Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Opinião
OPINIÃO: A vida entre Elysium e o resto, por Robson Ramos

Sexta, 3/1/2020 18:21.
Reprodução
Elysium

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Robson Ramos

Após as Cantatas de Natal nas igrejas, trocas de presentes e do festejado Réveillon, é preciso “despertar” – significado da palavra derivada do verbo réveiller, em francês, e desembrulhar um outro pacote, um que não foi entregue pelo Papai Noel. Trata-se do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019 da ONU, segundo o qual o Brasil figura entre os países com os mais altos índices de desigualdade (1)

Conforme estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a concentração de renda aumentou em 2018 no país. A pobreza extrema e a desigualdade crescem há quatro anos, revela pesquisa. (2)

A verdade é que somos um país ainda mais injusto. A renda dos mais pobres cai enquanto cresce a concentração de riqueza (3).

Quando refletimos sobre esses fatos, tão próximos e tão desiguais, somos transportados para um filme de ficção científica que faz uma projeção de como o mundo estará em 2159. Protagonizado por Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura e Alice Braga, o filme mostra o mundo dividido em duas classes sociais: uma formada por gente muito rica vivendo com todo luxo numa cidade construída numa estação espacial, com todos os recursos tecnológicos disponíveis para inclusive curar qualquer tipo de doença. Essa elite privilegiada ainda conta com um sistema de proteção que a mantém longe do alcance de eventuais invasores da Terra.

Essa cidade “sonho de consumo” de muitos - Elysium - dá nome ao filme e remete ao céu dos heróis, um lugar de delícias e bem-aventurança. Enquanto isso o resto da população vive na Terra abarrotada de gente em condições degradantes no meio da criminalidade, pobreza, violência e sem acesso à assistência médica. A mensagem de Elysium é muito clara.

A América Latina é a região mais violenta do mundo (4). Inúmeras causas são apontadas: urbanização desordenada, o desemprego, o crime organizado com suas várias facetas, tráfico de drogas, de pessoas e de armas. Com as maiores taxas de homicídio do mundo, a desigualdade continua crescendo.

Meu objetivo, caro leitor, é levá-lo a pensar sobre como nos posicionamos diante de uma realidade sobre a qual muitos pensam estar ainda distante.

É uma ilusão pensar que podemos desfrutar do conforto, beleza e prazeres oferecidos nesse Elysium, enquanto há um número significativo e crescente de pessoas vivendo sem acesso a serviços públicos de qualidade, num contexto no qual ricos e pobres são tratados de forma diferente sem que as consequências disso, cedo ou tarde, possam nos alcançar.

Causa indignação, por exemplo, o fato de que ninguém faz menção a tudo isso como sendo uma ameaça ao chamado Estado Democrático de Direito. Essa expressão só é invocada por figuras políticas e das altas cortes do Judiciário quando se veem ameaçadas de alguma forma.

A população pode morrer nos corredores dos hospitais públicos, ativistas ambientais e jornalistas podem ser assassinados nos rincões mais distantes do país, milhões de pessoas estão desempregadas, entretanto o mantra da tal “ameaça ao Estado Democrático de Direito” só aparece quando um figurão da elite se vê atingido, mas não quando legislam ou atuam defendendo interesses espúrios deles próprios e de outros, a despeito de uma grande parcela da população afundar num buraco ainda maior. No entanto, essa situação, na ótica desses, nada tem a ver com um Estado Democrático de Direito.

É preciso desenvolver com urgência uma cultura de cidadania responsável em todos os níveis da sociedade, para evitar que nossos jovens se transformem em meros consumidores de um estilo de vida e valores destituídos de compromisso ético.

Podemos até estar vivendo num contexto de maior tranquilidade se comparado com outras regiões do país onde as desigualdades são mais evidentes e chocantes, porém a sensação de suposta proteção que sentimos em nosso dia a dia poderá não resistir por muito tempo.

Se nossos filhos e netos crescerem sem consciência da realidade mais ampla, certamente estarão despreparados para lidar com os desafios e consequências da desigualdade.

