Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Geral
Violência contra a mulher: é preciso falar e combater

Quinta, 15/8/2019 16:28.
Maria da Penha, a mulher que deu nome à lei.

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Por Renata Rutes

A Lei Maria da Penha que completou 13 anos no último dia 7 já ajudou muitas mulheres, mas mesmo assim o número de casos de violência doméstica e feminicídios só aumenta no Brasil. Estima-se que uma a cada quatro mulheres passou por violência no país em 2018, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, correspondendo a 27,4% das brasileiras acima dos 16 anos (16 milhões ao total). Dentre os casos, 42% deles ocorreram no ambiente doméstico e mais da metade das vítimas (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda.

Em Balneário Camboriú os números também surpreendem: a Polícia Militar atendeu, somente no primeiro semestre deste ano, 384 ocorrências de violência contra a mulher, seja ela física ou psicológica (ameaças, xingamentos, injúria, etc.), já a Polícia Civil registrou nesses oito meses cerca de duas mil ocorrências do tipo, tendo emitido até o momento aproximadamente 160 medidas protetivas (mecanismos criados pela lei para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar).


Histórias reais de superação

Espero justiça, diz Ivone

Quem inspirou essa reportagem é Ivonilde Terezinha dos Santos, 64 anos, a dona Ivone. Ela abordou a repórter do Página 3 na última semana dizendo que queria contar sua história. Em seu apartamento no Bairro dos Municípios, onde vive com o poodle Peninha e com a gata Nenêm, Ivone fazia com todo o carinho um café e servia bolachas, sem tirar do rosto o sorriso. A mulher é gaúcha de Porto Alegre, onde criou dois dos três filhos. O primeiro e mais velho ela teve aos 17 anos, mas ele foi criado pelo pai – mesmo assim, é com quem ela tem mais contato. Os outros dois, L., o do meio, e S., o caçula, também moram em Balneário Camboriú. Ivone é filha única (a mãe a teve com 14 anos) e conta que sua mãe teve ‘muitos namorados’, mas o último padrasto ela considerou como pai. Ela saiu cedo de casa para trabalhar, mas ainda tem contato com a mãe, que continua morando no Rio Grande do Sul.

A história da mulher é baseada em tudo o que ela fez para não se separar e nem deixar faltar nada para L. e S.. O pai de S., segundo ela, era um homem bom, mas isso mudava quando ele bebia. Ele chegou a bater nela quando ela estava grávida de sete meses, e isso foi o ‘estopim’ para deixá-lo. Como ela não tinha para onde ir com as duas crianças, contou com a ajuda do então patrão, que a auxiliou a conseguir uma casa para viver.

Ele foi um dos anjos da minha vida, mas como eu passei a morar muito longe, tive que mudar de trabalho. Comecei a trabalhar na lanchonete da rodoviária de Porto Alegre, eu não dormia direito e só comia lá. Todo o meu dinheiro ia para alimentar e cuidar dos meus filhos”, diz.

Como a região onde Ivone estava vivendo com os filhos era um pouco perigosa (a casa dela chegou a ser arrombada e furtada), ela decidiu se mudar. Já nos anos 1980, ela conheceu um homem, a quem chama de ‘amigo muito querido’. Ele era casado, mas os dois se relacionaram e ele a ajudou financeiramente.

Fiz curso de cabeleireira, consegui um apartamento e babá para os meninos, até abri meu salão. Ele me ajudou muito. Nessa época meus filhos já eram pré-adolescentes e incomodavam muito. Eles têm um ano e pouquinho de diferença. Na época do Plano Collor eu vendi meu apartamento e o salão porque a área onde estávamos estava tendo problemas com gangues, e meus filhos estavam se envolvendo”, relembra.

L., o mais velho, foi então para o Exército, onde serviu por aproximadamente oito meses. S. ainda era menor de idade, e nessa época, segundo Ivone, ele ‘começou a se perder’, passando a ter problemas com drogas e a andar com más companhias.

Eu passava dias sem ver ele, ia pra rua atrás e quando encontrava enfrentava, falava pra ele voltar pra casa. O S. sempre foi problemático, se fosse hoje eu teria levado ele num psicólogo, mas naquela época não tinha isso”, comenta.

Com isso, já em 1996, Ivone decidiu mudar-se para Balneário Camboriú, cidade que ela conhecia como turista e que sempre a encantou. Ela e os filhos vieram ‘de mala e cuia’ para Balneário, com mochilas e uma TV portátil. Eles ficaram em uma pensão, mas quando o verão passou os filhos decidiram voltar para Porto Alegre. Já em 1997, Ivone conseguiu um emprego como cuidadora de uma senhora acamada, que é sua amiga até hoje. L. decidiu voltar para Balneário, ficando com ela no apartamento da patroa, e pouco tempo depois S. apareceu.

Ele havia apanhado, estava muito mal. Consegui um emprego de manicure e fiz uma boa clientela, atendia o pessoal dos restaurantes, do Hotel Marambaia. O Beto Carrero estava começando e meus filhos trabalharam lá. Foi uma época muito boa”, afirma.

Com o tempo, os filhos casaram e S., o mais novo, teve um filho, B., que hoje tem 19 anos. Porém, os problemas recomeçaram e S. enfrentou uma relação conturbada com a então esposa.

“Ele batia nela. Ela era professora e ia trabalhar com o olho roxo. E isso aconteceu com todas as mulheres que ele se envolveu”, diz.

Em 2008, S. voltou a morar com a mãe, incentivando que ela construísse uma casa pra ele, o que aconteceu. Ela emprestou cheques para ele e por um ano eles viviam bem, até que o homem conseguiu um emprego em uma casa noturna da cidade e ‘sumiu’. Quando reapareceu, trouxe uma mulher e pediu para a mãe sair de casa porque os dois queriam morar juntos. Ivone negou e S. não gostou.

“Ele começou a se vingar, ameaçava me despejar, me chamava de negra suja, fazia fogo perto da minha casa para me assustar, cortava a minha luz direto do poste. Foi horrível”, conta.

Por três anos, Ivone ainda criou o neto B., filho de S., pois o homem agredia o filho e a então madrasta não gostava dele. Nesse tempo também, a mãe de Ivone adoeceu e ela teve que viajar para o Rio Grande do Sul. Quando ela voltou, encontrou a casa destruída por S., que também pegou suas coisas, como máquina de lavar, microondas, geladeira, cama box, toalhas, máquina de sorvete, fogão e joias.

“Fui atrás dele, ele debochou de mim. Eu bati nele e ele me empurrou. Denunciei para o Ministério Público, mas a polícia dizia que eu não tinha como provar tudo o que ele tinha feito. Agora eu vivo sozinha, também não tenho contato com o L.. Os dois moram no Bairro dos Municípios. Eu espero justiça e sempre aconselho que as mulheres olhem para como os homens tratam as mães. Eu durmo em um sofá cama e minha perna dói, muitos dos meus móveis são da dona do apartamento e peguei algumas coisas do lixo também. Espero ajuda, qualquer ajuda, mas realmente agora eu vivo em paz. Eu perdoei o meu filho, mas vejo que ele é um monstro, infelizmente sempre foi”, completa.

“Tenho que estar sempre atenta”, diz Raíssa

Quem vê Raíssa, 30 anos, logo reconhece pelo olhar dela que algo aconteceu. Dona de um sorriso bonito e longos cabelos lisos, ela não consegue esconder que não está bem. Ao falar com a reportagem, seus olhos se enchem de lágrimas. Raíssa teve um relacionamento de quatro anos, onde foi agredida diversas vezes e até mesmo abusada sexualmente. Ela conta que no parto de seu filho, que hoje tem dois anos, estava com o olho roxo. Mas no começo a história era bem diferente: seu ex-companheiro era ‘o homem que toda mulher queria’. Ela o conheceu através de uma amiga, que namorava o irmão dele. “Quando estávamos juntos há um ano ele me bateu pela primeira vez. Ele prometia mudar, e como eu gostava dele eu perdoava. Tudo piorou quando ele começou a usar cocaína, ele chegou a vender meus móveis de casa, dei outra chance, tentamos recomeçar, mas ele me bateu de novo”, relembra.

Depois disso, o ex de Raíssa foi morar na rua pela primeira vez, onde conheceu o crack. Ele voltou a procurá-la, dessa vez para pedir ajuda para se internar numa clínica de reabilitação, onde ficou por dois meses. Quando saiu, a mulher lhe deu outra chance, mas logo ele teve uma recaída e voltou para as drogas.

“Em fevereiro desse ano ele me bateu e eu registrei o meu primeiro boletim de ocorrência. Dei outra chance, ele me bateu de novo e em abril eu decidi que daria um basta nessa situação. Ele passou dias na rua e acabou indo para Luiz Alves, onde a mãe dele mora, mas voltou pedindo para ver nosso filho. Ele passou a noite me torturando e então minha mãe me socorreu, mandando ele embora outra vez”, diz. Depois disso, Raíssa foi ameaçada de morte pelo ex, e ele tinha a senha do prédio onde ela morava, chegando a invadir o local para tentar agredi-la. Raíssa conseguiu chamar a Guarda Municipal e foi ameaçada na frente dos guardas, além de um deles ter sido agredido pelo ex dela.

“Ele ficou dois meses preso na Canhanduba e só ficaria fora de lá se aceitasse se internar. Isso venceu segunda-feira (12), não sei o que aconteceu, mas ele estava morando em Camboriú. Eu tenho medo por ele estar perto, tenho que estar sempre atenta na rua e em casa”, explica.

Raíssa está recebendo atendimento do projeto Abraço à Mulher, onde recebe ajuda psicológica e participa de oficinas e atividades esportivas e educacionais. Lá, mulheres vítimas como ela recebem apoio gratuito.

“A Polícia Militar me encaminhou para o programa, e sem dúvidas tem feito muita diferença. Ajuda muito, me fortalece e me dá ânimo para querer continuar. Acredito que agora as coisas só vão melhorar”, acrescenta.

“Eu achava que o problema era eu”, diz Lúcia

Assim como Raíssa, um dos casos atendidos pelo Abraço à Mulher é o de Lúcia, também de 30 anos. Ao começar a contar a sua história, após ouvir a de Raíssa, ela define que foi ‘o oposto’, pois seu marido, com quem se relacionou por três anos ‘era um lord, e o primeiro a dizer que não se bate em mulher’. Apesar de nunca ter agredido-a fisicamente, Lúcia sofreu um dos piores tipos de violência: a psicológica. Ele afastou ela dos amigos, sempre a diminuía, dizia que ela ‘só atraía desgraça’, a fazendo acreditar nisso. A mulher fez terapia por todos esses anos, buscando entender o que havia de errado com ela.

“Eu achava que eu era o problema, mas quando eu falava em me separar ele não aceitava. E tinha uma criança na situação, o filho adotivo dele, por quem eu tinha muito carinho. Ele queria que tivéssemos um filho biológico, mas eu comecei a cair na real que se isso acontecesse a situação pioraria. Em janeiro eu decidi me separar dele, mas em fevereiro descobri que estava grávida”, conta.

Mesmo assim, o ex-marido de Lúcia acusou que o filho não era dele, o que a fez ver que ela não se sujeitaria a continuar na situação por conta da gravidez. No dia em que ela se mudou, passando a morar sozinha, o homem assumiu o relacionamento com outra mulher.

“Ele me levou no médico algum tempo depois e voltou pela BR-101, era em Itajaí, ameaçando causar um acidente de trânsito para me matar, além de dizer que me esquartejaria quando o bebê nascesse. Decidi dar uma basta na situação e em março pedi a medida protetiva. Ele nunca teve problemas com drogas, é um psicopata narcisista mesmo. Conheci a ex dele e ela também passou por coisas parecidas”, diz.

Até então, todos os dias o homem tentava contato com ela, e em certa ocasião, quando Lúcia foi na igreja, ele a abordou e fez uma ‘cena’, se jogando no chão e pedindo desculpa. Ninguém chamou a polícia para ajudá-la. Em junho ele ameaçou uma colega de trabalho dela, a procura de informações sobre ela. Lúcia está participando do Abraço à Mulher há um mês. Soube do programa através de um folder de divulgação.

