Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Mundo
DATA - Fundador de Israel defendia via de dois Estados, diz neto

"Ele dizia que iríamos sobreviver pela superioridade moral, e não pelo Exército"

Terça, 17/4/2018 5:34.

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DIOGO BERCITO
TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - Alon caminha pela casa de David Ben-Gurion, fundador do Estado de Israel e seu premiê inaugural. A antiga construção no norte de Tel Aviv é hoje um museu à história do homem que redigiu e declarou há 70 anos a independência do país.

Alguns turistas observam os móveis sóbrios e as estantes forradas de livros em variadas línguas, como hebraico, inglês, espanhol e grego. Alon, porém, se detém em um canto. Coloca as mãos atrás do corpo, pesca uma memória e diz à reportagem: "Era aqui que ficava nosso piano."

Alon, 66, é neto de Ben-Gurion, de quem ele herdou o sobrenome da dinastia. Não é político nem ocupa cargo público, mas conheceu a fundo um dos heróis do país e circulou naquela casa, razões pelas quais é uma requisitada testemunha da história.

Consultor de hotéis de luxo nos EUA, onde vive, ele viajou a Israel para as celebrações da independência, que começam noite de quarta-feira (18), seguindo o calendário judaico. A data no calendário gregoriano é 14 de maio.

Alon tinha 22 anos em 1973, quando Ben-Gurion morreu aos 87 anos após uma hemorragia cerebral. "A última vez em que eu vi meu avô ele estava nesta cama, dormindo. Eu estava de folga no Exército, tinha me ferido, e decidi fazer uma visita. Não quis acordá-lo", conta.

Ele ainda se lembra de uma das lições aprendidas com seu avô, uma mensagem que considera pertinente mesmo hoje, sete décadas depois do estabelecimento de Israel: "Ele nos dizia para não considerarmos a existência dos judeus como algo garantido."

A Alemanha nazista matou seis milhões deles durante o Holocausto. Nas últimas décadas, Israel esteve em guerra com todos seus vizinhos -Egito, Jordânia, Síria e Líbano- e foi ameaçado por outros inimigos, em especial o Irã, com seu desaparecimento do mapa-múndi.

SIONISMO

Nascido na atual Polônia em 1886, David Ben-Gurion migrou em 1906 para a então Palestina, um território do Império Otomano e mais tarde um mandato britânico.

Ele acreditava que, perseguidos na Europa, os judeus precisavam criar ali seu próprio país -um movimento do século 19 chamado de "sionismo", a partir da ideia de retorno à terra de Sião.

"Meu avô era um homem simples. Não se importava com as coisas materiais, como ir a um restaurante caro ou se vestir bem", diz Alon. "Ele sempre dizia que sua preocupação era criar um Estado para o povo judeu, e foi por esse objetivo que ele trabalhou toda a sua vida."

Mas, ao chegar ali, Ben-Gurion deparou com um fato inescapável: o território já era habitado há séculos pelos palestinos, com quem precisaria conviver. "Quando a ONU propôs a criação de um Estado judeu, ele sabia que haveria um conflito com os árabes", conta Alon.

A proposta da ONU de 1947 era criar um país para os judeus e outro para os árabes. Os judeus aceitaram, mas os árabes, não. A situação, já de atritos entre ambos os lados, tornou-se um confronto internacional com a participação dos países vizinhos.

"Foi por isso que, ao contrário das pessoas que foram às ruas celebrar aquele dia, ele me disse que não ficou feliz. Sabia que nós pagaríamos um preço por aquela guerra. Mas foi adiante e venceu."

Os palestinos também pagaram um preço: a independência de Israel é conhecida em árabe como "Nakba", o seu "desastre".

Durante a guerra, mais de 700 mil palestinos tiveram de deixar suas casas e parte de seus descendentes ainda vive em campos de refugiados. O território da Cisjordânia, onde querem ter o seu Estado, é ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967.

Por essa razão, palestinos têm convocado marchas em protesto ao aniversário de Israel.

Ciente do peso de suas declarações como herdeiro do fundador do país, Alon prefere não falar tanto sobre política. Mas conta que até sua morte o avô acreditava em solucionar a crise com a criação de um país para os judeus e outro para os palestinos.

Ben-Gurion também foi contrário à ocupação da Cisjordânia. Um ano depois da guerra, afirmou: "Se eu tivesse de escolher entre a paz e os territórios que conquistamos, preferiria a paz".

"Ele dizia que iríamos sobreviver pela superioridade moral, e não pelo Exército", conta Alon.

Rabino ultraortodoxo de Jerusalém não reconhece Estado de Israel

Quando o rabino Meir Hirsch, 63, fala sobre o país em que vive, sinaliza aspas invisíveis com as mãos: "o Estado de Israel". Um ultraortodoxo no extremo do espectro, ele não reconhece a fundação dessa nação em 1948. Segundo a sua crença, o verdadeiro Estado só virá com a chegada do messias.

Hirsch é o líder do movimento Neturei Karta, criado em 1938 para se opor ao projeto sionista de erguer um país no que era então o território otomano da Palestina. Ele organiza protestos e campanhas internacionais para pedir que Israel -que celebra 70 anos nesta quarta-feira (18) à noite, segundo o calendário judaico- desapareça.

O rabino recebeu a reportagem em sua casa no bairro ultraortodoxo de Mea Shearim (mil portões, em hebraico). É um dos redutos mais religiosos de Jerusalém, onde vivem comunidades herméticas de israelenses que seguem à risca as regras da tradição judaica. Aos sábados, seu dia sagrado, as ruas são bloqueadas aos carros.

O ultraortodoxos vivem relativamente à margem da sociedade israelense, isentos, por exemplo, de cumprir o serviço militar obrigatório de três anos aos homens e de dois às mulheres. Mas seus partidos políticos, como o Shas e o Agudat Israel, participam do Parlamento.

Mas Hirsch é um morador incomum de Mea Shearim. Há um adesivo em sua porta que diz "sou judeu, mas não sionista". No canto da sala, está encostada uma bandeira palestina.

"A ONU decidiram dar um Estado aos judeus como uma compensação depois que a Alemanha matou seis milhões de nós no Holocausto", afirma. "Mas os palestinos foram expulsos daqui. Como eles puderam pagar a dívida de um povo usando a conta de outro?"

O Neturei Karta é um ramo reduzido do judaísmo, com 10 mil famílias em um universo de 6,5 milhões de judeus no país. Mas sua atividade política, como a queima de bandeiras israelenses em público, causa ruído e não raras vezes indignação.

Moshe Hirsch, pai de Meir, trabalhou como assessor de Assuntos Judaicos no governo do líder palestino Yasser Arafat, morto em 2004. Um membro do grupo foi acusado de espionar para o Irã, mas eles negam.

Do ponto de vista religioso, os seguidores creem que há uma proibição clara à criação de um Estado judeu até que o messias volte ao povo de Israel.

O Neturei Karta foi contra o estabelecimento do país em 1948 também por acreditar que um Estado secular prejudicaria os judeus. O "Estado" -Hirsch volta a fazer aspas com as mãos- fez com que os judeus deixassem de seguir suas tradições. "Hoje os israelenses são um povo sem cultura judaica."

Há ainda razões morais para não reconhecer o país, diz o rabino. "Como é que nós, que morremos aos milhões no Holocausto, viemos para esta terra para matar outro povo? É um absurdo."

Hirsch também não acredita que ter um Estado judaico e outro árabe seja uma saída justa ou factível. "Até que os palestinos tenham toda a terra para eles, será apenas 'tipo uma paz'."


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DATA - Fundador de Israel defendia via de dois Estados, diz neto

"Ele dizia que iríamos sobreviver pela superioridade moral, e não pelo Exército"

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Terça, 17/4/2018 5:34.

DIOGO BERCITO
TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - Alon caminha pela casa de David Ben-Gurion, fundador do Estado de Israel e seu premiê inaugural. A antiga construção no norte de Tel Aviv é hoje um museu à história do homem que redigiu e declarou há 70 anos a independência do país.

Alguns turistas observam os móveis sóbrios e as estantes forradas de livros em variadas línguas, como hebraico, inglês, espanhol e grego. Alon, porém, se detém em um canto. Coloca as mãos atrás do corpo, pesca uma memória e diz à reportagem: "Era aqui que ficava nosso piano."

Alon, 66, é neto de Ben-Gurion, de quem ele herdou o sobrenome da dinastia. Não é político nem ocupa cargo público, mas conheceu a fundo um dos heróis do país e circulou naquela casa, razões pelas quais é uma requisitada testemunha da história.

Consultor de hotéis de luxo nos EUA, onde vive, ele viajou a Israel para as celebrações da independência, que começam noite de quarta-feira (18), seguindo o calendário judaico. A data no calendário gregoriano é 14 de maio.

Alon tinha 22 anos em 1973, quando Ben-Gurion morreu aos 87 anos após uma hemorragia cerebral. "A última vez em que eu vi meu avô ele estava nesta cama, dormindo. Eu estava de folga no Exército, tinha me ferido, e decidi fazer uma visita. Não quis acordá-lo", conta.

Ele ainda se lembra de uma das lições aprendidas com seu avô, uma mensagem que considera pertinente mesmo hoje, sete décadas depois do estabelecimento de Israel: "Ele nos dizia para não considerarmos a existência dos judeus como algo garantido."

A Alemanha nazista matou seis milhões deles durante o Holocausto. Nas últimas décadas, Israel esteve em guerra com todos seus vizinhos -Egito, Jordânia, Síria e Líbano- e foi ameaçado por outros inimigos, em especial o Irã, com seu desaparecimento do mapa-múndi.

SIONISMO

Nascido na atual Polônia em 1886, David Ben-Gurion migrou em 1906 para a então Palestina, um território do Império Otomano e mais tarde um mandato britânico.

Ele acreditava que, perseguidos na Europa, os judeus precisavam criar ali seu próprio país -um movimento do século 19 chamado de "sionismo", a partir da ideia de retorno à terra de Sião.

