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PÁGINA 3 / Mundo
Israel, 70, prevalece contra probabilidades e conflitos

Brasileiro foi crucial na criação do Estado judeu

Quarta, 18/4/2018 8:10.

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DIOGO BERCITO
JERUSALÉM (FOLHAPRESS) - Se alguém dissesse a Shlomo Hillel no início do século 20 que os judeus um dia teriam o seu Estado, pareceria ser mais um delírio.

Nascido em 1923 em Bagdá, no Iraque, ele havia fugido em 1934. Tinha se refugiado na Palestina, então um território britânico, de onde acompanhava o genocídio dos judeus pela Alemanha.

"Precisaria ser muito otimista para crer que teríamos um país", afirma à reportagem, aos 94 anos. "Eu era um dos que não acreditavam naquilo."

Mas Hillel estava enganado. Após uma guerra com os palestinos que viviam também naquele território e com os vizinhos árabes, o Estado de Israel foi criado em 14 de maio de 1948 -uma data celebrada oficialmente na noite desta quarta-feira (18), segundo o calendário judaico.

São 70 anos de um país que era então uma impossibilidade. Hillel teve um papel fundamental naquela história: aos 24 anos de idade, foi um dos responsáveis pelas operações secretas que trouxeram 125 mil judeus iraquianos ao novo país.

"Foi o maior milagre da história", diz sobre a criação da nação.

O permanente estado de guerra e as reivindicações dos palestinos -muitas delas acompanhadas de atentados e outras ações terroristas-, no entanto, imprimiram a Israel a constante percepção de catástrofe, e nas primeiras décadas se vivia ali com a impressão de que o projeto não duraria.

"As pessoas pensavam que esse não fosse ser um arranjo permanente", diz Benny Morris, um dos principais historiadores israelenses.

"Eu ainda acredito nisso. Ao contrário da maior parte do mundo, vivemos sob uma ameaça existencial, no meio de vizinhos que querem nos destruir."

NAKBA

Judeus começaram a migrar em massa ao que é hoje Israel no final do século 19, inspirados pela ideia de que precisavam retornar à terra de que tinham sido expulsos séculos antes, um movimento chamado de sionismo.

Com o Holocausto, em que foram assassinados sistematicamente 6 milhões de judeus pelo regime nazista da Alemanha, as Nações Unidas propuseram em 1947 que a Palestina britânica fosse dividida em dois Estados.

Um seria para os judeus e o outro para os palestinos, que já viviam no território. Os judeus aceitaram a ideia, mas os palestinos a refutaram.

Após uma guerra, os judeus conseguiram controlar parte da região, onde estabeleceram em 1948 o Estado israelense. Centenas de vilarejos árabes foram destruídos, e mais de 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casa. O episódio é chamado em árabe de Nakba, a "catástrofe".

"Nós víamos o império britânico se esfacelando e pensávamos que finalmente teríamos o nosso próprio país", diz o ex-chanceler palestino Nabil Shaath, 80, que tinha dez anos quando testemunhou sua Nakba.

"A vitória deles foi o nosso horror. Eles nos devastaram", diz. Refugiado, Shaath passou quase 50 anos até poder ver rever seu lar em Jaffa, na costa mediterrânea.

A casa é hoje um centro de reabilitação de usuários de drogas, e ele não pôde entrar.

O retorno dos refugiados palestinos, estimados pela ONU em 5 milhões de pessoas, é um dos principais entraves para as negociações de paz entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina.

Israel não aceita o retorno de todas as pessoas que deixaram o território em 1948, e os palestinos o exigem.

"O problema é a explicação messiânica deles de que todo território pertence apenas aos judeus", diz Shaath, que foi negociador-chefe dos palestinos.

"É uma tragédia humana", afirma o palestino Adnan Abdel Razek, que estuda as terras e propriedades perdidas. "São pessoas que deixaram suas vidas para trás: memórias, laços sociais, sonhos."

Com um governo israelense progressivamente intransigente, e com a diminuição da pressão americana sob a administração de Donald Trump, Razek diz viver "o pior momento pelo qual os palestinos já passaram".

"Sempre houve esperança de que encontraríamos uma solução. Nos últimos anos, isso desapareceu. Vivemos agora desesperançosos."

ASSENTAMENTOS

Outro entrave às negociações é a ocupação israelense da Cisjordânia, onde vivem 2,9 milhões de palestinos e 400 mil israelenses.
Esse território é controlado por Israel desde 1967. Colonos constroem ali os assentamentos considerados ilegais por grande parte da comunidade internacional.

A guerra de 1967 foi um dos episódios-chave da história israelense.

"Foi um marco para toda a minha geração", diz o vice-ministro israelense Michael Oren, 62, ex-embaixador em Washington.

"Emergimos como uma potência regional", afirma. Foi quando ele próprio decidiu migrar dos EUA a Israel. Oren é um dos principais especialistas sobre aquele conflito.

"De uma maneira estranha, os assentamentos também foram um catalisador para o início de um processo de paz. Não havia, por exemplo, pressão ocidental antes de 1967 e os palestinos eram tratados só como 'refugiados árabes', e não como um povo distinto."

Um dos assentamentos icônicos é o bloco conhecido como Gush Etzion, a uma hora de Jerusalém.

É um dos casos mais complexos, também, porque colonos judeus viviam ali mesmo antes da criação de Israel, em 1948, e foram massacrados pelos árabes na guerra e voltaram após 1967.

"É um dos únicos lugares em que há algum consenso", diz a porta-voz Hili Keinan durante uma visita da reportagem.

"Temos certificados de compra da terra, e há uma razão histórica para estarmos aqui: era o caminho dos patriarcas entre Jerusalém e Hebron, na Bíblia", afirma.

"A crise começou em 1947, quando a decisão de dividir a terra foi tomada. Do dia para a noite, nossa terra virou uma zona de guerra."

É improvável que, no caso de um acordo de paz, assentamentos como Gush Etzion, que fica entre montanhas verdejantes, em condomínios parecidos com os de classe média alta de São Paulo e Rio, sejam desmantelados.

Apesar de estar dentro da Cisjordânia, esse território poderia ser dado a Israel em troca de outras porções entregues aos palestinos. "A maior parte dos colonos permaneceria, assim, dentro de Israel", diz Brian Reeves, 29.

Reeves é porta-voz do Peace Now (paz agora), uma influente organização ativista fundada há 40 anos.

Em seu escritório em Tel Aviv, ele mostra à reportagem os mapas estratégicos que destrincham a presença de judeus e de palestinos na região. Diz que a paz será difícil, mas é possível.

Talvez como o milagre descrito por Hillel, quando a própria criação de Israel era um desafio à história.

"Hoje comemoramos os 70 anos do Estado que amamos, mas é preciso admitir também que um desastre atingiu os palestinos", diz Reeves.

Brasileiro foi crucial na criação do Estado judeu

DIOGO BERCITO
JERUSALÉM (FOLHAPRESS) - No centro de Jerusalém, ao lado de um cemitério muçulmano, uma praça leva o nome do brasileiro Oswaldo Aranha (1894-1960).

Ele é homenageado por israelenses porque presidiu, em 1947, uma sessão especial da Assembleia-Geral da ONU e apoiou a partição da Palestina britânica, evento que levou à criação do Estado de Israel, em 1948. A resolução também previa um Estado árabe, ainda inexistente.

O brasileiro é considerado fundamental para a decisão da ONU por ter feito lobby por um voto positivo. Ele foi nomeado ao Nobel da Paz.

Por ter presidido aquela sessão, Oswaldo Aranha inaugurou também uma tradição seguida até hoje pelas Nações Unidas: a de que o chefe da delegação brasileira seja o primeiro a discursar na reunião.

A ONU era, àquela época, um órgão recente e tinha feito poucas discussões oficiais. A sede atual ainda não estava em uso.

Há, no entanto, visões conflitantes sobre o legado do brasileiro.

Por um lado, louva-se o trabalho do diplomata pela partição da Palestina britânica, mas historiadores apontam também que ele participou da decisão de o Brasil negar vistos a judeus, enquanto a Alemanha perseguia o povo.

Um dos estudos mais citados é o da professora da Universidade de São Paulo Maria Luiza Tucci Carneiro, autora de "O Antissemitismo na Era Vargas" (editora Perspectiva, 540 págs., R$ 67) e de outras obras sobre esse tema.

As pesquisas, no entanto, não reduziram o afeto sentido em Israel pelo personagem histórico.

Além da praça em Jerusalém, há lembranças no kibutz Bror Chail. Esse kibutz -nome dado a comunidades coletivas em Israel- está localizado próximo à faixa de Gaza e abriga uma comunidade expressiva de brasileiros.

O Bror Chail diz guardar ali, entre suas construções, o martelo utilizado por Oswaldo Aranha em uma das sessões da ONU.


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Israel, 70, prevalece contra probabilidades e conflitos

Brasileiro foi crucial na criação do Estado judeu

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Quarta, 18/4/2018 8:10.

DIOGO BERCITO
JERUSALÉM (FOLHAPRESS) - Se alguém dissesse a Shlomo Hillel no início do século 20 que os judeus um dia teriam o seu Estado, pareceria ser mais um delírio.

Nascido em 1923 em Bagdá, no Iraque, ele havia fugido em 1934. Tinha se refugiado na Palestina, então um território britânico, de onde acompanhava o genocídio dos judeus pela Alemanha.

"Precisaria ser muito otimista para crer que teríamos um país", afirma à reportagem, aos 94 anos. "Eu era um dos que não acreditavam naquilo."

Mas Hillel estava enganado. Após uma guerra com os palestinos que viviam também naquele território e com os vizinhos árabes, o Estado de Israel foi criado em 14 de maio de 1948 -uma data celebrada oficialmente na noite desta quarta-feira (18), segundo o calendário judaico.

São 70 anos de um país que era então uma impossibilidade. Hillel teve um papel fundamental naquela história: aos 24 anos de idade, foi um dos responsáveis pelas operações secretas que trouxeram 125 mil judeus iraquianos ao novo país.

"Foi o maior milagre da história", diz sobre a criação da nação.

O permanente estado de guerra e as reivindicações dos palestinos -muitas delas acompanhadas de atentados e outras ações terroristas-, no entanto, imprimiram a Israel a constante percepção de catástrofe, e nas primeiras décadas se vivia ali com a impressão de que o projeto não duraria.

"As pessoas pensavam que esse não fosse ser um arranjo permanente", diz Benny Morris, um dos principais historiadores israelenses.

"Eu ainda acredito nisso. Ao contrário da maior parte do mundo, vivemos sob uma ameaça existencial, no meio de vizinhos que querem nos destruir."

NAKBA

Judeus começaram a migrar em massa ao que é hoje Israel no final do século 19, inspirados pela ideia de que precisavam retornar à terra de que tinham sido expulsos séculos antes, um movimento chamado de sionismo.

Com o Holocausto, em que foram assassinados sistematicamente 6 milhões de judeus pelo regime nazista da Alemanha, as Nações Unidas propuseram em 1947 que a Palestina britânica fosse dividida em dois Estados.

Um seria para os judeus e o outro para os palestinos, que já viviam no território. Os judeus aceitaram a ideia, mas os palestinos a refutaram.

Após uma guerra, os judeus conseguiram controlar parte da região, onde estabeleceram em 1948 o Estado israelense. Centenas de vilarejos árabes foram destruídos, e mais de 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casa. O episódio é chamado em árabe de Nakba, a "catástrofe".

"Nós víamos o império britânico se esfacelando e pensávamos que finalmente teríamos o nosso próprio país", diz o ex-chanceler palestino Nabil Shaath, 80, que tinha dez anos quando testemunhou sua Nakba.

"A vitória deles foi o nosso horror. Eles nos devastaram", diz. Refugiado, Shaath passou quase 50 anos até poder ver rever seu lar em Jaffa, na costa mediterrânea.

A casa é hoje um centro de reabilitação de usuários de drogas, e ele não pôde entrar.

O retorno dos refugiados palestinos, estimados pela ONU em 5 milhões de pessoas, é um dos principais entraves para as negociações de paz entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina.

Israel não aceita o retorno de todas as pessoas que deixaram o território em 1948, e os palestinos o exigem.

"O problema é a explicação messiânica deles de que todo território pertence apenas aos judeus", diz Shaath, que foi negociador-chefe dos palestinos.

"É uma tragédia humana", afirma o palestino Adnan Abdel Razek, que estuda as terras e propriedades perdidas. "São pessoas que deixaram suas vidas para trás: memórias, laços sociais, sonhos."

Com um governo israelense progressivamente intransigente, e com a diminuição da pressão americana sob a administração de Donald Trump, Razek diz viver "o pior momento pelo qual os palestinos já passaram".

"Sempre houve esperança de que encontraríamos uma solução. Nos últimos anos, isso desapareceu. Vivemos agora desesperançosos."

ASSENTAMENTOS

Outro entrave às negociações é a ocupação israelense da Cisjordânia, onde vivem 2,9 milhões de palestinos e 400 mil israelenses.
Esse território é controlado por Israel desde 1967. Colonos constroem ali os assentamentos considerados ilegais por grande parte da comunidade internacional.

A guerra de 1967 foi um dos episódios-chave da história israelense.

"Foi um marco para toda a minha geração", diz o vice-ministro israelense Michael Oren, 62, ex-embaixador em Washington.

"Emergimos como uma potência regional", afirma. Foi quando ele próprio decidiu migrar dos EUA a Israel. Oren é um dos principais especialistas sobre aquele conflito.

"De uma maneira estranha, os assentamentos também foram um catalisador para o início de um processo de paz. Não havia, por exemplo, pressão ocidental antes de 1967 e os palestinos eram tratados só como 'refugiados árabes', e não como um povo distinto."

Um dos assentamentos icônicos é o bloco conhecido como Gush Etzion, a uma hora de Jerusalém.

É um dos casos mais complexos, também, porque colonos judeus viviam ali mesmo antes da criação de Israel, em 1948, e foram massacrados pelos árabes na guerra e voltaram após 1967.

"É um dos únicos lugares em que há algum consenso", diz a porta-voz Hili Keinan durante uma visita da reportagem.

"Temos certificados de compra da terra, e há uma razão histórica para estarmos aqui: era o caminho dos patriarcas entre Jerusalém e Hebron, na Bíblia", afirma.

"A crise começou em 1947, quando a decisão de dividir a terra foi tomada. Do dia para a noite, nossa terra virou uma zona de guerra."

É improvável que, no caso de um acordo de paz, assentamentos como Gush Etzion, que fica entre montanhas verdejantes, em condomínios parecidos com os de classe média alta de São Paulo e Rio, sejam desmantelados.

Apesar de estar dentro da Cisjordânia, esse território poderia ser dado a Israel em troca de outras porções entregues aos palestinos. "A maior parte dos colonos permaneceria, assim, dentro de Israel", diz Brian Reeves, 29.

Reeves é porta-voz do Peace Now (paz agora), uma influente organização ativista fundada há 40 anos.

Em seu escritório em Tel Aviv, ele mostra à reportagem os mapas estratégicos que destrincham a presença de judeus e de palestinos na região. Diz que a paz será difícil, mas é possível.

Talvez como o milagre descrito por Hillel, quando a própria criação de Israel era um desafio à história.

"Hoje comemoramos os 70 anos do Estado que amamos, mas é preciso admitir também que um desastre atingiu os palestinos", diz Reeves.

Brasileiro foi crucial na criação do Estado judeu

DIOGO BERCITO
JERUSALÉM (FOLHAPRESS) - No centro de Jerusalém, ao lado de um cemitério muçulmano, uma praça leva o nome do brasileiro Oswaldo Aranha (1894-1960).

Ele é homenageado por israelenses porque presidiu, em 1947, uma sessão especial da Assembleia-Geral da ONU e apoiou a partição da Palestina britânica, evento que levou à criação do Estado de Israel, em 1948. A resolução também previa um Estado árabe, ainda inexistente.

O brasileiro é considerado fundamental para a decisão da ONU por ter feito lobby por um voto positivo. Ele foi nomeado ao Nobel da Paz.

Por ter presidido aquela sessão, Oswaldo Aranha inaugurou também uma tradição seguida até hoje pelas Nações Unidas: a de que o chefe da delegação brasileira seja o primeiro a discursar na reunião.

A ONU era, àquela época, um órgão recente e tinha feito poucas discussões oficiais. A sede atual ainda não estava em uso.

Há, no entanto, visões conflitantes sobre o legado do brasileiro.

Por um lado, louva-se o trabalho do diplomata pela partição da Palestina britânica, mas historiadores apontam também que ele participou da decisão de o Brasil negar vistos a judeus, enquanto a Alemanha perseguia o povo.

Um dos estudos mais citados é o da professora da Universidade de São Paulo Maria Luiza Tucci Carneiro, autora de "O Antissemitismo na Era Vargas" (editora Perspectiva, 540 págs., R$ 67) e de outras obras sobre esse tema.

As pesquisas, no entanto, não reduziram o afeto sentido em Israel pelo personagem histórico.

Além da praça em Jerusalém, há lembranças no kibutz Bror Chail. Esse kibutz -nome dado a comunidades coletivas em Israel- está localizado próximo à faixa de Gaza e abriga uma comunidade expressiva de brasileiros.

O Bror Chail diz guardar ali, entre suas construções, o martelo utilizado por Oswaldo Aranha em uma das sessões da ONU.


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