É fácil nos moldarmos a um estilo de vida que preconiza poder e sucesso como valores maiores alimentados pela indústria do consumo... o que nos torna menos sensíveis às necessidades dos outros e nos leva a viver como espectadores, sem nos questionarmos sobre o que acontece à nossa volta. A relação disso com o alto índice de suicídio em nosso meio e com a dependência de drogas e de antidepressivos entre jovens e idosos é algo que merece ser analisado.

Nesse cenário, até mesmo nos espaços religiosos, a busca pela prosperidade e o imediatismo colocam o indivíduo no centro do universo, no qual faz barganhas com Deus na esperança de que suas necessidades materiais sejam satisfeitas. A partir dessa lógica, buscamos relevância e sentido para a vida entrando nesse jogo em detrimento do engajamento na busca de soluções para os problemas da coletividade. Daí nossas frequentes desculpas ao nos eximirmos de qualquer responsabilidade quanto ao bem-estar dos menos favorecidos. Afinal, pensamos, isso é dever do Estado.

Que os problemas e desafios estão aí não se pode questionar. É preciso mobilização e prática da empatia de forma inteligente para enfrentá-los e mudar o cenário.

Andreas Schleicher, diretor do Departamento de Educação da OCDE (Organização Internacional para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e fundador do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), destaca “que é preciso valorizar cada vez mais as qualidades humanas, e que o que fará a diferença no futuro de cada jovem são suas competências sociais e emocionais, a capacidade de construir relações, de compartilhar ideias, de criar” (5).

Se quisermos ver nossos jovens se desenvolvendo dessa forma, precisamos dar a eles não apenas a direção, mas também o exemplo, mostrando como se faz uma gestão transformadora.

Consideremos um desafio recorrente em nossa região, que é a presença dos indígenas. Entra ano sai ano, estão presentes aqui. Sejamos honestos, vemos essa situação como um problema sem solução. Um dos paradigmas a serem quebrados é a ideia subjacente de que é impossível promover uma convivência harmoniosa entre os indígenas e os não-indígenas.

Minha convicção é que, longe de ser um problema, esse desafio é uma oportunidade para desenvolver uma política pública que transformará os rumos e o futuro de muitas pessoas, especialmente das crianças indígenas. Essas pessoas precisam antes de tudo se sentirem valorizadas. Isso aconteceria através da criação de um programa sustentável de modo a permitir que elas desfrutassem de uma vida digna e com esperança, ao mesmo tempo que tivessem sua cultura respeitada.

Gestores do poder público e da iniciativa privada poderiam mobilizar profissionais de várias áreas na implantação de oficinas de treinamento, empreendedorismo e startups envolvendo integrantes dessa comunidade. O Senai poderia instalar uma unidade móvel oferecendo cursos profissionalizantes e de alfabetização aos jovens e adultos.

Enquanto quebramos a cabeça buscando soluções que não visam a resultados efetivos e de longo prazo, não percebemos que temos uma oportunidade única de protagonizar um projeto que, uma vez abraçado, tornar-se-á um case de sucesso. Para que isso aconteça é preciso haver vontade, disposição e liderança.

Havendo uma proposta concreta elaborada com a participação de líderes indígenas, de modo que cada parte se comprometa dentro de suas atribuições, competências e responsabilidades teremos ótimas chances de atingir o objetivo, que é o resgate social, em especial das crianças que, de outra forma, continuarão sem perspectiva alguma de um futuro digno. Não podemos nos deixar levar pelo preconceito e ignorância do processo histórico que faz com que essas pessoas fiquem sendo jogadas de um lado para o outro.

Desconsiderar esse caminho sem ao menos tentar implementá-lo, quando temos recursos humanos, parceiros em potencial, know-how e competência disponíveis, é a mesma coisa que assumir que o nosso compromisso, de fato, é com um mundo dividido entre Elysium e o resto.


Notas:

Relatório de desenvolvimento humano do PNUD destaca altos índices de desigualdade no Brasil

Extrema pobreza e desigualdade crescem há 4 anos, revela pesquisa

Renda dos mais pobres cai, concentração de riqueza cresce e desigualdade bate recorde

Por que a América Latina é a região mais violenta do mundo

Brasil integra novo relatório da OCDE sobre criatividade e pensamento crítico


Robson Ramos é advogado, palestrante e membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú.


