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PÁGINA 3 / Negócios
Brasil terá de aceitar cotas para ficar isento de sobretaxa do aço, dizem EUA

Sexta, 13/4/2018 6:36.

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PATRÍCIA CAMPOS MELLO E SYLVIA COLOMBO, ENVIADAS ESPECIAIS
LIMA, PERU (FOLHAPRESS) - Em reunião com o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, afirmou que a maneira mais rápida de o Brasil conseguir isenção permanente das tarifas sobre o aço brasileiro é concordar com restrição voluntária de exportações e estabelecimento de cotas, semelhante ao que foi negociado pela Coreia do Sul.

Brasil, Coreia do Sul, Argentina, Austrália e União Europeia tiveram as tarifas de 25% sobre aço e 10% sobre o alumínio suspensas até 30 de abril, enquanto negociam a exclusão definitiva das sobretaxas. Os EUA são os maiores compradores de aço brasileiro, e as tarifas podem gerar perda anual de US$ 1,1 bilhão para o país.

A Coreia do Sul fechou um acordo se comprometendo a não ultrapassar uma cota equivalente a 70% da média exportada nos três últimos anos. Além disso, abriu mais seu mercado para a importação de carros dos Estados Unidos. Com isso, teve as tarifas suspensas.

Mas o governo brasileiro resiste em concordar com redução voluntária de exportações, que geraria perdas para o setor, e não cogita fazer concessões em outros produtos fora da cadeia do aço.

SINGULAR

Ross teria reconhecido a posição singular do Brasil e a complementaridade no setor do aço. O governo brasileiro argumenta que as sobretaxas sobre seu aço vão prejudicar diretamente as siderúrgicas americanas.

Elas compram do Brasil mais de 80% do produto sob a forma semiacabada para transformar em peças e vender a fabricantes de eletrodomésticos, automóveis e outros. Além disso, o Brasil importa US$ 1 bilhão em carvão dos EUA, usado na fabricação de aço.

Ross aconselhou o Brasil a estimular empresas americanas a entrarem com pedidos de exclusão junto ao departamento de Comércio. Mas o processo tem sido burocrático e o departamento de comércio foi inundado com mais de 700 pedidos.

As indústrias americanas precisam pedir exclusão de determinada quantidade de certo produto vindo de um país específico, e provar que ele é essencial é insubstituível por um similar nacional.

Ele também reforçou a necessidade de cooperação no fórum mundial que trata do excesso de capacidade de produção na China, onde os dois países já colaboram.

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTr, determinará quais países terão as tarifas suspensas de forma permanente.

Além do Brasil, Argentina, União Europeia e Austrália estão negociando com o governo de Donald Trump.

O Canadá e o México também buscam uma exceção, mas como parte de um acordo na renegociação do Nafta.

O encontro também teve a participação do secretário de comércio exterior, Abrão Árabe Neto, e do secretário de Estado dos EUA em exercício, John Sullivan. Rússia, Turquia. Japão, Taiwan, China e Índia, que estão entre os 10 maiores exportadores, não estão na lista de suspensão e passaram a pagar tarifas.

Problema é excesso de produção de aço

Na avaliação do secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, o país precisa lidar com todas as partes envolvidas na produção de aço para chegar a uma solução de um problema que é global, o excesso do produto.

De acordo com Ross, a restrição voluntária de exportações, que foi aceita pela Coreia do Sul, é uma das possibilidades.

MODELO SUL-COREANO

Na Coreia, aceitaram uma cota de 30% menos que o aço que exportaram em média entre 2015 e 2017. Além disso, dobraram a cota de carros que podemos vender para eles. Alguns países latino-americanos também estão cooperando com a gente. Restrições de exportações são uma das soluções possíveis. Eu expliquei [ao ministro Aloysio Nunes] as questões que estamos tentando resolver, entre elas a triangulação. As importações diretas da China caíram muito, mas, milagrosamente, aumentaram as de outros países que nem produzem tanto aço.

CHINA E AMÉRICA LATINA

Olhe para os investimentos da China na América Latina. Há muito mais papo do que ação. E muito do investimento são fusões e aquisições, em vez construção de fábricas. Um dos caminhos para a América Latina é a integração vertical para manufaturas. Não há valor adicionado em exportar matérias-primas. Cerca de 70% do que os EUA compram da região são manufaturados, e isso faz um bem muito maior à economia latino-americana. Temos um déficit comercial quase três vezes maior que o superavit comercial que a China tem com a América Latina. Qual é melhor para a região?

SIDERURGIA BRASILEIRA

A complementaridade é muito relevante. O Brasil compra carvão dos EUA para produzir aço, US$ 1 bilhão. O país tem siderúrgicas nos EUA, muito do que o Brasil exporta são semiacabados que depois são acabados nos EUA. O Brasil está em uma posição diferente de muitos outros países, e nós reconhecemos isso. No entanto, os EUA precisam lidar com todas as partes envolvidas [na produção global] para chegar a uma solução para um problema global (excesso de produção).

CHINA E SOJA BRASILEIRA

A agricultura dos EUA é uma das melhores do mundo, tem alta produtividade com baixo custo. Vamos supor que a China imponha grandes tarifas sobre vários produtos agrícolas. Vai ser muito difícil conseguirem mudar rapidamente de fornecedor. Suprimos um terço da soja que a China compra. O Brasil é o maior fornecedor, mas, para substituir totalmente as exportações dos EUA, teria de elevar em 60% suas exportações. Se o Brasil conseguisse exportar 60% a mais, já estaria fazendo isso. Se a China parar de comprar da gente, vai aumentar o preço de alimentos no país, e alimentação é uma parcela muito maior do gasto de um chinês do que é de um americano.


