Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Comunidade LGBTQI+ ressalta a importância do Dia Internacional contra a Homofobia

Quinta, 14/5/2020 19:13.
Foto: Getty Image

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Renata Rutes

Neste domingo (17) é celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia, data escolhida porque em 17 de maio de 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID). Este Dia marca a luta não somente dos homossexuais, mas também dos transgêneros, travestis e bissexuais, servindo ainda de conscientização. Para lembrar a data, o Página 3 ouviu membros da comunidade LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgenêros, Queer e Intersexuais; o + significa todas as outras letras do LGBTT2QQIAAP, sigla que não para de crescer, unindo ainda os As de assexuais e aliados – pessoas que se consideram parceiras da Comunidade) de Balneário Camboriú e região.

“Homofobia é crime e quem não entendeu vai pagar perante a Justiça”

Fernando Lisboa, 47 anos, é empresário e membro-organizador da Parada LGBTQI+ de Balneário Camboriú, que acontece anualmente; ele é de Ibitinga, interior de SP, é ex-policial militar (atuou por 12 anos), ex-combatente do Exército Brasileiro e ex-árbitro de futebol

“Me mudei para Santa Catarina em 2003, fui morar em Blumenau, trabalhando em uma empresa de telefonia, e posteriormente fui transferido para Balneário, já em 2007. Comecei uma militância intensa, que eu não podia fazer enquanto era policial e nem em Blumenau, porque morava na casa de um padre amigo meu. Quando vim para Balneário tive o meu primeiro relacionamento homoafetivo oficial, que culminou em um casamento de cinco anos. Depois fui para um segundo relacionamento por mais três anos, e atualmente estou casado com o Gustavo há dois anos. Trabalhamos juntos na Algar Telecom, uma empresa de telefonia. A questão da homofobia sempre foi intrínseca na sociedade, eu pude ver isso como policial, no futebol e dentro dos quartéis. Naquela época, nos anos 90, tirar sarro de gays, menosprezar travestis era uma coisa constante. Eu vi e vivi muito isso, porém sei que essas pessoas que criticam, ofendem e humilham são as mesmas que procuram estar com os gays, com as travestis, transexuais, enfim. A sociedade é machista e homofóbica em virtude da formação dela, que é religiosa. Muitas vezes a própria igreja prega que os gays vão para o inferno, que Deus não aceita, que vão morrer... ‘pinçam’ alguns itens da bíblia, mas esquecem que a bíblia condena o adultério, o alcoolismo, o furto, a mentira e tantas outras coisas. A homofobia é um câncer na sociedade. A pessoa não nasce homofóbica, ela é criada dentro de um ambiente homofóbico e passa a entender que aquele que faz o contrário dela merece todo o ódio. Homofobia é crime e quem não entendeu vai pagar perante a Justiça se praticar. Sobre a Parada de Balneário, a qual eu sou um dos organizadores, temos algumas dificuldades, porque temos um prefeito conservador, religioso, que não governa para o município e sim para algumas pessoas, principalmente para a igreja dele. Mas estamos aqui para lembrá-lo que o estado é laico. Ele tentou impedir a Parada em 2017, mas movemos uma ação junto ao Ministério Público, que entendeu que ele estava cometendo um ato homofóbico e o enquadrou inclusive com improbridade administrativa. Em 2018 fizemos uma linda Parada, 2019 foi a nossa maior, com 15 mil pessoas, que ele não pôde proibir. Tentou dizer que permitiu, mas na verdade ele só não enfrentou a Justiça, considerando que ele apoia outros eventos, inclusive religiosos. Este ano estamos aguardando, por enquanto está tudo em standby, todas as Paradas estão assim. Talvez tenha só a de São Paulo, representando o Brasil”.

Ana com a esposa Letícia, o filho André e a filha Anna.

“Continuamos aqui, somos membros da sociedade”

Ana Lodi é casada com Letícia atualmente e moram em Itajaí. Ela é mãe de André e Anna Laura, fruto de seu primeiro casamento, com Ana Cláudia; Ana Lodi e André ficaram conhecidos nacionalmente pela participação no programa Altas Horas, da Rede Globo (onde estiveram em 2016 e 2019), e compartilharam sua história: André é filho do primeiro casal homoafetivo feminino no Brasil a fazer reprodução artificial com sêmen de doador anônimo

“Estou morando com a Letícia desde janeiro de 2019 em Itajaí, antes morávamos em Balneário Camboriú. Sou carioca, mas estou em Santa Catarina desde outubro de 2017. O André ficou no Rio por conta da namorada, estudos, música. Ele mora com os meus pais. O cenário do Brasil está complicado, desde antes da eleição, onde já era possível ver que o presidente poderia ser eleito, a Comunidade LGBTQI+ já estava assustada por conta do que poderia acontecer com toda as minorias. Já era estarrecedor a população querer eleger uma figura tão nefasta, sabíamos que seria muito ruim e perigoso, e se tornou perigoso para todo mundo. Não é uma surpresa, há um clima de ‘eu avisei’. É muito assustador esse apoio que ele tem, quando vim para Santa Catarina, como carioca eu tinha a ideia que o estado era mais evoluído e na verdade não é. É conservador, a propaganda foi enganosa. Há uma elite retrógrada que não quer que as coisas mudem e isso não é só no Brasil. Por isso, a população mais carente segue sendo a mais explorada. O cenário direita x esquerda também está muito deturpado. Quando você compara Alckmin e Doria com o Bolsonaro, para a esquerda eles seriam excelentes considerando o atual, e a esquerda não é necessariamente PT. A direita vendeu uma criação fantástica baseada em fake news que demonizou toda a esquerda, com terraplanismo, gripinha. Temos que entender que o planeta só vai andar se as pessoas se preocuparem umas com as outras. Para ficar algo mais digno, focando na Comunidade LGBTQI+, precisamos ensinar o respeito desde cedo. Integramos a sociedade como qualquer outro grupo e portanto merecemos direitos como tal. Pessoas promíscuas existem em todas as classes, assim como decentes, corruptos. Simplesmente escolheram um grupo para colocar todos os defeitos do mundo, e não é bem assim. Tentam utilizar um discurso de ideologia, ensinando as crianças a serem preconceituosas, baseados em uma pseudo-moralidade. A homossexualidade é natural, acontece até no reino animal. Temos que ensinar também que não é não, que o machismo precisa acabar, que a mulher não é subordinada. O Dia Internacional é importante porque a visibilidade é necessária. Algumas pessoas se apegam que não precisa expor (casais homoafetivos), mas precisa sim porque é natural. Falam da promiscuidade, mas ela pode ser necessária porque às vezes é chocando que se chama atenção, porém não é a tônica do movimento. Nós queremos mostrar que continuamos aqui, somos membros da sociedade, merecedores de direitos e respeito”.

“Tem amigo meu que já morreu só por ser gay”

Alex Ferrer é empresário, conhecido em Balneário Camboriú por trabalhar junto de personalidades, agitador social e possui uma empresa de assessoria de imprensa, a Agência A

