Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Opinião
ARTIGO: Apartheid no Bondindinho: um incômodo diálogo

Por Robson Ramos

Terça, 24/9/2019 16:47.
Divulgação/Sectur/PMBC

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“Eu me sinto como se estivesse vivendo no Apartheid”. Foi o que ouvi de um outro idoso – que chamarei de Nelson, quando já passava de 20hs e fazíamos o trajeto do Bondindinho. Eu havia saído de uma reunião e o Nelson estava vindo do trabalho numa cidade vizinha. Ele me disse que faz esse trajeto praticamente todos os dias da semana. Após pegar no batente o dia todo em Itajaí ele pega o Bondindinho bem no início da Avenida Brasil, no sentido Barra Sul. Por fazer uso do direito à gratuidade é obrigado a permanecer sentado na parte de trás do ônibus, reservada “preferencialmente” – o que é um eufemismo, para pessoas idosas. Digo eufemismo porque a pessoa com mais de 60 anos, que faz uso do direito de não pagar, é constrangida a permanecer naquele fundo, na parte de trás do ônibus ainda que a parte da frente do ônibus, bem mais espaçosa e com assentos mais confortáveis, esteja vazia.

E assim foi nossa conversa depois que perguntei a ele como se sentia, como um trabalhador ativo contribuindo para a sociedade, trazendo recursos para alimentar sua família, sendo impedido de se movimentar livremente no interior daquele veículo que vemos circulando pela cidade de maneira simpática e convidativa.

A menção que o Nelson fez ao Apartheid não deixou dúvidas sobre seu sentimento. Imediatamente pusemo-nos a falar sobre o que foi o Apartheid, palavra do idioma africâner que significa separação e que passou a denominar a política racista da minoria branca que vigorou entre 1948 e 1994 na África do Sul. Era um regime que pretendia impedir o relacionamento entre as pessoas de raças diferentes. Graças a esse regime a palavra Apartheid passou a ser usada para descrever qualquer prática que separe as pessoas. Enquanto conversávamos éramos transportados para bem longe por meio da reflexão histórico-política que fazíamos.

Não demorou muito e logo fizemos a conexão com a humilhante política de segregação racial praticada no Sul dos Estados Unidos, onde os negros só podiam se sentar na parte de trás dos ônibus, enquanto a parte da frente era reservada aos brancos, o que nos fez lembrar de Rosa Parks, a mulher que ficou conhecida como a "mãe dos movimentos pelos direitos civis" nos EUA, depois de se recusar a ceder a um branco o seu assento num ônibus. Isso aconteceu em Montgomery, no estado do Alabama, no dia 1º de Dezembro de 1955. O silencioso protesto de Rosa Parks propagou-se rapidamente e obteve apoio de Martin Luther King Jr.

É no mínimo curioso que a experiência vivida por dois usuários do Bondindinho, que resolvem conversar sobre o sentimento comum diante daquilo que inegavelmente representa um constrangimento: impedidos de usar os demais espaços daquele transporte, a ponto de levá-los a travar ali mesmo um diálogo tão rico e repleto de significado, na parte dos fundos do Bondindinho, sobre situações aparentemente tão longínquas na história e que, no entanto, podem estar conectadas ao que pessoas vivenciam diariamente nesse transporte que é parte integrante do cotidiano dessa cidade.

Essa semelhança entre as experiências vividas na África do Sul e no Sul dos Estados, com o que acontece naquela parte do Bondindinho que alguns chamam de “cozinha”, outros de “chiqueirinho”, pode estar associada a uma postura discriminatória contra pessoas idosas.

O Nelson não estava brincando quando mostrou sua indignação em relação a isso. “A gente trabalha a vida toda, mesmo depois de aposentado, e ainda sofre essa humilhação.” Fiz uma pausa naquele momento e dirigi meu olhar para as vitrines bonitas e chamativas da Av. Brasil, sem saber o que dizer para ele naquele momento. No mesmo instante o ônibus parou para duas pessoas idosas que tentaram subir, entretanto foram impedidas pelo cobrador, pois não havia assento disponível na parte de trás, e teriam que ficar esperando mais 30 minutos no frio até passar o próximo, ainda que a parte da frente do ônibus estivesse com 80% dos assentos disponíveis.

Naquele momento meu amigo olhou para mim e disse: “É justo isso? Essas pessoas terão que ficar esperando mais 30 minutos nesse frio e, se tiverem hora marcada para algum compromisso não chegarão a tempo. Se um filho ou filha, ou cônjuge, estiver esperando em casa terá que esperar pelo menos mais meia hora pela chegada do ente querido. Até lá a sopa já terá esfriado. Onde está o respeito pelos idosos? Não é disso que fala o Estatuto do Idoso?” perguntou Nelson ao cobrador do ônibus que, com ar de desinteresse não desgrudava os olhos do celular.

