Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Coronavírus: brasileiros que moram no exterior compartilham suas histórias

Leitores relatam suas vivências para conscientizar população de Balneário Camboriú

Quinta, 19/3/2020 8:20.

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Mais de 220 mil pessoas foram infectadas em todo o mundo pelo novo Coronavírus, que já provocou mais de nove mil mortes – os números são da Universidade Johns Hopkins.

Até o momento, a covid-19 foi detectada em 156 países ou territórios e em todos os continentes com exceção da Antártida. A Itália ultrapassou a China e é o país com maior número de mortes pelo vírus: 3.405, enquanto a China contabiliza 3.245. Porém, a China ainda é o país com o maior número de casos confirmados da doença, somando mais de 81 mil, enquanto a Itália contabiliza 41.035.

No Brasil, estima-se mais de 500 casos positivos da doença – sendo quatro deles em Balneário Camboriú. O país contabilizou sete mortes pela doença. O número de casos suspeitos no Brasil já é superior a 8,8 mil – em Balneário há o registro de 25 casos suspeitos sintomáticos e 32 casos suspeitos assintomáticos. Pensando nisso, o Página 3 conversou com brasileiros que moram no exterior. Eles dividem suas histórias e pedem conscientização.


“Não acreditem nas versões sobre abastecimento”

Foto: Arquivo Pessoal

O conselho é da gaúcha Carla Wiese que mora em Ontário, Canadá, há muitos anos. Ela disse que lá também o álcool gel sumiu dos mercados, mas as pessoas usam álcool comum com concentração de 70% para as mãos e água sanitária para limpar superfícies. Ela sugere que as famílias brasileiras não acreditem nas versões sobre abastecimento e façam um estoque de gêneros básicos para um mês. Na semana passada um casal de corretores de imóveis, supostamente brasileiros, foi preso pela polícia da internet após comprar em atacado em revender com ágio, pela web, cerca de 100 mil dólares em produtos de higiene e limpeza. Alguns estados canadenses decretaram redução na circulação de ônibus e que estabelecimentos como academias, bares, parques etc. devem ficar fechados por duas semanas.Em Ontário e em Toronto as aulas universitárias serão online.As escolas durante 10 dias estão no período do “March Break”, o mesmo que a “Semana do Saco Cheio” no Brasil, e depois disso ficarão mais duas semanas sem aulas.O governo canadense estuda medidas bilionárias para socorrer empresas e famílias com suas rendas afetadas pelo combate ao Covid-19.


“Nunca imaginei passar por uma situação como essa”

Jaqueline Luciene Cacheta, 41 anos, fisioterapeuta, vive em Treviso na região do Veneto, na Itália, é casada com o italiano Innocenzo Pisano e mãe de Arthur Vinicius Machado, 20 anos, que mora em Balneário Camboriú, onde Jaqueline residia antes de se mudar para a Europa.

“Estou na Itália já faz sete anos e nunca imaginei que pudesse passar por uma situação como essa. Com meu relato, espero passar aquilo que estamos vivendo de modo a prevenir que o mesmo aconteça no Brasil. No começo todos pensavam que era somente uma gripe, continuei trabalhando até que o governo se deu conta que muitas pessoas começaram a morrer. A minha região está entre uma das regiões com maior número de casos positivos. Fiquei com medo de continuar trabalhando assim como os meus pacientes de fazer terapia (como fisioterapeuta não consigo manter um metro de distância). O governo fechou as escolas, academias, discotecas e todos os eventos com acúmulo de pessoas, e então resolvi fechar o meu estúdio de fisioterapia porque os casos aumentavam a cada dia. Acabaram máscaras e gel desinfetante em todas as farmácias, muitas pessoas começaram a morrer nos hospitais com uma pneumonia grave, muitos idosos e também pessoas jovens. O governo permitiu que ficassem abertas somente farmácias e supermercados, voos foram cancelados tanto saindo da Itália como voltando para a Itália, fronteiras fechadas com todos os países da União Europeia e agora não podemos sair de casa, apenas para ir no mercado, trabalho ou necessidades urgentes. A polícia controla nas estradas onde você está indo e se você mentir pode ser preso ou multado. Estamos presos em casa, ruas vazias, pessoas com medo, os números de mortos só aumentam, os leitos nos hospitais são limitados. 25 mil contagiados até hoje (16/03). Realmente a liberdade não tem preço, sinto falta de fazer pequenas coisas, mas a minha saúde é a coisa mais importante neste momento! Que Deus proteja a Itália, o Brasil e o mundo todo”.


“A população de Londres está conscientizada”

Marina Araceli Gomez Rutes, 26 anos, mora desde 2017 em Londres, onde trabalha como Network Developer. Formada em Relações Internacionais pela Univali, residia até então em Balneário Camboriú.

“Até semana passada a vida estava em ritmo normal, foi nessa semana que a situação piorou. No Reino Unido estamos quase chegando aos dois mil casos confirmados de Coronavírus, dos quais aproximadamente 600 foram registrados em Londres. Ontem (16/03) o governo deu o comunicado oficial recomendando que todos aqueles que têm a possibilidade devem trabalhar de casa. Devemos evitar transporte público, pubs, teatros e qualquer evento com grande concentração de pessoas, os grandes pontos turísticos da cidade (normalmente superlotados) estão vazios. Hoje (17/03) minha empresa liberou os funcionários para trabalharem de casa por tempo indeterminado, e todos os meus amigos/conhecidos estão na mesma situação. Nos mercados temos notado a falta de produtos como arroz, macarrão, sabão, álcool em gel. O governo recomendou que todos aqueles que têm acima de 70 anos se auto isolem e evitem qualquer contato com outras pessoas. Na minha vizinhança, e muitas outras em Londres, os vizinhos criaram grupos no WhatsApp para auxiliar aqueles que precisam neste momento, por exemplo ajudando idosos e indo no supermercado local por eles para comprar algum item que estejam precisando, etc. É esperado que o número de casos aumente consideravelmente nas próximas semanas, mas esperamos que as últimas medidas tomadas ajudem a controlar a situação e que possamos voltar a nossa vida normal o quanto antes. Não sinto tensão por aqui, e sim que a população de Londres está conscientizada sobre as medidas de higiene. Todo mundo está levando isso com extrema seriedade, e as empresas também agiram muito rápido assim que receberam recomendação do governo”.


“Estamos em confinamento total por 15 dias”

Nicoli Souza, 23 anos, estudante, mora em Paris há dois anos. É brasileira, mas sua família reside na Europa há vários anos.

“Estamos em confinamento total por 15 dias, com possibilidade de aumentar se necessário. O Exército está nas ruas para fazer cumprir a lei, só podemos sair para comprar comida ou por razões de saúde. São mais de 7,6 mil casos. Os mercados estão ficando vazios de comida, o pessoal fazendo estoque. Há filas também. Minha tia foi no correio e, assim como nos mercados, só pode entrar poucas pessoas por vez. Foi no último final de semana que tudo começou a parar mesmo, desde segunda-feira (16/03) as escolas e faculdades fecharam, restaurantes e lojas também. As ruas estão até escuras. Foi proibido mais de 50 pessoas em um mesmo ambiente. Temos que ficar confinados em casa, essa é a principal regra”.


Agora está bem mais deserto, quase um cenário pós-apocalíptico”

Aline Muller Pasetti, 28 anos, atua como Fullstack Developer em Lisboa, onde mora há três anos. Ela é filha da empresária Ciça Muller e morava em Balneário Camboriú antes de se mudar para Portugal.

“Sábado (14) eu saí para ver como estava a rua, e estava bem vazio. Eram 19h no centro de Lisboa e era para estar cheio de gente, como não está tão frio era realmente para ter bastante movimento. O mercado está controlando a quantidade de gente que entra por momento, então você passa na frente do mercado e tem uma fila e só entra quando alguém sai. O mercado que eu fui, que era menor que o Speciale (que fica próximo do Atlântico Shopping), tinha quatro pessoas por vez apenas. Eu fui com uma amiga e tivemos que esperar duas pessoas saírem porque não podia entrar, mesmo que fôssemos fazer compras juntas. Eles estão conseguindo repor as mercadorias bem rápido, como enlatados, pães e papel higiênico. As pessoas estão muito desesperadas por papel higiênico (riso). As pessoas estão bastante assustadas, todo mundo fala somente disso. Desde semana passada muitas empresas estão trabalhando de forma remota (home office), os restaurantes estão proibidos de abrir. Eu tenho aula, mas desde sexta (13) estou em casa também, o governo impediu as escolas de abrirem por duas semanas. As universidades já fecharam há muito tempo, as escolas de criança também fecharam na semana passada. Mas saiu uma notícia que dizia que as pessoas estavam aproveitando para ir pra praia ao invés de ficarem em casa se protegendo, isso na semana passada, mas agora já está bem mais deserto, quase um cenário pós-apocalíptico (risos)”.


“No início as pessoas pensavam que poderiam aproveitar como férias”

Liliane Laemmle, 41 anos, designer e escritora, é catarinense de Ibirama e morou muitos anos em Balneário Camboriú, antes de se mudar para a Itália em 2003, é casada com o italiano Gabriele Trapella e mãe de Emma, 6 anos. Ela reside em Reggio Emilia, situada na província de Emilia Romagna, uma das regiões mais atingidas pelo Coronavírus.

