Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Mundo
Biden busca vice-presidente que amplie sua base e seja o futuro dos democratas

Lista de candidatas se divide entre moderadas e progressistas

Domingo, 2/8/2020 8:26.
EBC.

Publicidade

Por Beatriz Bulla, correspondente

O democrata Joe Biden prometeu anunciar nesta semana o nome de sua vice - uma mulher, segundo ele - na chapa que disputará a presidência dos EUA contra Donald Trump. A decisão tornou-se não só um dos movimentos mais importantes de Biden na corrida eleitoral, como também dá sinais sobre o futuro do partido.

Se eleito, Biden será o político mais velho a tomar posse na Casa Branca, aos 77 anos. A possibilidade de que, em função da idade, ele seja presidente por apenas um mandato aumentou a importância da decisão sobre quem vai acompanhá-lo.

O próprio democrata se definiu como um candidato "de transição". Independentemente do resultado, a vice será naturalmente credenciada como uma virtual candidata democrata em 2024. A disputa pela nomeação este ano foi a mais diversa da história do partido, com duas mulheres em posições competitivas e um candidato jovem e assumidamente gay.

Biden passa longe das novidades apresentadas nas prévias. É um político de carreira, com quase 80 anos, branco, heterossexual e acusado de abuso sexual por uma ex-assessora.

O comprometimento em colocar uma mulher na chapa foi um sinal ao eleitorado que cobra mais representatividade no partido - e uma forma de minimizar as acusações da ex-assessora, Tara Reade.

Mas a escolha da companheira de chapa tem sido debatida pelos assessores de forma meticulosa, para assegurar votos e não atrapalhar o bom momento do democrata. Christopher Devine, professor de ciências políticas da Universidade de Dayton, passou anos pesquisando a influência do vice-presidente nas eleições e escreveu, em coautoria com Kyle Kopko, o livro Do Running Mates Matter? ("Companheiros de chapa importam?", em tradução livre).

Segundo ele, a escolha tende a ser supervalorizada, sendo que a indicação de um nome de determinado Estado, por exemplo, não representa conversão de votos a favor do partido no local de origem do escolhido. No entanto, há influência na percepção do eleitorado sobre o próprio candidato.

"Identificamos que, em 2008, aqueles que consideravam Sarah Palin muito conservadora respondiam com mais frequência que John McCain era muito conservador, em vez de moderado. Se aplicarmos isso a 2020, o desafio de Biden é indicar se quer se manter no centro ou mandar uma mensagem à esquerda", afirma Devine. "Nosso trabalho sugere que, se ele escolher alguém como Elizabeth Warren ou Karen Bass, os eleitores, provavelmente, reavaliarão sua ideologia e pensarão nele como sendo mais progressista. Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, dependendo de quais eleitores a campanha quiser conquistar."

A maioria dos eleitores jovens, negros, latinos e das mulheres se identifica com o Partido Democrata. Manter a chapa identificada como o centro moderado, portanto, pode ajudar Biden a conquistar votos do eleitorado independente, masculino e mais velho, que votou em Trump em 2016.

Mas, como o voto nos EUA não é obrigatório, os democratas precisam empolgar a base do eleitorado - jovens, negros, latinos e mulheres - a ponto de fazê-los votar em níveis recordes, como os registrados na eleição de Barack Obama. A escolha de uma vice negra ou latina seria um aceno importante a esse eleitorado.

A possibilidade de escolher uma companheira de chapa negra ganhou força com a onda de protestos de junho, contra o racismo e a violência policial. Dentro do partido, no entanto, há quem argumente que Biden já terá o voto dos negros, porque herda o capital político de Obama, e a escolha é uma chance de fazer um aceno a outros eleitores.

A lista de potenciais vice-presidentes inclui a senadora Kamala Harris. Ela chegou a ser pré-candidata democrata, mas saiu da corrida antes do início das primárias. Kamala é negra e defensora dos protestos antirracismo, mas o histórico como procuradora pesa contra seu nome entre a ala progressista.

O nome da deputada Karen Bass ganhou força nos últimos dias. No quinto mandato na Câmara, ela é presidente da bancada negra no Congresso e é apontada como figura importante dos bastidores de negociações parlamentares, tendo bom trânsito com os republicanos.

Susan Rice, ex-embaixadora dos EUA na ONU, também consta na lista. A seu favor contam a experiência com política externa e a relação de proximidade com Biden durante o governo Obama.

Lista de candidatas se divide entre moderadas e progressistas

Se os estrategistas democratas quiserem sinalizar a união das diferentes alas do partido e garantir o voto de eleitores de esquerda, que se identificavam mais com o senador Bernie Sanders, Joe Biden pode escolher a senadora Elizabeth Warren, que também concorreu nas prévias. O aceno, no entanto, pode afastar eleitores independentes e de centro, com a perspectiva de que o futuro governo pode estar disposto a aderir a políticas mais radicais.

Da ala esquerda, a extensa lista de cotadas inclui estrelas em ascensão, como a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, a prefeita de Atlanta, Keisha Bottoms, e a deputada da Flórida, Val Demings.

Entre as cogitadas constam também Stacey Abrams, que perdeu por pouco a eleição para o governo da Geórgia, em 2018, as senadoras Tammy Baldwin e Tammy Duckworth, Michelle Lujan Grisham, a primeira governadora latina dos EUA, do Novo México, e a ex-governadora do Arizona Janet Napolitano.

Nomes do Meio-Oeste, como da governadora de Michigan, ganham força por serem ligados a Estados do Cinturão da Ferrugem, que trocaram Barack Obama por Donald Trump, em 2016.

A ideia de equilibrar a chapa com a escolha do vice - seja por razões geográficas ou ideológicas - fez parte da história americana. No livro Picking the Vice-President ("Escolhendo o vice-presidente", em tradução livre), Elaine Kamarck argumenta que a lógica durou até 1992, quando Bill Clinton mudou a forma de escolha e selecionou Al Gore com base na compatibilidade e parceria.

O novo modelo, segundo ela, foi repetido por George W. Bush, Obama e Trump.

A razão para a mudança é ligada a alterações no sistema de nomeação do candidato. O crescimento da relevância das primárias e o esvaziamento da convenção partidária diminuíram a pressão pela barganha em busca do equilíbrio da chapa, segundo a autora.

O ideal é encontrar um vice que seja capaz de equilibrar a chapa e seja um bom parceiro. Desde 1992, segundo Kamarck, o segundo quesito tem se sobreposto ao primeiro.

"Biden, melhor do que ninguém, sabe o quanto é importante ter alguém com quem ele possa trabalhar e seja um aliado leal. Ele era essa pessoa para Obama e foi um trunfo em negociações com o Congresso e aconselhamento sobre política externa. Biden entende o papel importante que o vice pode desempenhar", afirma Christopher Devine, professor de ciências políticas da Universidade de Dayton.


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade


Publicidade














Página 3
EBC.

Biden busca vice-presidente que amplie sua base e seja o futuro dos democratas

Lista de candidatas se divide entre moderadas e progressistas

Publicidade

Domingo, 2/8/2020 8:26.

Por Beatriz Bulla, correspondente

O democrata Joe Biden prometeu anunciar nesta semana o nome de sua vice - uma mulher, segundo ele - na chapa que disputará a presidência dos EUA contra Donald Trump. A decisão tornou-se não só um dos movimentos mais importantes de Biden na corrida eleitoral, como também dá sinais sobre o futuro do partido.

Se eleito, Biden será o político mais velho a tomar posse na Casa Branca, aos 77 anos. A possibilidade de que, em função da idade, ele seja presidente por apenas um mandato aumentou a importância da decisão sobre quem vai acompanhá-lo.

O próprio democrata se definiu como um candidato "de transição". Independentemente do resultado, a vice será naturalmente credenciada como uma virtual candidata democrata em 2024. A disputa pela nomeação este ano foi a mais diversa da história do partido, com duas mulheres em posições competitivas e um candidato jovem e assumidamente gay.

Biden passa longe das novidades apresentadas nas prévias. É um político de carreira, com quase 80 anos, branco, heterossexual e acusado de abuso sexual por uma ex-assessora.

O comprometimento em colocar uma mulher na chapa foi um sinal ao eleitorado que cobra mais representatividade no partido - e uma forma de minimizar as acusações da ex-assessora, Tara Reade.

Mas a escolha da companheira de chapa tem sido debatida pelos assessores de forma meticulosa, para assegurar votos e não atrapalhar o bom momento do democrata. Christopher Devine, professor de ciências políticas da Universidade de Dayton, passou anos pesquisando a influência do vice-presidente nas eleições e escreveu, em coautoria com Kyle Kopko, o livro Do Running Mates Matter? ("Companheiros de chapa importam?", em tradução livre).

Segundo ele, a escolha tende a ser supervalorizada, sendo que a indicação de um nome de determinado Estado, por exemplo, não representa conversão de votos a favor do partido no local de origem do escolhido. No entanto, há influência na percepção do eleitorado sobre o próprio candidato.

"Identificamos que, em 2008, aqueles que consideravam Sarah Palin muito conservadora respondiam com mais frequência que John McCain era muito conservador, em vez de moderado. Se aplicarmos isso a 2020, o desafio de Biden é indicar se quer se manter no centro ou mandar uma mensagem à esquerda", afirma Devine. "Nosso trabalho sugere que, se ele escolher alguém como Elizabeth Warren ou Karen Bass, os eleitores, provavelmente, reavaliarão sua ideologia e pensarão nele como sendo mais progressista. Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, dependendo de quais eleitores a campanha quiser conquistar."

A maioria dos eleitores jovens, negros, latinos e das mulheres se identifica com o Partido Democrata. Manter a chapa identificada como o centro moderado, portanto, pode ajudar Biden a conquistar votos do eleitorado independente, masculino e mais velho, que votou em Trump em 2016.

Mas, como o voto nos EUA não é obrigatório, os democratas precisam empolgar a base do eleitorado - jovens, negros, latinos e mulheres - a ponto de fazê-los votar em níveis recordes, como os registrados na eleição de Barack Obama. A escolha de uma vice negra ou latina seria um aceno importante a esse eleitorado.

A possibilidade de escolher uma companheira de chapa negra ganhou força com a onda de protestos de junho, contra o racismo e a violência policial. Dentro do partido, no entanto, há quem argumente que Biden já terá o voto dos negros, porque herda o capital político de Obama, e a escolha é uma chance de fazer um aceno a outros eleitores.

A lista de potenciais vice-presidentes inclui a senadora Kamala Harris. Ela chegou a ser pré-candidata democrata, mas saiu da corrida antes do início das primárias. Kamala é negra e defensora dos protestos antirracismo, mas o histórico como procuradora pesa contra seu nome entre a ala progressista.

O nome da deputada Karen Bass ganhou força nos últimos dias. No quinto mandato na Câmara, ela é presidente da bancada negra no Congresso e é apontada como figura importante dos bastidores de negociações parlamentares, tendo bom trânsito com os republicanos.

Susan Rice, ex-embaixadora dos EUA na ONU, também consta na lista. A seu favor contam a experiência com política externa e a relação de proximidade com Biden durante o governo Obama.

Lista de candidatas se divide entre moderadas e progressistas

Se os estrategistas democratas quiserem sinalizar a união das diferentes alas do partido e garantir o voto de eleitores de esquerda, que se identificavam mais com o senador Bernie Sanders, Joe Biden pode escolher a senadora Elizabeth Warren, que também concorreu nas prévias. O aceno, no entanto, pode afastar eleitores independentes e de centro, com a perspectiva de que o futuro governo pode estar disposto a aderir a políticas mais radicais.

Da ala esquerda, a extensa lista de cotadas inclui estrelas em ascensão, como a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, a prefeita de Atlanta, Keisha Bottoms, e a deputada da Flórida, Val Demings.

Entre as cogitadas constam também Stacey Abrams, que perdeu por pouco a eleição para o governo da Geórgia, em 2018, as senadoras Tammy Baldwin e Tammy Duckworth, Michelle Lujan Grisham, a primeira governadora latina dos EUA, do Novo México, e a ex-governadora do Arizona Janet Napolitano.

Nomes do Meio-Oeste, como da governadora de Michigan, ganham força por serem ligados a Estados do Cinturão da Ferrugem, que trocaram Barack Obama por Donald Trump, em 2016.

A ideia de equilibrar a chapa com a escolha do vice - seja por razões geográficas ou ideológicas - fez parte da história americana. No livro Picking the Vice-President ("Escolhendo o vice-presidente", em tradução livre), Elaine Kamarck argumenta que a lógica durou até 1992, quando Bill Clinton mudou a forma de escolha e selecionou Al Gore com base na compatibilidade e parceria.

O novo modelo, segundo ela, foi repetido por George W. Bush, Obama e Trump.

A razão para a mudança é ligada a alterações no sistema de nomeação do candidato. O crescimento da relevância das primárias e o esvaziamento da convenção partidária diminuíram a pressão pela barganha em busca do equilíbrio da chapa, segundo a autora.

O ideal é encontrar um vice que seja capaz de equilibrar a chapa e seja um bom parceiro. Desde 1992, segundo Kamarck, o segundo quesito tem se sobreposto ao primeiro.

"Biden, melhor do que ninguém, sabe o quanto é importante ter alguém com quem ele possa trabalhar e seja um aliado leal. Ele era essa pessoa para Obama e foi um trunfo em negociações com o Congresso e aconselhamento sobre política externa. Biden entende o papel importante que o vice pode desempenhar", afirma Christopher Devine, professor de ciências políticas da Universidade de Dayton.


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade