Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Polícia
Ação da polícia pegou Queiroz deitado na cama

Prisão de Queiroz foi espetaculosa, diz Bolsonaro

Sexta, 19/6/2020 12:37.
PCSP

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Por Bruno Ribeiro, Marcelo Godoy e Renato Vasconcelos

O ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz acordou nesta quinta-feira, 18, com a polícia em torno de sua cama, levantou as mãos e mostrou que estava desarmado. Parecia estar com medo. "Ele (Queiroz) não fez nada, não reagiu. Levantou as mãos e falou: 'Olha, tudo bem. Vocês cumpram a função de vocês, vou me entender com a Justiça do Rio'. Foi ótimo, trouxemos ele para cá", disse o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, diretor do departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope). Queiroz estava escondido em uma casa do advogado Frederick Wassef, em Atibaia, a 65 quilômetros de São Paulo.

A operação que encontrou Queiroz começou a ser desenhada na terça-feira quando o promotor Amauri Silveira Filho, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), da capital, procurou o secretário executivo da Polícia Civil de São Paulo, delegado Youssef Abou Chahin. Amauri havia acabado de receber dos colegas do Rio o mandado de prisão e a informação do endereço de Queiroz.

Os promotores do Rio haviam feito a descoberta sobre o endereço do ex-assessor por meio da análise de fotos e mensagens achadas no celular de Márcia Oliveira Aguiar, mulher de Queiroz. Em uma delas, havia uma foto dele em um churrasco e uma mensagem: "Nós fizemos um churrasquinho aqui. Umas garotinhas 'bacaninhas' e vimos o Cruzeiro ser rebaixado... O Cruzeiro ser rebaixado tomando uma Corona aqui com limãozinho.... Muito bom!"

Youssef informou apenas duas pessoas sobre o caso: o delegado-geral, Ruy Ferraz Fontes, e o diretor do Dope. O alvo da operação foi mantido em sigilo. Nico designou uma equipe para verificar se existia o endereço em Atibaia passado pelos promotores do Rio e em nome de quem o imóvel estaria registrado. Foi quando os policiais tiveram uma surpresa: o endereço estava em nome de Wassef, advogado do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e amigo do pai do parlamentar, o presidente Jair Bolsonaro.

Como era curto o prazo para executar o mandado de prisão, os investigadores queimaram etapas. "Ficamos com receio de fazer aquilo que chamamos 'reconhecimento', que é um procedimento padrão que adotamos quando a gente vai cumprir uma ordem judicial que não é nossa", contou o promotor Jandir Moura Gomes Neto, do Gaeco.

Para saber quantos agentes levar e se havia rotas de fuga, a pesquisa foi feita no computador. "Fizemos uma pesquisa em bancos de dados normais, vulgo Google, e pesquisas em bases de dados que nós temos", afirmou. Além dos agentes, delegados e promotores, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanharam a operação, pois não se sabia se o imóvel era ou não usado por Wassef como escritório.

Todos se encontraram às 4h30 e rumaram em direção ao alvo. Só então os demais envolvidos na operação ficaram sabendo quem iam prender em Atibaia.

Grupo

Um grupo de WhatsApp foi montado pelos promotores do Rio e de São Paulo, com a participação dos delegados paulistas para a coordenação da operação. E foi nele que Nico informou aos colegas que havia achado o Queiroz. Não havia armas na casa. O ex-assessor parecia "agoniado" quando viu os policiais, que cortaram uma corrente para abrir o portão e depois usaram um aríete para abrir a porta da casa.

"Ele havia tomado um remédio e estava dormindo", contou o delegado Nico. Queiroz ficou surpreso ao saber que sua prisão preventiva havia sido decretada. De acordo com Nico, um caseiro informou à polícia que Queiroz estava havia mais de um ano no imóvel. O ex-assessor disse que fazia compras sozinho e afirmou aos policiais que estava doente. Foi autorizado a levar uma mochila com roupas. Vestiu máscara e boné preto. Para evitar qualquer problema, teve seu cinto retirado da calça.

Youssef deu a ordem aos subordinados para que o material arrecadado na casa fosse colocado em um malote - R$ 900 que estavam na carteira de Queiroz, dois celulares e documentos do ex-assessor. Toda a ação foi filmada. O preso foi levado a São Paulo e, depois, transferido em helicóptero da Polícia Civil para o Rio.

No WhatsApp, os policiais receberam os parabéns dos promotores cariocas. E, pelo telefone, chegaram os parabéns do governador João Doria (PSDB), transmitidos pelo secretário da Segurança, general João Camilo Pires de Campos.

Prisão de Queiroz foi 'espetaculosa', diz Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro tratou como "espetaculosa" a prisão do ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, encontrado nesta quinta-feira (18) em um imóvel do advogado Frederick Wassef, que defende o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) Wassef também se apresenta como "consultor jurídico" do presidente. "Parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra", disse Bolsonaro.

A declaração, em transmissão ao vivo na internet, ocorreu após ministros e advogados passarem o dia discutindo uma estratégia para tentar desvincular Wassef do presidente. Pela manhã, auxiliares foram convocados às pressas para uma reunião de emergência, no Palácio no Planalto. A prisão do ex-assessor de Flávio, filho mais velho do presidente, foi discutida no encontro, que durou duas horas. A conclusão foi a de que era preciso tentar afastar Wassef de Bolsonaro.

À tarde, a advogada Karina Kufa divulgou nota para afirmar que Wassef não representa o presidente em nenhuma ação judicial. "O advogado Frederick Wassef não presta qualquer serviço advocatício em nenhuma ação em que seja parte o senhor Jair Messias Bolsonaro e não faz parte do referido escritório, não constando seu nome em qualquer processo", diz a nota assinada por Kufa.

O comunicado, porém, não cita o livre acesso de Wassef nos palácios do Planalto e da Alvorada. O advogado esteve ao menos oito vezes com Bolsonaro nos últimos meses, mas nem todas as visitas foram registradas na agenda - apenas três delas. A interlocutores, Wassef sempre se vangloriou da proximidade com a família presidencial. Recentemente, contou ter sido chamado pelo presidente para dar uma volta de jet-ski no Lago Paranoá.

Embora o advogado não represente Bolsonaro em ações judiciais, Wassef se apresenta como consultor jurídico do presidente. Questionado pelo Estadão no fim do ano passado sobre por que não constava nos processos, Wassef justificou que indicava profissionais para fazer o serviço.

'Meu advogado'

A presença do advogado sempre incomodou os auxiliares mais próximos do presidente, que o viam com desconfiança. Wassef se aproximou de Bolsonaro em 2014, mas ganhou a confiança do clã presidencial justamente com o caso Queiroz, quando passou a frequentar o Planalto.

Em dezembro do ano passado, o próprio Bolsonaro disse à imprensa que era representado por Wassef. O presidente se reuniu com o advogado e com Flávio no Palácio da Alvorada, em 18 de dezembro de 2019 - dia em que foi deflagrada uma operação no Rio de Janeiro para investigar um esquema de "rachadinha" no gabinete do filho "01". A prática consiste no repasse de parte do salário do servidor a políticos e assessores.

No dia seguinte, o presidente foi questionado sobre a operação, e disse aos repórteres para perguntarem ao seu advogado.

"O senhor esteve aqui com o advogado ontem?", indagou um repórter. "Estive. Ele é meu advogado no caso Adélio (Bispo, autor de uma facada contra o presidente, na campanha eleitoral de 2018)", respondeu Bolsonaro, que havia se reunido com Wassef e Flávio na véspera.

Tensão

Ao longo de todo o dia de ontem, o clima no governo foi tenso. A avaliação é de que a prisão do ex-assessor parlamentar em um endereço do advogado ligado ao presidente colocou o caso da "rachadinha" dentro do Palácio do Planalto. Desde o início das investigações do esquema na Assembleia Legislativa do Rio, o governo trabalhou para blindar o mandato do presidente.

Auxiliares de Bolsonaro afirmam que o governo continuará insistindo na narrativa de que, se houve algum problema, foi localizado no gabinete de Flávio e, portanto, sem qualquer ciência do presidente. Outra estratégia é evitar comentários sobre o caso, em uma tentativa de, mesmo nos bastidores, passar a imagem de que não se trata de um assunto de preocupação do Planalto.

Ao mesmo tempo, integrantes do Planalto avaliam que a prisão de Queiroz reforçará o discurso do presidente de que há uma perseguição política e conspiração contra ele e sua família para desestabilizar o governo.


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Ação da polícia pegou Queiroz deitado na cama

Prisão de Queiroz foi espetaculosa, diz Bolsonaro

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Sexta, 19/6/2020 12:37.

Por Bruno Ribeiro, Marcelo Godoy e Renato Vasconcelos

O ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz acordou nesta quinta-feira, 18, com a polícia em torno de sua cama, levantou as mãos e mostrou que estava desarmado. Parecia estar com medo. "Ele (Queiroz) não fez nada, não reagiu. Levantou as mãos e falou: 'Olha, tudo bem. Vocês cumpram a função de vocês, vou me entender com a Justiça do Rio'. Foi ótimo, trouxemos ele para cá", disse o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, diretor do departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope). Queiroz estava escondido em uma casa do advogado Frederick Wassef, em Atibaia, a 65 quilômetros de São Paulo.

A operação que encontrou Queiroz começou a ser desenhada na terça-feira quando o promotor Amauri Silveira Filho, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), da capital, procurou o secretário executivo da Polícia Civil de São Paulo, delegado Youssef Abou Chahin. Amauri havia acabado de receber dos colegas do Rio o mandado de prisão e a informação do endereço de Queiroz.

Os promotores do Rio haviam feito a descoberta sobre o endereço do ex-assessor por meio da análise de fotos e mensagens achadas no celular de Márcia Oliveira Aguiar, mulher de Queiroz. Em uma delas, havia uma foto dele em um churrasco e uma mensagem: "Nós fizemos um churrasquinho aqui. Umas garotinhas 'bacaninhas' e vimos o Cruzeiro ser rebaixado... O Cruzeiro ser rebaixado tomando uma Corona aqui com limãozinho.... Muito bom!"

Youssef informou apenas duas pessoas sobre o caso: o delegado-geral, Ruy Ferraz Fontes, e o diretor do Dope. O alvo da operação foi mantido em sigilo. Nico designou uma equipe para verificar se existia o endereço em Atibaia passado pelos promotores do Rio e em nome de quem o imóvel estaria registrado. Foi quando os policiais tiveram uma surpresa: o endereço estava em nome de Wassef, advogado do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e amigo do pai do parlamentar, o presidente Jair Bolsonaro.

Como era curto o prazo para executar o mandado de prisão, os investigadores queimaram etapas. "Ficamos com receio de fazer aquilo que chamamos 'reconhecimento', que é um procedimento padrão que adotamos quando a gente vai cumprir uma ordem judicial que não é nossa", contou o promotor Jandir Moura Gomes Neto, do Gaeco.

Para saber quantos agentes levar e se havia rotas de fuga, a pesquisa foi feita no computador. "Fizemos uma pesquisa em bancos de dados normais, vulgo Google, e pesquisas em bases de dados que nós temos", afirmou. Além dos agentes, delegados e promotores, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanharam a operação, pois não se sabia se o imóvel era ou não usado por Wassef como escritório.

Todos se encontraram às 4h30 e rumaram em direção ao alvo. Só então os demais envolvidos na operação ficaram sabendo quem iam prender em Atibaia.

Grupo

Um grupo de WhatsApp foi montado pelos promotores do Rio e de São Paulo, com a participação dos delegados paulistas para a coordenação da operação. E foi nele que Nico informou aos colegas que havia achado o Queiroz. Não havia armas na casa. O ex-assessor parecia "agoniado" quando viu os policiais, que cortaram uma corrente para abrir o portão e depois usaram um aríete para abrir a porta da casa.

"Ele havia tomado um remédio e estava dormindo", contou o delegado Nico. Queiroz ficou surpreso ao saber que sua prisão preventiva havia sido decretada. De acordo com Nico, um caseiro informou à polícia que Queiroz estava havia mais de um ano no imóvel. O ex-assessor disse que fazia compras sozinho e afirmou aos policiais que estava doente. Foi autorizado a levar uma mochila com roupas. Vestiu máscara e boné preto. Para evitar qualquer problema, teve seu cinto retirado da calça.

Youssef deu a ordem aos subordinados para que o material arrecadado na casa fosse colocado em um malote - R$ 900 que estavam na carteira de Queiroz, dois celulares e documentos do ex-assessor. Toda a ação foi filmada. O preso foi levado a São Paulo e, depois, transferido em helicóptero da Polícia Civil para o Rio.

No WhatsApp, os policiais receberam os parabéns dos promotores cariocas. E, pelo telefone, chegaram os parabéns do governador João Doria (PSDB), transmitidos pelo secretário da Segurança, general João Camilo Pires de Campos.

Prisão de Queiroz foi 'espetaculosa', diz Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro tratou como "espetaculosa" a prisão do ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, encontrado nesta quinta-feira (18) em um imóvel do advogado Frederick Wassef, que defende o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) Wassef também se apresenta como "consultor jurídico" do presidente. "Parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra", disse Bolsonaro.

A declaração, em transmissão ao vivo na internet, ocorreu após ministros e advogados passarem o dia discutindo uma estratégia para tentar desvincular Wassef do presidente. Pela manhã, auxiliares foram convocados às pressas para uma reunião de emergência, no Palácio no Planalto. A prisão do ex-assessor de Flávio, filho mais velho do presidente, foi discutida no encontro, que durou duas horas. A conclusão foi a de que era preciso tentar afastar Wassef de Bolsonaro.

À tarde, a advogada Karina Kufa divulgou nota para afirmar que Wassef não representa o presidente em nenhuma ação judicial. "O advogado Frederick Wassef não presta qualquer serviço advocatício em nenhuma ação em que seja parte o senhor Jair Messias Bolsonaro e não faz parte do referido escritório, não constando seu nome em qualquer processo", diz a nota assinada por Kufa.

O comunicado, porém, não cita o livre acesso de Wassef nos palácios do Planalto e da Alvorada. O advogado esteve ao menos oito vezes com Bolsonaro nos últimos meses, mas nem todas as visitas foram registradas na agenda - apenas três delas. A interlocutores, Wassef sempre se vangloriou da proximidade com a família presidencial. Recentemente, contou ter sido chamado pelo presidente para dar uma volta de jet-ski no Lago Paranoá.

Embora o advogado não represente Bolsonaro em ações judiciais, Wassef se apresenta como consultor jurídico do presidente. Questionado pelo Estadão no fim do ano passado sobre por que não constava nos processos, Wassef justificou que indicava profissionais para fazer o serviço.

'Meu advogado'

A presença do advogado sempre incomodou os auxiliares mais próximos do presidente, que o viam com desconfiança. Wassef se aproximou de Bolsonaro em 2014, mas ganhou a confiança do clã presidencial justamente com o caso Queiroz, quando passou a frequentar o Planalto.

Em dezembro do ano passado, o próprio Bolsonaro disse à imprensa que era representado por Wassef. O presidente se reuniu com o advogado e com Flávio no Palácio da Alvorada, em 18 de dezembro de 2019 - dia em que foi deflagrada uma operação no Rio de Janeiro para investigar um esquema de "rachadinha" no gabinete do filho "01". A prática consiste no repasse de parte do salário do servidor a políticos e assessores.

No dia seguinte, o presidente foi questionado sobre a operação, e disse aos repórteres para perguntarem ao seu advogado.

"O senhor esteve aqui com o advogado ontem?", indagou um repórter. "Estive. Ele é meu advogado no caso Adélio (Bispo, autor de uma facada contra o presidente, na campanha eleitoral de 2018)", respondeu Bolsonaro, que havia se reunido com Wassef e Flávio na véspera.

Tensão

Ao longo de todo o dia de ontem, o clima no governo foi tenso. A avaliação é de que a prisão do ex-assessor parlamentar em um endereço do advogado ligado ao presidente colocou o caso da "rachadinha" dentro do Palácio do Planalto. Desde o início das investigações do esquema na Assembleia Legislativa do Rio, o governo trabalhou para blindar o mandato do presidente.

Auxiliares de Bolsonaro afirmam que o governo continuará insistindo na narrativa de que, se houve algum problema, foi localizado no gabinete de Flávio e, portanto, sem qualquer ciência do presidente. Outra estratégia é evitar comentários sobre o caso, em uma tentativa de, mesmo nos bastidores, passar a imagem de que não se trata de um assunto de preocupação do Planalto.

Ao mesmo tempo, integrantes do Planalto avaliam que a prisão de Queiroz reforçará o discurso do presidente de que há uma perseguição política e conspiração contra ele e sua família para desestabilizar o governo.


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