'Farrill and Chucho Valdés)

Melhor Arranjo Instrumental: "Escapades for Alto Saxophone and Orchestra From 'Catch Me If You Can'" - John Williams, arranger (John Williams)

Melhor Arranjo Instrumental com Acompanhamento de Voz: "Putin" - Randy Newman, arranger (Randy Newman)

Melhor Pacote de Gravação: tie, "Pure Comedy (Deluxe Edition)" - Sasha Barr, Ed Steed and Josh Tillman, art directors (Father John Misty) and "El Orisha de la Rosa" - Claudio Roncoli and Cactus Taller, art directors (Magín Díaz)

Melhor Disco em Edição Especial Limitada: "The Voyager Golden Record: 40th Anniversary Edition" - Lawrence Azerrad, Timothy Daly and David Pescovitz, art directors (Various Artists)

Melhor Encarte: "Live at the Whisky A Go Go: The Complete Recordings" - Lynell George, writer (Otis Redding)

Melhor Álbum Histórico: "Leonard Bernstein - The Composer" - Robert Russ, compilation producer; Martin Kistner and Andreas K. Meyer, mastering engineers (Leonard Bernstein)

Melhor engenharia de som de álbum não-clássico: "24K Magic" - Serban Ghenea, John Hanes and Charles Moniz, engineers; Tom Coyne, mastering engineer (Bruno Mars)

Produtor do Ano, Não-clássico: Greg Kurstin

Gravação Remixada, Não Clássica: "You Move (Latroit Remix)" - Dennis White, remixer (Depeche Mode)

Melhor Álbum em Surround Sound: "Early Americans" - Jim Anderson, surround mix engineer; Darcy Proper, surround mastering engineer; Jim Anderson and Jane Ira Bloom, surround producers (Jane Ira Bloom)

Melhor engenharia de som de álbum não-clássico: "Shostakovich: Symphony No. 5; Barber: Adagio" - Mark Donahue, engineer (Manfred Honeck and Pittsburgh Symphony Orchestra)

Produtor do Ano, Não-clássico: David Frost

Melhor Performance Orquestral: "Shostakovich: Symphony No. 5; Barber: Adagio" - Manfred Honeck, conductor (Pittsburgh Symphony Orchestra)

Melhor Clipe: "HUMBLE." - Kendrick Lamar

60ª edição foi palco de atos políticos

É simbólico que o show de abertura do 60º Grammy, na noite deste domingo (28), tenha sido o do rapper Kendrick Lamar, marcando uma cerimônia de atos políticos.

Lamar, que concorria em sete categorias -e venceu cinco, incluindo o de melhor álbum de rap por "DAMN."-, deu início à premiação da indústria fonográfica com a canção política "XXX", acompanhado de dançarinos com fardas camufladas e uma bandeira dos Estados Unidos ao fundo.

Além da letra, crítica ao presidente Donald Trump ("Em Wall Street, escritórios corporativos, bancos/ Empregados e patrões com pensamentos homicidas/ Donald Trump está no escritório, perdemos Barack/ E prometi nunca duvidar dele de novo/ Mas a América é honesta ou nos aquecemos no pecado?"), um letreiro informava: "Isso é uma sátira de Kendrick Lamar".

O comediante Dave Chappelle, que assim como o grupo U2 fez uma participação na apresentação, disse: "A única coisa mais assustadora do que assistir a um homem negro ser honesto na América é ser um homem negro honesto na América".

Trump seria novamente alvo de críticas em uma esquete em que personalidades como Cher, Snoop Dogg e Hillary Clinton liam trechos do polêmico recém-lançado livro sobre bastidores do governo do presidente americano, "Fire and Fury", de Michael Wolff.

Eric Church, Maren Morris e Brothers Osborne homenagearam as vítimas dos ataques em Las Vegas e em Manchester com "Tears in Heaven", mas não mencionaram a questão do porte de armas nos Estados Unidos, ao qual artistas country costumam fazer lobby.

Em outro momento da cerimônia, o rapper Logic cantou "1-800-273-8255", composição antissuicídio que concorria na categoria canção do ano. Ao fim da apresentação com Alessia Cara e Khalid, Logic discursou contrariando gafes de Trump.

"A todos os países repletos de cultura, diversidade e milhares de anos de história: vocês não são países de merda, vocês são lindos", disse, referindo-se a suposta declaração do presidente americano de que os Estados Unidos recebiam muitos imigrantes de "países de merda" (shithole, em inglês).

"E, por fim, em nome daqueles que lutam pela igualdade em um mundo que não é igual, não é justo e não está pronto para as mudanças que estamos propondo, digo-lhe que nos traga seus cansados, seus pobres e qualquer imigrante que busque refúgio. Porque juntos podemos construir não apenas um país melhor, mas um mundo que está destinado a ser unido", disse o cantor.

O discurso também enalteceu a população negra e as mulheres, "mais fortes do que qualquer homem" que já conheceu, enquanto era ladeado no palco de pessoas vestidas com camisetas com os dizeres "você não está sozinha".

"A elas, digo que permaneçam de pé e esmagem todos os predadores com o peso de seus corações que estão cheios de amor e que eles jamais tirarão. Não tenham medo de suas vozes, especialmente em ocasiões como essas em que vocês têm uma oportunidade", disse.

ME TOO

O teor político já estava evidente antes mesmo da abertura da cerimônia. No tapete vermelho, artistas como Lady Gaga e Nick Jonas apareceram com uma rosa branca em um ato contra o assédio sexual. Assim como os artistas que vestiram preto no Globo de Ouro, a proposta é apoiar a campanha #Metoo, contra casos de abuso.

O tema ressurgiu quando a atriz e cantora Janelle Monáe fez discurso potente sobre ocorrências na indústria musical e chamou ao palco a cantora Kesha, que tornou-se símbolo da causa após levar adiante uma luta judicial contra seu produtor, Dr. Luke, acusando-o de assediá-la por diversos anos.

Acompanhada de um coral de mulheres, além de cantoras como Cyndi Lauper, Camila Cabello e Julia Michaels, Kesha cantou a autobiográfica e feroz "Praying". Emocionada, foi abraçada pelas colegas no palco.

Apesar de protagonizarem o manifesto contra assédio sexual, as mulheres foram minoria na corrida pelos prêmios principais -a exceção foi Alessia Cara, premiada como artista revelação.

PREMIADOS E HOMENAGEADOS

Bruno Mars se consagrou o grande vencedor da noite, levando seis gramofones, incluindo os de canção do ano ("That's What I Like"), gravação do ano ("24K Magic") e álbum do ano ("24K Magic").

Ed Sheeran, principal hitmaker da indústria fonográfica, ausente na ocasião, foi premiado por melhor performance pop ("Shape of You") e melhor álbum pop ("÷").

Chuck Berry, Fats Domino e Tom Petty, mortos no último ano, foram homenageados. Elton John, que anunciou sua última turnê mundial, tocou e cantou "Tiny Dancer" acompanhado de Miley Cyrus.

Popstars como Taylor Swift, Drake, Justin Bieber, Frank Ocean e Kanye West não compareceram à cerimônia. Jay-Z e Lorde, que foram indicados, não se apresentaram e saíram sem prêmios.


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