“Eu precisava de orientação jurídica, e também estou fazendo as sessões de terapia. Eu não estou bem ainda, mas no caminho para isso. Existe vida nova, não é fácil, mas a mulher vítima de violência precisa colocar a cara, é difícil sair, mas quando sai é libertador”, completa.


Abraço à Mulher: programa de ajuda

A psicóloga Andrea Gonçalves atende no programa Abraço à Mulher, que começou em abril e desde então já atendeu mais de 100 mulheres por telefone, Whatsapp e pessoalmente. Seguem em acompanhamento frequente aproximadamente 60 vítimas de violência doméstica.

Andrea vê que a psicoterapia é essencial, já que é o olhar externo e profissional sobre o caso.

“Não é uma amiga aconselhando, é uma visão profissional. A minha função é dar ferramentas e estrutura para que essas mulheres consigam seguir adiante por conta própria, e parte delas decidirem o que querem para suas vidas”, explica.

A psicóloga vê que recaídas acontecem, mas que essas mulheres não podem desistir de lutar para se verem livres dos agressores.

“Relações assim são como uma droga, envolve toda a parte emocional e biológica. A psicoterapia é exatamente para mudar esse padrão, mantendo a mulher bem estruturada, para que ela não se deixe cair e aprenda com tudo o que aconteceu”, opina.

Andrea relembra que, apesar da Lei Maria da Penha estar completando 13 anos, desde os anos 80 há campanhas contra a violência doméstica.

“Tinha o slogan ‘quem ama não mata’, mas é algo que precisa ser trabalhado até hoje, demanda muito esforço físico e mental. 90% do esforço é da paciente. E também temos que trabalhar o agressor, que inclusive é acompanhado pelo CREAS. Eles precisam de ajuda tanto quanto as vítimas, não dá para olhar só para um dos lados. Há casos de psicopatia severas e também de problemas com drogas. Há homens que são muito mimados pelas mães e quando crescem descontam nas parceiras, sendo carentes e ciumentos, por exemplo”, destaca.

A psicóloga acrescenta o quanto é importante as vítimas denunciarem, pois tem apoio, salientando que Balneário Camboriú é uma cidade diferenciada por ter essa rede.

“No Abraço há apoio jurídico gratuito, psicoterapia, oficinas, há a Casa das Anas onde elas podem se abrigar, elas não estão sozinhas. Outras cidades precisam se adaptar também, recebemos muitas ligações e infelizmente hoje só podemos ajudar quem é de Balneário”, explica.

A coordenadora do Abraço à Mulher é Alda Dudek, formada em História e que fez mestrado em Gênero. Ela conta que sempre teve vontade de trabalhar auxiliando mulheres vítimas de violência doméstica, e que o prefeito Fabrício Oliveira realizou isso.

“Tem situações pesadas, mas salvar uma vida vale todo o esforço e dedicação que temos”, analisa. Alda aponta que, apesar do programa ser a nível municipal, já atenderam casos de turistas e até de estrangeiras, citando uma situação envolvendo uma mulher uruguaia que recebeu ajuda. Ela estava em Balneário Camboriú, morando com um companheiro, e ela a agrediu.

“Ela veio até nós bastante machucada, pedindo para voltar para o Uruguai e encontrar a filha e a mãe. Conseguimos através da Secretaria de Inclusão Social levá-la até a fronteira, no Rio Grande do Sul, e elas vieram buscá-la. Ela voltou para casa, está livre do agressor e bem, até hoje temos contato. É um programa municipal, priorizamos quem está na cidade e não vamos negar ajuda para quem precisa”, descreve.

Segundo Alda, os casos que atendem são diversos, desde adolescentes de 16 anos como idosas de mais de 60, por isso ela afirma que ‘onde há violência, o Abraço vai’.

O sonho dela é ver os altos índices diminuírem, e ela salienta que o que lhe dá esperança é a percepção de que as mulheres estão denunciando cada vez mais e que querem se libertar dessas situações ruins.