“Todo mundo tem história para contar, a minha começou literalmente quando eu nasci, em Taguatinga, cidade satélite de Brasília. Aos três dias de nascido eu fui adotado. Uma enfermeira do hospital se comoveu com a minha história e tentou arrumar uma família para me criar. Falou com a tia dela, que era vizinha da minha mãe adotiva. A minha mãe já tinho cinco filhos, era uma ex-favelada, não gosto de falar ‘comunidade’, adoram glamourizar pobreza, mas não, era favelada mesmo, da Favela do Jacarézinho, na Zona Norte do Rio, que é a segunda maior favela do Rio. Ela foi pra Brasília com o meu pai, que era PM. Eles já tinham três filhos, em Brasília tiveram mais dois, e me pegaram para criar. Ela era negra, meu pai branco, meus irmãos mulatos. Na hora de me pegar, é até engraçado, ela disse que queria uma criança negra, e a enfermeira enganou ela, disse que eu iria escurecer com o tempo (risos). Nossa casa tinha um quarto, ficava na última rua da cidade satélite, e a nossa família era a mais pobre do lugar mais pobre (risos). Já a questão do racismo, na década de 80 era super ‘comum’ o negro ser xingado na rua. Duas vizinhas, eram crianças também, falaram que as minhas irmãs valiam 500 réis. Passava na época Escrava Isaura na TV, e era esse o valor dos escravos na novela. Minha família era acusada de não gostarem da própria cor, porque eu sou branco. Minha vida profissional melhorou, consegui sair da pobreza, mas isso é outra história. Cada caso é um caso, tenho amigos que casaram e depois se descobriram gays, mas para mim quando os adultos me perguntavam de namoradinha, eu sabia que gostava dos menininhos. Já pequenininho eu sabia que não podia, respondia o nome de uma menina, mas na verdade era um menino. As pessoas sempre perguntam se sofri violência física, e eu nunca apanhei porque sempre saí correndo. Ser gay é status, todo mundo bate no peito que tem um amigo gay, todo grupo tem. Apesar de toda homofobia, perto do que era antes, hoje a gente vive no céu. Hoje o gay frequenta balada hetero, mas antes não podia, se descobrissem que o cara era gay meu Deus do céu! A primeira que eu frequentava em Brasília era em um subsolo, como se fosse uma sociedade secreta. Tem amigo meu que já morreu só por ser gay. O preconceito existe até hoje, o gay só é aceito facilmente se tem uma posição social. Temos muitas conquistas pela frente ainda, só queremos ser respeitados. Em pleno 2020, um gay não podia doar sangue. Isso é surreal. Baseado em que ele não poderia doar? Tem também aquele preconceito velado, escuto muito ‘você é gay e as pessoas nem percebem, você não chega espalhafatoso’, como se fosse vantagem ser ‘discreto’. No mundo hetero não tem a pessoa mais comedida, a pessoa engraçada? Por que no meio gay não pode ter o espalhafatoso, o discreto? Acho isso um absurdo porque o gay pode ter o comportamento que ele quiser, respeitando o próximo, e isso vale para todo mundo. Já me falaram que não deveria ter o Dia LGBT, e eu disse que concordo, mas que isso só poderá acontecer quando o gay parar de ser assassinado, ser maltratado por ser gay”.

“Você não precisa gostar de nós, mas deve nos respeitar”

Ana Paula Barretoé uma mulher trans e presidente da Associação das Travestis, Transexuais e Gays de Balneário Camboriú (Attgbc); nasceu em Londrina, mas mora em Balneário há 21 anos

“O sonho do meu pai era ter uma filha mulher. Ele e a minha mãe queriam ter só um filho, mas tentaram de novo porque queriam muito uma menina, e acabaram tendo três filhos homens. Eles haviam decidido adotar uma menina quando eu, o mais novo, crescesse, mas notaram que eu era diferente. Eu sempre gostei de homem e minha família sempre aceitou. Com 11, 12 anos, eu ia para matinês e lá conheci meninas trans que já tomavam hormônio e eu comecei a tomar também. Com 14 eu já tinha corpo feminino, e acabei contando para os meus pais e segui tomando. Eles aceitaram muito bem, e hoje eu sou esse mulherão (risos). Eu escolhi o nome Ana Paula porque era o nome que o meu pai queria dar para a filha. Ele já faleceu, mas sempre tivemos uma relação muito boa. Troquei de nome oficialmente, inclusive na certidão de nascimento está como Ana Paula Barreto. Quando cheguei em Balneário já existia a ONG (Attgbc), que era coordenada por uma senhora trans. Me interessei pela causa e comecei a ajudá-las. Já trabalho voluntariamente há 10 anos, e há seis estou como presidente. Antigamente o preconceito em Balneário era mais forte. O cenário melhorou, pois as trans, travestis e gays sabem que lutamos pelos direitos deles. Temos apoio da promotoria, juízes, advogados, como a delegada Daniela Bruce, o ex-secretário de Segurança, David Queiroz, o advogado dr. Ricardo Bruce. Conseguimos também cestas básicas para as meninas que trabalham na rua com a secretária de Inclusão Social Christina Barichello, e também com o dr. David. No começo, quando não existiam leis a nosso favor, como poder usar o banheiro feminino, também tínhamos que pagar ingresso masculino, era bem complicado, mas hoje mais nada disso acontece. Mesmo assim, a cena que vivemos politicamente é horrível. Esse presidente que estimula o ódio, o preconceito, está indo na contramão. O Dia Internacional é muito importante porque mostra que somos todos seres humanos, temos direito de ir e vir. Queremos apenas ser respeitadas. Amor é amor, todos temos CPF, votamos, pagamos imposto. Sempre falo que se sentem incomodados por cobrarmos nossos direitos, então por que não fazem uma lei que isenta a Comunidade LGBTQI+ de pagar impostos? Então aí vamos parar de incomodar e de cobrar, mas somente assim. Temos valor, não é por sermos gays, trans ou lésbicas que não podemos ser vendedoras em lojas, atrizes, cantoras. É muito bom ver o avanço das drags, por exemplo, como a Pabllo e a Gloria. Podemos fazer tudo, temos competência, não somos só objetos sexuais. Precisamos de mais empatia e respeito da sociedade. Você não precisa gostar de nós, mas deve nos respeitar. Não incentive o ódio, não nos agrida com palavras ou fisicamente. Somos todos iguais”.

Vitoria antes da transição e hoje

“Genital não define nada, muito menos meu gênero”

Vitoria Moon, 21 anos, é uma mulher trans e bissexual

“Eu sempre me vi como mulher. Tenho uma amiga que fala uma frase que é ‘eu fiz o teste e deu positivo’ (risos). Eu me assumi aos 17 anos, pois passei um tempo tentando agradar minha mãe e nada adiantava. Eu me tornei o filho perfeito, namorava, tinha emprego e boas notas na escola, mas não era feliz com a imagem no espelho. Por mais padrão que ela parecesse, não era eu. Decidi que viveria por mim e meu gatilho foi um documentário sobre uma mulher trans que só se assumiu aos 60 anos. Aquilo me desesperou! Minha mãe no começo renegou, mas entendeu que não havia nada de errado em quem eu era. Decidiu me acolher e hoje tem orgulho da mulher que sou. A minha transição foi tranquila de modo pessoal. Eu sabia onde eu queria chegar em relação a aparência e tive apoio dos que me amavam. Os que não me aceitavam eu fiz questão de me afastar, se não tem respeito por mim não merece caminhar ao meu lado. Durante a transição eu me relacionava com uma garota que acabou me magoando por dizer que preferia uma mulher de verdade. Sou bissexual e acabo de sair do meu primeiro relacionamento com um homem. Até então eu achava que era lésbica, por só ter me relacionado com mulheres. Esse meu último relacionamento foi incrível, porque além de me assumir ele foi parceiro em todos os momentos. Eu já passei por algumas coisas bem tensas. Na escola um professor se negava a me chamar pelo meu nome e começou a fazer com que outros professores também não me chamassem. Desenvolvi depressão e parei meus estudos, até hoje não conclui o Ensino Médio. Outros casos aconteceram em baladas, algumas pessoas se interessavam e, principalmente mulheres, quando contavam que eu sou trans começavam me agredir verbalmente. Eu ouvi tanto o ‘se você fosse mulher de verdade eu ficaria com você’ de gente aleatória. Eu não preciso que essas pessoas me validem como mulher, eu sou mulher e tenho a sorte de ser tratada assim pela grande maioria. Espero que tenham acesso a conhecimento e entendam um dia que genital não define nada, muito menos meu gênero. É maravilhoso me olhar no espelho e estar feliz com a minha imagem, me ver representada, sentir que sou eu mesma e que os outros me vêem assim, ser chamada pelo meu nome e ouvir que eu sou uma mulher inspiradora. Eu acabo sofrendo muito mais com o machismo do que com a transfobia em si. Por incrível que pareça, eu tenho visto muito mais comentários transfóbicos dentro do meio cis LGB do que fora, principalmente entre homens cis gays (Cisgênero é o indivíduo que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu) que tentam invalidar homens trans e pessoas não binárias. Só vamos estar realmente ocupando espaços quando não precisar mais ser noticiado cada pessoa LGBTQIA+ que estiver na mídia porque será comum. Vivemos no país que mais mata pessoas trans no mundo, por consequência o que mais mata pessoas LGBTs. A gente tem muito caminho pela frente. A nossa maior luta é para espalhar informação e conhecimento, pra que um dia todos entendam que não há nada de errado com nossas sexualidades e identidades de gênero. Isso não interfere no nosso caráter e não deve ser criminalizado e disseminado de forma deturpada e ruim por religiosos”.

“Desde criança eu sempre soube que em algum momento ia me tornar uma mulher”

Júlia Dalçóquio, 23 anos, é uma mulher trans e produtora de moda

“É muito complicado, eu não tive com quem conversar, me espelhar. Não conhecia nenhuma pessoa trans, então tive que fazer todo esse trajeto para me conhecer, saber o que é esse universo, praticamente sozinha. Em 2015 eu entrei em um grupo na internet que falava sobre pessoas trans e comecei a procurar referências, conheci Lea T, Laerte e Caitlyn Jenner, e comecei a ver que a gente tem ideia de pessoas trans marginalizadas, na prostituição, no mundo das drogas. Percebi que esse universo era mais real do que eu imaginava, que eu podia ser uma mulher e estar inclusa no trabalho, família, ter amigos. Desde criança, com sete, oito anos eu sempre soube que em algum momento ia me tornar uma mulher. Eu imaginava que dormiria e acordaria uma, não sabia que havia essa adequação, como costumamos falar. Na minha cabeça eu já era tão mulher, que imaginava que iria acordar fisicamente como uma. Eu queria me encontrar, li muitos relatos de mulheres trans reais. Tive depressão, achava que a realidade estava longe de mim. Não sabia qual seria a reação da minha família, até que um dia conversei com a minha mãe sobre tudo. Ela entendeu, mas pediu que eu fizesse a transição aos poucos para que não me arrependesse. Comecei a fazer a unha, deixei o cabelo crescer, um dia eu chegava com o shorts mais curto. Foi tão natural que as pessoas não se chocaram tanto. Já estou há três anos socialmente como mulher, me chamando Júlia, que é um nome que eu sempre achei muito bonito e meu nome masculino também começava com ‘Ju’. Acredito que antes da minha transição eu sofria muito mais preconceito por ser um menino afeminado do que hoje como mulher trans. Se alguém me diz ‘bom dia, menina’, um gesto simples e a obrigação da pessoa em me reconhecer como uma, mas já muda o meu dia. Preconceito não é só apanhar, ser expulso de casa, quando alguém me chama pelo meu nome antigo eu me sinto agredida, e já aconteceu bastante. Eu faço acompanhamento médico, faço exames para controlar hormônios, fiz acompanhamento psicológico. É muito difícil sofrer transfobia e machismo, que eu não imaginava que era tão forte. Os homens realmente acham que são muito melhores e que somos um objeto. Foi algo que me chocou muito. Por outro lado, acho que estamos conseguindo levantar a bandeira trans, estou trabalhando como produtora de moda. Só o fato de termos carteira assinada, estarmos empregadas, é um passo muito grande. Está havendo evolução, e é muito gratificante. Acredito que a mudança vai acontecer com a gente conversando, e que o preconceito está instalando por falta de conhecimento também. Minha família era extremamente transfóbica, homofobica, e quando me aceitaram eu quebrei vários preconceitos. Hoje eles veem homossexuais de outra forma, consegui reverter isso conversando”.

“A luta é diária”

Tina Tunel é drag queen desde 2004, sendo uma das mais antigas e conhecidas em atividade em Balneário Camboriú

“Eu sempre soube que eu era gay, mas vim de uma época em que éramos mais reservados, não havia a mesma liberdade que os jovens têm hoje. Eu nunca me assumi para a minha família, mas todos me respeitam muito. Nunca expus minha vida com um namorado, sempre de forma discreta. Mas se algum dia eu falar, não vai ser uma novidade. Há respeito entre todos nós. Vejo que os mais jovens gritam em casa, não respeitam os pais, e eu vejo que o respeito com a família é essencial. Sou bem resolvido quanto a isso. Moro em Balneário há 25 anos, comecei como drag em 2004 brincando, sou formado em Dança e Educação Física e eu dava aulas em escolas e academias de BC, não fico focada apenas na drag. Tenho uma ‘vida dupla’, aos fins de semana faço os shows com a Tina e durante a semana dou aulas de dança. Faço coreografias para debutantes e casamentos também. Tenho minhas redes sociais pessoais e também as da Tina. Tenho amigos que relatam homofobia, mas eu nunca sofri preconceito, nem pela minha cor ou por ser drag e gay. Respeito a todos, já me chamaram de gay, mas nunca fui agredido ou sofri retaliação. A Tina Tunel, minha drag, é muito respeitada. Meu trabalho é uma arte, não me monto em casa ou para sair na rua, minha drag é meu trabalho. Gosto de glamour, de brilho, quando chego sou um destaque, não sou de passar percebida. Para mim, a arte drag é essa, minha vida é assim. Gosto de levar a alegria para todos, inclusive faço muitos eventos heteros, como casamentos, aniversários, já levei até aliança, fui madrinha montada como Tina. Recebo muito carinho. Mas, infelizmente, já perdi dois amigos assassinados de forma brutal, vítimas da homofobia em Balneário Camboriú e Porto Belo. As travestis e transex são as mais expostas, por muitas estarem na rua. Tem gente que não as aceita, batem. Eu vejo que Deus deu a nossa vida para cada um seguir o que quer, todos devem se respeitar. Essa pandemia é uma chance para mudarmos. Somos todos iguais, perante qualquer religião. Eu não vou em um ambiente hetero sem ser convidada, tenho consciência, mas se um hetero for em uma balada GLS tem que respeitar, é o meu espaço. Acredito que o Dia Internacional é importante, mas a luta é diária. O preconceito pode ser vivenciado a qualquer momento. As pessoas precisam entender que todo mundo tem seu espaço e precisamos nos respeitar”.

“Eu não sou menos mulher por ser lésbica”

Natália Guilhermetti Garcia, 24 anos, advogada do Centro de Referência especializado em assistência social e membro da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB de Itajaí

“Somos criados na visão heterossexual de família e os pais exercem um papel muito forte na nossa construção. Bem verdade que os pais moldam os filhos aos seus próprios anseios, por isso a aceitação costuma ser difícil. Sempre ouvimos “eu não te criei pra ser assim”. Assim como, se sou normal. A homossexualidade existe desde que mundo é mundo, mas ninguém nunca espera que isso aconteça em seu círculo familiar. Eu me assumi com 16 anos. O começo foi difícil, com meus pais. Meus amigos sempre foram incríveis e tenho todos ao meu lado desde então. Hoje posso afirmar que eu ser lésbica não é um problema pra minha família, que é maravilhosa e me apoia em tudo. Eu sempre quis cursar Direito. Durante o curso fui me afeiçoando com as áreas sociais, inclusive é no que trabalho hoje. Acho muito importante que cada vez mais mulheres, negros e LGBTQI+ ocupem os espaços jurídicos, que, infelizmente, ainda são machistas e patriarcais. Depois de formada, aprovada na OAB e em concurso público, consigo ter minha voz mais ouvida, posso ocupar mais espaços. E é justamente aí que a Comissão da OAB se faz tão importante. A subseção de Itajaí, onde participo, é extremamente receptiva com tudo que é proposto. Acho que isso é um ponto de partida, poder mostrar realidades de um público que, até então, era somente visto e não ouvido. Já liderei militâncias na região, hoje faço um trabalho diferente, mas continuo atuando no que posso. A militância sulista, falo como um todo, é muito segregada dos espaços políticos. Não são chamadas para a discussão, não tem seus pleitos ouvidos e não consegue se manter 100% atuante por todo o tempo. A comunidade LGBTQI+ é unida. Sempre quando precisei tinha alguém pra me auxiliar, escutar. Só acho que são pouquíssimas pessoas que estão na linha de frente na luta pelos direitos LGBT’s. Além de olhares raivosos e comentários desrespeitosos, eu não posso dizer que sofri homofobia, pois sou uma mulher lésbica padrão. O chamado ‘confortável aos olhos’. E sou privilegiada por isso, sim. Mas convivo com pessoas que já foram agredidas, ameaçadas, expulsas de casa. A situação que mais me incomoda são comentários insinuando que sou lésbica porque nenhum homem me fez mulher. Eu não sou menos mulher por ser lésbica. Sendo sincera que a onda do conservadorismo pesou e muito, principalmente na região. Santa Catarina ainda carrega consigo traços de sua colonização e construção conservadora e patriarcal. Os projetos voltados à população LGBTQI+ são cada vez menos colocados em pauta. Os Poderes Legislativos não são abertos ao diálogo. Maior exemplo disso é que a equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo, que a enquadrou como crime, veio do nosso Judiciário, pelo STF, justamente pela inércia do nosso Legislativo em ouvir um público que é violentado todos os dias. Acho que a homofobia se materializa em diversas formas. É a violência física e moral, com certeza. Mas também é o abuso da família na não aceitação, é a sexualização da mulher lésbica, é a tratativa dos homens gays como se fossem “mulherzinhas”, é a negação da identidade sexual dos transexuais e transgêneros. É essa a importância do Dia Internacional Contra a LGBTfobia... que conseguimos ocupar espaços como esse aqui: falar, sermos ouvidos, propagarmos consciência a quem ainda tem preconceito”.

“Não tem medo e receio que possa nos parar”

Thiago Julio, 24 anos, é jornalista

“Quando eu tinha 10 anos eu comecei a descobrir a minha sexualidade com um conhecido, que tinha a mesma faixa etária que a minha. Até que aos 14 anos, após eu insistir, demos o primeiro beijo. Para mim aquilo era muito errado, eu não me aceitava. Orava bastante, não queria ser assim. Na época minha família era extremamente preconceituosa. Eu era muito afeminado, e realmente me culpava muito pela atração que eu sentia pelo menino. Entrei na faculdade em 2013, falando que era hetero, depois mudei para bissexual, até que comecei a ficar com um rapaz e comecei a me aceitar, a sair para boates. Meu tio me questionava bastante. Em 2014 me apaixonei pela primeira vez e contei para a minha madrasta, nesse mesmo ano minha vó me confrontou porque uma prima minha se assumiu lésbica, mas eu menti. Somente em 2017 eu tive o meu primeiro namoro, prestes a me formar na faculdade, e postava fotos com o meu ex. Outro tio meu, que morava conosco, pegou uma foto e minha vó viu e me confrontou novamente, três anos depois e eu disse para ela que era meu namorado. A reação dela foi, a princípio, de vergonha, mas não teve briga. A partir disso toda a minha família soube que era gay. Com o meu vô não houve uma conversa, mas por eu ter uma carreira consolidada como jornalista, ajudo eles, acaba sendo uma situação tranquila. Nunca sofri ataque de fato de homofobia, mas já presenciei um casal de amigas sendo xingadas por serem lésbicas. Chorei muito quando o atual presidente foi eleito, o que para mim foi um retrocesso. É um presidente genocida, que apoia a ditadura, contra os direitos humanos, intensificou o discurso de ódio para as minorias, e por isso continuamos à margem da sociedade. É um desserviço o que ele traz. A Comunidade LGBTQI+ possui muitos direitos já conquistados, mas eu vejo que ainda temos muito a lutar. Entre 1963 e 2018 mais de nove mil pessoas LGBTs foram mortas por serem LGBTs, fora os casos que não foram denunciados ou descritos de outras formas. Eu vejo que o Sul é uma região que passa a falsa segurança, ainda há o preconceito, o olhar de ódio, a agressão. Vejo que a gente dá dois passos para frente e cinco para trás. Com esse novo governo está ainda mais escancarado. Um terço da população ainda quer acabar com a Comunidade LGBT, que não consegue entender que é uma condição nossa. Nascemos assim, não é um distúrbio, um problema de saúde. Temos que desde cedo ensinar que as pessoas são diferentes, gêneros, sexos, religiões, raças. Não podemos ensinar as crianças a ter olhar de raiva, desdém. Não tem medo e receio que possa nos parar. Estamos lutando por respeito, equidade, pois temos os mesmos deveres que a comunidade heterossexual tem, só queremos poder ir e vir sem medo, sem precisarmos nos preocupar com a integridade da nossa vida, só queremos ter uma vida normal porque somos normais. Inferior é o preconceito das pessoas”.

“A gente não cansa, não”

Gabriel da Silva, 23 anos, psicólogo clínico

“Me assumi com 15 anos, ainda no começo do Ensino Médio. Foi um momento muito difícil, eu queria mudar de escola. Nasci, cresci e moro até hoje em Camboriú, e percebo que é mais difícil porque é mais conservadora, evangélica. É difícil poder falar sobre isso na cidade. O que me ajudou muito foram amigos que estavam comigo naquele momento, a escola foi fundamental, tive muito apoio da coordenação. Até então minha família não sabia, eu tinha muito medo da reação deles. Foi a coordenadora que me incentivou a contar, porque eu precisava ter suporte dentro de casa. A primeira a saber foi minha cunhada, e depois em casa para minha mãe e irmãos. Meu pai, para quem eu mais tinha medo, me falou que não tinha ódio e que sempre vai me amar e apoiar em minhas decisões. Aquilo me deu uma liberdade. Foi fundamental o apoio deles, me senti acolhido, mudou a minha trajetória. Hoje estou noivo, e lembro que quando meu noivo veio pra cá, pra morar comigo, foi um momento de muita felicidade. Lembro da minha mãe mostrando fotos do resto da família com ele. Ver o quanto tudo mudou me faz sentir muito bem. Estamos quase casando (risos), e minha mãe ama ele, eles têm uma relação ótima. Existe um espaço e um lugar onde podemos ser nós. Ainda com 17 anos eu decidi que queria cursar Psicologia, e a cada semestre a paixão só aumentava, é algo que não tem fim, um encantamento diário até hoje. Meu TCC foi sobre a população trans de Balneário Camboriú, na rua (com as que trabalham com prostituição), visitei apartamentos, casas, elas se sentiram muito acolhidas, confiaram muito. Entreguei máquinas fotográficas para elas e elas fotografaram onde percebiam violência. Elas reconhecem que esse ‘trabalho’ é o único que sobrou para elas como sobrevivência. Foi nítido perceber o quanto a política de cuidado com elas em Balneário é a distribuição de camisinhas, somente isso. Também relataram que a polícia não vai até elas por saber que estão ligadas à prostituição, não são acolhidas e respeitadas por quem são. Foi um trabalho incrível e só mostrou o quanto é necessário olharmos para essa população. Foi realmente muito interessante mergulhar nessa realidade. Eu já vivenciei a homofobia, apesar da coordenação da escola ter me apoiado, foi nesse cenário que ouvi comentários. Lembro que aos 10 anos um grupo de crianças começou a apontar o dedo e me chamar de ‘viadinho’. Eu não entendia a situação, mas saí correndo e voltei para a sala de aula. Eu até me escondia, não conseguia compartilhar com a minha família. É importante falarmos sobre homofobia na região em que vivemos, que é conservadora, Santa Catarina é um estado conversador, na verdade. Não temos que falar somente no Dia, e sim todos os dias. Estamos aqui, temos voz, e é possível ocuparmos esses lugares. Ainda temos muito que mudar, precisamos de mais respeito, segurança. Enquanto eu não me sentir inseguro para dar a mão para o meu noivo na rua, é sinal de que ainda precisamos avançar. Conquistamos muito, mas precisamos ainda mudar, porque o medo paira no ar. A gente não cansa, não. Enquanto políticos conservadores, evangélicos continuarem tentando retirar os nossos direitos, nossa cidadania, estaremos lutando sempre. Nossa voz existe, é importante e é totalmente necessária para a construção da sociedade”.



