Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Negócios
Odebrecht ainda pena um ano após 'delação do fim do mundo'

Domingo, 25/3/2018 7:38.

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RAQUEL LANDIM
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco mais de um ano após a "delação do fim do mundo", em que 78 executivos relataram pagamento de propina a políticos e servidores, a Odebrecht ainda encontra dificuldades para superar a crise detonada pela Lava Jato.

Os entraves que persistem com as autoridades no Brasil e no exterior estão atrapalhando as diversas empresas da Odebrecht a ganhar novos contratos e atrasando a venda de ativos para elevar o caixa. Sem dinheiro entrando, os problemas financeiros do grupo baiano são graves.

Nos próximos 12 meses, a Odebrecht precisa pagar cerca de R$ 4 bilhões em dívidas. São R$ 1,5 bilhão de financiamentos relacionados a obras no Peru, R$ 1,5 bilhão de débitos da OTP, o braço de concessões do grupo, e cerca de R$ 1 bilhão da construtora (R$ 550 milhões de um bônus que vence em abril e o restante em juros das dívidas garantidas pela empresa).

Segundo pessoas próximas ao grupo, os débitos no Peru serão quitados assim que o governo local liberar os recursos obtidos com a venda de uma hidrelétrica, que vêm sendo retidos para o pagamento de indenizações.

Na OTP, a dívida foi renegociada no aguardo da venda da concessão da BR-163 e de outros ativos. O dinheiro, portanto, estaria carimbado.

Entre os credores, porém, existe o temor de que a empresa não consiga concluir as operações e seja obrigada a pedir aos bancos para rolar essas dívidas.

A Odebrecht Engenharia e Construção não tem condições de pagar o bônus sem capitalização dos controladores. A holding, que também está sem recursos, negocia com as instituições financeiras um novo empréstimo superior a R$ 1 bilhão para injetar na construtora, mas as conversas vêm sendo muito duras.

Vários motivos explicam por que a crise da Odebrecht é tão grave e duradoura: o endividamento é muito alto (a dívida líquida chega a R$ 76 bilhões), o impacto na marca foi devastador (até agora a construtora quase não fechou novos contratos) e sua delação atingiu um número tão grande de políticos, instituições e países que persistem uma série de entraves.

Só para citar dois exemplos: apesar do acordo de leniência com o Ministério Público, o BNDES não liberou os recursos que haviam sido empenhados para obras da Odebrecht Engenharia e Construção no exterior, e a Petrobras mantém a antiga Odebrecht Óleo e Gás (que mudou de nome para Ocyan) impedida de fechar novos contratos.

ESFORÇOS

O conglomerado vem fazendo esforços para tentar virar a página: enxugou as operações (vendeu a empresa de saneamento e fechou o negócio de defesa e tecnologia), reestruturou a dívida de três companhias (Ocyan, Atvos e Enseada), renovou parte do seu quadro de executivos e implementou regras de conformidade.

"Nos últimos anos, fizemos o aeroporto do Rio, entregamos as obras que o Brasil precisava para fazer a Olimpíada, construímos 3.000 habitações. A Odebrecht não está parada", afirmou Luciano Guidolin, presidente da Odebrecht S.A., que assumiu o cargo em maio de 2017. "Seremos um grupo muito menor, mas muito mais sólido."

Desde que o escândalo estourou, o grupo Odebrecht diminuiu sensivelmente de tamanho. A receita bruta passou do ápice de R$ 132,5 bilhões em 2015 para R$ 83,1 bilhões em junho de 2017 (dado mais recente disponível). O número de funcionários caiu de 168 mil em 2014 para 60 mil em dezembro.

A Odebrecht também substituiu a maior parte de suas lideranças. Na construtora, a cúpula encolheu de 60 para dez pessoas –nove diretores regionais e um presidente (eram cinco CEOs em 2014).

As mudanças devem culminar com a saída de Emílio Odebrecht da presidência do conselho de administração em abril e com a entrada de mais conselheiros independentes, que devem representar pelo menos um terço do colegiado, mas ainda persistem muitas dúvidas de qual será a real influência da família no negócio.

Nos últimos meses, o grupo também implementou sistemas de conformidade para garantir que crimes não voltem a ocorrer. Passou a fazer uma investigação detalhada de fornecedores e clientes, instalou conselhos de administração em todas as companhias e contratou um canal de denúncias terceirizado.

Os trabalhos vêm sendo acompanhados de perto por monitores indicados pelo Departamento de Justiça dos EUA e pelo Ministério Público brasileiro. Apesar do sigilo, segundo pessoas que acompanham o processo, houve avanços significativos, pois a empresa partiu praticamente do zero, mas ainda há muito a fazer.