“Elas têm em nós um apoio. Fazem terapia, tem aulas de dança, ginástica e maquiagem, apoio jurídico também. Atendemos desde moradoras de rua a quem mora no Centro. A violência não tem classe social e pode vitimar qualquer uma, por isso é tão importante incentivarmos campanhas de combate e também de denúncias, que podem ser feitas em anônimo e até por terceiros”, completa.

  • O Abraço à Mulher atende todos os dias, em sistema 24h. Se você precisa de ajuda ou sabe de alguma mulher que está em situação de risco ligue para (47) 9.9982-1906.

Casa das Anas: abrigo para vítimas

O projeto Casa das Anas, que abriga vítimas de violência, possui unidade em Balneário Camboriú, sendo o único local na cidade atualmente que recebe mulheres em situação de risco de forma gratuita. Em Balneário, o abrigo tem suporte para acolher 24 pessoas, incluindo mulheres e crianças. O foco é receber as mulheres até que elas consigam encontrar um local para viver, auxiliando-as no contato com familiares, orientando para retornar aos estudos e/ou mercado de trabalho, encaminhamento para cursos profissionalizantes, realizam oficinas artesanais e atividades culturais, tudo de forma gratuita.

A Casa das Anas tem parceria com a prefeitura de Balneário Camboriú e também recebe ajuda do público, através de doações (pontuais, regulares ou constantes) que podem ser tanto financeiras (Vidas Recicladas – Banco Bradesco, agência: 7223, conta poupança: 1000027-0) como ainda de produtos, alimentos e roupas.

O projeto também é aberto para voluntários, que podem contribuir com as atividades diárias da Casa, ministrando oficinas ou auxiliando nos serviços gerais. A Casa das Anas também pede o apoio das empresas da cidade, que podem oferecer oportunidades para que as mulheres vítimas de agressões possam retornar ao mercado de trabalho. O endereço da Casa das Anas está sob sigilo, exatamente para resguardar a segurança das mulheres abrigadas.


Delegacia de Proteção à Mulher

A Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) é um dos principais locais para que casos de violência contra a mulher sejam denunciados. A Lei Maria da Penha estabelece que, após o registro do Boletim de Ocorrência (B.O.), o caso seja remetido ao Juiz em, no máximo, 48 horas. A Justiça também tem 48 horas para analisar e julgar a concessão das medidas protetivas (em caso de descumprimento o homem pode ser preso, sem direito a pagar fiança).

Em Balneário, a delegacia é coordenada pela delegada Inara Danielle Marques Drapalski, que ocupa o cargo há dois anos e meio, sendo delegada há oito – já tendo atuado em Garuva e Itapema.

Ela conta que a princípio não queria atuar nessa área (antes trabalhava com o foco em investigações criminais) porque nunca teve em casa nenhum problema de violência doméstica, além de que se sentia ‘constrangida’ em aconselhar mulheres que passavam por situações que ela não sabia como era. Porém, atualmente, Inara afirma que se sente grata por poder auxiliá-las.

A delegada conta que, infelizmente, muitas mulheres não percebem que são vítimas de violência doméstica e por isso fica mais difícil para conseguirem sair dos relacionamentos abusivos. Há ainda os casos de dependência emocional e financeira e aquelas que pensam nos filhos, optando por ‘suportar’ a situação para preservar a família. Segundo Inara, o primeiro semestre foi ‘terrível’, com muitos atendimentos de violência doméstica, sendo as principais ameaça e injúria, que são consideradas violências psicológicas.

“Todos os casos que chegam até nós são registrados e investigados, e esses são os piores porque muitas vezes não há provas. Tudo é válido e nos ajuda, até conversas e áudios do WhatsApp, por exemplo”, diz.

Segundo ela, há casos de casais mais novos, como uma menina de 16 anos que foi agredida pelo namorado e o pai a levou na delegacia para registrar o caso, como de uma idosa de mais de 60 anos, com 40 anos de casamento, que percebeu que vivia um relacionamento abusivo.

“No geral, os principais casos envolvem mulheres entre 30 e 35 anos, mas é muito variado. Há de diversas classes sociais também, e quando é o pessoal mais simples costuma envolver também problemas com álcool e drogas, totalizando 80% dos casos mais ou menos”, explica.