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Página 3
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Elysium

OPINIÃO: A vida entre Elysium e o resto, por Robson Ramos

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Sexta, 3/1/2020 18:21.

Robson Ramos

Após as Cantatas de Natal nas igrejas, trocas de presentes e do festejado Réveillon, é preciso “despertar” – significado da palavra derivada do verbo réveiller, em francês, e desembrulhar um outro pacote, um que não foi entregue pelo Papai Noel. Trata-se do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019 da ONU, segundo o qual o Brasil figura entre os países com os mais altos índices de desigualdade (1)

Conforme estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a concentração de renda aumentou em 2018 no país. A pobreza extrema e a desigualdade crescem há quatro anos, revela pesquisa. (2)

A verdade é que somos um país ainda mais injusto. A renda dos mais pobres cai enquanto cresce a concentração de riqueza (3).

Quando refletimos sobre esses fatos, tão próximos e tão desiguais, somos transportados para um filme de ficção científica que faz uma projeção de como o mundo estará em 2159. Protagonizado por Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura e Alice Braga, o filme mostra o mundo dividido em duas classes sociais: uma formada por gente muito rica vivendo com todo luxo numa cidade construída numa estação espacial, com todos os recursos tecnológicos disponíveis para inclusive curar qualquer tipo de doença. Essa elite privilegiada ainda conta com um sistema de proteção que a mantém longe do alcance de eventuais invasores da Terra.

Essa cidade “sonho de consumo” de muitos - Elysium - dá nome ao filme e remete ao céu dos heróis, um lugar de delícias e bem-aventurança. Enquanto isso o resto da população vive na Terra abarrotada de gente em condições degradantes no meio da criminalidade, pobreza, violência e sem acesso à assistência médica. A mensagem de Elysium é muito clara.

A América Latina é a região mais violenta do mundo (4). Inúmeras causas são apontadas: urbanização desordenada, o desemprego, o crime organizado com suas várias facetas, tráfico de drogas, de pessoas e de armas. Com as maiores taxas de homicídio do mundo, a desigualdade continua crescendo.

Meu objetivo, caro leitor, é levá-lo a pensar sobre como nos posicionamos diante de uma realidade sobre a qual muitos pensam estar ainda distante.

É uma ilusão pensar que podemos desfrutar do conforto, beleza e prazeres oferecidos nesse Elysium, enquanto há um número significativo e crescente de pessoas vivendo sem acesso a serviços públicos de qualidade, num contexto no qual ricos e pobres são tratados de forma diferente sem que as consequências disso, cedo ou tarde, possam nos alcançar.

Causa indignação, por exemplo, o fato de que ninguém faz menção a tudo isso como sendo uma ameaça ao chamado Estado Democrático de Direito. Essa expressão só é invocada por figuras políticas e das altas cortes do Judiciário quando se veem ameaçadas de alguma forma.

A população pode morrer nos corredores dos hospitais públicos, ativistas ambientais e jornalistas podem ser assassinados nos rincões mais distantes do país, milhões de pessoas estão desempregadas, entretanto o mantra da tal “ameaça ao Estado Democrático de Direito” só aparece quando um figurão da elite se vê atingido, mas não quando legislam ou atuam defendendo interesses espúrios deles próprios e de outros, a despeito de uma grande parcela da população afundar num buraco ainda maior. No entanto, essa situação, na ótica desses, nada tem a ver com um Estado Democrático de Direito.

É preciso desenvolver com urgência uma cultura de cidadania responsável em todos os níveis da sociedade, para evitar que nossos jovens se transformem em meros consumidores de um estilo de vida e valores destituídos de compromisso ético.

Podemos até estar vivendo num contexto de maior tranquilidade se comparado com outras regiões do país onde as desigualdades são mais evidentes e chocantes, porém a sensação de suposta proteção que sentimos em nosso dia a dia poderá não resistir por muito tempo.

Se nossos filhos e netos crescerem sem consciência da realidade mais ampla, certamente estarão despreparados para lidar com os desafios e consequências da desigualdade.