“Lembro bem, quando dia 21 de fevereiro meu marido me falou que precisávamos ficar alerta, porque algumas coisas iriam mudar devido a chegada do coronavírus na Itália. Na hora não dei muita importância, até que no domingo (23/02), estávamos numa cidadezinha, pulando carnaval com as crianças numa praça, algo bem familiar, pois era um lugar pequeno, e já sabendo dos falatórios sobre contaminação começamos a cuidar um pouco, para não ficar no meio de muita gente. A notícia que nos surpreendeu naquele momento era que no WhatsApp dos pais da escola, tinha chegado uma mensagem que na segunda-feira dia 24, o governo tinha decidido de suspender as aulas escolares presenciais de todos os tipos. Naquele momento, fomos para casa e comecei a acompanhar as notícias, ainda perplexa e pensando que parecia tudo muito exagerado e pensando no que perderíamos com isso. Com o passar dos dias, o período aumentava mais, de uma semana sem aula, passamos até o dia 15 de março, então até 3 de abril. E acredito que ainda não irá parar por aqui. Na primeira semana sem escola, um dia lindo de sol, pensei em caminhar um pouco com minha filha, e chegamos até um parque aqui da cidade onde tinham brinquedos. Pensei ‘que mal tem, ar livre, vou deixar brincar um pouco’, pois tinham poucas crianças. Passando o tempo, foram chegando cada vez mais pessoas, e todas rindo e falando do mesmo assunto, que parecia tudo muito exagerado, etc. No final acabei antecipando a minha volta para casa do parque porque comecei a ficar mal de ter saído e não ter escutado as regras, que ficar em casa era a melhor coisa a se fazer. Não adiantava nada não ir para a escola e depois ficar no parque cheio de crianças. Foi então, aos poucos, que entendemos que realmente tínhamos que respeitar o que estavam pedindo e que tinham razão, o vírus estava se espalhando na velocidade da luz. Naquele domingo, meu marido estava participando de um evento com 5 mil pessoas. O prefeito foi até o lá e pediu para encerrarem antes do previsto, o quanto antes, pois tinha saído uma ordem de parar qualquer evento ou manifestação onde tinham muitas pessoas. Foi algo muito preocupante, pois era um evento privado e inclusive de certo valor econômico. E, com as escolas fechadas, na primeira semana, os professores não deram tarefas para fazer em casa. Já na segunda semana, falaram que era melhor retirar todos os materiais da escola de cada aluno, pois não se tinha ideia de quando se iria voltar às salas de aula. Os supermercados foram esvaziados, todos na loucura foram correndo comprar comida, água, gel para limpar as mãos, alimentos essenciais para poder ficar em casa. Parecia uma correria contra o tempo, parecia que estávamos em período de guerra. Algo nunca visto pelo nossa geração. Com o tempo, naquela semana os supermercados conseguiram se organizar e reabastecer tudo. E depois então as pessoas entenderam que poderiam estar tranquilas quanto ao supermercado que não iria faltar, porque estão conseguindo abastecer tudo e receber alimentos normalmente até hoje. Espero que continue assim. Foram fechando as academias, as bibliotecas, terapias, centros de ocupação para os idosos e deficientes, algumas linhas de trens foram anuladas, o comércio foi fechando aos poucos, porque movimento já não tinha mais e serviços que não eram prioritários não tinham porque ficarem abertos. Várias reuniões canceladas, cinema fechado, cursos feitos em grupo cancelados, consultas médicas sem urgência remarcadas. Tudo foi se cancelando. Cabeleireiros fechados, esteticista, todos os serviços deste tipo foram fechados. Atualmente temos supermercados abertos, posto de gasolina e farmácias. No início as pessoas pensavam que poderiam aproveitar como férias, então começaram a lotar as estações de esqui, os vilarejos de montanha e obviamente não era o objetivo ter lugares lotados. Foi então que deram a ordem de fechar os locais de esqui e inclusive alguns vilarejos de montanha. Nestes locais geralmente tem muitos idosos que vivem ali, e como eles são os mais frágeis é necessário protegê-los. Nós temos parentes e casa na montanha, mas não fomos para lá justamente para não contaminá-los. O objetivo é ficar realmente isolado. Meu marido começou a trabalhar de casa no dia 9 de março. Demorou, deveria ter ficado em casa antes, porque ele saindo todos os dias, vendo pessoas, trabalhando em escritório onde a convivência é muito próxima, era sempre um risco para mim e minha filha. Com relação as aulas, aos poucos, os professores conseguiram se organizar, enviando atividades via WhatsApp para serem feitas em casa pelas crianças. Iniciaram então as aulas-vídeo, com explicações necessárias de matemática principalmente. Inclusive tivemos um encontro com todos da classe com uma plataforma que se chama “Zoom”, onde conseguimos falar todos ao mesmo tempo e inclusive usar o vídeo. As crianças tanto tempo sem se ver ficaram muito felizes, foi um momento muito emocionante. É complicado criar uma rotina onde não é nem férias e nem final de semana. É um período estranho, para as crianças é complicado, mas a minha filha entendeu bem, com este vírus, surgiu vários documentos, desenhos, vídeos feito por crianças, onde explicavam bem o que era o coronavírus e o que precisava ser feito neste período. O nosso dia a dia é em casa, ainda bem que temos um terraço e quando tem tempo bom conseguimos ir para fora pegar um sol. Com este período em casa ou com todas estas restrições, você entende melhor o valor de um abraço ou o que realmente tem valor. Este momento tem suas partes positivas, está unindo as pessoas virtualmente e também dentro de casa. Querendo ou não, tem pais que não podiam ficar muito tempo com os filhos porque trabalhavam até tarde, então assim, agora conseguem conviver mais tempo juntos. Foram definidas multas e inclusive meses ou anos de cadeia para quem infringe as regras feitas neste momento, como sair da sua província ou cidade sem um motivo comprovado e com razões que são permitidas. Os parques são fiscalizados para conter as pessoas, mandar elas para casa. Há limpeza forte e eficiente nos pontos de ônibus, jogos de futebol no início foram feitos sem a platéia, mas acabaram sendo cancelados os campeonatos. Inclusive o Salão do móvel de Milão foi adiado pra junho, Feira internacional do livro infantil em Bologna foi cancelada e já anunciada que acontecerá só no ano que vem. Como diz o prefeito de Reggio Emilia, Luca Vecchi, ‘após a Segunda Guerra Mundial, é a primeira vez que se tomam estas medidas neste nível’. Uma situação que não tínhamos ainda vivido. Aqui na Itália as pessoas estão inventando flash mob para passar um pouco de alegria e companhia através das janelas e varandas das casas e apartamentos. Já cantaram músicas, hino nacional, bandeiras da Itália nas janelas, aplausos na mesma hora na janela, todos juntos, para homenagear os profissionais da saúde que neste momento, estão dando a vida deles para cuidar das nossas. As crianças estão desenhando um arco-íris com a frase #tuttoandràbene e pendurando nas janelas de casa. Muito emocionante. O incrível é a organização aqui, principalmente nas regiões mais atingidas, sobre a estrutura sanitária. Já desde o início montaram um sistema de atendimento via telefone e presencial nas casas das pessoas infectadas. Estruturas provisórias para atendimento fora do hospital, uma pré seleção, impedindo assim de contagiados entrarem no hospital no pronto socorro. Todos os cuidados para diminuir ao máximo a contaminação. Inclusive estão usando estruturas e materiais do exército também para montar postos de atendimentos, hospitais temporários. Hospitais que eram hospitais normais, foram transformados em centros de UTI devido a necessidade de tantos leitos para o tratamento dos pacientes, que acabam ficando internados 3 semanas e bastante tempo entubados em coma, com respiradores. Chegou ajuda da China, um avião com 33 toneladas de materiais para os hospitais e com 9 médicos que vivenciaram tudo lá. O problema maior são os hospitais. Porque estão lotados e os enfermeiros e médicos acabam ficando doentes também. Alguns já morreram inclusive de coronavírus. Realmente são heróis e não existe uma forma para agradecê-los que seja suficiente. É algo impagável. Estão dando a vida deles para o próximo. A minha preocupação atualmente é pelo Brasil. Seria necessário o entendimento da situação, a aceitação e o respeito as regras e instruções passadas pelas autoridades. Aproveitem dos exemplos dos países mais atingidos, para poder usar em benefício. Nós não tínhamos muitos exemplos, a China era tão particular, tão diferente de nós, que infelizmente não demos muito crédito no início. Infelizmente. A sugestão é de manter o controle da difusão do vírus já agora, mesmo não tendo muitos contágios. É a única maneira de conter a situação. Cada indivíduo deverá respeitar o próximo. Em relação a economia, ainda estão sendo feitos decretos. Estão em estudo, pois são inéditos. Certamente teremos ajuda do governo para este período de emergência. Sobre o futuro, de como será, quem irá voltar ao trabalho, que irá conseguir abrir a sua empresa novamente, ninguém sabe. Tudo pode acontecer”.

Emma, filha de Liliane.

Centro de Reggio Emilia vazio.


“A situação que estamos vivendo é inacreditável, triste e assustadora”

Lucíola Garcia, jornalista, trabalha com publicidade e eventos, mora há 20 anos na Espanha, e antes disso residiu em Balneário Camboriú. Mora atualmente em Madrid, é casada e tem duas filhas.

“Tenho toda a minha família no Brasil e fico super preocupada pela expansão do Coronavírus aí. Aqui o estado é crítico. A situação que estamos vivendo é inacreditável, triste e assustadora. Parece um filme de ficção, ou pior, porque a realidade supera a ficção. Começamos com 14 contagiados confirmados há duas semanas e temos já mais de 10 mil casos contabilizados. E falo contabilizados, porque muita gente tem o vírus e não sabe. Eu mesma poderia ter. Sou jornalista e trabalho há 16 anos com publicidade e eventos. Atualmente estava organizando um congresso internacional para setembro, e tivemos que adiar para 2021. Estou sem trabalho neste período, até poder retomar o projeto, como milhares de outras pessoas. Mas não importa, só quero é que isso termine logo porque, hoje, não sei se voltarei a ver os meus amigos daqui da Espanha e do Brasil, e nem a minha família que está há mais de 10 mil km. Há duas semanas, dia 3 de março, quando não tínhamos quase casos, o meu chefe que é assessor político recebeu uma ligação do governo avisando que a situação ia piorar, que anunciariam medidas drásticas em poucos dias, para prevenir porque provavelmente teríamos que atrasar o nosso evento. Fiquei um pouco assustada, comentei em uma janta com amigas na mesma noite. Elas não deram muita importância e hoje estão ilhadas em uma casa de praia com as filhas sem poder ver os maridos e a família, porque foram para uma viagem de dois dias e não podem voltar. Uma semana mais tarde, no dia 9, com pouco mais de mil casos na Espanha, fecharam os colégios em Madrid e de outras 3 regiões do país. Fecharam também todas as residências de idosos, proibiram as viagens e atividades coletivas dos mesmos. Além disso, recomendaram home office, sempre que possível. Anunciaram que adiariam todos os tratamentos e operações não urgentes nos hospitais para dar prioridade aos casos de coronavirus. Começaram a fechar cinemas, teatros, shoppings, todas as atividades coletivas. Muitos entraram em pânico. Já não tinha nada para comprar nos supermercados, as estantes ficaram vazias. Ainda bem que o abastecimento aqui continua. As filas eram intermináveis, famílias com 4 carros fazendo compras. Eu fui no dia seguinte às 9h, e sai às 11h30, mais de 1h na fila. Todo mundo continuava indo pros parques com as crianças, muitos viajando, saindo, indo a restaurantes, lugares públicos, como se nada. Começaram a proibir os eventos de mais de mil pessoas, festas populares, missas, funerais, jogos de futebol, a Liga Espanhola, até chegar ao isolamento total. No sábado (14), com mais de cinco mil casos contabilizados, anunciaram que fechavam TUDO na Espanha inteira, até as praias. Só ficam abertos serviços de primeira necessidade: supermercados, farmácias, postos de gasolina, bancos, hospitais e poucas coisas mais. Está proibido servir comida em qualquer lugar público. Todas as medidas para evitar qualquer concentração de pessoas, por mínima que seja. Fecharam com fita protetora os parques de crianças, até dentro dos condomínios, e os jardins da cidade. Só pode sair para fazer alguma das coisas citadas acima, e sempre sozinho, se não, pode receber multas de até 60 mil euros e ir preso. Ninguém pode passear, só pra levar o cachorro. Para não ficarem loucos em casa, os moradores de prédios e condomínios se revezam para passear o cachorro. Mas a maioria das pessoas prefere ficar em casa. Antes até de fechar os colegios em Madrid, com menos de 1.000 casos na Espanha, grandes empresas anunciaram medidas preventivas, como o Santander, a Repsol e o BBVA. O Santander, por exemplo, proibiu reuniões de mais de 100 pessoas. O BBVA selecionou trabalhadores estratégicos de vários departamentos para trabalhar de casa. Recursos Humanos da Repsol enviou email pra todos os empregados da central ordenando trabalhar em casa. Nas reuniões, ninguém se cumprimentava, só de longe. Depois de alguns dias com as crianças em casa, recebemos lições dos colégios. Muitas idéias de atividades para fazer em casa com as crianças através das redes sociais. Muitos reclamam por ter que ficar em casa, mas há idosos que não têm ajuda, e pessoas que dependiam do seu salário para a comida diária da sua familia e, mesmo que o governo esteja tentando ajudar, não pode ajudar a todos. Aparecem voluntários, vemos vídeos lindos, todos os días às 20h as pessoas saem nas janelas para aplaudir os médicos, enfermeiros e outros profissionais que continuam trabalhando nesta época tão difícil. É tão triste… e não sabemos quanto pode durar. Anunciaram 15 dias, mas acho que muito mais, e espero que assim seja porque o virus continua contagiando até 15 dias depois da cura. Eu tive um susto em casa. Na quinta-feira (11) o meu marido começou com febre e dores no corpo. É asmático. Minha filha de 5 anos também é asmática e a pequena, de 2, ainda não sabemos. Liguei mais de 50 vezes pro número habilitado para informação do Coronavirus, das 18h até as 4h, algumas vezes com 15-20 minutos de espera. Ninguém atendeu. No número de emergências (tipo 911), atenderam e, depois de 15 minutos de espera, como o meu marido não apresentava sintomas graves, não mandaram ninguém. Liguei pro seguro médico solicitando assistência domiciliária e, depois de 4 horas, retornaram dizendo que, nos casos de pandemia, não podem mandar médico em casa, só recomendaram isolamento e paracetamol cada 8h. Tentei comprar máscaras para ter em casa, mas desapareceram das farmácias há mais de três semanas. Então, com um sorriso pras minhas filhas como se nada tivesse acontecendo, isolei o meu marido no nosso quarto (recomendam quarto isolado com banheiro sempre que possível). Graças a Deus o susto por enquanto passou, e como ele não voltou a ter febre, já está com a gente e fazemos quarentena todos juntos (pelo meu bem e das meninas porque a minha paciência já estava no limite, e o sorriso também). Vários amigos se ofereceram para vir deixar comida e coisas para gente, porque as entregas à domicilio estão demorando… mas agora já não podem, porque não podemos sair de casa. E o melhor: ainda não sabemos se temos ou não o vírus, porque abriram um expediente no “Samu” mas ainda não devolveram a ligação, 5 dias depois. Claro que se tivesse grave iríamos ao hospital, mas outras pessoas agora precisam mais que nós, e pode ser um lugar de contágio. Pensem: se na Espanha que a saúde pública é uma das melhores do mundo, os hospitais são ótimos: só em Madrid, há 102 hospitais; eles não têm capacidade pra dar assistência por telefone nem mandar uma ambulância em casa, imaginem no Brasil. O governo daqui já fechou fronteiras, e o mundo inteiro está fazendo a mesma coisa. Muitas empresas fechando e despedindo os empregados. Por mais que anunciem ajudas, várias companhias não podem suportar a crise. Mas, independentemente da crise, a única coisa que importa à maioria é que possamos sair dessa. Se tivermos que ficar trancados em casa um mês com as crianças, ficaremos. Mas o que eu quero é poder voltar a ver a minha familia, e que meus pais, que moram em Balneário, estejam bem. Estamos vendo histórias tão tristes aqui, amigos que perdem familiares e não podem ir aos enterros. Tenho uma amiga que não vê o marido há duas semanas, só a metros de distância. O sogro dela faleceu este fim de semana e ela não pôde dar um abraço no marido, que agora tem que cuidar da mãe que também pegou o vírus. É horrível. Então, pelo bem de todos, por favor, fiquem em casa o máximo possível. O vírus se contagia de forma muito rápida e, como não sabemos se temos e quem têm, porque podemos não apresentar sintomas até 15 dias, cada vez que saímos na rua, podemos contagiar os outros e voltamos a começar de zero, sem saber se estamos ou não contagiados. Fico feliz que em Balneário Camboriú tenham começado a tomar medidas antes de ter tantos casos como aqui, obrigada querido Fabrício Oliveira, amigo de longa data. Mas, pelo bem de vocês e de todos, por favor FIQUEM EM CASA. Espero poder rever a todos logo. Sejamos positivos, mas tenhamos cuidado”.


