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Camaleão político, Delfim mantém influência há cinco décadas
EBC.

Sexta, 9/3/2018 16:28.

IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o assunto é o economista Antonio Delfim Netto, detratores e admiradores têm um denominador comum: poucos personagens da política brasileira mantêm capacidade de influenciar o debate público há tanto tempo quanto esse paulistano nascido em 1928.

Homem multifacetado, ele personificou tanto o milagre econômico iniciado em 1967 e enterrado pelo primeiro choque do petróleo em 1973 quanto a debacle das contas públicas no ocaso da ditadura militar (1964-85) -quando o slogan "o povo está afim da cabeça do Delfim" era cantado em manifestações.

Assinou tanto o Ato Institucional número 5, que solapou o que restava de liberdade civil no regime dos generais em 1968. Nunca se arrependeu: disse que desconhecia a tortura e a repressão do regime, e que os instrumentos totalitários do AI-5 ajudaram a organizar a economia.

Sua fama começara cedo. Aos 38 anos, tendo despontado como secretário da Fazenda de São Paulo, foi levado a Brasília pelo general Costa e Silva, que o entronizou como o mais novo ministro da área da história.

Ficou na cadeira até 1974, gerenciando crescimento chinês (taxas em torno de 10% ao ano) e obras mastodônticas que acabaram a elevar a dívida externa. Lançou na grande política o amigo Paulo Maluf, indicado por ele para presidir a Caixa Econômica Federal em 1967.

Preterido pela ditadura para ser governador biônico de São Paulo, acabou no confortável posto de embaixador em Paris, cargo no qual sofreu a primeira acusação de corrupção envolvendo construção de hidrelétricas.

O famoso "Relatório Saraiva", assinado pelo adido militar da embaixada em 1976, citava uma suposta propina de US$ 6 milhões paga pelo banco francês que financiou a obra de Tucuruí para que fornecedores do país fossem favorecidos. Delfim sempre negou a acusação, que nunca foi apurada.

Voltou ao poder na gestão do último presidente-general, João Figueiredo, em 1979. Esquentou a cadeira na Agricultura e logo estava de volta à Fazenda. Foi o período mais contestado de sua vida pública, de crise aguda.

Dele, Delfim guarda uma coleção de caricaturas que exploravam sua figura obesa, estrábica e portadora de óculos de armação grossa. Dono de humor mordaz, segundo conhecidos, compartilha com o estadista britânico Winston Churchill a fama de grande frasista -mesmo quando não é o dono do aforismo.

Diz por exemplo que nunca usou a frase "Primeiro é preciso fazer crescer o bolo, para depois reparti-lo" para explicar o milagre econômico, por exemplo.

Reservado na vida pessoal, é viúvo e tem uma filha. Cultivou amigos e inimigos na mesma medida. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou há alguns anos num alentado perfil do ex-ministro na revista Piauí que tinha "horror" a ele pelo seu papel na cassação do então deputado Mário Covas -o que Delfim negou.

FHC, assim como José Sarney, foi dos poucos presidentes do período democrático com quem Delfim não tinha bom trânsito. Criticava duramente o tucano, a quem acusava de ter "quebrado o Brasil". Um economista amigo de ambos brinca que eles não poderiam entrar no mesmo elevador, dado o tamanho dos egos e da capacidade intelectual de cada um.

Sua importância no cenário político, que nunca deixou de fato ao ser deputado por cinco vezes de 1987 a 2006, ressurgiu com muita força nos governos petistas -dados ao desenvolvimentismo sempre associado a Delfim.

Ironia histórica, dado que o PT estava na linha de frente das críticas à ditadura que tinha Delfim como estrela no seu final agônico. Luiz Inácio Lula da Silva aproximou-se dele, e o então superministro Antonio Palocci o consultava frequentemente -a associação que a Lava Jato agora apura entre os dois teve origem ali.

Dilma Rousseff também falava bastante com o ex-ministro, embora mais ao fim de seu mandato interrompido em 2016 Delfim já fosse um crítico da política econômica que jogou o país em recessão, embora contrário ao impeachment. E um apoiador de primeira hora de Michel Temer, que o ouviu longamente num encontro logo após se tornar presidente interino.

A capacidade analítica, expressa em artigos em jornais como a Folha de S.Paulo, também é outra marca de Delfim. Sua extrema maleabilidade política e programática é apontada por críticos como sinal de oportunismo; apologistas veem maturidade adaptativa.

Seja como for, de ícone do desenvolvimentismo a defensor de reformas como a da Previdência, de anticomunista a amigo do PT, Delfim mantém-se relevante. Para bem e para mal: tendo escapado ao caso francês e ao escândalo Coroa-Brastel, sobre financiamentos indevidos da Caixa nos anos 1980, o ex-czar da economia chega aos quase 90 anos nas manchetes derivadas da Operação Lava Jato. 