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Comunidade LGBTQI+ ressalta a importância do Dia Internacional contra a Homofobia

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Quinta, 14/5/2020 19:13.
Renata Rutes

Neste domingo (17) é celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia, data escolhida porque em 17 de maio de 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID). Este Dia marca a luta não somente dos homossexuais, mas também dos transgêneros, travestis e bissexuais, servindo ainda de conscientização. Para lembrar a data, o Página 3 ouviu membros da comunidade LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgenêros, Queer e Intersexuais; o + significa todas as outras letras do LGBTT2QQIAAP, sigla que não para de crescer, unindo ainda os As de assexuais e aliados – pessoas que se consideram parceiras da Comunidade) de Balneário Camboriú e região.

“Homofobia é crime e quem não entendeu vai pagar perante a Justiça”

Fernando Lisboa, 47 anos, é empresário e membro-organizador da Parada LGBTQI+ de Balneário Camboriú, que acontece anualmente; ele é de Ibitinga, interior de SP, é ex-policial militar (atuou por 12 anos), ex-combatente do Exército Brasileiro e ex-árbitro de futebol

“Me mudei para Santa Catarina em 2003, fui morar em Blumenau, trabalhando em uma empresa de telefonia, e posteriormente fui transferido para Balneário, já em 2007. Comecei uma militância intensa, que eu não podia fazer enquanto era policial e nem em Blumenau, porque morava na casa de um padre amigo meu. Quando vim para Balneário tive o meu primeiro relacionamento homoafetivo oficial, que culminou em um casamento de cinco anos. Depois fui para um segundo relacionamento por mais três anos, e atualmente estou casado com o Gustavo há dois anos. Trabalhamos juntos na Algar Telecom, uma empresa de telefonia. A questão da homofobia sempre foi intrínseca na sociedade, eu pude ver isso como policial, no futebol e dentro dos quartéis. Naquela época, nos anos 90, tirar sarro de gays, menosprezar travestis era uma coisa constante. Eu vi e vivi muito isso, porém sei que essas pessoas que criticam, ofendem e humilham são as mesmas que procuram estar com os gays, com as travestis, transexuais, enfim. A sociedade é machista e homofóbica em virtude da formação dela, que é religiosa. Muitas vezes a própria igreja prega que os gays vão para o inferno, que Deus não aceita, que vão morrer... ‘pinçam’ alguns itens da bíblia, mas esquecem que a bíblia condena o adultério, o alcoolismo, o furto, a mentira e tantas outras coisas. A homofobia é um câncer na sociedade. A pessoa não nasce homofóbica, ela é criada dentro de um ambiente homofóbico e passa a entender que aquele que faz o contrário dela merece todo o ódio. Homofobia é crime e quem não entendeu vai pagar perante a Justiça se praticar. Sobre a Parada de Balneário, a qual eu sou um dos organizadores, temos algumas dificuldades, porque temos um prefeito conservador, religioso, que não governa para o município e sim para algumas pessoas, principalmente para a igreja dele. Mas estamos aqui para lembrá-lo que o estado é laico. Ele tentou impedir a Parada em 2017, mas movemos uma ação junto ao Ministério Público, que entendeu que ele estava cometendo um ato homofóbico e o enquadrou inclusive com improbridade administrativa. Em 2018 fizemos uma linda Parada, 2019 foi a nossa maior, com 15 mil pessoas, que ele não pôde proibir. Tentou dizer que permitiu, mas na verdade ele só não enfrentou a Justiça, considerando que ele apoia outros eventos, inclusive religiosos. Este ano estamos aguardando, por enquanto está tudo em standby, todas as Paradas estão assim. Talvez tenha só a de São Paulo, representando o Brasil”.

Ana com a esposa Letícia, o filho André e a filha Anna.

“Continuamos aqui, somos membros da sociedade”

Ana Lodi é casada com Letícia atualmente e moram em Itajaí. Ela é mãe de André e Anna Laura, fruto de seu primeiro casamento, com Ana Cláudia; Ana Lodi e André ficaram conhecidos nacionalmente pela participação no programa Altas Horas, da Rede Globo (onde estiveram em 2016 e 2019), e compartilharam sua história: André é filho do primeiro casal homoafetivo feminino no Brasil a fazer reprodução artificial com sêmen de doador anônimo

“Estou morando com a Letícia desde janeiro de 2019 em Itajaí, antes morávamos em Balneário Camboriú. Sou carioca, mas estou em Santa Catarina desde outubro de 2017. O André ficou no Rio por conta da namorada, estudos, música. Ele mora com os meus pais. O cenário do Brasil está complicado, desde antes da eleição, onde já era possível ver que o presidente poderia ser eleito, a Comunidade LGBTQI+ já estava assustada por conta do que poderia acontecer com toda as minorias. Já era estarrecedor a população querer eleger uma figura tão nefasta, sabíamos que seria muito ruim e perigoso, e se tornou perigoso para todo mundo. Não é uma surpresa, há um clima de ‘eu avisei’. É muito assustador esse apoio que ele tem, quando vim para Santa Catarina, como carioca eu tinha a ideia que o estado era mais evoluído e na verdade não é. É conservador, a propaganda foi enganosa. Há uma elite retrógrada que não quer que as coisas mudem e isso não é só no Brasil. Por isso, a população mais carente segue sendo a mais explorada. O cenário direita x esquerda também está muito deturpado. Quando você compara Alckmin e Doria com o Bolsonaro, para a esquerda eles seriam excelentes considerando o atual, e a esquerda não é necessariamente PT. A direita vendeu uma criação fantástica baseada em fake news que demonizou toda a esquerda, com terraplanismo, gripinha. Temos que entender que o planeta só vai andar se as pessoas se preocuparem umas com as outras. Para ficar algo mais digno, focando na Comunidade LGBTQI+, precisamos ensinar o respeito desde cedo. Integramos a sociedade como qualquer outro grupo e portanto merecemos direitos como tal. Pessoas promíscuas existem em todas as classes, assim como decentes, corruptos. Simplesmente escolheram um grupo para colocar todos os defeitos do mundo, e não é bem assim. Tentam utilizar um discurso de ideologia, ensinando as crianças a serem preconceituosas, baseados em uma pseudo-moralidade. A homossexualidade é natural, acontece até no reino animal. Temos que ensinar também que não é não, que o machismo precisa acabar, que a mulher não é subordinada. O Dia Internacional é importante porque a visibilidade é necessária. Algumas pessoas se apegam que não precisa expor (casais homoafetivos), mas precisa sim porque é natural. Falam da promiscuidade, mas ela pode ser necessária porque às vezes é chocando que se chama atenção, porém não é a tônica do movimento. Nós queremos mostrar que continuamos aqui, somos membros da sociedade, merecedores de direitos e respeito”.

“Tem amigo meu que já morreu só por ser gay”

Alex Ferrer é empresário, conhecido em Balneário Camboriú por trabalhar junto de personalidades, agitador social e possui uma empresa de assessoria de imprensa, a Agência A