"Meu avô era um homem simples. Não se importava com as coisas materiais, como ir a um restaurante caro ou se vestir bem", diz Alon. "Ele sempre dizia que sua preocupação era criar um Estado para o povo judeu, e foi por esse objetivo que ele trabalhou toda a sua vida."

Mas, ao chegar ali, Ben-Gurion deparou com um fato inescapável: o território já era habitado há séculos pelos palestinos, com quem precisaria conviver. "Quando a ONU propôs a criação de um Estado judeu, ele sabia que haveria um conflito com os árabes", conta Alon.

A proposta da ONU de 1947 era criar um país para os judeus e outro para os árabes. Os judeus aceitaram, mas os árabes, não. A situação, já de atritos entre ambos os lados, tornou-se um confronto internacional com a participação dos países vizinhos.

"Foi por isso que, ao contrário das pessoas que foram às ruas celebrar aquele dia, ele me disse que não ficou feliz. Sabia que nós pagaríamos um preço por aquela guerra. Mas foi adiante e venceu."

Os palestinos também pagaram um preço: a independência de Israel é conhecida em árabe como "Nakba", o seu "desastre".

Durante a guerra, mais de 700 mil palestinos tiveram de deixar suas casas e parte de seus descendentes ainda vive em campos de refugiados. O território da Cisjordânia, onde querem ter o seu Estado, é ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967.

Por essa razão, palestinos têm convocado marchas em protesto ao aniversário de Israel.

Ciente do peso de suas declarações como herdeiro do fundador do país, Alon prefere não falar tanto sobre política. Mas conta que até sua morte o avô acreditava em solucionar a crise com a criação de um país para os judeus e outro para os palestinos.

Ben-Gurion também foi contrário à ocupação da Cisjordânia. Um ano depois da guerra, afirmou: "Se eu tivesse de escolher entre a paz e os territórios que conquistamos, preferiria a paz".

"Ele dizia que iríamos sobreviver pela superioridade moral, e não pelo Exército", conta Alon.

Rabino ultraortodoxo de Jerusalém não reconhece Estado de Israel

Quando o rabino Meir Hirsch, 63, fala sobre o país em que vive, sinaliza aspas invisíveis com as mãos: "o Estado de Israel". Um ultraortodoxo no extremo do espectro, ele não reconhece a fundação dessa nação em 1948. Segundo a sua crença, o verdadeiro Estado só virá com a chegada do messias.

Hirsch é o líder do movimento Neturei Karta, criado em 1938 para se opor ao projeto sionista de erguer um país no que era então o território otomano da Palestina. Ele organiza protestos e campanhas internacionais para pedir que Israel -que celebra 70 anos nesta quarta-feira (18) à noite, segundo o calendário judaico- desapareça.

O rabino recebeu a reportagem em sua casa no bairro ultraortodoxo de Mea Shearim (mil portões, em hebraico). É um dos redutos mais religiosos de Jerusalém, onde vivem comunidades herméticas de israelenses que seguem à risca as regras da tradição judaica. Aos sábados, seu dia sagrado, as ruas são bloqueadas aos carros.

O ultraortodoxos vivem relativamente à margem da sociedade israelense, isentos, por exemplo, de cumprir o serviço militar obrigatório de três anos aos homens e de dois às mulheres. Mas seus partidos políticos, como o Shas e o Agudat Israel, participam do Parlamento.

Mas Hirsch é um morador incomum de Mea Shearim. Há um adesivo em sua porta que diz "sou judeu, mas não sionista". No canto da sala, está encostada uma bandeira palestina.

"A ONU decidiram dar um Estado aos judeus como uma compensação depois que a Alemanha matou seis milhões de nós no Holocausto", afirma. "Mas os palestinos foram expulsos daqui. Como eles puderam pagar a dívida de um povo usando a conta de outro?"

O Neturei Karta é um ramo reduzido do judaísmo, com 10 mil famílias em um universo de 6,5 milhões de judeus no país. Mas sua atividade política, como a queima de bandeiras israelenses em público, causa ruído e não raras vezes indignação.

Moshe Hirsch, pai de Meir, trabalhou como assessor de Assuntos Judaicos no governo do líder palestino Yasser Arafat, morto em 2004. Um membro do grupo foi acusado de espionar para o Irã, mas eles negam.

Do ponto de vista religioso, os seguidores creem que há uma proibição clara à criação de um Estado judeu até que o messias volte ao povo de Israel.

O Neturei Karta foi contra o estabelecimento do país em 1948 também por acreditar que um Estado secular prejudicaria os judeus. O "Estado" -Hirsch volta a fazer aspas com as mãos- fez com que os judeus deixassem de seguir suas tradições. "Hoje os israelenses são um povo sem cultura judaica."

Há ainda razões morais para não reconhecer o país, diz o rabino. "Como é que nós, que morremos aos milhões no Holocausto, viemos para esta terra para matar outro povo? É um absurdo."

Hirsch também não acredita que ter um Estado judaico e outro árabe seja uma saída justa ou factível. "Até que os palestinos tenham toda a terra para eles, será apenas 'tipo uma paz'."


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