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Camaleão político, Delfim mantém influência há cinco décadas

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IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o assunto é o economista Antonio Delfim Netto, detratores e admiradores têm um denominador comum: poucos personagens da política brasileira mantêm capacidade de influenciar o debate público há tanto tempo quanto esse paulistano nascido em 1928.

Homem multifacetado, ele personificou tanto o milagre econômico iniciado em 1967 e enterrado pelo primeiro choque do petróleo em 1973 quanto a debacle das contas públicas no ocaso da ditadura militar (1964-85) -quando o slogan "o povo está afim da cabeça do Delfim" era cantado em manifestações.

Assinou tanto o Ato Institucional número 5, que solapou o que restava de liberdade civil no regime dos generais em 1968. Nunca se arrependeu: disse que desconhecia a tortura e a repressão do regime, e que os instrumentos totalitários do AI-5 ajudaram a organizar a economia.

Sua fama começara cedo. Aos 38 anos, tendo despontado como secretário da Fazenda de São Paulo, foi levado a Brasília pelo general Costa e Silva, que o entronizou como o mais novo ministro da área da história.

Ficou na cadeira até 1974, gerenciando crescimento chinês (taxas em torno de 10% ao ano) e obras mastodônticas que acabaram a elevar a dívida externa. Lançou na grande política o amigo Paulo Maluf, indicado por ele para presidir a Caixa Econômica Federal em 1967.

Preterido pela ditadura para ser governador biônico de São Paulo, acabou no confortável posto de embaixador em Paris, cargo no qual sofreu a primeira acusação de corrupção envolvendo construção de hidrelétricas.

O famoso "Relatório Saraiva", assinado pelo adido militar da embaixada em 1976, citava uma suposta propina de US$ 6 milhões paga pelo banco francês que financiou a obra de Tucuruí para que fornecedores do país fossem favorecidos. Delfim sempre negou a acusação, que nunca foi apurada.

Voltou ao poder na gestão do último presidente-general, João Figueiredo, em 1979. Esquentou a cadeira na Agricultura e logo estava de volta à Fazenda. Foi o período mais contestado de sua vida pública, de crise aguda.

Dele, Delfim guarda uma coleção de caricaturas que exploravam sua figura obesa, estrábica e portadora de óculos de armação grossa. Dono de humor mordaz, segundo conhecidos, compartilha com o estadista britânico Winston Churchill a fama de grande frasista -mesmo quando não é o dono do aforismo.

Diz por exemplo que nunca usou a frase "Primeiro é preciso fazer crescer o bolo, para depois reparti-lo" para explicar o milagre econômico, por exemplo.

Reservado na vida pessoal, é viúvo e tem uma filha. Cultivou amigos e inimigos na mesma medida. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou há alguns anos num alentado perfil do ex-ministro na revista Piauí que tinha "horror" a ele pelo seu papel na cassação do então deputado Mário Covas -o que Delfim negou.

FHC, assim como José Sarney, foi dos poucos presidentes do período democrático com quem Delfim não tinha bom trânsito. Criticava duramente o tucano, a quem acusava de ter "quebrado o Brasil". Um economista amigo de ambos brinca que eles não poderiam entrar no mesmo elevador, dado o tamanho dos egos e da capacidade intelectual de cada um.

Sua importância no cenário político, que nunca deixou de fato ao ser deputado por cinco vezes de 1987 a 2006, ressurgiu com muita força nos governos petistas -dados ao desenvolvimentismo sempre associado a Delfim.

Ironia histórica, dado que o PT estava na linha de frente das críticas à ditadura que tinha Delfim como estrela no seu final agônico. Luiz Inácio Lula da Silva aproximou-se dele, e o então superministro Antonio Palocci o consultava frequentemente -a associação que a Lava Jato agora apura entre os dois teve origem ali.

Dilma Rousseff também falava bastante com o ex-ministro, embora mais ao fim de seu mandato interrompido em 2016 Delfim já fosse um crítico da política econômica que jogou o país em recessão, embora contrário ao impeachment. E um apoiador de primeira hora de Michel Temer, que o ouviu longamente num encontro logo após se tornar presidente interino.

A capacidade analítica, expressa em artigos em jornais como a Folha de S.Paulo, também é outra marca de Delfim. Sua extrema maleabilidade política e programática é apontada por críticos como sinal de oportunismo; apologistas veem maturidade adaptativa.

Seja como for, de ícone do desenvolvimentismo a defensor de reformas como a da Previdência, de anticomunista a amigo do PT, Delfim mantém-se relevante. Para bem e para mal: tendo escapado ao caso francês e ao escândalo Coroa-Brastel, sobre financiamentos indevidos da Caixa nos anos 1980, o ex-czar da economia chega aos quase 90 anos nas manchetes derivadas da Operação Lava Jato. 

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