Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Desafio do covid-19 é encontrar um fármaco que funcione e seja seguro

Segunda, 11/5/2020 8:01.
EBC.

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Pablo Pereira
Para o físico Antonio José Roque, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) de Campinas, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o grande desafio na pesquisa pela cura da covid-19 é encontrar um fármaco que funcione contra o coronavírus, mas que seja seguro para o paciente. Segundo ele, o CNPEM não trabalha com a produção de vacinas.

O trabalho de uma centena de cientistas da instituição se concentra na identificação de medicamentos, entre os já existentes, que ofereçam a maior possibilidade de enfrentamento da doença. Para isso, segundo o diretor do órgão, os cientistas vão usar análises de dados fornecidos ao moderno sistema de computadores conhecido como Sírius, um projeto de quase R$ 2 bilhões, iniciado em 2012.

Ao todo, estão sendo analisados cerca de 2 mil remédios com potencial para combater o Sars-CoV-2.

Somente uma vacina desenvolvida rapidamente poderá evitar que milhões de pessoas morram e permitir que a economia volte a funcionar.

A avaliação é do médico Edecio Cunha Neto, professor da USP que faz parte da equipe da pesquisa do Incor. O estudo já foi iniciado com o primeiro grupo de cem doadores de sangue voluntários.

De acordo com o médico, há hoje cerca de 170 grupos de cientistas no mundo trabalhando em uma vacina para a covid-19.

O grupo de cientistas do Incor, em conjunto com o Instituto de Ciências Biomédicas da USP e a Escola Paulista de Medicina (Unifesp), tem a coordenação de Jorge Kalil e opera para detectar anticorpos e linfócitos T de células de defesa do organismo de pacientes que tiveram a doença para, com esse material de doadores, descobrir quais partes do vírus podem ser atacadas pela vacina, com segurança, para evitar a invasão celular e replicação do vírus.

A questão da imunização, de acordo com os cientistas, é que o grupo que sair na frente com uma vacina terá de apresentar um produto de qualidade, ou seja, com a capacidade de imunizar por longo prazo e com segurança.

O time que conseguir resultado positivo primeiro, argumentam os cientistas, vai abastecer seus doentes, depois os infectados dos parceiros de seus países de origem para, depois, permitir a exportação do produto. Essa operação significa que, se o Brasil ficar dependente de descobertas estrangeiras, pode ficar por longo período sem acesso à vacina. Por isso, raciocinam os pesquisadores nacionais, é preciso desenvolver aqui uma tecnologia.

Há ainda um ponto pouco destacado: é pouco provável que a primeira ou segunda vacina seja altamente eficaz. O desenvolvimento de imunizantes é imprevisível até o fim.

"Temos então essas que já estão sendo testadas em humanos e sairão mais rápido, mas não se pode garantir que alguma dessas vai funcionar", diz o médico.

No caso da vacina do HIV, de todas as que foram testadas até agora, nenhuma funcionou.

Voluntários participam das pesquisas

A descoberta de uma vacina contra o Sars-CoV-2 é fundamental contra o avanço do vírus, que já infectou mais de 4 milhões. A corrida por um mecanismo de imunização de massa conta com dezenas de grupos de cientistas no mundo, com iniciativas de pesquisas de vacinas que precisam de pessoas que se ofereçam como cobaias para testes e outras que se transformam em doadores voluntários de sangue para bancos de estudos.

Enquanto no exterior grupos arregimentam interessados, no Incor, em São Paulo, pesquisadores em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) já reúnem um grupo de cem voluntários que doaram sangue para um banco de material a ser estudado em busca de anticorpos resistentes ao vírus.

"Eu sou voluntária porque conheço a doença", conta Waldineia Campos, de 43 anos, enfermeira que contraiu a covid-19 e ficou 13 dias hospitalizada.

Depois de consultar o médico Luan Lopes, que a tratou durante a internação, ela foi ao Incor para se inscrever como voluntária para a pesquisa do grupo coordenado por Edecio Cunha Neto e chefiada pelo médico Jorge Kalil.

