Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Política
Martin Schulz Europa teme o risco de o Brasil rumar à polarização e ao isolacionismo

Para oex-presidente do Parlamento Europeu para que os maus vençam basta que os bons se calem

Sábado, 1/9/2018 7:41.
CUT

Publicidade

CAROLINA VILA-NOVA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Europa se preocupa com um Brasil que caminhe para o isolacionismo, a militarização da vida pública e a polarização social intensa, diz o ex-presidente do Parlamento Europeu e deputado alemão Martin Schulz, do Partido Social-Democrata (SPD).

Nesse contexto, e diante do avanço de partidos de extrema direita no mundo, Schulz, 62, avalia como urgente que a "maioria silenciosa" se manifeste, parafraseando o filósofo Edmund Burke (1729-1797): "para que os maus vençam, basta que os bons se calem".

O social-democrata veio ao Brasil prestar solidariedade ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja candidatura considera irreparavelmente prejudicada por sua prisão na Polícia Federal em Curitiba, onde o visitou. O SPD tem ligação histórica com o PT.

Schulz, que falou à Folha em São Paulo nesta sexta (31), se encontrou ainda com o vice de Lula, Fernando Haddad.

A viagem causou polêmica na Alemanha: embora seu partido integre a coalizão de Angela Merkel, ele veio apenas como deputado -informou o ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, do objetivo da visita, mas não debateu a situação de Lula com a chanceler.

Como foi seu encontro com Lula [na quinta, 30]?

- Discutimos as acusações contra ele, fizemos uma apreciação da situação política no Brasil do seu ponto de vista e debatemos as estratégias eleitorais do PT. Vi um homem bem-disposto, decidido, concentrado e focado. Foi um encontro emocionado, e a impressão que tive dele foi muito boa apesar da situação difícil.

Como o sr. vê a questão da prisão de Lula candidato presidencial?

- Enquanto observador externo, tenho de partir do princípio de que no Estado de direito democrático existe uma Justiça independente que vai trabalhar de acordo com os princípios de imparcialidade e neutralidade. Parto do pressuposto de que o Brasil é como os outros países.

Mesmo assim, desde que foram apresentadas as acusações contra Lula, e Lula não é qualquer um porque é ex-presidente, vejo uma sombra pairando. Se contra um ex-chefe de Estado se apresenta esse tipo de acusação, a Promotoria tem de ter 100% de segurança. Sinto que tudo é possível, mas que nesse processo há mais dúvidas que respostas.

A Comissão de Direitos Humanos da ONU colocou essa questão na mesa para o público internacional como algo que está causando um dano irreparável ao candidato.

Como avalia o cenário eleitoral brasileiro?

- Percebo uma radicalização no debate eleitoral que se traduz não apenas no linguajar, mas no desenvolvimento de uma perspectiva política e ideológica. Se isso prevalecer, o Brasil entraria para o rol de países que escolheram a via do nacionalismo e do isolacionismo, da militarização da vida pública e da polarização da sociedade em várias camadas. Outro dia uma colega fez uma comparação com as Filipinas do presidente Rodrigo Duterte.

A última vez que veio ao Brasil foi há 10 anos. O que achou diferente agora?

- Tudo. Há 10 anos o Brasil era um país emergente, admirado internacionalmente. Todos nós na Europa, sobretudo no Parlamento Europeu, esperávamos ansiosamente e observávamos o desenvolvimento do Brasil, tanto política quanto economicamente. O Brasil nunca havia sido visto como uma força motriz internacional e passou a ser. Lula, como presidente, foi a figura dessa abertura, do papel ativo na política multilateral, como nunca antes na história do país.

Hoje, só encontro pessoas muito preocupadas e, quando leio notícias sobre alguns candidatos, perco o ar, e não no sentido positivo. Nós sentimos a crise [nessa visita].

E não me refiro apenas a Jair Bolsonaro. A estagnação política, desde o impeachment de Dilma Rousseff, é palpável.

O Brasil é um país-chave para a América Latina. A eleição aqui é crucial para o resto do mundo. Vai ser decidido se a maioria da população é a favor da volta de uma política de inclusão social e da solidariedade, em termos internos, e do multilateralismo em termos externos, ou se prevalece essa luta de classes dentro do país e o isolacionismo. A eleição tem enorme importância.

Em uma escala menor que a europeia, o Brasil está enfrentando uma crise de imigração. Com sua experiência, como acha que as autoridades deveriam ou poderiam lidar com essa questão?

- O ponto de partida é outro e não pode ser comparado com as pessoas que chegaram à Europa da África, cruzando o Mediterrâneo. Creio que as pessoas que estão deixando a Venezuela prefeririam ficar lá, se pudessem. As pessoas que causam essas ondas migratórias, elas é que deveriam ser isoladas.

Fico chateado quando leio que o governo de [Nicolás] Maduro e seu grupo são socialistas. O governo da Venezuela não é socialista, é um bando de ditadores que está acabando com o país e enriquecendo às custas da população.

A Europa tem visto a ascensão de partidos nacionalistas, anti-imigração, de extrema direita e neonazistas. Os EUA elegeram Donald Trump. Como explica esses fenômenos?

- Vou citar três motivos que julgo essenciais. O mundo está cada dia mais complicado. Estamos cada vez mais integrados, mas para muitas pessoas fica a sensação de que há uma perda da ordem e da segurança. Quanto mais precária fica a situação devido à globalização econômica, e quando isso se combina com o medo de que ela coloque em risco a economia do país, tanto mais se torna radical essa posição contrária à globalização.

Outro elemento é que há políticos cínicos que se aproveitam desses sentimentos de temor que se reforçam mutuamente, de perda de identidade e de uma ameaça econômica, e o exploram com mensagens altamente simplificadas que dizem: "se votarem em mim, vou restabelecer a ordem".

Combinando isso com mudanças nas comunicações, quando esses políticos têm interação direta com os eleitores nas redes sociais, temos fenômenos como Trump. Vimos essa combinação da simplificação do discurso com o poder da mídia há 20 anos na Itália com Silvio Berlusconi [premiê]. Vemos isso de forma um pouco mais refinada com Trump e em variantes mais grosseiras em Varsóvia [presidente Andrzej Duda] e Budapeste [premiê Viktor Orbán].

Mas eles não são a maioria. A maioria das pessoas ainda quer a via democrática. O problema é que a maioria se cala. As forças pró-democracia não se mobilizaram em massa contra esses movimentos. Temos a frase do filósofo Edmund Burke: "para que os maus vençam, basta que os bons se calem". Acredito nisso.

A Alemanha vive uma onda de protestos de extrema direita. São isolados ou representam algo significativo?

- Essas pessoas violentas são minoria. Mas é o que acabo de dizer: se a grande maioria não fizer oposição visível e em voz alta, eles vão dominar a cena. Espero que haja um grande movimento na Alemanha para dizer a esse pessoal que eles não representam nosso país.

*O deputado alemão pelo SPD (Partido Social-Democrata) nasceu em Helrath (ex-Alemanha Ocidental), foi membro do Parlamento Europeu de 1994 a 2017, que presidiu por cinco anos, e, em 2017, enfrentou Angela Merkel na disputa pelo governo. Nunca completou o equivalente ao ensino médio, mas fala cinco línguas. Antes da política, teve uma livraria. É casado há 30 anos com Inge, com quem tem dois filhos


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade













Página 3
CUT

Martin Schulz Europa teme o risco de o Brasil rumar à polarização e ao isolacionismo

Para oex-presidente do Parlamento Europeu para que os maus vençam basta que os bons se calem

Publicidade

Sábado, 1/9/2018 7:41.

CAROLINA VILA-NOVA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Europa se preocupa com um Brasil que caminhe para o isolacionismo, a militarização da vida pública e a polarização social intensa, diz o ex-presidente do Parlamento Europeu e deputado alemão Martin Schulz, do Partido Social-Democrata (SPD).

Nesse contexto, e diante do avanço de partidos de extrema direita no mundo, Schulz, 62, avalia como urgente que a "maioria silenciosa" se manifeste, parafraseando o filósofo Edmund Burke (1729-1797): "para que os maus vençam, basta que os bons se calem".

O social-democrata veio ao Brasil prestar solidariedade ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja candidatura considera irreparavelmente prejudicada por sua prisão na Polícia Federal em Curitiba, onde o visitou. O SPD tem ligação histórica com o PT.

Schulz, que falou à Folha em São Paulo nesta sexta (31), se encontrou ainda com o vice de Lula, Fernando Haddad.

A viagem causou polêmica na Alemanha: embora seu partido integre a coalizão de Angela Merkel, ele veio apenas como deputado -informou o ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, do objetivo da visita, mas não debateu a situação de Lula com a chanceler.

Como foi seu encontro com Lula [na quinta, 30]?

- Discutimos as acusações contra ele, fizemos uma apreciação da situação política no Brasil do seu ponto de vista e debatemos as estratégias eleitorais do PT. Vi um homem bem-disposto, decidido, concentrado e focado. Foi um encontro emocionado, e a impressão que tive dele foi muito boa apesar da situação difícil.

Como o sr. vê a questão da prisão de Lula candidato presidencial?

- Enquanto observador externo, tenho de partir do princípio de que no Estado de direito democrático existe uma Justiça independente que vai trabalhar de acordo com os princípios de imparcialidade e neutralidade. Parto do pressuposto de que o Brasil é como os outros países.

Mesmo assim, desde que foram apresentadas as acusações contra Lula, e Lula não é qualquer um porque é ex-presidente, vejo uma sombra pairando. Se contra um ex-chefe de Estado se apresenta esse tipo de acusação, a Promotoria tem de ter 100% de segurança. Sinto que tudo é possível, mas que nesse processo há mais dúvidas que respostas.