Se previnam, usem o exemplo da Itália e China (vejam seus erros e acertos) e aprendam. E tomem as medidas necessárias antes que a situação comece a se agravar”.

Melissa Santos Baggio Stange, 41 anos, casada, tem dois filhos, mora em Braga, cidade portuguesa, mas antes disso residia em Balneário Camboriú.

“Não é tão fácil falar sobre este novo vírus quanto parece. O pensamento se agita e uma sensação incômoda percorre o corpo. São muitos os acontecimentos, rápidos e mutantes, como o vírus é. A gente tem uma vida ritmada, uma rotina estabelecida, e quando isso muda repentinamente ficamos sem direção, falhamos no discernimento e instalamos o modo de alerta constante. E tudo isso aconteceu (está acontecendo) agora com a chegada do coronavírus aqui em Portugal. Nos vimos frente a uma doença que deu uma rasteira bem dada. Consegue ser simples e grave ao mesmo tempo, ir de assintomática até matar. É muito louco isso. Estamos, eu e meu marido e meus 2 filhos há 4 dias dentro de casa em quarentena social. Por decreto e orientação do governo oficialmente a partir de hoje (segunda-feira, 16). Não há ainda uma imposição para ficarmos em casa como na Itália, ainda é possivel pequenos deslocamentos como levar o cachorro para um breve passeio ou ir a supermercados e farmácias. Mas muitos serviços, privados e públicos, considerados não essenciais estão fechados. Restaurantes são um exemplo, difícil ver um aberto para atendimento ao público, muitos estão fechados e outro tanto, quando aberto, está atendendo por tele-entrega. A agitação da cidade deu lugar a uma calmaria estranha, parece uma cidade de interior pequena. Muitos comércios fechados (teatros, cinemas, parques, praças, museus, pontos turísticos), poucas pessoas pelas ruas, o trânsito sem congestionamentos nos horários de pico (fora dele então é uma paz) e vários locais para estacionar. Estas mesmas poucas pessoas pelas ruas andam apressadas, algumas usam máscaras e luvas (mas são poucas ainda) e mantendo uma distância considerável dos outros, não há aperto de mão, abraço ou toque. Em locais fechados como farmácias e bancos vemos pessoas no lado de fora dos mesmos esperando seu atendimento, e sempre distantes umas das outras. As que precisam ir trabalhar estão assustadas. Movimentado mesmo são os supermercados. Os dias de maior movimento já passaram, com um misto de nervosismo e apreensão as pessoas procuraram abastecer suas casas com alimentos e produtos de higiene e limpeza antes de ficarem confinadas aos seus lares. Alguns locais ficaram com prateleiras vazias, mas que no dia seguinte estavam repostas. A procura pelos mesmos itens no mesmo momento fez isso, mas os mercados não estão desabastecidos. Ante tanto aglomero me senti feliz por não ver confusão ou discussões, e sim civilidade. Como ouvimos muito aqui: Não estamos de férias, estamos em luta. Tentamos refazer as atividades rotineiras como manter as atividades escolares com as crianças e trabalho em home office. O lazer se restringe a vistas da varanda, assistir a todas as programações da Netflix, a todos os programas dos canais de comida, Discovery, Disney e etc., e acompanhar o desenrolar deste momento pelos telejornais e internet. Aliás, estes últimos 4 dias foram os mais tensos aqui. Há uma semana a vida corria quase que normalmente e em pouquíssimo tempo mudou completamente. Houve um aumento considerável de novos casos confirmados (hoje estamos com 331 casos, num intervalo de 2 semanas do aparecimento do primeiro caso), mais que dobrando o número de casos por dia, o governo tomando medidas importantes para tentar conter o avanço da contaminação como o fechamento das fronteiras e escolas e hoje foi confirmada a primeira morte em Portugal por Covid-19. E diante de tudo isso o coração fica mais apertado por estarmos longe de nossos pais, de nossas famílias e amigos queridos. Nos preocupamos até mais com eles do que conosco, pois não podemos lhes dar o suporte e auxílio que gostaríamos. Rezamos, torcemos e pedimos para que se cuidem, se protejam e se previnam pois esta onda que está aqui logo estará aí. Se posso deixar um recado é se previnam, usem o exemplo da Itália e China (vejam seus erros e acertos) e aprendam. E tomem as medidas necessárias antes que a situação comece a se agravar”.

Largo de Santa Cruz, Centro de Braga

Largo da Arcada, Braga, Portugal


“Cada um cuidando da sua luz, para não interromper a luz do outro”

Melissa Loretto e Renan Gradashi e Joaquim.

Foto: Arquivo Pessoal

“Estávamos na Espanha até sábado (14). Conseguimos retornar antes do decreto de quarentena, ninguém entra, ninguém sai. Em cinco dias nossa vida mudou de rumo três vezes. Até 7 dias atrás a vida seguia normal em Sevilla, na Espanha. De um dia para o outro, cancelaram o trabalho do Renan. Ninguém acreditava que o Coronavírus chegaria. E chegou e se alastrou rapidamente. Poder ser por falta de preparo da população ou pelas autoridades não tomarem medidas mais preventivas anteriormente. Por isso, precisamos estar atentos e fortes. Higiene Básica reforçada, evitar aglomerações, cuide bem da sua imunidade, fique em casa, fique com você mesmo. Nada de pânico ou medo porque isso afeta a baixa de imunidade. Pequenas ações que trazem grandes efeitos. Cada um cuidando da sua luz, para não interromper a luz do outro. Chegou a hora de repensar todos teus hábitos, principalmente o econômico. E tempo de estar menos, e apenas ser. O que se é”.


“Estamos seguindo as recomendações do governo e tentando nos manter ocupadas dentro de casa”.

Juliana Corrêa, 42 anos, educadora infantil e Andréia Roussille 33 anos, planejadora de projetos, são casadas, sem filhos, moram em Brossard/Quebec (Canadá) há dois anos.

Fotos: Arquivo Pessoal

Juliana e Déia

O relato de Juliana:

“No momento a prefeitura da cidade de Brossard, emitiu comunicado avisando do fechamento de todos os lugares onde possa ter aglomeração de pessoas. Restaurantes só podem funcionar com 50% da sua capacidade total. Meu trabalho parou, mas como trabalho em creche, precisamos abrir pra atender as crianças filhas de trabalhadores essenciais, como bombeiros, médicos, policiais, enfermeiros e tal. A Deia tá fazendo reuniões de casa, mas talvez precise ir ao escritório. Não teve nenhuma orientação específica, além do pedido de cuidado extra com a higiene. Estamos preocupadas, pois a saúde pública aqui é complicada. Quase todos tem acesso, mas assim como no Brasil, o atendimento é bem demorado. Na cidade onde moro, tem uma clínica que está dedicada ao atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19. Disponibilizaram também um número de telefone pra quem tiver com os sintomas entrar em contato, conversar com as enfermeiras e caso haja necessidade, ir para essa clínica. Solicitaram também não ir à toa, sem ligar antes. As mudanças estão sendo tranquilas, apesar de um pouco agoniante precisar ficar em casa. Na quinta-feira teve uma corrida aos supermercados e tinham acabado com o papel higiênico, lenço de papel e algumas carnes e pães. Mas sábado já tava mais tranquilo, com algumas coisas ainda em falta. A gente tá com medo, claro, mas estamos seguindo as recomendações do governo e tentando nos manter ocupada dentro de casa”.

A cidade de Brossard


“Agora a maior parte das pessoas trabalha em casa”

Allan Manez Kerber, 32 anos, jornalista, de Curitiba, mora há 4 anos e meio em Berlim, onde trabalha como Gerente de transporte.

Fotos: Arquivo Pessoal

“O pessoal começou a levar mais a sério quando deu aquele boom na Itália, 1200 casos no mesmo dia, há duas semanas. Semana passada meio que chegou na Alemanha e durante a semana várias coisas foram acontecendo, alguns eventos cancelados, no final de semana avisaram que academias e ginásios de esportes ficariam fechados até 20 de abril, no sábado o pessoal correu para mercados, prateleiras esvaziaram, tem essa coisa engraçada do papel higiênico que na quinta e sexta já tinha acabado o estoque, foi um item que todo mundo resolveu estocar. Na sexta-feira minha empresa sugeriu que quem já fazia home office poderia seguir fazendo, mas ficava a cargo das pessoas. Até perguntei para meu chefe, se tem essa oportunidade, se eu também poderia fazer isso, mas ele falou não, vamos cumprir todas as medidas, cada um se cuida, vamos ficar por aqui mesmo, mas com o desenvolvimento do cenário, ele mandou um whats no domingo (15), dizendo que realmente era para fazer home office, porque a empresa já tinha disponibilizado laptops durante a semana. Então já sabiam que ia piorar, mas estavam tentando manter na unidade o maior tempo possível. Agora a maior parte das pessoas trabalha em casa. O tempo está melhorando, ontem(15) foi o primeiro domingo de sol, um pouco mais quente, as pessoas foram no parque, ar livre. Está um clima meio de quarentena...o mercado continua meio vazio, mas vão reabastecer. Aqui os mercados não abrem domingo, então sábado é dia mesmo de fazer compras, o governo anunciou que para não acontecer essa correria de novo, os mercados e farmácias vão abrir aos domingos, mas é provável que restaurantes e bares fechem. Tem uma coisa legal nos prédios e isso é comum por aqui. Os mais jovens falando que não são do grupo de risco, então se alguém precisar de ajuda, tipo quiser que eu vá no mercado, é só deixar o telefone que entro em contato, para não expor os mais idosos”.

Sol levou as pessoas aos parques em Berlim


“O pessoal está fazendo compras de sobrevivência, acho isso uma besteira, um egoísmo”

Beatrice Teixeira de Melo, 25 anos, de Balneário Camboriú, estudante de Planejamento e Lideranças, mora na Austrália há quase três anos, trabalha em Hospitality, em uma lanchonete.

Fotos: Arquivo Pessoal

“Está uma loucura aqui. Há três semanas se falava no vírus, mas as pessoas não estavam preocupadas, achavam que era besteiras, exagero, até que de duas semanas para cá, estourou, o pessoal está meio que desesperado, só se fala disso, o dia inteiro nas rádios, nos mercados está tudo em falta, não se acha mais papel higiênico, nem álcool em gel e até produtos básicos como arroz, farinha, carne, eu nem como, mas me falaram que não estão mais achando nos mercados. Até porcarias como doces, chocolates, está faltando porque o pessoal está fazendo compras de sobrevivência, acho isso uma besteira, um egoísmo. Os mercados estão até com aviso, limitando por exemplo um saco de papel higiênico por pessoa, mas pior que não...todos os lugares estão vazios. Eu tinha dois trabalhos, um deles meio que me cortou horários, porque está muito muito vazio, trabalho nesta lanchonete há dois anos, tô com uma dó do meu chefe, ele não sabe o que fazer, todo mundo desesperado, quem tem comércio porque está tudo parado...e pessoas como eu que precisam do trabalho para pagar suas contas e renovar o visto, crise mesmo...complicado. Proibidos todos os eventos para mais de 500 pessoas, se insistirem em fazer e forem autuados, vai pagar multa de 25 mil dólares. Se a pessoa que tem o vírus não se isolar ou a pessoa que negar isolamento, paga multa de 10 mil dólares...mas agora estão fechando tudo mesmo, comércio, academia, cancelaram o maior campeonato de surf aqui realizado com atletas do mundo todo, o negócio tá feio”.

Gold Coastc - Austrália


“Frankfurt recebe diariamente milhares de voos e mesmo assim vi poucas pessoas se cuidando”

Tatiana Hochheim Pinheiro, arquiteta e design (UFSM), gaúcha de Santo Ângelo (RS), em Tóquio (Japão) .

Foto: Arquivo Pessoal

“Vou falar um pouco do que vi durante minha viagem que totalizou 14 dias entre aeroportos e o destino. Já estava decidida a respeito da viagem mesmo com a pandemia, passagens tanto nacionais como internacionais e hotel pagos desde dezembro, visto tirado, máscaras e álcool gel comprados. Quando saí do Brasil, no dia 3 de março, havia apenas 2 casos confirmados com coronavírus no país e os aeroportos nacionais vida normal apenas com um aviso sonoro sobre os sintomas do vírus e nenhum funcionário com máscaras. Vi algumas pessoas usando máscara na época no aeroporto de Guarulhos, descendentes de asiáticos, e muitas pessoas rindo deles. Em Guarulhos peguei voo para Frankfurt, também poucas pessoas com máscara, os funcionários da companhia aérea alemã não usavam máscaras e nem luvas.Chegando em Frankfurt consegui passar sem problema pela imigração, pois estava fazendo escala. Frankfurt recebe diariamente milhares de voos de diversas localizações e mesmo assim vi poucas pessoas se cuidando, tanto na ida como na volta, pois fiz escala lá também quando voltei e a situação estava pior na Europa. Em Frankfurt peguei voo para Pequim onde faria outra escala para finalmente chegar ao destino. Muitos chineses vindos de outros países entraram no avião com roupas cirúrgicas, plástico em volta do corpo, carrinhos de bebê totalmente plastificados, todos usando álcool gel e máscaras. Antes de entrar no voo mediram nossa temperatura e durante o voo o serviço de bordo foi feito por funcionários com máscaras e luvas. Precisamos preencher um questionário com nossas informações e se estávamos apresentando sintomas e/ou ficamos próximos de alguém com a doença, também perguntaram se viemos de alguma região foco do surto – Wuhan ou Hubei. Após o pouso tiraram novamente a temperatura e chamaram primeiramente aqueles que estavam com a temperatura alta para fazer um check-up, depois de uma hora liberaram os demais, não importava se você tinha uma escala a prioridade era conter o vírus. Saindo do voo tiraram novamente minha temperatura e me deixaram passar. O aeroporto de Pequim estava deserto, uma parte responsável pela quarentena usava roupas de contenção, peguei o voo para Tóquio com mais 5 pessoas e os procedimentos foram os mesmos, tirar temperatura antes e depois de pousar, questionário sobre a saúde do passageiro, além dos papéis necessários para passar pela imigração que são bem semelhantes aos que pedem na retirada do visto.Chegando em Tóquio, dia 5 de março, no aeroporto tinham duas filas, aqueles que vieram da China e Coreia do Sul e outra para quem veio de outras localidades. Como somente fiz translado por Pequim me deixaram entrar no país, mas antes pegaram todas minhas informações. Dia 9 de março ficou proibido também a entrada de estrangeiros que fazem translado pela China e acrescentaram a Itália na lista de países que não podem entrar no Japão. Em Tóquio muitos locais de aglomeração de pessoas, como a Disney japonesa, foram fechados, mas outros permaneceram abertos assim como o comércio. Todos japoneses usando máscara, luvas e álcool gel em todos os locais, inclusive no metrô era fácil de achar. Na Torre de Tóquio tiram nossa temperatura antes de permitir a entrada. Apesar da queda no movimento vi muitos turistas passeando pelo Japão, boa parte com máscaras também.Para voltar ao Brasil peguei o avião no Aeroporto de Narita, todos os funcionários estavam com máscaras e luvas. Lá subi no voo para Bangkok onde faria escala para Frankfurt novamente. No voo para Bangkok fizemos o questionário de saúde do passageiro novamente. Não forneceram travesseiros e cobertores no serviço de bordo e todos funcionários estavam com máscaras e luvas. Para esse destino viajei com 10 pessoas. Durante o voo passaram um vídeo demonstrando como era feito a desinfecção da aeronave para evitar a propagação do vírus. Chegando em Bangkok peguei o voo com diversos europeus e sentei ao lado de dois italianos que, de longe, eram as pessoas mais prudentes de toda a aeronave, utilizando álcool gel, máscaras e se cuidando muito. Eles me contaram que viajaram para Tailândia antes do surto em fevereiro e estavam preocupados com a cidade onde vivem, Veneza, talvez não conseguissem entrar se estivessem infectados, pois estavam fechando as fronteiras e aeroportos. Eu, como fui para o Japão e o mesmo está na lista da OMS, estava também preocupada em relação a minha volta ao Brasil. Chegando em Frankfurt peguei o voo para São Paulo com várias pessoas que vieram tanto da Europa como da Ásia, era 12 de março e o vírus já havia se espalhado por boa parte da Europa. Poucos com máscara ou cuidando onde espirrar, o serviço de bordo foi feito dessa vez pela cia alemã por funcionários com máscara e luvas. Chegando no Brasil, pousei em Guarulhos no dia 13 de março, não vi nenhum funcionário utilizando máscaras, luvas e nem álcool gel a disposição. Achava que seria semelhante ao Japão na entrada do país onde fariam questionário e tirariam minha temperatura. Mas somente precisei passar por uma máquina que leu meu passaporte e conferiu minha foto e entrei em território nacional. Ninguém viu de onde estava vindo e a única recomendação que ouvi sobre o vírus foi de um aviso sonoro pedindo para, caso tenha sintomas, procurar um posto de saúde. Passando pelos Duty free também não vi nenhum funcionário com máscara, luvas ou se mantendo distante nas pessoas que acabaram de chegar de viagem do exterior. Após peguei dois voos nacionais até chegar na cidade onde moro, sendo um passando por Porto Alegre e outro chegando no destino. Comigo viajaram pessoas que vieram da Ásia, Europa e também de São Paulo onde estava havendo um evento que foi confirmado casos do vírus. As únicas pessoas nos voos com máscara eram alguns passageiros, eu incluída. Desde minha chegada estou de quarentena, pretendo ficar 14 dias isolada até ter certeza que não estou infectada. Liguei para a secretaria de saúde do meu município e pediram para fazer apenas 7 dias sem nem ao menos perguntar de onde vim ou pegar meus dados, não ofereceram a possibilidade de fazer o exame para confirmação, pois estou sem sintomas. A OMS recomenda o isolamento de 14 dias para pessoas que vieram de áreas de risco, sendo nessa lista incluído o Japão, e fazer exames nas pessoas que vieram dessas localidades. Espero que aqueles que vieram nos mesmos voos sigam essas recomendações e deixem de lado, pelo menos dessa vez, o jeitinho brasileiro de lidar com as coisas”.


“Os italianos repararam que a União Europeia não tem nada de ‘união’ nessa hora do caos social”

Mariana Romero, 38, argentina, jornalista, assessora de imprensa de moda, mora há quase 6 anos na Itália.

Foto: Arquivo Pessoal

Mariana, máscara e ruas desertas

“Mantenha pelo menos dois metros de distância, cumprimente as pessoas de longe, fique em casa em caso de febre, mesmo se você não suspeitar de ter contraído o vírus.” Hoje, como nas últimas semanas de quarentena, acordei escutando no telejornal que repetia as medidas adotadas pelo governo italiano para tentar conter a infecção por coronavírus. O isolamento social colocou o povo em posição de reviver o que a Segunda Guerra Mundial foi para eles.

Moro na Itália há quase 6 anos e nunca vi a população e as autoridades do governo tão desorientados. Chegou tudo de surpresa e no começo as pessoas não eram conscientes da seriedade da situação. Atualmente, em meio à quarentena, há uma grande confusão sobre o que está por vir e vários movimentos nas redes para arrecadar fundos para construir postos de UTI nos hospitais porque o sistema de saúde está em colapso. Avós que morrem sozinhos porque seus familiares não podem acompanhá-los para evitar serem infectados: esta é a crua realidade pros mais vulneráveis.Hoje não posso sair de casa a menos que seja pra coisas urgentes e inevitáveis: ir no mercado ou na farmácia e mais nada. Devo usar máscara mesmo não estando doente. Mas os italianos do Norte não achavam o coronavírus um assunto relevante. Cansei de ouvir: "mas é só uma gripe, não mata ninguém", e logo depois dos primeiros dados das estatísticas a coisa mudou drasticamente. Quando no começo da epidemia os italianos preferiam tratar o problema de uma forma patriótica e com um sentido de superação, o rápido espalho do contágio os deixou de boca aberta. Ainda estou tentando assimilar a situação, de lidar com a super informação e ficar fora do pânico, que acho mais perigoso do que o vírus. Só tenho certeza de uma coisa: as prioridades mudaram para sempre no coletivo global e estamos sentindo quanto somos vulneráveis: em nossas mentes e em nossos corpos. A economia mundial não será mais a mesma, e aqui na Europa, os italianos repararam que a “União Europeia” não tem nada de “união” nessa hora do caos social. E no pessoal? estou aprendendo a lidar com o imprevisível desta situação, mas com o foco na minha filha de 11 meses, que só quer saber que a primavera está chegando”.