Como voluntária, Waldineia doou sangue e faz parte de um grupo de cem pessoas que entraram para a pesquisa de uma vacina, ainda longe de chegar aos pacientes.

"Foi uma decisão pessoal. Eu recebi um convite pelo Facebook e decidi colaborar", contou. "O pessoal do Incor disse que a gente será informado dos resultados do estudo", comentou a voluntária, demonstrando orgulho por participar.

Ela lembrou ainda dos momentos de sua luta particular contra a infecção. "Eu fiquei muito debilitada, sem energia, não conseguia nem me mexer, e precisei de oxigênio."

Pagamento

Kalil publicou vídeo com chamamento para voluntários que já tiveram a doença para doação de sangue. E divulgou o endereço na web para inscrições de interessados: iii.org.br/coronavírus.

O coordenador do grupo, Edecio Cunha Neto, explicou que o projeto já estava em andamento.

"Fechamos um grupo de cem doadores para iniciar a pesquisa", contou Cunha Neto.

Segundo o coordenador do Incor/USP/Unifesp, não há qualquer pagamento a doadores. "Eles são doadores voluntários. Não há pagamento."

No exterior, plataformas de web como a 1Day Sooner informam que cadastram milhares de candidatos para integrarem pesquisas de vacina, mas com outra meta. Precisam ser pessoas jovens e saudáveis que aceitem ser cobaias.

Segundo especialistas, nos Estados Unidos as chamadas cobaias podem receber até US$ 100 para participar dos experimentos.

De acordo com reportagem do domingo passado do programa Fantástico, da TV Globo, pelo menos dois brasileiros fariam parte desse grupo, um do Rio Grande do Sul e uma mulher do Rio.

No Rio Grande do Sul, o estudante universitário Pablo Fernandes, de 21 anos, morador de Canoas, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, admitiu ser um dos voluntários cadastrados no site estrangeiro para serem infectados.

(*O Página 3 reproduz sob licença o conteúdo do jornal O Estado de S. Paulo.)


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EBC.

Desafio do covid-19 é encontrar um fármaco que funcione e seja seguro

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Segunda, 11/5/2020 8:01.

Pablo Pereira
Para o físico Antonio José Roque, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) de Campinas, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o grande desafio na pesquisa pela cura da covid-19 é encontrar um fármaco que funcione contra o coronavírus, mas que seja seguro para o paciente. Segundo ele, o CNPEM não trabalha com a produção de vacinas.

O trabalho de uma centena de cientistas da instituição se concentra na identificação de medicamentos, entre os já existentes, que ofereçam a maior possibilidade de enfrentamento da doença. Para isso, segundo o diretor do órgão, os cientistas vão usar análises de dados fornecidos ao moderno sistema de computadores conhecido como Sírius, um projeto de quase R$ 2 bilhões, iniciado em 2012.

Ao todo, estão sendo analisados cerca de 2 mil remédios com potencial para combater o Sars-CoV-2.

Somente uma vacina desenvolvida rapidamente poderá evitar que milhões de pessoas morram e permitir que a economia volte a funcionar.

A avaliação é do médico Edecio Cunha Neto, professor da USP que faz parte da equipe da pesquisa do Incor. O estudo já foi iniciado com o primeiro grupo de cem doadores de sangue voluntários.

De acordo com o médico, há hoje cerca de 170 grupos de cientistas no mundo trabalhando em uma vacina para a covid-19.

O grupo de cientistas do Incor, em conjunto com o Instituto de Ciências Biomédicas da USP e a Escola Paulista de Medicina (Unifesp), tem a coordenação de Jorge Kalil e opera para detectar anticorpos e linfócitos T de células de defesa do organismo de pacientes que tiveram a doença para, com esse material de doadores, descobrir quais partes do vírus podem ser atacadas pela vacina, com segurança, para evitar a invasão celular e replicação do vírus.

A questão da imunização, de acordo com os cientistas, é que o grupo que sair na frente com uma vacina terá de apresentar um produto de qualidade, ou seja, com a capacidade de imunizar por longo prazo e com segurança.

O time que conseguir resultado positivo primeiro, argumentam os cientistas, vai abastecer seus doentes, depois os infectados dos parceiros de seus países de origem para, depois, permitir a exportação do produto. Essa operação significa que, se o Brasil ficar dependente de descobertas estrangeiras, pode ficar por longo período sem acesso à vacina. Por isso, raciocinam os pesquisadores nacionais, é preciso desenvolver aqui uma tecnologia.

Há ainda um ponto pouco destacado: é pouco provável que a primeira ou segunda vacina seja altamente eficaz. O desenvolvimento de imunizantes é imprevisível até o fim.

"Temos então essas que já estão sendo testadas em humanos e sairão mais rápido, mas não se pode garantir que alguma dessas vai funcionar", diz o médico.

No caso da vacina do HIV, de todas as que foram testadas até agora, nenhuma funcionou.

Voluntários participam das pesquisas

A descoberta de uma vacina contra o Sars-CoV-2 é fundamental contra o avanço do vírus, que já infectou mais de 4 milhões. A corrida por um mecanismo de imunização de massa conta com dezenas de grupos de cientistas no mundo, com iniciativas de pesquisas de vacinas que precisam de pessoas que se ofereçam como cobaias para testes e outras que se transformam em doadores voluntários de sangue para bancos de estudos.

Enquanto no exterior grupos arregimentam interessados, no Incor, em São Paulo, pesquisadores em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) já reúnem um grupo de cem voluntários que doaram sangue para um banco de material a ser estudado em busca de anticorpos resistentes ao vírus.

"Eu sou voluntária porque conheço a doença", conta Waldineia Campos, de 43 anos, enfermeira que contraiu a covid-19 e ficou 13 dias hospitalizada.

Depois de consultar o médico Luan Lopes, que a tratou durante a internação, ela foi ao Incor para se inscrever como voluntária para a pesquisa do grupo coordenado por Edecio Cunha Neto e chefiada pelo médico Jorge Kalil.

Como voluntária, Waldineia doou sangue e faz parte de um grupo de cem pessoas que entraram para a pesquisa de uma vacina, ainda longe de chegar aos pacientes.

"Foi uma decisão pessoal. Eu recebi um convite pelo Facebook e decidi colaborar", contou. "O pessoal do Incor disse que a gente será informado dos resultados do estudo", comentou a voluntária, demonstrando orgulho por participar.

Ela lembrou ainda dos momentos de sua luta particular contra a infecção. "Eu fiquei muito debilitada, sem energia, não conseguia nem me mexer, e precisei de oxigênio."

Pagamento

Kalil publicou vídeo com chamamento para voluntários que já tiveram a doença para doação de sangue. E divulgou o endereço na web para inscrições de interessados: iii.org.br/coronavírus.

O coordenador do grupo, Edecio Cunha Neto, explicou que o projeto já estava em andamento.

"Fechamos um grupo de cem doadores para iniciar a pesquisa", contou Cunha Neto.

Segundo o coordenador do Incor/USP/Unifesp, não há qualquer pagamento a doadores. "Eles são doadores voluntários. Não há pagamento."

No exterior, plataformas de web como a 1Day Sooner informam que cadastram milhares de candidatos para integrarem pesquisas de vacina, mas com outra meta. Precisam ser pessoas jovens e saudáveis que aceitem ser cobaias.

Segundo especialistas, nos Estados Unidos as chamadas cobaias podem receber até US$ 100 para participar dos experimentos.

De acordo com reportagem do domingo passado do programa Fantástico, da TV Globo, pelo menos dois brasileiros fariam parte desse grupo, um do Rio Grande do Sul e uma mulher do Rio.

No Rio Grande do Sul, o estudante universitário Pablo Fernandes, de 21 anos, morador de Canoas, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, admitiu ser um dos voluntários cadastrados no site estrangeiro para serem infectados.


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