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Filhas de repressores da última ditadura argentina se unem contra eles

Sábado, 13/1/2018 6:47.

SYLVIA COLOMBO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "Se a Justiça não se faz nos tribunais, temos de fazê-la nas ruas. É por isso que vamos atrás de cada um dos repressores que receberem o benefício da prisão domiciliar. Para fazer barulho em suas janelas. Para que não possam dormir ou esquecer o que fizeram."

Quem fala não é uma militante pró-direitos humanos qualquer. Trata-se da advogada Erika Lederer, 40, filha de Ricardo Lederer, um médico militar que, durante a última ditadura argentina (1976-83), realizou partos de bebês de prisioneiros no Campo de Mayo, um dos centros clandestinos do regime.

Muitas das crianças nascidas em cativeiro, filhas de montoneras ou de outros militantes da resistência, foram entregues a famílias de militares, enquanto as mães eram mortas a tiros ou embarcavam em "voos da morte" (método de eliminar opositores, atirando-os no rio da Prata).

Estima-se que cerca de 500 bebês tenham sido "desviados" de suas famílias pelos repressores. Desde o fim da ditadura, a associação Avós da Praça de Maio, formada por mães dos jovens desaparecidos, busca identificar, via exames de DNA, os filhos destes.

"Meu pai se suicidou em 2012, quando elas encontraram o neto número 106, Pablo Gaona Miranda. Ele foi informado por seus colegas de que tinha sido achada a certidão de nascimento falsificada, assinada por ele, e que já o estavam buscando", conta, com os olhos enchendo-se de lágrimas.

"Ele foi um covarde. Sempre repetia que um bom soldado morre sem entregar seus segredos. E foi o que fez, se matou com um tiro."

Quando seu pai tirou a própria vida, Erika já não vivia com a família. Passara a adolescência às turras com Ricardo, que a chamava de comunista e revistava seu quarto à cata de "livros subversivos".

Ela não é a primeira a vir a público se posicionar contra o próprio pai. Desde meados de 2017, quando uma decisão da Suprema Corte permitiria a saída da prisão de muitos dos mais de 700 repressores que hoje cumprem pena no país, Lederer e outros filhos de militares saíram às ruas para marchar ao lado de organizações de direitos humanos.

PAIS NA PRISÃO

O movimento foi tão numeroso que o Congresso aprovou às pressas uma lei que anulava o recurso que a Corte Suprema queria usar -a chamada "Lei do 2x1".

A partir desse ato, Lederer e outras passaram à ação por meio de grupos diferentes, mas movidas por um sentimento comum: o de que seus pais cometeram delitos de lesa-humanidade e não deveriam nunca deixar a prisão.

"Creio que temos de marchar nos atos, colaborar com informação, mas manter um perfil discreto. Os protagonistas dessas reivindicações são as entidades de direitos humanos", diz Lederer.

Uma outra linha de filhos de repressores busca mais projeção. "Alguns querem se vitimizar em público. Acho errado. Não temos que levantar bandeiras. Nossos pais foram responsáveis por esses crimes", avalia ela.
Lederer diz se lembrar do pai falando dos "voos da morte" em casa, e com orgulho, "como quem estava salvando o país dos subversivos".

"Quero contar tudo o que vi e sei. É importante para a Argentina que um grupo de filhos de repressores condene os atos dos pais. É uma forma de curar a ferida aberta."

Lederer trabalha no Ministério de Justiça e percorre prisões pelo país. "Vejo muitos idosos nas prisões que não recebem o benefício da prisão domiciliar. Este governo [do presidente Mauricio Macri] está devolvendo favores que o empresariado e os militares sempre trocaram entre si. É por isso que genocidas começam a sair das prisões", diz.

Para ela, o discurso político que justifica essas liberações, e que fala de reconciliação, é falso e hipócrita. "Os militares nunca se arrependeram, nunca pediram perdão. Ainda há desaparecidos por encontrar, netos por recuperar a identidade. Enquanto isso não acontecer, não venham nos falar em reconciliação."

Até hoje, foram recuperados pelas Avós da Praça de Maio 127 dos bebês roubados na época. Estima-se que a ditadura argentina tenha deixado um saldo de pelo menos 20 mil pessoas cujo paradeiro até hoje se desconhece. 