“Todo mundo tem história para contar, a minha começou literalmente quando eu nasci, em Taguatinga, cidade satélite de Brasília. Aos três dias de nascido eu fui adotado. Uma enfermeira do hospital se comoveu com a minha história e tentou arrumar uma família para me criar. Falou com a tia dela, que era vizinha da minha mãe adotiva. A minha mãe já tinho cinco filhos, era uma ex-favelada, não gosto de falar ‘comunidade’, adoram glamourizar pobreza, mas não, era favelada mesmo, da Favela do Jacarézinho, na Zona Norte do Rio, que é a segunda maior favela do Rio. Ela foi pra Brasília com o meu pai, que era PM. Eles já tinham três filhos, em Brasília tiveram mais dois, e me pegaram para criar. Ela era negra, meu pai branco, meus irmãos mulatos. Na hora de me pegar, é até engraçado, ela disse que queria uma criança negra, e a enfermeira enganou ela, disse que eu iria escurecer com o tempo (risos). Nossa casa tinha um quarto, ficava na última rua da cidade satélite, e a nossa família era a mais pobre do lugar mais pobre (risos). Já a questão do racismo, na década de 80 era super ‘comum’ o negro ser xingado na rua. Duas vizinhas, eram crianças também, falaram que as minhas irmãs valiam 500 réis. Passava na época Escrava Isaura na TV, e era esse o valor dos escravos na novela. Minha família era acusada de não gostarem da própria cor, porque eu sou branco. Minha vida profissional melhorou, consegui sair da pobreza, mas isso é outra história. Cada caso é um caso, tenho amigos que casaram e depois se descobriram gays, mas para mim quando os adultos me perguntavam de namoradinha, eu sabia que gostava dos menininhos. Já pequenininho eu sabia que não podia, respondia o nome de uma menina, mas na verdade era um menino. As pessoas sempre perguntam se sofri violência física, e eu nunca apanhei porque sempre saí correndo. Ser gay é status, todo mundo bate no peito que tem um amigo gay, todo grupo tem. Apesar de toda homofobia, perto do que era antes, hoje a gente vive no céu. Hoje o gay frequenta balada hetero, mas antes não podia, se descobrissem que o cara era gay meu Deus do céu! A primeira que eu frequentava em Brasília era em um subsolo, como se fosse uma sociedade secreta. Tem amigo meu que já morreu só por ser gay. O preconceito existe até hoje, o gay só é aceito facilmente se tem uma posição social. Temos muitas conquistas pela frente ainda, só queremos ser respeitados. Em pleno 2020, um gay não podia doar sangue. Isso é surreal. Baseado em que ele não poderia doar? Tem também aquele preconceito velado, escuto muito ‘você é gay e as pessoas nem percebem, você não chega espalhafatoso’, como se fosse vantagem ser ‘discreto’. No mundo hetero não tem a pessoa mais comedida, a pessoa engraçada? Por que no meio gay não pode ter o espalhafatoso, o discreto? Acho isso um absurdo porque o gay pode ter o comportamento que ele quiser, respeitando o próximo, e isso vale para todo mundo. Já me falaram que não deveria ter o Dia LGBT, e eu disse que concordo, mas que isso só poderá acontecer quando o gay parar de ser assassinado, ser maltratado por ser gay”.

“Você não precisa gostar de nós, mas deve nos respeitar”

Ana Paula Barretoé uma mulher trans e presidente da Associação das Travestis, Transexuais e Gays de Balneário Camboriú (Attgbc); nasceu em Londrina, mas mora em Balneário há 21 anos

“O sonho do meu pai era ter uma filha mulher. Ele e a minha mãe queriam ter só um filho, mas tentaram de novo porque queriam muito uma menina, e acabaram tendo três filhos homens. Eles haviam decidido adotar uma menina quando eu, o mais novo, crescesse, mas notaram que eu era diferente. Eu sempre gostei de homem e minha família sempre aceitou. Com 11, 12 anos, eu ia para matinês e lá conheci meninas trans que já tomavam hormônio e eu comecei a tomar também. Com 14 eu já tinha corpo feminino, e acabei contando para os meus pais e segui tomando. Eles aceitaram muito bem, e hoje eu sou esse mulherão (risos). Eu escolhi o nome Ana Paula porque era o nome que o meu pai queria dar para a filha. Ele já faleceu, mas sempre tivemos uma relação muito boa. Troquei de nome oficialmente, inclusive na certidão de nascimento está como Ana Paula Barreto. Quando cheguei em Balneário já existia a ONG (Attgbc), que era coordenada por uma senhora trans. Me interessei pela causa e comecei a ajudá-las. Já trabalho voluntariamente há 10 anos, e há seis estou como presidente. Antigamente o preconceito em Balneário era mais forte. O cenário melhorou, pois as trans, travestis e gays sabem que lutamos pelos direitos deles. Temos apoio da promotoria, juízes, advogados, como a delegada Daniela Bruce, o ex-secretário de Segurança, David Queiroz, o advogado dr. Ricardo Bruce. Conseguimos também cestas básicas para as meninas que trabalham na rua com a secretária de Inclusão Social Christina Barichello, e também com o dr. David. No começo, quando não existiam leis a nosso favor, como poder usar o banheiro feminino, também tínhamos que pagar ingresso masculino, era bem complicado, mas hoje mais nada disso acontece. Mesmo assim, a cena que vivemos politicamente é horrível. Esse presidente que estimula o ódio, o preconceito, está indo na contramão. O Dia Internacional é muito importante porque mostra que somos todos seres humanos, temos direito de ir e vir. Queremos apenas ser respeitadas. Amor é amor, todos temos CPF, votamos, pagamos imposto. Sempre falo que se sentem incomodados por cobrarmos nossos direitos, então por que não fazem uma lei que isenta a Comunidade LGBTQI+ de pagar impostos? Então aí vamos parar de incomodar e de cobrar, mas somente assim. Temos valor, não é por sermos gays, trans ou lésbicas que não podemos ser vendedoras em lojas, atrizes, cantoras. É muito bom ver o avanço das drags, por exemplo, como a Pabllo e a Gloria. Podemos fazer tudo, temos competência, não somos só objetos sexuais. Precisamos de mais empatia e respeito da sociedade. Você não precisa gostar de nós, mas deve nos respeitar. Não incentive o ódio, não nos agrida com palavras ou fisicamente. Somos todos iguais”.

Vitoria antes da transição e hoje

“Genital não define nada, muito menos meu gênero”

Vitoria Moon, 21 anos, é uma mulher trans e bissexual

“Eu sempre me vi como mulher. Tenho uma amiga que fala uma frase que é ‘eu fiz o teste e deu positivo’ (risos). Eu me assumi aos 17 anos, pois passei um tempo tentando agradar minha mãe e nada adiantava. Eu me tornei o filho perfeito, namorava, tinha emprego e boas notas na escola, mas não era feliz com a imagem no espelho. Por mais padrão que ela parecesse, não era eu. Decidi que viveria por mim e meu gatilho foi um documentário sobre uma mulher trans que só se assumiu aos 60 anos. Aquilo me desesperou! Minha mãe no começo renegou, mas entendeu que não havia nada de errado em quem eu era. Decidiu me acolher e hoje tem orgulho da mulher que sou. A minha transição foi tranquila de modo pessoal. Eu sabia onde eu queria chegar em relação a aparência e tive apoio dos que me amavam. Os que não me aceitavam eu fiz questão de me afastar, se não tem respeito por mim não merece caminhar ao meu lado. Durante a transição eu me relacionava com uma garota que acabou me magoando por dizer que preferia uma mulher de verdade. Sou bissexual e acabo de sair do meu primeiro relacionamento com um homem. Até então eu achava que era lésbica, por só ter me relacionado com mulheres. Esse meu último relacionamento foi incrível, porque além de me assumir ele foi parceiro em todos os momentos. Eu já passei por algumas coisas bem tensas. Na escola um professor se negava a me chamar pelo meu nome e começou a fazer com que outros professores também não me chamassem. Desenvolvi depressão e parei meus estudos, até hoje não conclui o Ensino Médio. Outros casos aconteceram em baladas, algumas pessoas se interessavam e, principalmente mulheres, quando contavam que eu sou trans começavam me agredir verbalmente. Eu ouvi tanto o ‘se você fosse mulher de verdade eu ficaria com você’ de gente aleatória. Eu não preciso que essas pessoas me validem como mulher, eu sou mulher e tenho a sorte de ser tratada assim pela grande maioria. Espero que tenham acesso a conhecimento e entendam um dia que genital não define nada, muito menos meu gênero. É maravilhoso me olhar no espelho e estar feliz com a minha imagem, me ver representada, sentir que sou eu mesma e que os outros me vêem assim, ser chamada pelo meu nome e ouvir que eu sou uma mulher inspiradora. Eu acabo sofrendo muito mais com o machismo do que com a transfobia em si. Por incrível que pareça, eu tenho visto muito mais comentários transfóbicos dentro do meio cis LGB do que fora, principalmente entre homens cis gays (Cisgênero é o indivíduo que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu) que tentam invalidar homens trans e pessoas não binárias. Só vamos estar realmente ocupando espaços quando não precisar mais ser noticiado cada pessoa LGBTQIA+ que estiver na mídia porque será comum. Vivemos no país que mais mata pessoas trans no mundo, por consequência o que mais mata pessoas LGBTs. A gente tem muito caminho pela frente. A nossa maior luta é para espalhar informação e conhecimento, pra que um dia todos entendam que não há nada de errado com nossas sexualidades e identidades de gênero. Isso não interfere no nosso caráter e não deve ser criminalizado e disseminado de forma deturpada e ruim por religiosos”.

“Desde criança eu sempre soube que em algum momento ia me tornar uma mulher”

Júlia Dalçóquio, 23 anos, é uma mulher trans e produtora de moda

“É muito complicado, eu não tive com quem conversar, me espelhar. Não conhecia nenhuma pessoa trans, então tive que fazer todo esse trajeto para me conhecer, saber o que é esse universo, praticamente sozinha. Em 2015 eu entrei em um grupo na internet que falava sobre pessoas trans e comecei a procurar referências, conheci Lea T, Laerte e Caitlyn Jenner, e comecei a ver que a gente tem ideia de pessoas trans marginalizadas, na prostituição, no mundo das drogas. Percebi que esse universo era mais real do que eu imaginava, que eu podia ser uma mulher e estar inclusa no trabalho, família, ter amigos. Desde criança, com sete, oito anos eu sempre soube que em algum momento ia me tornar uma mulher. Eu imaginava que dormiria e acordaria uma, não sabia que havia essa adequação, como costumamos falar. Na minha cabeça eu já era tão mulher, que imaginava que iria acordar fisicamente como uma. Eu queria me encontrar, li muitos relatos de mulheres trans reais. Tive depressão, achava que a realidade estava longe de mim. Não sabia qual seria a reação da minha família, até que um dia conversei com a minha mãe sobre tudo. Ela entendeu, mas pediu que eu fizesse a transição aos poucos para que não me arrependesse. Comecei a fazer a unha, deixei o cabelo crescer, um dia eu chegava com o shorts mais curto. Foi tão natural que as pessoas não se chocaram tanto. Já estou há três anos socialmente como mulher, me chamando Júlia, que é um nome que eu sempre achei muito bonito e meu nome masculino também começava com ‘Ju’. Acredito que antes da minha transição eu sofria muito mais preconceito por ser um menino afeminado do que hoje como mulher trans. Se alguém me diz ‘bom dia, menina’, um gesto simples e a obrigação da pessoa em me reconhecer como uma, mas já muda o meu dia. Preconceito não é só apanhar, ser expulso de casa, quando alguém me chama pelo meu nome antigo eu me sinto agredida, e já aconteceu bastante. Eu faço acompanhamento médico, faço exames para controlar hormônios, fiz acompanhamento psicológico. É muito difícil sofrer transfobia e machismo, que eu não imaginava que era tão forte. Os homens realmente acham que são muito melhores e que somos um objeto. Foi algo que me chocou muito. Por outro lado, acho que estamos conseguindo levantar a bandeira trans, estou trabalhando como produtora de moda. Só o fato de termos carteira assinada, estarmos empregadas, é um passo muito grande. Está havendo evolução, e é muito gratificante. Acredito que a mudança vai acontecer com a gente conversando, e que o preconceito está instalando por falta de conhecimento também. Minha família era extremamente transfóbica, homofobica, e quando me aceitaram eu quebrei vários preconceitos. Hoje eles veem homossexuais de outra forma, consegui reverter isso conversando”.

“A luta é diária”

Tina Tunel é drag queen desde 2004, sendo uma das mais antigas e conhecidas em atividade em Balneário Camboriú

“Eu sempre soube que eu era gay, mas vim de uma época em que éramos mais reservados, não havia a mesma liberdade que os jovens têm hoje. Eu nunca me assumi para a minha família, mas todos me respeitam muito. Nunca expus minha vida com um namorado, sempre de forma discreta. Mas se algum dia eu falar, não vai ser uma novidade. Há respeito entre todos nós. Vejo que os mais jovens gritam em casa, não respeitam os pais, e eu vejo que o respeito com a família é essencial. Sou bem resolvido quanto a isso. Moro em Balneário há 25 anos, comecei como drag em 2004 brincando, sou formado em Dança e Educação Física e eu dava aulas em escolas e academias de BC, não fico focada apenas na drag. Tenho uma ‘vida dupla’, aos fins de semana faço os shows com a Tina e durante a semana dou aulas de dança. Faço coreografias para debutantes e casamentos também. Tenho minhas redes sociais pessoais e também as da Tina. Tenho amigos que relatam homofobia, mas eu nunca sofri preconceito, nem pela minha cor ou por ser drag e gay. Respeito a todos, já me chamaram de gay, mas nunca fui agredido ou sofri retaliação. A Tina Tunel, minha drag, é muito respeitada. Meu trabalho é uma arte, não me monto em casa ou para sair na rua, minha drag é meu trabalho. Gosto de glamour, de brilho, quando chego sou um destaque, não sou de passar percebida. Para mim, a arte drag é essa, minha vida é assim. Gosto de levar a alegria para todos, inclusive faço muitos eventos heteros, como casamentos, aniversários, já levei até aliança, fui madrinha montada como Tina. Recebo muito carinho. Mas, infelizmente, já perdi dois amigos assassinados de forma brutal, vítimas da homofobia em Balneário Camboriú e Porto Belo. As travestis e transex são as mais expostas, por muitas estarem na rua. Tem gente que não as aceita, batem. Eu vejo que Deus deu a nossa vida para cada um seguir o que quer, todos devem se respeitar. Essa pandemia é uma chance para mudarmos. Somos todos iguais, perante qualquer religião. Eu não vou em um ambiente hetero sem ser convidada, tenho consciência, mas se um hetero for em uma balada GLS tem que respeitar, é o meu espaço. Acredito que o Dia Internacional é importante, mas a luta é diária. O preconceito pode ser vivenciado a qualquer momento. As pessoas precisam entender que todo mundo tem seu espaço e precisamos nos respeitar”.

“Eu não sou menos mulher por ser lésbica”

Natália Guilhermetti Garcia, 24 anos, advogada do Centro de Referência especializado em assistência social e membro da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB de Itajaí

“Somos criados na visão heterossexual de família e os pais exercem um papel muito forte na nossa construção. Bem verdade que os pais moldam os filhos aos seus próprios anseios, por isso a aceitação costuma ser difícil. Sempre ouvimos “eu não te criei pra ser assim”. Assim como, se sou normal. A homossexualidade existe desde que mundo é mundo, mas ninguém nunca espera que isso aconteça em seu círculo familiar. Eu me assumi com 16 anos. O começo foi difícil, com meus pais. Meus amigos sempre foram incríveis e tenho todos ao meu lado desde então. Hoje posso afirmar que eu ser lésbica não é um problema pra minha família, que é maravilhosa e me apoia em tudo. Eu sempre quis cursar Direito. Durante o curso fui me afeiçoando com as áreas sociais, inclusive é no que trabalho hoje. Acho muito importante que cada vez mais mulheres, negros e LGBTQI+ ocupem os espaços jurídicos, que, infelizmente, ainda são machistas e patriarcais. Depois de formada, aprovada na OAB e em concurso público, consigo ter minha voz mais ouvida, posso ocupar mais espaços. E é justamente aí que a Comissão da OAB se faz tão importante. A subseção de Itajaí, onde participo, é extremamente receptiva com tudo que é proposto. Acho que isso é um ponto de partida, poder mostrar realidades de um público que, até então, era somente visto e não ouvido. Já liderei militâncias na região, hoje faço um trabalho diferente, mas continuo atuando no que posso. A militância sulista, falo como um todo, é muito segregada dos espaços políticos. Não são chamadas para a discussão, não tem seus pleitos ouvidos e não consegue se manter 100% atuante por todo o tempo. A comunidade LGBTQI+ é unida. Sempre quando precisei tinha alguém pra me auxiliar, escutar. Só acho que são pouquíssimas pessoas que estão na linha de frente na luta pelos direitos LGBT’s. Além de olhares raivosos e comentários desrespeitosos, eu não posso dizer que sofri homofobia, pois sou uma mulher lésbica padrão. O chamado ‘confortável aos olhos’. E sou privilegiada por isso, sim. Mas convivo com pessoas que já foram agredidas, ameaçadas, expulsas de casa. A situação que mais me incomoda são comentários insinuando que sou lésbica porque nenhum homem me fez mulher. Eu não sou menos mulher por ser lésbica. Sendo sincera que a onda do conservadorismo pesou e muito, principalmente na região. Santa Catarina ainda carrega consigo traços de sua colonização e construção conservadora e patriarcal. Os projetos voltados à população LGBTQI+ são cada vez menos colocados em pauta. Os Poderes Legislativos não são abertos ao diálogo. Maior exemplo disso é que a equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo, que a enquadrou como crime, veio do nosso Judiciário, pelo STF, justamente pela inércia do nosso Legislativo em ouvir um público que é violentado todos os dias. Acho que a homofobia se materializa em diversas formas. É a violência física e moral, com certeza. Mas também é o abuso da família na não aceitação, é a sexualização da mulher lésbica, é a tratativa dos homens gays como se fossem “mulherzinhas”, é a negação da identidade sexual dos transexuais e transgêneros. É essa a importância do Dia Internacional Contra a LGBTfobia... que conseguimos ocupar espaços como esse aqui: falar, sermos ouvidos, propagarmos consciência a quem ainda tem preconceito”.

“Não tem medo e receio que possa nos parar”

Thiago Julio, 24 anos, é jornalista

“Quando eu tinha 10 anos eu comecei a descobrir a minha sexualidade com um conhecido, que tinha a mesma faixa etária que a minha. Até que aos 14 anos, após eu insistir, demos o primeiro beijo. Para mim aquilo era muito errado, eu não me aceitava. Orava bastante, não queria ser assim. Na época minha família era extremamente preconceituosa. Eu era muito afeminado, e realmente me culpava muito pela atração que eu sentia pelo menino. Entrei na faculdade em 2013, falando que era hetero, depois mudei para bissexual, até que comecei a ficar com um rapaz e comecei a me aceitar, a sair para boates. Meu tio me questionava bastante. Em 2014 me apaixonei pela primeira vez e contei para a minha madrasta, nesse mesmo ano minha vó me confrontou porque uma prima minha se assumiu lésbica, mas eu menti. Somente em 2017 eu tive o meu primeiro namoro, prestes a me formar na faculdade, e postava fotos com o meu ex. Outro tio meu, que morava conosco, pegou uma foto e minha vó viu e me confrontou novamente, três anos depois e eu disse para ela que era meu namorado. A reação dela foi, a princípio, de vergonha, mas não teve briga. A partir disso toda a minha família soube que era gay. Com o meu vô não houve uma conversa, mas por eu ter uma carreira consolidada como jornalista, ajudo eles, acaba sendo uma situação tranquila. Nunca sofri ataque de fato de homofobia, mas já presenciei um casal de amigas sendo xingadas por serem lésbicas. Chorei muito quando o atual presidente foi eleito, o que para mim foi um retrocesso. É um presidente genocida, que apoia a ditadura, contra os direitos humanos, intensificou o discurso de ódio para as minorias, e por isso continuamos à margem da sociedade. É um desserviço o que ele traz. A Comunidade LGBTQI+ possui muitos direitos já conquistados, mas eu vejo que ainda temos muito a lutar. Entre 1963 e 2018 mais de nove mil pessoas LGBTs foram mortas por serem LGBTs, fora os casos que não foram denunciados ou descritos de outras formas. Eu vejo que o Sul é uma região que passa a falsa segurança, ainda há o preconceito, o olhar de ódio, a agressão. Vejo que a gente dá dois passos para frente e cinco para trás. Com esse novo governo está ainda mais escancarado. Um terço da população ainda quer acabar com a Comunidade LGBT, que não consegue entender que é uma condição nossa. Nascemos assim, não é um distúrbio, um problema de saúde. Temos que desde cedo ensinar que as pessoas são diferentes, gêneros, sexos, religiões, raças. Não podemos ensinar as crianças a ter olhar de raiva, desdém. Não tem medo e receio que possa nos parar. Estamos lutando por respeito, equidade, pois temos os mesmos deveres que a comunidade heterossexual tem, só queremos poder ir e vir sem medo, sem precisarmos nos preocupar com a integridade da nossa vida, só queremos ter uma vida normal porque somos normais. Inferior é o preconceito das pessoas”.

“A gente não cansa, não”

Gabriel da Silva, 23 anos, psicólogo clínico

“Me assumi com 15 anos, ainda no começo do Ensino Médio. Foi um momento muito difícil, eu queria mudar de escola. Nasci, cresci e moro até hoje em Camboriú, e percebo que é mais difícil porque é mais conservadora, evangélica. É difícil poder falar sobre isso na cidade. O que me ajudou muito foram amigos que estavam comigo naquele momento, a escola foi fundamental, tive muito apoio da coordenação. Até então minha família não sabia, eu tinha muito medo da reação deles. Foi a coordenadora que me incentivou a contar, porque eu precisava ter suporte dentro de casa. A primeira a saber foi minha cunhada, e depois em casa para minha mãe e irmãos. Meu pai, para quem eu mais tinha medo, me falou que não tinha ódio e que sempre vai me amar e apoiar em minhas decisões. Aquilo me deu uma liberdade. Foi fundamental o apoio deles, me senti acolhido, mudou a minha trajetória. Hoje estou noivo, e lembro que quando meu noivo veio pra cá, pra morar comigo, foi um momento de muita felicidade. Lembro da minha mãe mostrando fotos do resto da família com ele. Ver o quanto tudo mudou me faz sentir muito bem. Estamos quase casando (risos), e minha mãe ama ele, eles têm uma relação ótima. Existe um espaço e um lugar onde podemos ser nós. Ainda com 17 anos eu decidi que queria cursar Psicologia, e a cada semestre a paixão só aumentava, é algo que não tem fim, um encantamento diário até hoje. Meu TCC foi sobre a população trans de Balneário Camboriú, na rua (com as que trabalham com prostituição), visitei apartamentos, casas, elas se sentiram muito acolhidas, confiaram muito. Entreguei máquinas fotográficas para elas e elas fotografaram onde percebiam violência. Elas reconhecem que esse ‘trabalho’ é o único que sobrou para elas como sobrevivência. Foi nítido perceber o quanto a política de cuidado com elas em Balneário é a distribuição de camisinhas, somente isso. Também relataram que a polícia não vai até elas por saber que estão ligadas à prostituição, não são acolhidas e respeitadas por quem são. Foi um trabalho incrível e só mostrou o quanto é necessário olharmos para essa população. Foi realmente muito interessante mergulhar nessa realidade. Eu já vivenciei a homofobia, apesar da coordenação da escola ter me apoiado, foi nesse cenário que ouvi comentários. Lembro que aos 10 anos um grupo de crianças começou a apontar o dedo e me chamar de ‘viadinho’. Eu não entendia a situação, mas saí correndo e voltei para a sala de aula. Eu até me escondia, não conseguia compartilhar com a minha família. É importante falarmos sobre homofobia na região em que vivemos, que é conservadora, Santa Catarina é um estado conversador, na verdade. Não temos que falar somente no Dia, e sim todos os dias. Estamos aqui, temos voz, e é possível ocuparmos esses lugares. Ainda temos muito que mudar, precisamos de mais respeito, segurança. Enquanto eu não me sentir inseguro para dar a mão para o meu noivo na rua, é sinal de que ainda precisamos avançar. Conquistamos muito, mas precisamos ainda mudar, porque o medo paira no ar. A gente não cansa, não. Enquanto políticos conservadores, evangélicos continuarem tentando retirar os nossos direitos, nossa cidadania, estaremos lutando sempre. Nossa voz existe, é importante e é totalmente necessária para a construção da sociedade”.



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