É fácil nos moldarmos a um estilo de vida que preconiza poder e sucesso como valores maiores alimentados pela indústria do consumo... o que nos torna menos sensíveis às necessidades dos outros e nos leva a viver como espectadores, sem nos questionarmos sobre o que acontece à nossa volta. A relação disso com o alto índice de suicídio em nosso meio e com a dependência de drogas e de antidepressivos entre jovens e idosos é algo que merece ser analisado.

Nesse cenário, até mesmo nos espaços religiosos, a busca pela prosperidade e o imediatismo colocam o indivíduo no centro do universo, no qual faz barganhas com Deus na esperança de que suas necessidades materiais sejam satisfeitas. A partir dessa lógica, buscamos relevância e sentido para a vida entrando nesse jogo em detrimento do engajamento na busca de soluções para os problemas da coletividade. Daí nossas frequentes desculpas ao nos eximirmos de qualquer responsabilidade quanto ao bem-estar dos menos favorecidos. Afinal, pensamos, isso é dever do Estado.

Que os problemas e desafios estão aí não se pode questionar. É preciso mobilização e prática da empatia de forma inteligente para enfrentá-los e mudar o cenário.

Andreas Schleicher, diretor do Departamento de Educação da OCDE (Organização Internacional para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e fundador do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), destaca “que é preciso valorizar cada vez mais as qualidades humanas, e que o que fará a diferença no futuro de cada jovem são suas competências sociais e emocionais, a capacidade de construir relações, de compartilhar ideias, de criar” (5).

Se quisermos ver nossos jovens se desenvolvendo dessa forma, precisamos dar a eles não apenas a direção, mas também o exemplo, mostrando como se faz uma gestão transformadora.

Consideremos um desafio recorrente em nossa região, que é a presença dos indígenas. Entra ano sai ano, estão presentes aqui. Sejamos honestos, vemos essa situação como um problema sem solução. Um dos paradigmas a serem quebrados é a ideia subjacente de que é impossível promover uma convivência harmoniosa entre os indígenas e os não-indígenas.

Minha convicção é que, longe de ser um problema, esse desafio é uma oportunidade para desenvolver uma política pública que transformará os rumos e o futuro de muitas pessoas, especialmente das crianças indígenas. Essas pessoas precisam antes de tudo se sentirem valorizadas. Isso aconteceria através da criação de um programa sustentável de modo a permitir que elas desfrutassem de uma vida digna e com esperança, ao mesmo tempo que tivessem sua cultura respeitada.

Gestores do poder público e da iniciativa privada poderiam mobilizar profissionais de várias áreas na implantação de oficinas de treinamento, empreendedorismo e startups envolvendo integrantes dessa comunidade. O Senai poderia instalar uma unidade móvel oferecendo cursos profissionalizantes e de alfabetização aos jovens e adultos.

Enquanto quebramos a cabeça buscando soluções que não visam a resultados efetivos e de longo prazo, não percebemos que temos uma oportunidade única de protagonizar um projeto que, uma vez abraçado, tornar-se-á um case de sucesso. Para que isso aconteça é preciso haver vontade, disposição e liderança.

Havendo uma proposta concreta elaborada com a participação de líderes indígenas, de modo que cada parte se comprometa dentro de suas atribuições, competências e responsabilidades teremos ótimas chances de atingir o objetivo, que é o resgate social, em especial das crianças que, de outra forma, continuarão sem perspectiva alguma de um futuro digno. Não podemos nos deixar levar pelo preconceito e ignorância do processo histórico que faz com que essas pessoas fiquem sendo jogadas de um lado para o outro.

Desconsiderar esse caminho sem ao menos tentar implementá-lo, quando temos recursos humanos, parceiros em potencial, know-how e competência disponíveis, é a mesma coisa que assumir que o nosso compromisso, de fato, é com um mundo dividido entre Elysium e o resto.


Notas:

Relatório de desenvolvimento humano do PNUD destaca altos índices de desigualdade no Brasil

Extrema pobreza e desigualdade crescem há 4 anos, revela pesquisa

Renda dos mais pobres cai, concentração de riqueza cresce e desigualdade bate recorde

Por que a América Latina é a região mais violenta do mundo

Brasil integra novo relatório da OCDE sobre criatividade e pensamento crítico


Robson Ramos é advogado, palestrante e membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú.


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