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Corrida pela vida - Ruth Cardoso se destaca na captação de órgãos para transplantes

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Arquivo JP3.

Sexta, 5/1/2018 17:21.

(Waldemar Cezar Neto/Andréa Artigas*) - O Hospital Municipal Ruth Cardoso, de Balneário Camboriú, se destacou em 2017 na captação de órgãos para transplantes, ocupando a nona posição entre 52 hospitais catarinenses.

Antes do ano passado a participação do Ruth era pouco expressiva nesse que é um dos serviços mais meritórios oferecidos pelo sistema público de saúde brasileiro.

“Quem doa órgãos ajuda a salvar vidas” resume o coordenador do SC Transplantes Joel de Andrade, um dos responsáveis por tornar Santa Catarina o líder nacional nessa área da medicina.

O sucesso do Ruth Cardoso se deve à elevada taxa de convencimento, 73,7%, a melhor do Estado entre os hospitais mais bem situados no ranking estadual.

O convencimento é um dos momentos mais delicados da cadeia de transplantes porque médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos precisam abordar a família que está sofrendo a perda de um ente querido e convencê-la a doar órgãos.

Para isso é feito treinamento específico, assim como são treinados os profissionais em todas as etapas. O SUS cobre os custos, inclusive de captação em hospitais privados.

Após o paciente ser diagnosticado em morte encefálica a família é procurada e, caso autorize, são retirados os órgãos, dando início a uma corrida frenética pela vida de outras pessoas.

Os prazos são curtos, um coração ou pulmão deve ser transplantando em quatro horas, no máximo em seis. Fígado e pâncreas têm prazo de 8 a 12 horas e rins até 24 horas.

É um esforço gigantesco que inicia no hospital do doador e envolve equipes médicas, ambulâncias, viaturas policiais helicópteros e aviões.

Os melhores resultados são obtidos quando doador e receptor estão no mesmo hospital, mas isso raramente ocorre.

Cerca de 70% dos órgãos doados ficam em Santa Catarina e outros 30% são enviados a pacientes em outros Estados, levando em conta prioridades do cadastro técnico, compatibilidade entre doador e receptor e outros aspectos como a urgência.

Um doador pode ceder coração, pulmões, rins, fígado, intestino, pâncreas, tecidos oculares, válvulas cardíacas, pele e tecido ósseo. O SC Transplantes tem treinamento específico para todos esses órgãos.

As mortes encefálicas são apenas 20% em relação à necessidade dos receptores, a probabilidade de alguém necessitar de um órgão é muito maior do que sua morte ocorrer em condições de doar.

“Quando uma pessoa em vida se declara doadora a família jamais nega a opção, é muito importante que o doador deixe isto dito à sua família e que esta respeite a vontade dele” concluiu Joel de Andrade.

Joel de Andrade que coordena o SC Transplantes. (Foto Carlos Kilian).

O acolhimento que faz a diferença

Quatro enfermeiros formam a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT), do Hospital Municipal Ruth Cardoso.

Cada um deles assume, além das suas atividades diárias, uma semana por mês de plantão à frente desse serviço que tem a missão de reconhecer quando há o início de uma morte encefálica, dar a notícia do quadro aos familiares e ainda introduzir a possibilidade da doação de órgãos.

Três vezes por dia, o plantonista do CIHDOTT faz o que chamam de “busca ativa” dos pacientes em estado neuro-crítico, ou seja, que tenham um traumatismo craniano ou sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Ao se deparar com esse diagnóstico, o enfermeiro cadastra o paciente num sistema de monitoramento ligado à SC Transplantes e a partir desse protocolo acompanha a evolução do quadro e todas as manifestações clínicas do paciente.

Quando o protocolo é feito, a família passa a receber um acompanhamento próximo do enfermeiro que integra o serviço, que se dedica a passar todas as informações com clareza e frequência.

Eles buscam atender as necessidades peculiares das visitas, com o objetivo de proporcionar que os familiares acompanhem de perto a evolução do quadro.

“Nosso resultado é devido ao acolhimento dos familiares desde o começo desse protocolo. A regra é humanizar ao máximo o atendimento e o contato com os familiares. Assim, eles percebem que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e sentem-se mais seguros”, explicou o coordenador do CIHDOTT, o enfermeiro Grey Robson Filippi, 38 anos.

Quando a morte encefálica é confirmada, o primeiro procedimento é informar à família e tirar todas as dúvidas sobre esse quadro.

A conversa com a família acontece em uma sala reservada para esse fim. No local, reúnem-se o enfermeiro que integra a CIHDOTT, o médico, uma assistente social e um psicólogo.

“Cada caso é um caso. A regra é nunca falar em doação. Antes falamos sobre a morte, tiramos todas as dúvidas, falamos sobre liberação do corpo e só quando percebemos que a família aceitou a morte é que falamos sobre a opção de doação dos órgãos porque as pessoas têm o direito de saber que podem doar. Mas deixamos claro sempre que a vontade dos familiares será respeitada acima de tudo”, conta Grey.

As técnicas utilizadas pelos enfermeiros, responsáveis pela condução da conversa, foram adquiridas em três treinamentos feitos em Florianópolis, no SC Transplantes, onde eles aprenderam sobre o acolhimento ideal, entre outros procedimentos necessários a essa demanda.

Qualificados para agir nessa situação, a nova estratégia foi colocada em prática em fevereiro de 2017.

Em setembro do ano passado, relembra o coordenador, um paciente de 25 anos teve morte encefálica. A família autorizou a doação dos pulmões para um rapaz de 22 anos que desde o nascimento tinha problemas de saúde. “A irmã do doador conseguiu identificar quem recebeu e nos trouxe um áudio com um agradecimento emocionado do transplantado. Todos nós nos emocionamos”.

Para Grey, o maior desafio dessa missão é encontrar o momento certo de falar sobre esse assunto em meio à dor.

“Ainda falta informação sobre doação no Brasil, mas em geral, na maioria dos casos, quando falamos nessa opção as pessoas reconhecem nessa oportunidade a possibilidade de manter um pedacinho do seu ente querido vivo”, finaliza.

Na madrugada da última sexta-feira (5), Tatiana Jesus de Assis, 36 anos, integrante da equipe do CIHDOTT estava de plantão e acompanhou a primeira doação de órgãos do ano.

A família de uma jovem mulher, de apenas 37 anos, vítima de um AVC, autorizou o procedimento. “Me emocionei muito porque ela tinha quase a minha idade, jovem, ativa. A família estava com muita dor, mas mesmo assim, teve a sensibilidade de optar pela doação, em respeito a uma manifestação anterior da mulher”.

A enfermeira acredita que os resultados do Hospital Ruth Cardoso estão ligados diretamente ao relacionamento que a equipe estabelece com os familiares desde o primeiro contato. “Além disso, o trabalho em equipe e a nossa vontade em superar as dificuldades para priorizar a vida tem garantido bons resultados”, concluiu.

O quadro abaixo mostra os 10 principais hospitais catarinenses em captação de órgãos. 

* Waldemar Cezar Neto é editor do Página 3. Andréa Artigas é jornalista e exerce a profissão na prefeitura de Balneário Camboriú. Ela participou desta reportagem a convite do Página 3. 


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