As pessoas ao redor ouviam tudo com ar de aprovação. Uma senhora, de muleta, aproveitou e fez um desabafo que ecoou de forma contundente: “pois é ... e olhe que a cidade recebeu um prêmio pelo atendimento aos idosos. Foram até Brasília receber o tal do prêmio, mas ninguém vê esse abuso contra os idosos que são obrigados a ficar empoleirados aqui no fundo, enquanto o restante do ônibus está vazio.”

Nelson foi ainda mais longe na sua provocação. Perguntou-me sobre o que eu sabia a respeito do Princípio da Dignidade Humana e se não seria aplicável a essa situação vexatória à qual os idosos são submetidos. Sua indignação ficou ainda mais explícita quando lhe disse que eu havia sido presidente do Conselho Municipal do Idoso há alguns anos em Balneário Camboriú. Aproveitando a oportunidade para me colocar ainda mais contra a parede e, demonstrar que ele já andou lendo sobre o assunto, indagou: “Não é verdade que a dignidade da pessoa humana, está acima de qualquer outra coisa?

A eloquência e perspicácia do meu interlocutor me fez pensar. Não teria ele razão sobre o constrangimento imposto a uma pessoa idosa, dentro do Bondindinho? Não estaria configurada a violação do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, presente na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano?

Ponderei sobre o art. 10 parágrafos 2º e 3º do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) que diz:

É obrigação do Estado e da sociedade, assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis.

        § 2o O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, de valores, ideias e crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.

       § 3o É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Não satisfeito, Nelson queria ir mais a fundo e mostrar que aquele cidadão, idoso, trabalhador, entendia das coisas. Sabendo que já contava com a atenção da pequena plateia à nossa volta, ele disse: “Olha só, daqui a pouco vou descer, mas, para fechar essa nossa conversa, quando chegar em casa dê uma olhada no que disse Immanuel Kant sobre a Dignidade Humana”. E não é que ele sabia mesmo do que estava falando?

Em seguida levantou-se, pediu para o cobrador puxar a cordinha para que o motorista parasse, despediu-se de mim com um aperto de mão efusivo ajustando o boné de lã e a mochila. A porta se abriu e, antes de descer por completo e virar a esquina que já estava quase que coberta pela neblina, virou-se para mim, agradeceu pela conversa e fez uma sugestão: “acho que tudo isso merece uma conversa com o Ministério Público. Esse Apartheid tem que acabar! Pense nisso.”

Robson Ramos é advogado, escritor, membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú, ex-presidente do Conselho Municipal do Idoso em nossa cidade (2009-2011) e autor do livro O Idoso do Plaza: crônicas para saber envelhecer (Publit, Rio de Janeiro, 2018), recém lançado em nossa cidade.


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Página 3
Divulgação/Sectur/PMBC

ARTIGO: Apartheid no Bondindinho: um incômodo diálogo

Por Robson Ramos

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Terça, 24/9/2019 16:47.

“Eu me sinto como se estivesse vivendo no Apartheid”. Foi o que ouvi de um outro idoso – que chamarei de Nelson, quando já passava de 20hs e fazíamos o trajeto do Bondindinho. Eu havia saído de uma reunião e o Nelson estava vindo do trabalho numa cidade vizinha. Ele me disse que faz esse trajeto praticamente todos os dias da semana. Após pegar no batente o dia todo em Itajaí ele pega o Bondindinho bem no início da Avenida Brasil, no sentido Barra Sul. Por fazer uso do direito à gratuidade é obrigado a permanecer sentado na parte de trás do ônibus, reservada “preferencialmente” – o que é um eufemismo, para pessoas idosas. Digo eufemismo porque a pessoa com mais de 60 anos, que faz uso do direito de não pagar, é constrangida a permanecer naquele fundo, na parte de trás do ônibus ainda que a parte da frente do ônibus, bem mais espaçosa e com assentos mais confortáveis, esteja vazia.

E assim foi nossa conversa depois que perguntei a ele como se sentia, como um trabalhador ativo contribuindo para a sociedade, trazendo recursos para alimentar sua família, sendo impedido de se movimentar livremente no interior daquele veículo que vemos circulando pela cidade de maneira simpática e convidativa.

A menção que o Nelson fez ao Apartheid não deixou dúvidas sobre seu sentimento. Imediatamente pusemo-nos a falar sobre o que foi o Apartheid, palavra do idioma africâner que significa separação e que passou a denominar a política racista da minoria branca que vigorou entre 1948 e 1994 na África do Sul. Era um regime que pretendia impedir o relacionamento entre as pessoas de raças diferentes. Graças a esse regime a palavra Apartheid passou a ser usada para descrever qualquer prática que separe as pessoas. Enquanto conversávamos éramos transportados para bem longe por meio da reflexão histórico-política que fazíamos.

Não demorou muito e logo fizemos a conexão com a humilhante política de segregação racial praticada no Sul dos Estados Unidos, onde os negros só podiam se sentar na parte de trás dos ônibus, enquanto a parte da frente era reservada aos brancos, o que nos fez lembrar de Rosa Parks, a mulher que ficou conhecida como a "mãe dos movimentos pelos direitos civis" nos EUA, depois de se recusar a ceder a um branco o seu assento num ônibus. Isso aconteceu em Montgomery, no estado do Alabama, no dia 1º de Dezembro de 1955. O silencioso protesto de Rosa Parks propagou-se rapidamente e obteve apoio de Martin Luther King Jr.

É no mínimo curioso que a experiência vivida por dois usuários do Bondindinho, que resolvem conversar sobre o sentimento comum diante daquilo que inegavelmente representa um constrangimento: impedidos de usar os demais espaços daquele transporte, a ponto de levá-los a travar ali mesmo um diálogo tão rico e repleto de significado, na parte dos fundos do Bondindinho, sobre situações aparentemente tão longínquas na história e que, no entanto, podem estar conectadas ao que pessoas vivenciam diariamente nesse transporte que é parte integrante do cotidiano dessa cidade.

Essa semelhança entre as experiências vividas na África do Sul e no Sul dos Estados, com o que acontece naquela parte do Bondindinho que alguns chamam de “cozinha”, outros de “chiqueirinho”, pode estar associada a uma postura discriminatória contra pessoas idosas.

O Nelson não estava brincando quando mostrou sua indignação em relação a isso. “A gente trabalha a vida toda, mesmo depois de aposentado, e ainda sofre essa humilhação.” Fiz uma pausa naquele momento e dirigi meu olhar para as vitrines bonitas e chamativas da Av. Brasil, sem saber o que dizer para ele naquele momento. No mesmo instante o ônibus parou para duas pessoas idosas que tentaram subir, entretanto foram impedidas pelo cobrador, pois não havia assento disponível na parte de trás, e teriam que ficar esperando mais 30 minutos no frio até passar o próximo, ainda que a parte da frente do ônibus estivesse com 80% dos assentos disponíveis.

Naquele momento meu amigo olhou para mim e disse: “É justo isso? Essas pessoas terão que ficar esperando mais 30 minutos nesse frio e, se tiverem hora marcada para algum compromisso não chegarão a tempo. Se um filho ou filha, ou cônjuge, estiver esperando em casa terá que esperar pelo menos mais meia hora pela chegada do ente querido. Até lá a sopa já terá esfriado. Onde está o respeito pelos idosos? Não é disso que fala o Estatuto do Idoso?” perguntou Nelson ao cobrador do ônibus que, com ar de desinteresse não desgrudava os olhos do celular.

As pessoas ao redor ouviam tudo com ar de aprovação. Uma senhora, de muleta, aproveitou e fez um desabafo que ecoou de forma contundente: “pois é ... e olhe que a cidade recebeu um prêmio pelo atendimento aos idosos. Foram até Brasília receber o tal do prêmio, mas ninguém vê esse abuso contra os idosos que são obrigados a ficar empoleirados aqui no fundo, enquanto o restante do ônibus está vazio.”

Nelson foi ainda mais longe na sua provocação. Perguntou-me sobre o que eu sabia a respeito do Princípio da Dignidade Humana e se não seria aplicável a essa situação vexatória à qual os idosos são submetidos. Sua indignação ficou ainda mais explícita quando lhe disse que eu havia sido presidente do Conselho Municipal do Idoso há alguns anos em Balneário Camboriú. Aproveitando a oportunidade para me colocar ainda mais contra a parede e, demonstrar que ele já andou lendo sobre o assunto, indagou: “Não é verdade que a dignidade da pessoa humana, está acima de qualquer outra coisa?

A eloquência e perspicácia do meu interlocutor me fez pensar. Não teria ele razão sobre o constrangimento imposto a uma pessoa idosa, dentro do Bondindinho? Não estaria configurada a violação do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, presente na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano?

Ponderei sobre o art. 10 parágrafos 2º e 3º do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) que diz:

É obrigação do Estado e da sociedade, assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis.

        § 2o O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, de valores, ideias e crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.

       § 3o É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Não satisfeito, Nelson queria ir mais a fundo e mostrar que aquele cidadão, idoso, trabalhador, entendia das coisas. Sabendo que já contava com a atenção da pequena plateia à nossa volta, ele disse: “Olha só, daqui a pouco vou descer, mas, para fechar essa nossa conversa, quando chegar em casa dê uma olhada no que disse Immanuel Kant sobre a Dignidade Humana”. E não é que ele sabia mesmo do que estava falando?

Em seguida levantou-se, pediu para o cobrador puxar a cordinha para que o motorista parasse, despediu-se de mim com um aperto de mão efusivo ajustando o boné de lã e a mochila. A porta se abriu e, antes de descer por completo e virar a esquina que já estava quase que coberta pela neblina, virou-se para mim, agradeceu pela conversa e fez uma sugestão: “acho que tudo isso merece uma conversa com o Ministério Público. Esse Apartheid tem que acabar! Pense nisso.”

Robson Ramos é advogado, escritor, membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú, ex-presidente do Conselho Municipal do Idoso em nossa cidade (2009-2011) e autor do livro O Idoso do Plaza: crônicas para saber envelhecer (Publit, Rio de Janeiro, 2018), recém lançado em nossa cidade.


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