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Página 3

Brasil terá de aceitar cotas para ficar isento de sobretaxa do aço, dizem EUA

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Sexta, 13/4/2018 6:36.

PATRÍCIA CAMPOS MELLO E SYLVIA COLOMBO, ENVIADAS ESPECIAIS
LIMA, PERU (FOLHAPRESS) - Em reunião com o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, afirmou que a maneira mais rápida de o Brasil conseguir isenção permanente das tarifas sobre o aço brasileiro é concordar com restrição voluntária de exportações e estabelecimento de cotas, semelhante ao que foi negociado pela Coreia do Sul.

Brasil, Coreia do Sul, Argentina, Austrália e União Europeia tiveram as tarifas de 25% sobre aço e 10% sobre o alumínio suspensas até 30 de abril, enquanto negociam a exclusão definitiva das sobretaxas. Os EUA são os maiores compradores de aço brasileiro, e as tarifas podem gerar perda anual de US$ 1,1 bilhão para o país.

A Coreia do Sul fechou um acordo se comprometendo a não ultrapassar uma cota equivalente a 70% da média exportada nos três últimos anos. Além disso, abriu mais seu mercado para a importação de carros dos Estados Unidos. Com isso, teve as tarifas suspensas.

Mas o governo brasileiro resiste em concordar com redução voluntária de exportações, que geraria perdas para o setor, e não cogita fazer concessões em outros produtos fora da cadeia do aço.

SINGULAR

Ross teria reconhecido a posição singular do Brasil e a complementaridade no setor do aço. O governo brasileiro argumenta que as sobretaxas sobre seu aço vão prejudicar diretamente as siderúrgicas americanas.

Elas compram do Brasil mais de 80% do produto sob a forma semiacabada para transformar em peças e vender a fabricantes de eletrodomésticos, automóveis e outros. Além disso, o Brasil importa US$ 1 bilhão em carvão dos EUA, usado na fabricação de aço.

Ross aconselhou o Brasil a estimular empresas americanas a entrarem com pedidos de exclusão junto ao departamento de Comércio. Mas o processo tem sido burocrático e o departamento de comércio foi inundado com mais de 700 pedidos.

As indústrias americanas precisam pedir exclusão de determinada quantidade de certo produto vindo de um país específico, e provar que ele é essencial é insubstituível por um similar nacional.

Ele também reforçou a necessidade de cooperação no fórum mundial que trata do excesso de capacidade de produção na China, onde os dois países já colaboram.

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTr, determinará quais países terão as tarifas suspensas de forma permanente.

Além do Brasil, Argentina, União Europeia e Austrália estão negociando com o governo de Donald Trump.

O Canadá e o México também buscam uma exceção, mas como parte de um acordo na renegociação do Nafta.

O encontro também teve a participação do secretário de comércio exterior, Abrão Árabe Neto, e do secretário de Estado dos EUA em exercício, John Sullivan. Rússia, Turquia. Japão, Taiwan, China e Índia, que estão entre os 10 maiores exportadores, não estão na lista de suspensão e passaram a pagar tarifas.

Problema é excesso de produção de aço

Na avaliação do secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, o país precisa lidar com todas as partes envolvidas na produção de aço para chegar a uma solução de um problema que é global, o excesso do produto.

De acordo com Ross, a restrição voluntária de exportações, que foi aceita pela Coreia do Sul, é uma das possibilidades.

MODELO SUL-COREANO

Na Coreia, aceitaram uma cota de 30% menos que o aço que exportaram em média entre 2015 e 2017. Além disso, dobraram a cota de carros que podemos vender para eles. Alguns países latino-americanos também estão cooperando com a gente. Restrições de exportações são uma das soluções possíveis. Eu expliquei [ao ministro Aloysio Nunes] as questões que estamos tentando resolver, entre elas a triangulação. As importações diretas da China caíram muito, mas, milagrosamente, aumentaram as de outros países que nem produzem tanto aço.

CHINA E AMÉRICA LATINA

Olhe para os investimentos da China na América Latina. Há muito mais papo do que ação. E muito do investimento são fusões e aquisições, em vez construção de fábricas. Um dos caminhos para a América Latina é a integração vertical para manufaturas. Não há valor adicionado em exportar matérias-primas. Cerca de 70% do que os EUA compram da região são manufaturados, e isso faz um bem muito maior à economia latino-americana. Temos um déficit comercial quase três vezes maior que o superavit comercial que a China tem com a América Latina. Qual é melhor para a região?

SIDERURGIA BRASILEIRA

A complementaridade é muito relevante. O Brasil compra carvão dos EUA para produzir aço, US$ 1 bilhão. O país tem siderúrgicas nos EUA, muito do que o Brasil exporta são semiacabados que depois são acabados nos EUA. O Brasil está em uma posição diferente de muitos outros países, e nós reconhecemos isso. No entanto, os EUA precisam lidar com todas as partes envolvidas [na produção global] para chegar a uma solução para um problema global (excesso de produção).

CHINA E SOJA BRASILEIRA

A agricultura dos EUA é uma das melhores do mundo, tem alta produtividade com baixo custo. Vamos supor que a China imponha grandes tarifas sobre vários produtos agrícolas. Vai ser muito difícil conseguirem mudar rapidamente de fornecedor. Suprimos um terço da soja que a China compra. O Brasil é o maior fornecedor, mas, para substituir totalmente as exportações dos EUA, teria de elevar em 60% suas exportações. Se o Brasil conseguisse exportar 60% a mais, já estaria fazendo isso. Se a China parar de comprar da gente, vai aumentar o preço de alimentos no país, e alimentação é uma parcela muito maior do gasto de um chinês do que é de um americano.


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