A Comissão de Direitos Humanos da ONU colocou essa questão na mesa para o público internacional como algo que está causando um dano irreparável ao candidato.

Como avalia o cenário eleitoral brasileiro?

- Percebo uma radicalização no debate eleitoral que se traduz não apenas no linguajar, mas no desenvolvimento de uma perspectiva política e ideológica. Se isso prevalecer, o Brasil entraria para o rol de países que escolheram a via do nacionalismo e do isolacionismo, da militarização da vida pública e da polarização da sociedade em várias camadas. Outro dia uma colega fez uma comparação com as Filipinas do presidente Rodrigo Duterte.

A última vez que veio ao Brasil foi há 10 anos. O que achou diferente agora?

- Tudo. Há 10 anos o Brasil era um país emergente, admirado internacionalmente. Todos nós na Europa, sobretudo no Parlamento Europeu, esperávamos ansiosamente e observávamos o desenvolvimento do Brasil, tanto política quanto economicamente. O Brasil nunca havia sido visto como uma força motriz internacional e passou a ser. Lula, como presidente, foi a figura dessa abertura, do papel ativo na política multilateral, como nunca antes na história do país.

Hoje, só encontro pessoas muito preocupadas e, quando leio notícias sobre alguns candidatos, perco o ar, e não no sentido positivo. Nós sentimos a crise [nessa visita].

E não me refiro apenas a Jair Bolsonaro. A estagnação política, desde o impeachment de Dilma Rousseff, é palpável.

O Brasil é um país-chave para a América Latina. A eleição aqui é crucial para o resto do mundo. Vai ser decidido se a maioria da população é a favor da volta de uma política de inclusão social e da solidariedade, em termos internos, e do multilateralismo em termos externos, ou se prevalece essa luta de classes dentro do país e o isolacionismo. A eleição tem enorme importância.

Em uma escala menor que a europeia, o Brasil está enfrentando uma crise de imigração. Com sua experiência, como acha que as autoridades deveriam ou poderiam lidar com essa questão?

- O ponto de partida é outro e não pode ser comparado com as pessoas que chegaram à Europa da África, cruzando o Mediterrâneo. Creio que as pessoas que estão deixando a Venezuela prefeririam ficar lá, se pudessem. As pessoas que causam essas ondas migratórias, elas é que deveriam ser isoladas.

Fico chateado quando leio que o governo de [Nicolás] Maduro e seu grupo são socialistas. O governo da Venezuela não é socialista, é um bando de ditadores que está acabando com o país e enriquecendo às custas da população.

A Europa tem visto a ascensão de partidos nacionalistas, anti-imigração, de extrema direita e neonazistas. Os EUA elegeram Donald Trump. Como explica esses fenômenos?

- Vou citar três motivos que julgo essenciais. O mundo está cada dia mais complicado. Estamos cada vez mais integrados, mas para muitas pessoas fica a sensação de que há uma perda da ordem e da segurança. Quanto mais precária fica a situação devido à globalização econômica, e quando isso se combina com o medo de que ela coloque em risco a economia do país, tanto mais se torna radical essa posição contrária à globalização.

Outro elemento é que há políticos cínicos que se aproveitam desses sentimentos de temor que se reforçam mutuamente, de perda de identidade e de uma ameaça econômica, e o exploram com mensagens altamente simplificadas que dizem: "se votarem em mim, vou restabelecer a ordem".

Combinando isso com mudanças nas comunicações, quando esses políticos têm interação direta com os eleitores nas redes sociais, temos fenômenos como Trump. Vimos essa combinação da simplificação do discurso com o poder da mídia há 20 anos na Itália com Silvio Berlusconi [premiê]. Vemos isso de forma um pouco mais refinada com Trump e em variantes mais grosseiras em Varsóvia [presidente Andrzej Duda] e Budapeste [premiê Viktor Orbán].

Mas eles não são a maioria. A maioria das pessoas ainda quer a via democrática. O problema é que a maioria se cala. As forças pró-democracia não se mobilizaram em massa contra esses movimentos. Temos a frase do filósofo Edmund Burke: "para que os maus vençam, basta que os bons se calem". Acredito nisso.

A Alemanha vive uma onda de protestos de extrema direita. São isolados ou representam algo significativo?

- Essas pessoas violentas são minoria. Mas é o que acabo de dizer: se a grande maioria não fizer oposição visível e em voz alta, eles vão dominar a cena. Espero que haja um grande movimento na Alemanha para dizer a esse pessoal que eles não representam nosso país.

*O deputado alemão pelo SPD (Partido Social-Democrata) nasceu em Helrath (ex-Alemanha Ocidental), foi membro do Parlamento Europeu de 1994 a 2017, que presidiu por cinco anos, e, em 2017, enfrentou Angela Merkel na disputa pelo governo. Nunca completou o equivalente ao ensino médio, mas fala cinco línguas. Antes da política, teve uma livraria. É casado há 30 anos com Inge, com quem tem dois filhos


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade