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PÁGINA 3 / Mundo
PAÍS BASCO - Após 59 anos e 820 mortes, terroristas dissolvem o ETA

Quinta, 3/5/2018 6:45.
Divulgação.

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DIOGO BERCITO
SAN SEBASTIÁN, ESPANHA (FOLHAPRESS) - A organização terrorista basca ETA anunciou a sua dissolução em uma carta divulgada nesta quarta (2), encerrando um ciclo de seis décadas em que mais de 800 pessoas foram mortas por suas operações. A mensagem antecipa a oficialização do desmonte do grupo, prevista para o fim de semana na França, onde também há população basca.

"Anos de confronto deixaram feridas profundas", diz a carta obtida pela imprensa local, em que o ETA declara "com toda a humildade" o encerramento de suas atividades e instituições. "Algumas feridas ainda sangram, porque o sofrimento não é uma coisa do passado" diz o texto, datado de 16 de abril e já encaminhado a líderes políticos.

Mas organizações de vítimas do ETA disseram, em um manifesto divulgado em paralelo nesta mesma quarta, que a ferida deles também sangra. "Dói aqui", disse Maite Pagazaurtundua, 53, levando ambas as mãos à barriga. Deputada no Parlamento Europeu, ela lidera vítimas e familiares no país Basco.

Seu irmão foi morto pelo ETA em 2003, após anos de ameaças. "Esse anúncio é uma piada. Para realmente aceitarmos o seu pedido de perdão, teríamos que enxergar neles alguma vergonha moral."

Após a divulgação da carta do ETA, o ministro espanhol do Interior, Juan Ignacio Zoido, afirmou que as forças de segurança "seguirão perseguindo os terroristas onde quer que se encontrem".

O governo de Madri tradicionalmente se recusa a negociar com essa facção.

O ETA foi criado em 1959 durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975) para exigir, com a luta armada, a independência do país Basco, uma região espanhola de história e língua próprias. A sigla ETA significa Euskadi Ta Askatasuna –Pátria Basca e Liberdade, no idioma local, sem parentesco com o espanhol ou o francês.

A evocação da luta armada é marginal, mas o grupo apela a um sentimento ainda vivo em partes da população: o desejo de independência.
Seus alvos incluíam policiais e políticos espanhóis. Das 820 vítimas contabilizadas, das quais metade morreu em crimes ainda não solucionados, 340 eram civis. Centenas de pessoas foram mutiladas.

A carta desta quarta-feira formaliza seu fim, mas a organização já estava fragilizada a ponto de ser inoperante. Houve uma série de tréguas nas últimas décadas. O fim da luta armada, porém, veio apenas em 2011 com o cessar-fogo definitivo. Em 2016, o ETA anunciou a destruição de seu arsenal, já sinalizando seu ocaso.

A extinção do grupo é creditada a esforços coordenados entre Espanha e França e à detenção de ao menos 300 membros da facção. Houve, ainda, uma campanha oficial de deslegitimação do violento discurso nacionalista, amplamente condenado no país.

Uma bomba colocada pelo ETA em um supermercado em Barcelona em 1987 deixou 21 mortos. O grupo mais tarde pediu perdão pelo que disse ter sido um erro. O sequestro e morte do político Miguel Ángel Blanco em 1997 levou 6 milhões de espanhóis às ruas.

"Esse processo de dissolução é uma comédia encenada com atores ruins", disse à reportagem Conchita Martín, 63. Seu marido, o militar Pedro Antonio Blanco, foi morto em 2000 por um carro-bomba do ETA. Aquele atentado encerrou um período de trégua.

María Jesús González, 66, tampouco aceita os pedidos de perdão. Ela perdeu uma perna e um braço em 1991, em Madri, quando dirigia para seu trabalho em uma delegacia –o ETA havia colocado uma bomba em seu carro, para alvejar policiais. Sua filha, de 12 anos, perdeu as duas pernas.

"É difícil entender. Eu não era policial. Minha filha não era nada. O que queriam é que estivéssemos aterrorizados, para que o governo cedesse às suas chantagens", afirmou durante um encontro de vítimas na cidade basca de San Sebastián, no norte do país.

O ETA, ademais, deixou claro na carta divulgada na quarta que seu embate com o Estado espanhol segue vivo, assim como o seu nacionalismo. "O conflito não começou com o ETA, e não termina com ele."

"Eles querem manter sua influência política", disse Cristina Cuesta, 56, ativista anti-ETA que perdeu o pai, funcionário de uma empresa de telefonia, em 1982 em um ataque da facção, que queria expulsar firmas espanholas do território basco. "O plano, agora, é conseguir sem a violência o que não conseguiram nos assassinando", afirma.

O ETA espera, também, sanar algumas de suas próprias feridas: seus 300 integrantes detidos estão espalhados pela Espanha e pela França, na chamada "política de dispersão". Isolados, ficam distantes de suas famílias, algo de que se ressentem.

Nacionalistas bascos dizem que as forças de segurança espanholas torturaram centenas deles nos últimos seis décadas, razão pela qual o país já foi criticado por organizações de direitos humanos.

A declaração de dissolução desta semana foi mediada pelo israelense Alberto Spektorowski, 66, cientista político envolvido nas negociações entre palestinos e Israel.

"É muito importante que esse conflito tenha fim, mas isso não quer dizer que o problema vá ser encerrado", disse à Folha por telefone antes de chegar ao país Basco nesta quinta (3). "O problema político entre o Estado espanhol e os nacionalistas bascos ainda não foi solucionado."

"O que eles querem é deixar de serem lembrados como terroristas, que é a imagem hoje, e serem vistos como lutadores da liberdade. Talvez seja tarde. Insistimos há anos que se dissolvessem. Decidiram agora porque já não têm para onde ir."


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Quinta, 3/5/2018 6:45.

DIOGO BERCITO
SAN SEBASTIÁN, ESPANHA (FOLHAPRESS) - A organização terrorista basca ETA anunciou a sua dissolução em uma carta divulgada nesta quarta (2), encerrando um ciclo de seis décadas em que mais de 800 pessoas foram mortas por suas operações. A mensagem antecipa a oficialização do desmonte do grupo, prevista para o fim de semana na França, onde também há população basca.

"Anos de confronto deixaram feridas profundas", diz a carta obtida pela imprensa local, em que o ETA declara "com toda a humildade" o encerramento de suas atividades e instituições. "Algumas feridas ainda sangram, porque o sofrimento não é uma coisa do passado" diz o texto, datado de 16 de abril e já encaminhado a líderes políticos.

Mas organizações de vítimas do ETA disseram, em um manifesto divulgado em paralelo nesta mesma quarta, que a ferida deles também sangra. "Dói aqui", disse Maite Pagazaurtundua, 53, levando ambas as mãos à barriga. Deputada no Parlamento Europeu, ela lidera vítimas e familiares no país Basco.

Seu irmão foi morto pelo ETA em 2003, após anos de ameaças. "Esse anúncio é uma piada. Para realmente aceitarmos o seu pedido de perdão, teríamos que enxergar neles alguma vergonha moral."

Após a divulgação da carta do ETA, o ministro espanhol do Interior, Juan Ignacio Zoido, afirmou que as forças de segurança "seguirão perseguindo os terroristas onde quer que se encontrem".

O governo de Madri tradicionalmente se recusa a negociar com essa facção.

O ETA foi criado em 1959 durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975) para exigir, com a luta armada, a independência do país Basco, uma região espanhola de história e língua próprias. A sigla ETA significa Euskadi Ta Askatasuna –Pátria Basca e Liberdade, no idioma local, sem parentesco com o espanhol ou o francês.

A evocação da luta armada é marginal, mas o grupo apela a um sentimento ainda vivo em partes da população: o desejo de independência.
Seus alvos incluíam policiais e políticos espanhóis. Das 820 vítimas contabilizadas, das quais metade morreu em crimes ainda não solucionados, 340 eram civis. Centenas de pessoas foram mutiladas.

A carta desta quarta-feira formaliza seu fim, mas a organização já estava fragilizada a ponto de ser inoperante. Houve uma série de tréguas nas últimas décadas. O fim da luta armada, porém, veio apenas em 2011 com o cessar-fogo definitivo. Em 2016, o ETA anunciou a destruição de seu arsenal, já sinalizando seu ocaso.

A extinção do grupo é creditada a esforços coordenados entre Espanha e França e à detenção de ao menos 300 membros da facção. Houve, ainda, uma campanha oficial de deslegitimação do violento discurso nacionalista, amplamente condenado no país.

Uma bomba colocada pelo ETA em um supermercado em Barcelona em 1987 deixou 21 mortos. O grupo mais tarde pediu perdão pelo que disse ter sido um erro. O sequestro e morte do político Miguel Ángel Blanco em 1997 levou 6 milhões de espanhóis às ruas.

"Esse processo de dissolução é uma comédia encenada com atores ruins", disse à reportagem Conchita Martín, 63. Seu marido, o militar Pedro Antonio Blanco, foi morto em 2000 por um carro-bomba do ETA. Aquele atentado encerrou um período de trégua.

María Jesús González, 66, tampouco aceita os pedidos de perdão. Ela perdeu uma perna e um braço em 1991, em Madri, quando dirigia para seu trabalho em uma delegacia –o ETA havia colocado uma bomba em seu carro, para alvejar policiais. Sua filha, de 12 anos, perdeu as duas pernas.

"É difícil entender. Eu não era policial. Minha filha não era nada. O que queriam é que estivéssemos aterrorizados, para que o governo cedesse às suas chantagens", afirmou durante um encontro de vítimas na cidade basca de San Sebastián, no norte do país.

O ETA, ademais, deixou claro na carta divulgada na quarta que seu embate com o Estado espanhol segue vivo, assim como o seu nacionalismo. "O conflito não começou com o ETA, e não termina com ele."

"Eles querem manter sua influência política", disse Cristina Cuesta, 56, ativista anti-ETA que perdeu o pai, funcionário de uma empresa de telefonia, em 1982 em um ataque da facção, que queria expulsar firmas espanholas do território basco. "O plano, agora, é conseguir sem a violência o que não conseguiram nos assassinando", afirma.

O ETA espera, também, sanar algumas de suas próprias feridas: seus 300 integrantes detidos estão espalhados pela Espanha e pela França, na chamada "política de dispersão". Isolados, ficam distantes de suas famílias, algo de que se ressentem.

Nacionalistas bascos dizem que as forças de segurança espanholas torturaram centenas deles nos últimos seis décadas, razão pela qual o país já foi criticado por organizações de direitos humanos.

A declaração de dissolução desta semana foi mediada pelo israelense Alberto Spektorowski, 66, cientista político envolvido nas negociações entre palestinos e Israel.

"É muito importante que esse conflito tenha fim, mas isso não quer dizer que o problema vá ser encerrado", disse à Folha por telefone antes de chegar ao país Basco nesta quinta (3). "O problema político entre o Estado espanhol e os nacionalistas bascos ainda não foi solucionado."

"O que eles querem é deixar de serem lembrados como terroristas, que é a imagem hoje, e serem vistos como lutadores da liberdade. Talvez seja tarde. Insistimos há anos que se dissolvessem. Decidiram agora porque já não têm para onde ir."


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