Entre as iniciativas para tentar superar a crise, estão um novo posicionamento da holding, que passa a investidora e não gestora dos negócios. Por causa disso, as companhias estão abandonando o sobrenome da família: além da Ocyan, a Odebrecht Agroindustrial agora é Atvos, a Odebrecht Realizações Imobiliárias virou OR, e a Braskem deixou o logo vermelho.

Até mesmo a construtora, origem e coração dos negócios, vai deixar de se chamar Odebrecht Engenharia e Construção. Os executivos, no entanto, enfrentam um nó para escolher a nova marca: querem se livrar do estigma de corrupção associado ao nome Odebrecht, mas manter a percepção de excelência na engenharia construída em mais de 70 anos de história.

Dos 1.500 nomes aventados para a construtora no início do processo, restaram cinco.

Executivos veem Marcelo como a maior ameaça à companhia

MARIO CESAR CARVALHO
(FOLHAPRESS) - Existem dois tipos de bicho-papão a aterrorizar empresas que foram apanhadas pela Operação Lava Jato e fizeram acordos com os procuradores da força-tarefa: os bancos, que podem quebrar a companhia em razão de dívidas, e órgãos do governo, como a AGU (Advocacia-Geral da União), que podem levar à bancarrota o empresário com multas impossíveis de serem pagas.

A Odebrecht, a maior empreiteira brasileira e a que enfrenta uma das situações financeiras mais delicadas, encara um terceiro tipo de bicho-papão: o antigo dirigente que foi preso e agora quer justiça ou vingança, dependendo do ponto de vista.

Marcelo Odebrecht, ex-presidente da companhia, encarna esse papel e quer atingir a cúpula da empresa por julgar que ali há criminosos que não confessaram seus crimes.

O alvo principal de Marcelo é o futuro presidente do conselho de administração, o cargo mais elevado na organização: Newton de Souza, sucessor de Emílio Odebrecht, o pai de Marcelo, nessa função a partir de abril.

É por essa razão que Marcelo é visto por executivos e ex-executivos da Odebrecht como a principal ameaça ao futuro da companhia, mais do que bancos e órgãos do governo, segundo a reportagem apurou com três desses profissionais com a condição de que seus nomes não fossem citados.

Newton de Souza virou o principal alvo de Marcelo por ser visto por ele como uma extensão do pai, com quem está brigado desde antes de ser preso na Lava Jato, em junho de 2015. Marcelo diz que seu pai preservou Souza do acordo de delação que 78 executivos assinaram para continuar mantendo a influência no negócio, enquanto ele passou dois anos e meio de prisão e vai passar prazo igual em prisão domiciliar.

Emílio apontou outra motivação em documento divulgado no fim do ano passado. Disse que visava a profissionalização da companhia ao proibir que parentes sejam presidentes de empresas.

ELE SABIA

Marcelo começou seu ataque a Souza anexando emails em processos que estão com o juiz Sergio Moro, dos quais o executivo recebia cópias. Numa das mensagens, Marcelo sugere que Souza sabia da política da empresa de pagar propina.

Um email de 2008 cita o caso de negociação de impostos no governo Lula que resultou no pagamento de um suborno de R$ 50 milhões ao PT, segundo a delação do próprio Marcelo. A mensagem também trata de propina solicitada por um intermediário de um contrato que a Odebrecht fechou na Líbia.

Souza rebate que não há nada de ilegal no email. O caso foi revelado pela Folha de S.Paulo em 6 de março.

Numa escalada aos ataques, Marcelo enviou mensagem a executivos da Odebrecht com críticas mais diretas a Souza. No email, ele diz que a companhia não pode mais tolerar que "pessoas que optaram por omitir seus erros continuem na organização". O teor da mensagem foi revelado pelo jornal Valor e confirmado pela Folha de S.Paulo.

Ele afirma que é um equívoco achar que está em guerra com a empresa: "Não tenho nenhum sentimento de vingança, apenas de preservar o legado de meu avô".

O temor dos executivos ouvidos pela reportagem é que os ataques de Marcelo inviabilizem a ida de Souza para a presidência do conselho. Isso jogaria o grupo numa rota de incertezas que dificultaria ainda mais a negociação de novos empréstimos bancários.

OUTRO LADO

A Odebrecht não quis comentar o email de Marcelo. Em resposta genérica, diz que "a significativa transformação empreendida no grupo Odebrecht nos últimos anos está consolidada na nova política sobre governança, baseada nas mais avançadas referências". A nota frisa como "decisão fundamental" a separação entre acionistas e executivos.


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Odebrecht ainda pena um ano após 'delação do fim do mundo'

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Domingo, 25/3/2018 7:38.

RAQUEL LANDIM
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco mais de um ano após a "delação do fim do mundo", em que 78 executivos relataram pagamento de propina a políticos e servidores, a Odebrecht ainda encontra dificuldades para superar a crise detonada pela Lava Jato.

Os entraves que persistem com as autoridades no Brasil e no exterior estão atrapalhando as diversas empresas da Odebrecht a ganhar novos contratos e atrasando a venda de ativos para elevar o caixa. Sem dinheiro entrando, os problemas financeiros do grupo baiano são graves.

Nos próximos 12 meses, a Odebrecht precisa pagar cerca de R$ 4 bilhões em dívidas. São R$ 1,5 bilhão de financiamentos relacionados a obras no Peru, R$ 1,5 bilhão de débitos da OTP, o braço de concessões do grupo, e cerca de R$ 1 bilhão da construtora (R$ 550 milhões de um bônus que vence em abril e o restante em juros das dívidas garantidas pela empresa).

Segundo pessoas próximas ao grupo, os débitos no Peru serão quitados assim que o governo local liberar os recursos obtidos com a venda de uma hidrelétrica, que vêm sendo retidos para o pagamento de indenizações.

Na OTP, a dívida foi renegociada no aguardo da venda da concessão da BR-163 e de outros ativos. O dinheiro, portanto, estaria carimbado.

Entre os credores, porém, existe o temor de que a empresa não consiga concluir as operações e seja obrigada a pedir aos bancos para rolar essas dívidas.

A Odebrecht Engenharia e Construção não tem condições de pagar o bônus sem capitalização dos controladores. A holding, que também está sem recursos, negocia com as instituições financeiras um novo empréstimo superior a R$ 1 bilhão para injetar na construtora, mas as conversas vêm sendo muito duras.

Vários motivos explicam por que a crise da Odebrecht é tão grave e duradoura: o endividamento é muito alto (a dívida líquida chega a R$ 76 bilhões), o impacto na marca foi devastador (até agora a construtora quase não fechou novos contratos) e sua delação atingiu um número tão grande de políticos, instituições e países que persistem uma série de entraves.

Só para citar dois exemplos: apesar do acordo de leniência com o Ministério Público, o BNDES não liberou os recursos que haviam sido empenhados para obras da Odebrecht Engenharia e Construção no exterior, e a Petrobras mantém a antiga Odebrecht Óleo e Gás (que mudou de nome para Ocyan) impedida de fechar novos contratos.

ESFORÇOS

O conglomerado vem fazendo esforços para tentar virar a página: enxugou as operações (vendeu a empresa de saneamento e fechou o negócio de defesa e tecnologia), reestruturou a dívida de três companhias (Ocyan, Atvos e Enseada), renovou parte do seu quadro de executivos e implementou regras de conformidade.

"Nos últimos anos, fizemos o aeroporto do Rio, entregamos as obras que o Brasil precisava para fazer a Olimpíada, construímos 3.000 habitações. A Odebrecht não está parada", afirmou Luciano Guidolin, presidente da Odebrecht S.A., que assumiu o cargo em maio de 2017. "Seremos um grupo muito menor, mas muito mais sólido."

Desde que o escândalo estourou, o grupo Odebrecht diminuiu sensivelmente de tamanho. A receita bruta passou do ápice de R$ 132,5 bilhões em 2015 para R$ 83,1 bilhões em junho de 2017 (dado mais recente disponível). O número de funcionários caiu de 168 mil em 2014 para 60 mil em dezembro.

A Odebrecht também substituiu a maior parte de suas lideranças. Na construtora, a cúpula encolheu de 60 para dez pessoas –nove diretores regionais e um presidente (eram cinco CEOs em 2014).

As mudanças devem culminar com a saída de Emílio Odebrecht da presidência do conselho de administração em abril e com a entrada de mais conselheiros independentes, que devem representar pelo menos um terço do colegiado, mas ainda persistem muitas dúvidas de qual será a real influência da família no negócio.

Nos últimos meses, o grupo também implementou sistemas de conformidade para garantir que crimes não voltem a ocorrer. Passou a fazer uma investigação detalhada de fornecedores e clientes, instalou conselhos de administração em todas as companhias e contratou um canal de denúncias terceirizado.

Os trabalhos vêm sendo acompanhados de perto por monitores indicados pelo Departamento de Justiça dos EUA e pelo Ministério Público brasileiro. Apesar do sigilo, segundo pessoas que acompanham o processo, houve avanços significativos, pois a empresa partiu praticamente do zero, mas ainda há muito a fazer.

Entre as iniciativas para tentar superar a crise, estão um novo posicionamento da holding, que passa a investidora e não gestora dos negócios. Por causa disso, as companhias estão abandonando o sobrenome da família: além da Ocyan, a Odebrecht Agroindustrial agora é Atvos, a Odebrecht Realizações Imobiliárias virou OR, e a Braskem deixou o logo vermelho.

Até mesmo a construtora, origem e coração dos negócios, vai deixar de se chamar Odebrecht Engenharia e Construção. Os executivos, no entanto, enfrentam um nó para escolher a nova marca: querem se livrar do estigma de corrupção associado ao nome Odebrecht, mas manter a percepção de excelência na engenharia construída em mais de 70 anos de história.

Dos 1.500 nomes aventados para a construtora no início do processo, restaram cinco.

Executivos veem Marcelo como a maior ameaça à companhia

MARIO CESAR CARVALHO
(FOLHAPRESS) - Existem dois tipos de bicho-papão a aterrorizar empresas que foram apanhadas pela Operação Lava Jato e fizeram acordos com os procuradores da força-tarefa: os bancos, que podem quebrar a companhia em razão de dívidas, e órgãos do governo, como a AGU (Advocacia-Geral da União), que podem levar à bancarrota o empresário com multas impossíveis de serem pagas.

A Odebrecht, a maior empreiteira brasileira e a que enfrenta uma das situações financeiras mais delicadas, encara um terceiro tipo de bicho-papão: o antigo dirigente que foi preso e agora quer justiça ou vingança, dependendo do ponto de vista.

Marcelo Odebrecht, ex-presidente da companhia, encarna esse papel e quer atingir a cúpula da empresa por julgar que ali há criminosos que não confessaram seus crimes.

O alvo principal de Marcelo é o futuro presidente do conselho de administração, o cargo mais elevado na organização: Newton de Souza, sucessor de Emílio Odebrecht, o pai de Marcelo, nessa função a partir de abril.

É por essa razão que Marcelo é visto por executivos e ex-executivos da Odebrecht como a principal ameaça ao futuro da companhia, mais do que bancos e órgãos do governo, segundo a reportagem apurou com três desses profissionais com a condição de que seus nomes não fossem citados.

Newton de Souza virou o principal alvo de Marcelo por ser visto por ele como uma extensão do pai, com quem está brigado desde antes de ser preso na Lava Jato, em junho de 2015. Marcelo diz que seu pai preservou Souza do acordo de delação que 78 executivos assinaram para continuar mantendo a influência no negócio, enquanto ele passou dois anos e meio de prisão e vai passar prazo igual em prisão domiciliar.

Emílio apontou outra motivação em documento divulgado no fim do ano passado. Disse que visava a profissionalização da companhia ao proibir que parentes sejam presidentes de empresas.

ELE SABIA

Marcelo começou seu ataque a Souza anexando emails em processos que estão com o juiz Sergio Moro, dos quais o executivo recebia cópias. Numa das mensagens, Marcelo sugere que Souza sabia da política da empresa de pagar propina.

Um email de 2008 cita o caso de negociação de impostos no governo Lula que resultou no pagamento de um suborno de R$ 50 milhões ao PT, segundo a delação do próprio Marcelo. A mensagem também trata de propina solicitada por um intermediário de um contrato que a Odebrecht fechou na Líbia.

Souza rebate que não há nada de ilegal no email. O caso foi revelado pela Folha de S.Paulo em 6 de março.

Numa escalada aos ataques, Marcelo enviou mensagem a executivos da Odebrecht com críticas mais diretas a Souza. No email, ele diz que a companhia não pode mais tolerar que "pessoas que optaram por omitir seus erros continuem na organização". O teor da mensagem foi revelado pelo jornal Valor e confirmado pela Folha de S.Paulo.

Ele afirma que é um equívoco achar que está em guerra com a empresa: "Não tenho nenhum sentimento de vingança, apenas de preservar o legado de meu avô".

O temor dos executivos ouvidos pela reportagem é que os ataques de Marcelo inviabilizem a ida de Souza para a presidência do conselho. Isso jogaria o grupo numa rota de incertezas que dificultaria ainda mais a negociação de novos empréstimos bancários.

OUTRO LADO

A Odebrecht não quis comentar o email de Marcelo. Em resposta genérica, diz que "a significativa transformação empreendida no grupo Odebrecht nos últimos anos está consolidada na nova política sobre governança, baseada nas mais avançadas referências". A nota frisa como "decisão fundamental" a separação entre acionistas e executivos.


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