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Página 3

Coronavírus: brasileiros que moram no exterior compartilham suas histórias

Leitores relatam suas vivências para conscientizar população de Balneário Camboriú

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Quinta, 19/3/2020 8:20.
Mais de 220 mil pessoas foram infectadas em todo o mundo pelo novo Coronavírus, que já provocou mais de nove mil mortes – os números são da Universidade Johns Hopkins.

Até o momento, a covid-19 foi detectada em 156 países ou territórios e em todos os continentes com exceção da Antártida. A Itália ultrapassou a China e é o país com maior número de mortes pelo vírus: 3.405, enquanto a China contabiliza 3.245. Porém, a China ainda é o país com o maior número de casos confirmados da doença, somando mais de 81 mil, enquanto a Itália contabiliza 41.035.

No Brasil, estima-se mais de 500 casos positivos da doença – sendo quatro deles em Balneário Camboriú. O país contabilizou sete mortes pela doença. O número de casos suspeitos no Brasil já é superior a 8,8 mil – em Balneário há o registro de 25 casos suspeitos sintomáticos e 32 casos suspeitos assintomáticos. Pensando nisso, o Página 3 conversou com brasileiros que moram no exterior. Eles dividem suas histórias e pedem conscientização.


“Não acreditem nas versões sobre abastecimento”

Foto: Arquivo Pessoal

O conselho é da gaúcha Carla Wiese que mora em Ontário, Canadá, há muitos anos. Ela disse que lá também o álcool gel sumiu dos mercados, mas as pessoas usam álcool comum com concentração de 70% para as mãos e água sanitária para limpar superfícies. Ela sugere que as famílias brasileiras não acreditem nas versões sobre abastecimento e façam um estoque de gêneros básicos para um mês. Na semana passada um casal de corretores de imóveis, supostamente brasileiros, foi preso pela polícia da internet após comprar em atacado em revender com ágio, pela web, cerca de 100 mil dólares em produtos de higiene e limpeza. Alguns estados canadenses decretaram redução na circulação de ônibus e que estabelecimentos como academias, bares, parques etc. devem ficar fechados por duas semanas.Em Ontário e em Toronto as aulas universitárias serão online.As escolas durante 10 dias estão no período do “March Break”, o mesmo que a “Semana do Saco Cheio” no Brasil, e depois disso ficarão mais duas semanas sem aulas.O governo canadense estuda medidas bilionárias para socorrer empresas e famílias com suas rendas afetadas pelo combate ao Covid-19.


“Nunca imaginei passar por uma situação como essa”

Jaqueline Luciene Cacheta, 41 anos, fisioterapeuta, vive em Treviso na região do Veneto, na Itália, é casada com o italiano Innocenzo Pisano e mãe de Arthur Vinicius Machado, 20 anos, que mora em Balneário Camboriú, onde Jaqueline residia antes de se mudar para a Europa.

“Estou na Itália já faz sete anos e nunca imaginei que pudesse passar por uma situação como essa. Com meu relato, espero passar aquilo que estamos vivendo de modo a prevenir que o mesmo aconteça no Brasil. No começo todos pensavam que era somente uma gripe, continuei trabalhando até que o governo se deu conta que muitas pessoas começaram a morrer. A minha região está entre uma das regiões com maior número de casos positivos. Fiquei com medo de continuar trabalhando assim como os meus pacientes de fazer terapia (como fisioterapeuta não consigo manter um metro de distância). O governo fechou as escolas, academias, discotecas e todos os eventos com acúmulo de pessoas, e então resolvi fechar o meu estúdio de fisioterapia porque os casos aumentavam a cada dia. Acabaram máscaras e gel desinfetante em todas as farmácias, muitas pessoas começaram a morrer nos hospitais com uma pneumonia grave, muitos idosos e também pessoas jovens. O governo permitiu que ficassem abertas somente farmácias e supermercados, voos foram cancelados tanto saindo da Itália como voltando para a Itália, fronteiras fechadas com todos os países da União Europeia e agora não podemos sair de casa, apenas para ir no mercado, trabalho ou necessidades urgentes. A polícia controla nas estradas onde você está indo e se você mentir pode ser preso ou multado. Estamos presos em casa, ruas vazias, pessoas com medo, os números de mortos só aumentam, os leitos nos hospitais são limitados. 25 mil contagiados até hoje (16/03). Realmente a liberdade não tem preço, sinto falta de fazer pequenas coisas, mas a minha saúde é a coisa mais importante neste momento! Que Deus proteja a Itália, o Brasil e o mundo todo”.


“A população de Londres está conscientizada”

Marina Araceli Gomez Rutes, 26 anos, mora desde 2017 em Londres, onde trabalha como Network Developer. Formada em Relações Internacionais pela Univali, residia até então em Balneário Camboriú.

“Até semana passada a vida estava em ritmo normal, foi nessa semana que a situação piorou. No Reino Unido estamos quase chegando aos dois mil casos confirmados de Coronavírus, dos quais aproximadamente 600 foram registrados em Londres. Ontem (16/03) o governo deu o comunicado oficial recomendando que todos aqueles que têm a possibilidade devem trabalhar de casa. Devemos evitar transporte público, pubs, teatros e qualquer evento com grande concentração de pessoas, os grandes pontos turísticos da cidade (normalmente superlotados) estão vazios. Hoje (17/03) minha empresa liberou os funcionários para trabalharem de casa por tempo indeterminado, e todos os meus amigos/conhecidos estão na mesma situação. Nos mercados temos notado a falta de produtos como arroz, macarrão, sabão, álcool em gel. O governo recomendou que todos aqueles que têm acima de 70 anos se auto isolem e evitem qualquer contato com outras pessoas. Na minha vizinhança, e muitas outras em Londres, os vizinhos criaram grupos no WhatsApp para auxiliar aqueles que precisam neste momento, por exemplo ajudando idosos e indo no supermercado local por eles para comprar algum item que estejam precisando, etc. É esperado que o número de casos aumente consideravelmente nas próximas semanas, mas esperamos que as últimas medidas tomadas ajudem a controlar a situação e que possamos voltar a nossa vida normal o quanto antes. Não sinto tensão por aqui, e sim que a população de Londres está conscientizada sobre as medidas de higiene. Todo mundo está levando isso com extrema seriedade, e as empresas também agiram muito rápido assim que receberam recomendação do governo”.


“Estamos em confinamento total por 15 dias”

Nicoli Souza, 23 anos, estudante, mora em Paris há dois anos. É brasileira, mas sua família reside na Europa há vários anos.

“Estamos em confinamento total por 15 dias, com possibilidade de aumentar se necessário. O Exército está nas ruas para fazer cumprir a lei, só podemos sair para comprar comida ou por razões de saúde. São mais de 7,6 mil casos. Os mercados estão ficando vazios de comida, o pessoal fazendo estoque. Há filas também. Minha tia foi no correio e, assim como nos mercados, só pode entrar poucas pessoas por vez. Foi no último final de semana que tudo começou a parar mesmo, desde segunda-feira (16/03) as escolas e faculdades fecharam, restaurantes e lojas também. As ruas estão até escuras. Foi proibido mais de 50 pessoas em um mesmo ambiente. Temos que ficar confinados em casa, essa é a principal regra”.


Agora está bem mais deserto, quase um cenário pós-apocalíptico”

Aline Muller Pasetti, 28 anos, atua como Fullstack Developer em Lisboa, onde mora há três anos. Ela é filha da empresária Ciça Muller e morava em Balneário Camboriú antes de se mudar para Portugal.

“Sábado (14) eu saí para ver como estava a rua, e estava bem vazio. Eram 19h no centro de Lisboa e era para estar cheio de gente, como não está tão frio era realmente para ter bastante movimento. O mercado está controlando a quantidade de gente que entra por momento, então você passa na frente do mercado e tem uma fila e só entra quando alguém sai. O mercado que eu fui, que era menor que o Speciale (que fica próximo do Atlântico Shopping), tinha quatro pessoas por vez apenas. Eu fui com uma amiga e tivemos que esperar duas pessoas saírem porque não podia entrar, mesmo que fôssemos fazer compras juntas. Eles estão conseguindo repor as mercadorias bem rápido, como enlatados, pães e papel higiênico. As pessoas estão muito desesperadas por papel higiênico (riso). As pessoas estão bastante assustadas, todo mundo fala somente disso. Desde semana passada muitas empresas estão trabalhando de forma remota (home office), os restaurantes estão proibidos de abrir. Eu tenho aula, mas desde sexta (13) estou em casa também, o governo impediu as escolas de abrirem por duas semanas. As universidades já fecharam há muito tempo, as escolas de criança também fecharam na semana passada. Mas saiu uma notícia que dizia que as pessoas estavam aproveitando para ir pra praia ao invés de ficarem em casa se protegendo, isso na semana passada, mas agora já está bem mais deserto, quase um cenário pós-apocalíptico (risos)”.


“No início as pessoas pensavam que poderiam aproveitar como férias”

Liliane Laemmle, 41 anos, designer e escritora, é catarinense de Ibirama e morou muitos anos em Balneário Camboriú, antes de se mudar para a Itália em 2003, é casada com o italiano Gabriele Trapella e mãe de Emma, 6 anos. Ela reside em Reggio Emilia, situada na província de Emilia Romagna, uma das regiões mais atingidas pelo Coronavírus.

“Lembro bem, quando dia 21 de fevereiro meu marido me falou que precisávamos ficar alerta, porque algumas coisas iriam mudar devido a chegada do coronavírus na Itália. Na hora não dei muita importância, até que no domingo (23/02), estávamos numa cidadezinha, pulando carnaval com as crianças numa praça, algo bem familiar, pois era um lugar pequeno, e já sabendo dos falatórios sobre contaminação começamos a cuidar um pouco, para não ficar no meio de muita gente. A notícia que nos surpreendeu naquele momento era que no WhatsApp dos pais da escola, tinha chegado uma mensagem que na segunda-feira dia 24, o governo tinha decidido de suspender as aulas escolares presenciais de todos os tipos. Naquele momento, fomos para casa e comecei a acompanhar as notícias, ainda perplexa e pensando que parecia tudo muito exagerado e pensando no que perderíamos com isso. Com o passar dos dias, o período aumentava mais, de uma semana sem aula, passamos até o dia 15 de março, então até 3 de abril. E acredito que ainda não irá parar por aqui. Na primeira semana sem escola, um dia lindo de sol, pensei em caminhar um pouco com minha filha, e chegamos até um parque aqui da cidade onde tinham brinquedos. Pensei ‘que mal tem, ar livre, vou deixar brincar um pouco’, pois tinham poucas crianças. Passando o tempo, foram chegando cada vez mais pessoas, e todas rindo e falando do mesmo assunto, que parecia tudo muito exagerado, etc. No final acabei antecipando a minha volta para casa do parque porque comecei a ficar mal de ter saído e não ter escutado as regras, que ficar em casa era a melhor coisa a se fazer. Não adiantava nada não ir para a escola e depois ficar no parque cheio de crianças. Foi então, aos poucos, que entendemos que realmente tínhamos que respeitar o que estavam pedindo e que tinham razão, o vírus estava se espalhando na velocidade da luz. Naquele domingo, meu marido estava participando de um evento com 5 mil pessoas. O prefeito foi até o lá e pediu para encerrarem antes do previsto, o quanto antes, pois tinha saído uma ordem de parar qualquer evento ou manifestação onde tinham muitas pessoas. Foi algo muito preocupante, pois era um evento privado e inclusive de certo valor econômico. E, com as escolas fechadas, na primeira semana, os professores não deram tarefas para fazer em casa. Já na segunda semana, falaram que era melhor retirar todos os materiais da escola de cada aluno, pois não se tinha ideia de quando se iria voltar às salas de aula. Os supermercados foram esvaziados, todos na loucura foram correndo comprar comida, água, gel para limpar as mãos, alimentos essenciais para poder ficar em casa. Parecia uma correria contra o tempo, parecia que estávamos em período de guerra. Algo nunca visto pelo nossa geração. Com o tempo, naquela semana os supermercados conseguiram se organizar e reabastecer tudo. E depois então as pessoas entenderam que poderiam estar tranquilas quanto ao supermercado que não iria faltar, porque estão conseguindo abastecer tudo e receber alimentos normalmente até hoje. Espero que continue assim. Foram fechando as academias, as bibliotecas, terapias, centros de ocupação para os idosos e deficientes, algumas linhas de trens foram anuladas, o comércio foi fechando aos poucos, porque movimento já não tinha mais e serviços que não eram prioritários não tinham porque ficarem abertos. Várias reuniões canceladas, cinema fechado, cursos feitos em grupo cancelados, consultas médicas sem urgência remarcadas. Tudo foi se cancelando. Cabeleireiros fechados, esteticista, todos os serviços deste tipo foram fechados. Atualmente temos supermercados abertos, posto de gasolina e farmácias. No início as pessoas pensavam que poderiam aproveitar como férias, então começaram a lotar as estações de esqui, os vilarejos de montanha e obviamente não era o objetivo ter lugares lotados. Foi então que deram a ordem de fechar os locais de esqui e inclusive alguns vilarejos de montanha. Nestes locais geralmente tem muitos idosos que vivem ali, e como eles são os mais frágeis é necessário protegê-los. Nós temos parentes e casa na montanha, mas não fomos para lá justamente para não contaminá-los. O objetivo é ficar realmente isolado. Meu marido começou a trabalhar de casa no dia 9 de março. Demorou, deveria ter ficado em casa antes, porque ele saindo todos os dias, vendo pessoas, trabalhando em escritório onde a convivência é muito próxima, era sempre um risco para mim e minha filha. Com relação as aulas, aos poucos, os professores conseguiram se organizar, enviando atividades via WhatsApp para serem feitas em casa pelas crianças. Iniciaram então as aulas-vídeo, com explicações necessárias de matemática principalmente. Inclusive tivemos um encontro com todos da classe com uma plataforma que se chama “Zoom”, onde conseguimos falar todos ao mesmo tempo e inclusive usar o vídeo. As crianças tanto tempo sem se ver ficaram muito felizes, foi um momento muito emocionante. É complicado criar uma rotina onde não é nem férias e nem final de semana. É um período estranho, para as crianças é complicado, mas a minha filha entendeu bem, com este vírus, surgiu vários documentos, desenhos, vídeos feito por crianças, onde explicavam bem o que era o coronavírus e o que precisava ser feito neste período. O nosso dia a dia é em casa, ainda bem que temos um terraço e quando tem tempo bom conseguimos ir para fora pegar um sol. Com este período em casa ou com todas estas restrições, você entende melhor o valor de um abraço ou o que realmente tem valor. Este momento tem suas partes positivas, está unindo as pessoas virtualmente e também dentro de casa. Querendo ou não, tem pais que não podiam ficar muito tempo com os filhos porque trabalhavam até tarde, então assim, agora conseguem conviver mais tempo juntos. Foram definidas multas e inclusive meses ou anos de cadeia para quem infringe as regras feitas neste momento, como sair da sua província ou cidade sem um motivo comprovado e com razões que são permitidas. Os parques são fiscalizados para conter as pessoas, mandar elas para casa. Há limpeza forte e eficiente nos pontos de ônibus, jogos de futebol no início foram feitos sem a platéia, mas acabaram sendo cancelados os campeonatos. Inclusive o Salão do móvel de Milão foi adiado pra junho, Feira internacional do livro infantil em Bologna foi cancelada e já anunciada que acontecerá só no ano que vem. Como diz o prefeito de Reggio Emilia, Luca Vecchi, ‘após a Segunda Guerra Mundial, é a primeira vez que se tomam estas medidas neste nível’. Uma situação que não tínhamos ainda vivido. Aqui na Itália as pessoas estão inventando flash mob para passar um pouco de alegria e companhia através das janelas e varandas das casas e apartamentos. Já cantaram músicas, hino nacional, bandeiras da Itália nas janelas, aplausos na mesma hora na janela, todos juntos, para homenagear os profissionais da saúde que neste momento, estão dando a vida deles para cuidar das nossas. As crianças estão desenhando um arco-íris com a frase #tuttoandràbene e pendurando nas janelas de casa. Muito emocionante. O incrível é a organização aqui, principalmente nas regiões mais atingidas, sobre a estrutura sanitária. Já desde o início montaram um sistema de atendimento via telefone e presencial nas casas das pessoas infectadas. Estruturas provisórias para atendimento fora do hospital, uma pré seleção, impedindo assim de contagiados entrarem no hospital no pronto socorro. Todos os cuidados para diminuir ao máximo a contaminação. Inclusive estão usando estruturas e materiais do exército também para montar postos de atendimentos, hospitais temporários. Hospitais que eram hospitais normais, foram transformados em centros de UTI devido a necessidade de tantos leitos para o tratamento dos pacientes, que acabam ficando internados 3 semanas e bastante tempo entubados em coma, com respiradores. Chegou ajuda da China, um avião com 33 toneladas de materiais para os hospitais e com 9 médicos que vivenciaram tudo lá. O problema maior são os hospitais. Porque estão lotados e os enfermeiros e médicos acabam ficando doentes também. Alguns já morreram inclusive de coronavírus. Realmente são heróis e não existe uma forma para agradecê-los que seja suficiente. É algo impagável. Estão dando a vida deles para o próximo. A minha preocupação atualmente é pelo Brasil. Seria necessário o entendimento da situação, a aceitação e o respeito as regras e instruções passadas pelas autoridades. Aproveitem dos exemplos dos países mais atingidos, para poder usar em benefício. Nós não tínhamos muitos exemplos, a China era tão particular, tão diferente de nós, que infelizmente não demos muito crédito no início. Infelizmente. A sugestão é de manter o controle da difusão do vírus já agora, mesmo não tendo muitos contágios. É a única maneira de conter a situação. Cada indivíduo deverá respeitar o próximo. Em relação a economia, ainda estão sendo feitos decretos. Estão em estudo, pois são inéditos. Certamente teremos ajuda do governo para este período de emergência. Sobre o futuro, de como será, quem irá voltar ao trabalho, que irá conseguir abrir a sua empresa novamente, ninguém sabe. Tudo pode acontecer”.

Emma, filha de Liliane.

Centro de Reggio Emilia vazio.


“A situação que estamos vivendo é inacreditável, triste e assustadora”

Lucíola Garcia, jornalista, trabalha com publicidade e eventos, mora há 20 anos na Espanha, e antes disso residiu em Balneário Camboriú. Mora atualmente em Madrid, é casada e tem duas filhas.

“Tenho toda a minha família no Brasil e fico super preocupada pela expansão do Coronavírus aí. Aqui o estado é crítico. A situação que estamos vivendo é inacreditável, triste e assustadora. Parece um filme de ficção, ou pior, porque a realidade supera a ficção. Começamos com 14 contagiados confirmados há duas semanas e temos já mais de 10 mil casos contabilizados. E falo contabilizados, porque muita gente tem o vírus e não sabe. Eu mesma poderia ter. Sou jornalista e trabalho há 16 anos com publicidade e eventos. Atualmente estava organizando um congresso internacional para setembro, e tivemos que adiar para 2021. Estou sem trabalho neste período, até poder retomar o projeto, como milhares de outras pessoas. Mas não importa, só quero é que isso termine logo porque, hoje, não sei se voltarei a ver os meus amigos daqui da Espanha e do Brasil, e nem a minha família que está há mais de 10 mil km. Há duas semanas, dia 3 de março, quando não tínhamos quase casos, o meu chefe que é assessor político recebeu uma ligação do governo avisando que a situação ia piorar, que anunciariam medidas drásticas em poucos dias, para prevenir porque provavelmente teríamos que atrasar o nosso evento. Fiquei um pouco assustada, comentei em uma janta com amigas na mesma noite. Elas não deram muita importância e hoje estão ilhadas em uma casa de praia com as filhas sem poder ver os maridos e a família, porque foram para uma viagem de dois dias e não podem voltar. Uma semana mais tarde, no dia 9, com pouco mais de mil casos na Espanha, fecharam os colégios em Madrid e de outras 3 regiões do país. Fecharam também todas as residências de idosos, proibiram as viagens e atividades coletivas dos mesmos. Além disso, recomendaram home office, sempre que possível. Anunciaram que adiariam todos os tratamentos e operações não urgentes nos hospitais para dar prioridade aos casos de coronavirus. Começaram a fechar cinemas, teatros, shoppings, todas as atividades coletivas. Muitos entraram em pânico. Já não tinha nada para comprar nos supermercados, as estantes ficaram vazias. Ainda bem que o abastecimento aqui continua. As filas eram intermináveis, famílias com 4 carros fazendo compras. Eu fui no dia seguinte às 9h, e sai às 11h30, mais de 1h na fila. Todo mundo continuava indo pros parques com as crianças, muitos viajando, saindo, indo a restaurantes, lugares públicos, como se nada. Começaram a proibir os eventos de mais de mil pessoas, festas populares, missas, funerais, jogos de futebol, a Liga Espanhola, até chegar ao isolamento total. No sábado (14), com mais de cinco mil casos contabilizados, anunciaram que fechavam TUDO na Espanha inteira, até as praias. Só ficam abertos serviços de primeira necessidade: supermercados, farmácias, postos de gasolina, bancos, hospitais e poucas coisas mais. Está proibido servir comida em qualquer lugar público. Todas as medidas para evitar qualquer concentração de pessoas, por mínima que seja. Fecharam com fita protetora os parques de crianças, até dentro dos condomínios, e os jardins da cidade. Só pode sair para fazer alguma das coisas citadas acima, e sempre sozinho, se não, pode receber multas de até 60 mil euros e ir preso. Ninguém pode passear, só pra levar o cachorro. Para não ficarem loucos em casa, os moradores de prédios e condomínios se revezam para passear o cachorro. Mas a maioria das pessoas prefere ficar em casa. Antes até de fechar os colegios em Madrid, com menos de 1.000 casos na Espanha, grandes empresas anunciaram medidas preventivas, como o Santander, a Repsol e o BBVA. O Santander, por exemplo, proibiu reuniões de mais de 100 pessoas. O BBVA selecionou trabalhadores estratégicos de vários departamentos para trabalhar de casa. Recursos Humanos da Repsol enviou email pra todos os empregados da central ordenando trabalhar em casa. Nas reuniões, ninguém se cumprimentava, só de longe. Depois de alguns dias com as crianças em casa, recebemos lições dos colégios. Muitas idéias de atividades para fazer em casa com as crianças através das redes sociais. Muitos reclamam por ter que ficar em casa, mas há idosos que não têm ajuda, e pessoas que dependiam do seu salário para a comida diária da sua familia e, mesmo que o governo esteja tentando ajudar, não pode ajudar a todos. Aparecem voluntários, vemos vídeos lindos, todos os días às 20h as pessoas saem nas janelas para aplaudir os médicos, enfermeiros e outros profissionais que continuam trabalhando nesta época tão difícil. É tão triste… e não sabemos quanto pode durar. Anunciaram 15 dias, mas acho que muito mais, e espero que assim seja porque o virus continua contagiando até 15 dias depois da cura. Eu tive um susto em casa. Na quinta-feira (11) o meu marido começou com febre e dores no corpo. É asmático. Minha filha de 5 anos também é asmática e a pequena, de 2, ainda não sabemos. Liguei mais de 50 vezes pro número habilitado para informação do Coronavirus, das 18h até as 4h, algumas vezes com 15-20 minutos de espera. Ninguém atendeu. No número de emergências (tipo 911), atenderam e, depois de 15 minutos de espera, como o meu marido não apresentava sintomas graves, não mandaram ninguém. Liguei pro seguro médico solicitando assistência domiciliária e, depois de 4 horas, retornaram dizendo que, nos casos de pandemia, não podem mandar médico em casa, só recomendaram isolamento e paracetamol cada 8h. Tentei comprar máscaras para ter em casa, mas desapareceram das farmácias há mais de três semanas. Então, com um sorriso pras minhas filhas como se nada tivesse acontecendo, isolei o meu marido no nosso quarto (recomendam quarto isolado com banheiro sempre que possível). Graças a Deus o susto por enquanto passou, e como ele não voltou a ter febre, já está com a gente e fazemos quarentena todos juntos (pelo meu bem e das meninas porque a minha paciência já estava no limite, e o sorriso também). Vários amigos se ofereceram para vir deixar comida e coisas para gente, porque as entregas à domicilio estão demorando… mas agora já não podem, porque não podemos sair de casa. E o melhor: ainda não sabemos se temos ou não o vírus, porque abriram um expediente no “Samu” mas ainda não devolveram a ligação, 5 dias depois. Claro que se tivesse grave iríamos ao hospital, mas outras pessoas agora precisam mais que nós, e pode ser um lugar de contágio. Pensem: se na Espanha que a saúde pública é uma das melhores do mundo, os hospitais são ótimos: só em Madrid, há 102 hospitais; eles não têm capacidade pra dar assistência por telefone nem mandar uma ambulância em casa, imaginem no Brasil. O governo daqui já fechou fronteiras, e o mundo inteiro está fazendo a mesma coisa. Muitas empresas fechando e despedindo os empregados. Por mais que anunciem ajudas, várias companhias não podem suportar a crise. Mas, independentemente da crise, a única coisa que importa à maioria é que possamos sair dessa. Se tivermos que ficar trancados em casa um mês com as crianças, ficaremos. Mas o que eu quero é poder voltar a ver a minha familia, e que meus pais, que moram em Balneário, estejam bem. Estamos vendo histórias tão tristes aqui, amigos que perdem familiares e não podem ir aos enterros. Tenho uma amiga que não vê o marido há duas semanas, só a metros de distância. O sogro dela faleceu este fim de semana e ela não pôde dar um abraço no marido, que agora tem que cuidar da mãe que também pegou o vírus. É horrível. Então, pelo bem de todos, por favor, fiquem em casa o máximo possível. O vírus se contagia de forma muito rápida e, como não sabemos se temos e quem têm, porque podemos não apresentar sintomas até 15 dias, cada vez que saímos na rua, podemos contagiar os outros e voltamos a começar de zero, sem saber se estamos ou não contagiados. Fico feliz que em Balneário Camboriú tenham começado a tomar medidas antes de ter tantos casos como aqui, obrigada querido Fabrício Oliveira, amigo de longa data. Mas, pelo bem de vocês e de todos, por favor FIQUEM EM CASA. Espero poder rever a todos logo. Sejamos positivos, mas tenhamos cuidado”.


Se previnam, usem o exemplo da Itália e China (vejam seus erros e acertos) e aprendam. E tomem as medidas necessárias antes que a situação comece a se agravar”.

Melissa Santos Baggio Stange, 41 anos, casada, tem dois filhos, mora em Braga, cidade portuguesa, mas antes disso residia em Balneário Camboriú.

“Não é tão fácil falar sobre este novo vírus quanto parece. O pensamento se agita e uma sensação incômoda percorre o corpo. São muitos os acontecimentos, rápidos e mutantes, como o vírus é. A gente tem uma vida ritmada, uma rotina estabelecida, e quando isso muda repentinamente ficamos sem direção, falhamos no discernimento e instalamos o modo de alerta constante. E tudo isso aconteceu (está acontecendo) agora com a chegada do coronavírus aqui em Portugal. Nos vimos frente a uma doença que deu uma rasteira bem dada. Consegue ser simples e grave ao mesmo tempo, ir de assintomática até matar. É muito louco isso. Estamos, eu e meu marido e meus 2 filhos há 4 dias dentro de casa em quarentena social. Por decreto e orientação do governo oficialmente a partir de hoje (segunda-feira, 16). Não há ainda uma imposição para ficarmos em casa como na Itália, ainda é possivel pequenos deslocamentos como levar o cachorro para um breve passeio ou ir a supermercados e farmácias. Mas muitos serviços, privados e públicos, considerados não essenciais estão fechados. Restaurantes são um exemplo, difícil ver um aberto para atendimento ao público, muitos estão fechados e outro tanto, quando aberto, está atendendo por tele-entrega. A agitação da cidade deu lugar a uma calmaria estranha, parece uma cidade de interior pequena. Muitos comércios fechados (teatros, cinemas, parques, praças, museus, pontos turísticos), poucas pessoas pelas ruas, o trânsito sem congestionamentos nos horários de pico (fora dele então é uma paz) e vários locais para estacionar. Estas mesmas poucas pessoas pelas ruas andam apressadas, algumas usam máscaras e luvas (mas são poucas ainda) e mantendo uma distância considerável dos outros, não há aperto de mão, abraço ou toque. Em locais fechados como farmácias e bancos vemos pessoas no lado de fora dos mesmos esperando seu atendimento, e sempre distantes umas das outras. As que precisam ir trabalhar estão assustadas. Movimentado mesmo são os supermercados. Os dias de maior movimento já passaram, com um misto de nervosismo e apreensão as pessoas procuraram abastecer suas casas com alimentos e produtos de higiene e limpeza antes de ficarem confinadas aos seus lares. Alguns locais ficaram com prateleiras vazias, mas que no dia seguinte estavam repostas. A procura pelos mesmos itens no mesmo momento fez isso, mas os mercados não estão desabastecidos. Ante tanto aglomero me senti feliz por não ver confusão ou discussões, e sim civilidade. Como ouvimos muito aqui: Não estamos de férias, estamos em luta. Tentamos refazer as atividades rotineiras como manter as atividades escolares com as crianças e trabalho em home office. O lazer se restringe a vistas da varanda, assistir a todas as programações da Netflix, a todos os programas dos canais de comida, Discovery, Disney e etc., e acompanhar o desenrolar deste momento pelos telejornais e internet. Aliás, estes últimos 4 dias foram os mais tensos aqui. Há uma semana a vida corria quase que normalmente e em pouquíssimo tempo mudou completamente. Houve um aumento considerável de novos casos confirmados (hoje estamos com 331 casos, num intervalo de 2 semanas do aparecimento do primeiro caso), mais que dobrando o número de casos por dia, o governo tomando medidas importantes para tentar conter o avanço da contaminação como o fechamento das fronteiras e escolas e hoje foi confirmada a primeira morte em Portugal por Covid-19. E diante de tudo isso o coração fica mais apertado por estarmos longe de nossos pais, de nossas famílias e amigos queridos. Nos preocupamos até mais com eles do que conosco, pois não podemos lhes dar o suporte e auxílio que gostaríamos. Rezamos, torcemos e pedimos para que se cuidem, se protejam e se previnam pois esta onda que está aqui logo estará aí. Se posso deixar um recado é se previnam, usem o exemplo da Itália e China (vejam seus erros e acertos) e aprendam. E tomem as medidas necessárias antes que a situação comece a se agravar”.

Largo de Santa Cruz, Centro de Braga

Largo da Arcada, Braga, Portugal


“Cada um cuidando da sua luz, para não interromper a luz do outro”

Melissa Loretto e Renan Gradashi e Joaquim.

Foto: Arquivo Pessoal

“Estávamos na Espanha até sábado (14). Conseguimos retornar antes do decreto de quarentena, ninguém entra, ninguém sai. Em cinco dias nossa vida mudou de rumo três vezes. Até 7 dias atrás a vida seguia normal em Sevilla, na Espanha. De um dia para o outro, cancelaram o trabalho do Renan. Ninguém acreditava que o Coronavírus chegaria. E chegou e se alastrou rapidamente. Poder ser por falta de preparo da população ou pelas autoridades não tomarem medidas mais preventivas anteriormente. Por isso, precisamos estar atentos e fortes. Higiene Básica reforçada, evitar aglomerações, cuide bem da sua imunidade, fique em casa, fique com você mesmo. Nada de pânico ou medo porque isso afeta a baixa de imunidade. Pequenas ações que trazem grandes efeitos. Cada um cuidando da sua luz, para não interromper a luz do outro. Chegou a hora de repensar todos teus hábitos, principalmente o econômico. E tempo de estar menos, e apenas ser. O que se é”.


“Estamos seguindo as recomendações do governo e tentando nos manter ocupadas dentro de casa”.

Juliana Corrêa, 42 anos, educadora infantil e Andréia Roussille 33 anos, planejadora de projetos, são casadas, sem filhos, moram em Brossard/Quebec (Canadá) há dois anos.

Fotos: Arquivo Pessoal

Juliana e Déia

O relato de Juliana:

“No momento a prefeitura da cidade de Brossard, emitiu comunicado avisando do fechamento de todos os lugares onde possa ter aglomeração de pessoas. Restaurantes só podem funcionar com 50% da sua capacidade total. Meu trabalho parou, mas como trabalho em creche, precisamos abrir pra atender as crianças filhas de trabalhadores essenciais, como bombeiros, médicos, policiais, enfermeiros e tal. A Deia tá fazendo reuniões de casa, mas talvez precise ir ao escritório. Não teve nenhuma orientação específica, além do pedido de cuidado extra com a higiene. Estamos preocupadas, pois a saúde pública aqui é complicada. Quase todos tem acesso, mas assim como no Brasil, o atendimento é bem demorado. Na cidade onde moro, tem uma clínica que está dedicada ao atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19. Disponibilizaram também um número de telefone pra quem tiver com os sintomas entrar em contato, conversar com as enfermeiras e caso haja necessidade, ir para essa clínica. Solicitaram também não ir à toa, sem ligar antes. As mudanças estão sendo tranquilas, apesar de um pouco agoniante precisar ficar em casa. Na quinta-feira teve uma corrida aos supermercados e tinham acabado com o papel higiênico, lenço de papel e algumas carnes e pães. Mas sábado já tava mais tranquilo, com algumas coisas ainda em falta. A gente tá com medo, claro, mas estamos seguindo as recomendações do governo e tentando nos manter ocupada dentro de casa”.

A cidade de Brossard


“Agora a maior parte das pessoas trabalha em casa”

Allan Manez Kerber, 32 anos, jornalista, de Curitiba, mora há 4 anos e meio em Berlim, onde trabalha como Gerente de transporte.

Fotos: Arquivo Pessoal

“O pessoal começou a levar mais a sério quando deu aquele boom na Itália, 1200 casos no mesmo dia, há duas semanas. Semana passada meio que chegou na Alemanha e durante a semana várias coisas foram acontecendo, alguns eventos cancelados, no final de semana avisaram que academias e ginásios de esportes ficariam fechados até 20 de abril, no sábado o pessoal correu para mercados, prateleiras esvaziaram, tem essa coisa engraçada do papel higiênico que na quinta e sexta já tinha acabado o estoque, foi um item que todo mundo resolveu estocar. Na sexta-feira minha empresa sugeriu que quem já fazia home office poderia seguir fazendo, mas ficava a cargo das pessoas. Até perguntei para meu chefe, se tem essa oportunidade, se eu também poderia fazer isso, mas ele falou não, vamos cumprir todas as medidas, cada um se cuida, vamos ficar por aqui mesmo, mas com o desenvolvimento do cenário, ele mandou um whats no domingo (15), dizendo que realmente era para fazer home office, porque a empresa já tinha disponibilizado laptops durante a semana. Então já sabiam que ia piorar, mas estavam tentando manter na unidade o maior tempo possível. Agora a maior parte das pessoas trabalha em casa. O tempo está melhorando, ontem(15) foi o primeiro domingo de sol, um pouco mais quente, as pessoas foram no parque, ar livre. Está um clima meio de quarentena...o mercado continua meio vazio, mas vão reabastecer. Aqui os mercados não abrem domingo, então sábado é dia mesmo de fazer compras, o governo anunciou que para não acontecer essa correria de novo, os mercados e farmácias vão abrir aos domingos, mas é provável que restaurantes e bares fechem. Tem uma coisa legal nos prédios e isso é comum por aqui. Os mais jovens falando que não são do grupo de risco, então se alguém precisar de ajuda, tipo quiser que eu vá no mercado, é só deixar o telefone que entro em contato, para não expor os mais idosos”.

Sol levou as pessoas aos parques em Berlim


“O pessoal está fazendo compras de sobrevivência, acho isso uma besteira, um egoísmo”

Beatrice Teixeira de Melo, 25 anos, de Balneário Camboriú, estudante de Planejamento e Lideranças, mora na Austrália há quase três anos, trabalha em Hospitality, em uma lanchonete.

Fotos: Arquivo Pessoal

“Está uma loucura aqui. Há três semanas se falava no vírus, mas as pessoas não estavam preocupadas, achavam que era besteiras, exagero, até que de duas semanas para cá, estourou, o pessoal está meio que desesperado, só se fala disso, o dia inteiro nas rádios, nos mercados está tudo em falta, não se acha mais papel higiênico, nem álcool em gel e até produtos básicos como arroz, farinha, carne, eu nem como, mas me falaram que não estão mais achando nos mercados. Até porcarias como doces, chocolates, está faltando porque o pessoal está fazendo compras de sobrevivência, acho isso uma besteira, um egoísmo. Os mercados estão até com aviso, limitando por exemplo um saco de papel higiênico por pessoa, mas pior que não...todos os lugares estão vazios. Eu tinha dois trabalhos, um deles meio que me cortou horários, porque está muito muito vazio, trabalho nesta lanchonete há dois anos, tô com uma dó do meu chefe, ele não sabe o que fazer, todo mundo desesperado, quem tem comércio porque está tudo parado...e pessoas como eu que precisam do trabalho para pagar suas contas e renovar o visto, crise mesmo...complicado. Proibidos todos os eventos para mais de 500 pessoas, se insistirem em fazer e forem autuados, vai pagar multa de 25 mil dólares. Se a pessoa que tem o vírus não se isolar ou a pessoa que negar isolamento, paga multa de 10 mil dólares...mas agora estão fechando tudo mesmo, comércio, academia, cancelaram o maior campeonato de surf aqui realizado com atletas do mundo todo, o negócio tá feio”.

Gold Coastc - Austrália


“Frankfurt recebe diariamente milhares de voos e mesmo assim vi poucas pessoas se cuidando”

Tatiana Hochheim Pinheiro, arquiteta e design (UFSM), gaúcha de Santo Ângelo (RS), em Tóquio (Japão) .

Foto: Arquivo Pessoal

“Vou falar um pouco do que vi durante minha viagem que totalizou 14 dias entre aeroportos e o destino. Já estava decidida a respeito da viagem mesmo com a pandemia, passagens tanto nacionais como internacionais e hotel pagos desde dezembro, visto tirado, máscaras e álcool gel comprados. Quando saí do Brasil, no dia 3 de março, havia apenas 2 casos confirmados com coronavírus no país e os aeroportos nacionais vida normal apenas com um aviso sonoro sobre os sintomas do vírus e nenhum funcionário com máscaras. Vi algumas pessoas usando máscara na época no aeroporto de Guarulhos, descendentes de asiáticos, e muitas pessoas rindo deles. Em Guarulhos peguei voo para Frankfurt, também poucas pessoas com máscara, os funcionários da companhia aérea alemã não usavam máscaras e nem luvas.Chegando em Frankfurt consegui passar sem problema pela imigração, pois estava fazendo escala. Frankfurt recebe diariamente milhares de voos de diversas localizações e mesmo assim vi poucas pessoas se cuidando, tanto na ida como na volta, pois fiz escala lá também quando voltei e a situação estava pior na Europa. Em Frankfurt peguei voo para Pequim onde faria outra escala para finalmente chegar ao destino. Muitos chineses vindos de outros países entraram no avião com roupas cirúrgicas, plástico em volta do corpo, carrinhos de bebê totalmente plastificados, todos usando álcool gel e máscaras. Antes de entrar no voo mediram nossa temperatura e durante o voo o serviço de bordo foi feito por funcionários com máscaras e luvas. Precisamos preencher um questionário com nossas informações e se estávamos apresentando sintomas e/ou ficamos próximos de alguém com a doença, também perguntaram se viemos de alguma região foco do surto – Wuhan ou Hubei. Após o pouso tiraram novamente a temperatura e chamaram primeiramente aqueles que estavam com a temperatura alta para fazer um check-up, depois de uma hora liberaram os demais, não importava se você tinha uma escala a prioridade era conter o vírus. Saindo do voo tiraram novamente minha temperatura e me deixaram passar. O aeroporto de Pequim estava deserto, uma parte responsável pela quarentena usava roupas de contenção, peguei o voo para Tóquio com mais 5 pessoas e os procedimentos foram os mesmos, tirar temperatura antes e depois de pousar, questionário sobre a saúde do passageiro, além dos papéis necessários para passar pela imigração que são bem semelhantes aos que pedem na retirada do visto.Chegando em Tóquio, dia 5 de março, no aeroporto tinham duas filas, aqueles que vieram da China e Coreia do Sul e outra para quem veio de outras localidades. Como somente fiz translado por Pequim me deixaram entrar no país, mas antes pegaram todas minhas informações. Dia 9 de março ficou proibido também a entrada de estrangeiros que fazem translado pela China e acrescentaram a Itália na lista de países que não podem entrar no Japão. Em Tóquio muitos locais de aglomeração de pessoas, como a Disney japonesa, foram fechados, mas outros permaneceram abertos assim como o comércio. Todos japoneses usando máscara, luvas e álcool gel em todos os locais, inclusive no metrô era fácil de achar. Na Torre de Tóquio tiram nossa temperatura antes de permitir a entrada. Apesar da queda no movimento vi muitos turistas passeando pelo Japão, boa parte com máscaras também.Para voltar ao Brasil peguei o avião no Aeroporto de Narita, todos os funcionários estavam com máscaras e luvas. Lá subi no voo para Bangkok onde faria escala para Frankfurt novamente. No voo para Bangkok fizemos o questionário de saúde do passageiro novamente. Não forneceram travesseiros e cobertores no serviço de bordo e todos funcionários estavam com máscaras e luvas. Para esse destino viajei com 10 pessoas. Durante o voo passaram um vídeo demonstrando como era feito a desinfecção da aeronave para evitar a propagação do vírus. Chegando em Bangkok peguei o voo com diversos europeus e sentei ao lado de dois italianos que, de longe, eram as pessoas mais prudentes de toda a aeronave, utilizando álcool gel, máscaras e se cuidando muito. Eles me contaram que viajaram para Tailândia antes do surto em fevereiro e estavam preocupados com a cidade onde vivem, Veneza, talvez não conseguissem entrar se estivessem infectados, pois estavam fechando as fronteiras e aeroportos. Eu, como fui para o Japão e o mesmo está na lista da OMS, estava também preocupada em relação a minha volta ao Brasil. Chegando em Frankfurt peguei o voo para São Paulo com várias pessoas que vieram tanto da Europa como da Ásia, era 12 de março e o vírus já havia se espalhado por boa parte da Europa. Poucos com máscara ou cuidando onde espirrar, o serviço de bordo foi feito dessa vez pela cia alemã por funcionários com máscara e luvas. Chegando no Brasil, pousei em Guarulhos no dia 13 de março, não vi nenhum funcionário utilizando máscaras, luvas e nem álcool gel a disposição. Achava que seria semelhante ao Japão na entrada do país onde fariam questionário e tirariam minha temperatura. Mas somente precisei passar por uma máquina que leu meu passaporte e conferiu minha foto e entrei em território nacional. Ninguém viu de onde estava vindo e a única recomendação que ouvi sobre o vírus foi de um aviso sonoro pedindo para, caso tenha sintomas, procurar um posto de saúde. Passando pelos Duty free também não vi nenhum funcionário com máscara, luvas ou se mantendo distante nas pessoas que acabaram de chegar de viagem do exterior. Após peguei dois voos nacionais até chegar na cidade onde moro, sendo um passando por Porto Alegre e outro chegando no destino. Comigo viajaram pessoas que vieram da Ásia, Europa e também de São Paulo onde estava havendo um evento que foi confirmado casos do vírus. As únicas pessoas nos voos com máscara eram alguns passageiros, eu incluída. Desde minha chegada estou de quarentena, pretendo ficar 14 dias isolada até ter certeza que não estou infectada. Liguei para a secretaria de saúde do meu município e pediram para fazer apenas 7 dias sem nem ao menos perguntar de onde vim ou pegar meus dados, não ofereceram a possibilidade de fazer o exame para confirmação, pois estou sem sintomas. A OMS recomenda o isolamento de 14 dias para pessoas que vieram de áreas de risco, sendo nessa lista incluído o Japão, e fazer exames nas pessoas que vieram dessas localidades. Espero que aqueles que vieram nos mesmos voos sigam essas recomendações e deixem de lado, pelo menos dessa vez, o jeitinho brasileiro de lidar com as coisas”.


“Os italianos repararam que a União Europeia não tem nada de ‘união’ nessa hora do caos social”

Mariana Romero, 38, argentina, jornalista, assessora de imprensa de moda, mora há quase 6 anos na Itália.

Foto: Arquivo Pessoal

Mariana, máscara e ruas desertas

“Mantenha pelo menos dois metros de distância, cumprimente as pessoas de longe, fique em casa em caso de febre, mesmo se você não suspeitar de ter contraído o vírus.” Hoje, como nas últimas semanas de quarentena, acordei escutando no telejornal que repetia as medidas adotadas pelo governo italiano para tentar conter a infecção por coronavírus. O isolamento social colocou o povo em posição de reviver o que a Segunda Guerra Mundial foi para eles.

Moro na Itália há quase 6 anos e nunca vi a população e as autoridades do governo tão desorientados. Chegou tudo de surpresa e no começo as pessoas não eram conscientes da seriedade da situação. Atualmente, em meio à quarentena, há uma grande confusão sobre o que está por vir e vários movimentos nas redes para arrecadar fundos para construir postos de UTI nos hospitais porque o sistema de saúde está em colapso. Avós que morrem sozinhos porque seus familiares não podem acompanhá-los para evitar serem infectados: esta é a crua realidade pros mais vulneráveis.Hoje não posso sair de casa a menos que seja pra coisas urgentes e inevitáveis: ir no mercado ou na farmácia e mais nada. Devo usar máscara mesmo não estando doente. Mas os italianos do Norte não achavam o coronavírus um assunto relevante. Cansei de ouvir: "mas é só uma gripe, não mata ninguém", e logo depois dos primeiros dados das estatísticas a coisa mudou drasticamente. Quando no começo da epidemia os italianos preferiam tratar o problema de uma forma patriótica e com um sentido de superação, o rápido espalho do contágio os deixou de boca aberta. Ainda estou tentando assimilar a situação, de lidar com a super informação e ficar fora do pânico, que acho mais perigoso do que o vírus. Só tenho certeza de uma coisa: as prioridades mudaram para sempre no coletivo global e estamos sentindo quanto somos vulneráveis: em nossas mentes e em nossos corpos. A economia mundial não será mais a mesma, e aqui na Europa, os italianos repararam que a “União Europeia” não tem nada de “união” nessa hora do caos social. E no pessoal? estou aprendendo a lidar com o imprevisível desta situação, mas com o foco na minha filha de 11 meses, que só quer saber que a primavera está chegando”.



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