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Filhas de repressores da última ditadura argentina se unem contra eles

SYLVIA COLOMBO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "Se a Justiça não se faz nos tribunais, temos de fazê-la nas ruas. É por isso que vamos atrás de cada um dos repressores que receberem o benefício da prisão domiciliar. Para fazer barulho em suas janelas. Para que não possam dormir ou esquecer o que fizeram."

Quem fala não é uma militante pró-direitos humanos qualquer. Trata-se da advogada Erika Lederer, 40, filha de Ricardo Lederer, um médico militar que, durante a última ditadura argentina (1976-83), realizou partos de bebês de prisioneiros no Campo de Mayo, um dos centros clandestinos do regime.

Muitas das crianças nascidas em cativeiro, filhas de montoneras ou de outros militantes da resistência, foram entregues a famílias de militares, enquanto as mães eram mortas a tiros ou embarcavam em "voos da morte" (método de eliminar opositores, atirando-os no rio da Prata).

Estima-se que cerca de 500 bebês tenham sido "desviados" de suas famílias pelos repressores. Desde o fim da ditadura, a associação Avós da Praça de Maio, formada por mães dos jovens desaparecidos, busca identificar, via exames de DNA, os filhos destes.

"Meu pai se suicidou em 2012, quando elas encontraram o neto número 106, Pablo Gaona Miranda. Ele foi informado por seus colegas de que tinha sido achada a certidão de nascimento falsificada, assinada por ele, e que já o estavam buscando", conta, com os olhos enchendo-se de lágrimas.

"Ele foi um covarde. Sempre repetia que um bom soldado morre sem entregar seus segredos. E foi o que fez, se matou com um tiro."

Quando seu pai tirou a própria vida, Erika já não vivia com a família. Passara a adolescência às turras com Ricardo, que a chamava de comunista e revistava seu quarto à cata de "livros subversivos".

Ela não é a primeira a vir a público se posicionar contra o próprio pai. Desde meados de 2017, quando uma decisão da Suprema Corte permitiria a saída da prisão de muitos dos mais de 700 repressores que hoje cumprem pena no país, Lederer e outros filhos de militares saíram às ruas para marchar ao lado de organizações de direitos humanos.

PAIS NA PRISÃO

O movimento foi tão numeroso que o Congresso aprovou às pressas uma lei que anulava o recurso que a Corte Suprema queria usar -a chamada "Lei do 2x1".

A partir desse ato, Lederer e outras passaram à ação por meio de grupos diferentes, mas movidas por um sentimento comum: o de que seus pais cometeram delitos de lesa-humanidade e não deveriam nunca deixar a prisão.

"Creio que temos de marchar nos atos, colaborar com informação, mas manter um perfil discreto. Os protagonistas dessas reivindicações são as entidades de direitos humanos", diz Lederer.

Uma outra linha de filhos de repressores busca mais projeção. "Alguns querem se vitimizar em público. Acho errado. Não temos que levantar bandeiras. Nossos pais foram responsáveis por esses crimes", avalia ela.
Lederer diz se lembrar do pai falando dos "voos da morte" em casa, e com orgulho, "como quem estava salvando o país dos subversivos".

"Quero contar tudo o que vi e sei. É importante para a Argentina que um grupo de filhos de repressores condene os atos dos pais. É uma forma de curar a ferida aberta."

Lederer trabalha no Ministério de Justiça e percorre prisões pelo país. "Vejo muitos idosos nas prisões que não recebem o benefício da prisão domiciliar. Este governo [do presidente Mauricio Macri] está devolvendo favores que o empresariado e os militares sempre trocaram entre si. É por isso que genocidas começam a sair das prisões", diz.

Para ela, o discurso político que justifica essas liberações, e que fala de reconciliação, é falso e hipócrita. "Os militares nunca se arrependeram, nunca pediram perdão. Ainda há desaparecidos por encontrar, netos por recuperar a identidade. Enquanto isso não acontecer, não venham nos falar em reconciliação."

Até hoje, foram recuperados pelas Avós da Praça de Maio 127 dos bebês roubados na época. Estima-se que a ditadura argentina tenha deixado um saldo de pelo menos 20 mil pessoas cujo paradeiro até hoje se desconhece. 

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