Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Como os pesquisadores do Einstein descobriram novo vírus no Brasil

Teste inovador é capaz de diagnosticar várias doenças causadas por este e outros tipos de micro-organismo

Terça, 21/1/2020 13:09.
Divulgação Einstein.

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Fábio de Oliveira/Agência Einstein

Os sintomas do paciente levavam a crer que era febre amarela: estava febril, com hemorragia e confusão mental, além de hepatite, que pode ocorrer como uma complicação da febre amarela, doença causada por um vírus transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti. Além disso, a época, virada do ano, corresponde ao período em que geralmente começam os surtos da enfermidade. Vindo do interior de São Paulo, o homem de 52 anos havia sido transferido para o Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP). Tinha passado férias em Eldorado, no Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo. Para chegar a um diagnóstico conclusivo, a equipe de médicos do HC/SP enviou amostras de sangue para o laboratório do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

As duas instituições e mais de uma dezena de centros de referência no país participam do projeto Estudo das características epidemiológicas e clínicas das hepatites virais agudas em serviços de saúde brasileiros, do Ministério da Saúde, por meio do programa PROADI-SUS. No Einstein, todos os exames de sorologia e biologia molecular previstos pela iniciativa para pesquisas de agentes patogênicos envolvidos com o quadro foram empregados. Deram negativo. Então, resolveu-se utilizar um novo método desenvolvido pelo hospital paulistano que não está previsto inicialmente no projeto: o viroma/metagenômica. Isso porque os médicos do HC continuavam sem um diagnóstico conclusivo. Graças a este teste chegou-se a um diagnóstico inesperado: um novo vírus estava por trás de todos os sintomas experimentados pelo paciente.

A nova técnica diagnóstica funciona da seguinte forma: na primeira etapa do teste, chamada de bancada, pega-se a amostra e extrai-se todo o material genético. Ele é encaminhado para sequenciadores, que fazem sua identificação e a leitura de suas bases nitrogenadas, as letrinhas A (adenina), C (citosina), T (timina) e G (guanina). Daí, gera-se um arquivo com elas. “Esse resultado vai para a etapa seguinte, a de bioinformática”, informa o bioinformata Deyvid Amgarten, que participa da pesquisa. Pega-se essa sequência, que é como se fosse um código de barras para cada organismo, e busca-se um match nos bancos de dados, uma correspondência com o material genético depositado ali por outros pesquisadores do mundo todo.

Foi nessa fase que se identificou um arenavírus. O resultado surgiu na tela do computador de Amgarten no dia 14 de janeiro: Mammarenavirus, gênero dos vírus da família Arenaviridae. Assim que viu a informação, correu para avisar via WhatsApp o médico João Renato Rebello Pinho, coordenador do laboratório de técnicas especiais do Einstein, e sua colega, a biomédica Fernanda Malta, responsável por realizar as reações do viroma. Rebello alertou de pronto o time do HC devido à importância do achado. O teste criado pelos pesquisadores é capaz de detectar vírus responsáveis por diversos males, como hepatites, sarampo, rubéola, dengue, Chikungunya, febre amarela, sarampo, caxumba e aids. Não só vírus: bactérias e parasitas também. Isso porque analisa o RNA desses microrganismos.

Os arenavírus são vírus conhecidos por infectar roedores e, ocasionalmente, seres humanos e outros animais. Seus sintomas variam, mas se manifestam de forma muito parecida com os da febre amarela. Podem ser transmitidos via contato com mucosas de pessoas infectadas e causam uma enfermidade de alto risco de morte. Por isso, ele é classificado como nível máximo de biossegurança pelas agências de vigilância sanitária. A principal precaução é não entrar em contato com urina e fezes de ratos e roedores.

O último micro-organismo dessa, digamos, família viral, foi identificado no Brasil em 1994 no Jardim Sabiá, em Cotia, no interior de São Paulo. Daí a alcunha Sabiá arenavírus. Uma mulher morreu devido à infecção. Como suspeita-se que o paciente do HC tenha sido contaminado por outro tipo do clã Mammarenavirus em Eldorado, a descoberta foi batizada de Eldorado arenavírus. Amostras dele serão encaminhadas para o Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos, um dos principais centros epidemiológicos do mundo e também um dos poucos a dispor de laboratório com nível de segurança 4, onde ficam armazenados amostras dos vírus potencialmente letais. Exemplares de Ebola, por exemplo, ficam lá.

O novo teste de diagnóstico, semelhante a outros já utilizados no exterior, promete mudar a rotina de identificação dos agentes infecciosos. “O raciocínio clínico atualmente é pesquisar um por vez”, diz Rebello Pinho. “Queremos tentar implementar esse novo teste como um substituto de vários outros.” Dessa forma, rastreiam-se diversos micro-organismos de uma vez só. “Sabemos que vírus e agentes patogênicos podem causar doenças muito parecidas. É muito difícil para um médico determiná-las.” Sem falar na economia de custos. Ele continua: “Estamos propondo no Einstein em casos muito graves partir para esse teste mais amplo e, assim, identificar o micro-organismo por trás da doença e indicar o tratamento rapidamente.”

O exame é mais um exemplo da medicina de precisão, que chega ao alvo do problema. “Colhemos a amostra do paciente, investigamos e temos um dado preciso e personalizado”, fala Deyvid Amgarten. O método segue as regras do College of American Pathologists, acreditação contratada pelo Einstein que atesta a qualidade dos testes. Os resultados hoje saem em até 15 dias, mas a intenção é chegar a quatro ou cinco. “Nossa proposta não é só realizar testes para pesquisa. É fazer também exames que sejam úteis, de rotina”, diz Rebello Pinho. A descoberta do Eldorado arenavírus será tema de um artigo em um periódico científico internacional com impacto.


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Divulgação Einstein.

Como os pesquisadores do Einstein descobriram novo vírus no Brasil

Teste inovador é capaz de diagnosticar várias doenças causadas por este e outros tipos de micro-organismo

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Terça, 21/1/2020 13:09.

Fábio de Oliveira/Agência Einstein

Os sintomas do paciente levavam a crer que era febre amarela: estava febril, com hemorragia e confusão mental, além de hepatite, que pode ocorrer como uma complicação da febre amarela, doença causada por um vírus transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti. Além disso, a época, virada do ano, corresponde ao período em que geralmente começam os surtos da enfermidade. Vindo do interior de São Paulo, o homem de 52 anos havia sido transferido para o Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP). Tinha passado férias em Eldorado, no Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo. Para chegar a um diagnóstico conclusivo, a equipe de médicos do HC/SP enviou amostras de sangue para o laboratório do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

As duas instituições e mais de uma dezena de centros de referência no país participam do projeto Estudo das características epidemiológicas e clínicas das hepatites virais agudas em serviços de saúde brasileiros, do Ministério da Saúde, por meio do programa PROADI-SUS. No Einstein, todos os exames de sorologia e biologia molecular previstos pela iniciativa para pesquisas de agentes patogênicos envolvidos com o quadro foram empregados. Deram negativo. Então, resolveu-se utilizar um novo método desenvolvido pelo hospital paulistano que não está previsto inicialmente no projeto: o viroma/metagenômica. Isso porque os médicos do HC continuavam sem um diagnóstico conclusivo. Graças a este teste chegou-se a um diagnóstico inesperado: um novo vírus estava por trás de todos os sintomas experimentados pelo paciente.

A nova técnica diagnóstica funciona da seguinte forma: na primeira etapa do teste, chamada de bancada, pega-se a amostra e extrai-se todo o material genético. Ele é encaminhado para sequenciadores, que fazem sua identificação e a leitura de suas bases nitrogenadas, as letrinhas A (adenina), C (citosina), T (timina) e G (guanina). Daí, gera-se um arquivo com elas. “Esse resultado vai para a etapa seguinte, a de bioinformática”, informa o bioinformata Deyvid Amgarten, que participa da pesquisa. Pega-se essa sequência, que é como se fosse um código de barras para cada organismo, e busca-se um match nos bancos de dados, uma correspondência com o material genético depositado ali por outros pesquisadores do mundo todo.

Foi nessa fase que se identificou um arenavírus. O resultado surgiu na tela do computador de Amgarten no dia 14 de janeiro: Mammarenavirus, gênero dos vírus da família Arenaviridae. Assim que viu a informação, correu para avisar via WhatsApp o médico João Renato Rebello Pinho, coordenador do laboratório de técnicas especiais do Einstein, e sua colega, a biomédica Fernanda Malta, responsável por realizar as reações do viroma. Rebello alertou de pronto o time do HC devido à importância do achado. O teste criado pelos pesquisadores é capaz de detectar vírus responsáveis por diversos males, como hepatites, sarampo, rubéola, dengue, Chikungunya, febre amarela, sarampo, caxumba e aids. Não só vírus: bactérias e parasitas também. Isso porque analisa o RNA desses microrganismos.

Os arenavírus são vírus conhecidos por infectar roedores e, ocasionalmente, seres humanos e outros animais. Seus sintomas variam, mas se manifestam de forma muito parecida com os da febre amarela. Podem ser transmitidos via contato com mucosas de pessoas infectadas e causam uma enfermidade de alto risco de morte. Por isso, ele é classificado como nível máximo de biossegurança pelas agências de vigilância sanitária. A principal precaução é não entrar em contato com urina e fezes de ratos e roedores.

O último micro-organismo dessa, digamos, família viral, foi identificado no Brasil em 1994 no Jardim Sabiá, em Cotia, no interior de São Paulo. Daí a alcunha Sabiá arenavírus. Uma mulher morreu devido à infecção. Como suspeita-se que o paciente do HC tenha sido contaminado por outro tipo do clã Mammarenavirus em Eldorado, a descoberta foi batizada de Eldorado arenavírus. Amostras dele serão encaminhadas para o Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos, um dos principais centros epidemiológicos do mundo e também um dos poucos a dispor de laboratório com nível de segurança 4, onde ficam armazenados amostras dos vírus potencialmente letais. Exemplares de Ebola, por exemplo, ficam lá.

O novo teste de diagnóstico, semelhante a outros já utilizados no exterior, promete mudar a rotina de identificação dos agentes infecciosos. “O raciocínio clínico atualmente é pesquisar um por vez”, diz Rebello Pinho. “Queremos tentar implementar esse novo teste como um substituto de vários outros.” Dessa forma, rastreiam-se diversos micro-organismos de uma vez só. “Sabemos que vírus e agentes patogênicos podem causar doenças muito parecidas. É muito difícil para um médico determiná-las.” Sem falar na economia de custos. Ele continua: “Estamos propondo no Einstein em casos muito graves partir para esse teste mais amplo e, assim, identificar o micro-organismo por trás da doença e indicar o tratamento rapidamente.”

O exame é mais um exemplo da medicina de precisão, que chega ao alvo do problema. “Colhemos a amostra do paciente, investigamos e temos um dado preciso e personalizado”, fala Deyvid Amgarten. O método segue as regras do College of American Pathologists, acreditação contratada pelo Einstein que atesta a qualidade dos testes. Os resultados hoje saem em até 15 dias, mas a intenção é chegar a quatro ou cinco. “Nossa proposta não é só realizar testes para pesquisa. É fazer também exames que sejam úteis, de rotina”, diz Rebello Pinho. A descoberta do Eldorado arenavírus será tema de um artigo em um periódico científico internacional com impacto.


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