Inara fala que, em seu ponto de vista, a violência doméstica ainda é algo cultural, citando que o sentimento de posse em relacionamentos é algo muito presente.

“O ciúme é o principal elemento das agressões. Muitas mulheres denunciam seus companheiros no momento da raiva e depois voltam atrás, infelizmente é algo muito comum. 40% delas também voltam para o relacionamento, por isso vejo a importância de ter um acompanhamento desses casais, é algo que quero implantar em Balneário, para ver se eles estão mesmo recomeçando”, comenta.

A delegada salienta que espera que esse quadro de violência doméstica mude com as próximas gerações, e diz que há trabalhos para isso principalmente nas escolas, diretamente com as crianças e adolescentes.

“É preciso denunciar, não podemos deixar que chegue ao ponto de ser tarde demais e perder mais vidas. No primeiro sinal, nas primeiras palavras ruins, a mulher precisa ficar atenta. Às vezes o tapa não vem, mas ser rebaixada e considerada louca é ainda pior, é a violência que mais machuca. O ditado que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’ é errado. Se eles não se resolvem outras pessoas tem que se meter, sim. Nós podemos ajudar essas vítimas, queremos mostrar para elas que é possível viver uma nova vida. Pode não ser fácil no começo, mas é possível. Balneário é privilegiada com a rede de apoio, desde o trabalho da PM, Abraço à Mulher, Casa das Anas. Há também o OAB Por Elas, onde advogadas atendem gratuitamente mulheres vítimas de violência doméstica”, acrescenta.

  • Casos podem ser denunciados ao Disque Denúncia (181) ou diretamente para o Disque Denúncia Direitos Humanos (100), que trata de casos de agressão a mulheres, crianças, adolescentes e idosos.

Rede Catarina de Proteção à Mulher

A Polícia Militar de Santa Catarina também conta com um programa de apoio às vítimas de agressões. O Rede Catarina atua em Balneário Camboriú através de visitas e acompanhamento de mulheres, que são diretamente atendidas por policiais militares femininas.

O policial Denício Rosa explica que o programa existe desde 2018, e que após a implantação dele aumentaram muito as ocorrências, porque as mulheres perceberam o apoio da PM, com isso se sentem protegidas e assim denunciam os agressores.

“A tendência é o número começar a reduzir, porque antes não tinha essa proteção, não havia fiscalização das medidas protetivas. O cara se aproximava e até agredia a mulher, mesmo com a protetiva. Em Itajaí aconteceu um caso desse tipo. O Rede Catarina está funcionando muito bem, e sem dúvida é importante a vítima denunciar, ela tem esse amparo. Liga para o 190, a viatura tenta chegar o quanto antes e será acompanhada posteriormente também”, destaca.

Um caso que marcou Denício foi uma situação onde a mulher relatou que estava sendo agredida pelo marido. Ela estava fora de casa e o marido dentro, ‘quebrando tudo’.

“Ela estava com uns vermelhões no rosto, confirmou que havia sido agredida. Entregamos uma requisição de autorização para entrarmos na residência. Embora tivesse o flagrante, pedimos que ela nos autorizasse. Ela assinou, quando vimos o cara, completamente alterado, fomos colocar a algema nele e ele reagiu. Deu um rolo. Quando o dominamos, a vassoura comeu em cima da gente, a mulher começou a nos agredir, dizendo que não era para prender, porque ela o amava, que ia perdoar ele, que não precisava prender. A própria vítima! Foi um caso que marcou”, relata.

Denício também atendeu uma situação onde uma mulher todos os dias procurava a PM, ligava, pedia ajuda, os policiais iam pessoalmente acompanhá-la, ela fez a medida protetiva e após um tempo sumiu.

“Um ano depois eu a vi em um restaurante, almoçando com o homem que ela denunciava, beijando, juntos, no maior ‘love’. Fiquei com cara de palhaço, pois dávamos atenção, ela pedia urgência. Infelizmente é comum acontecer, e o Rede Catarina também acompanha para saber porque a mulher desistiu da denúncia e se ela está mesmo em segurança”, completa.



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 Maria da Penha, a mulher que deu nome à lei.
Maria da Penha, a mulher que deu nome à lei.

Violência contra a mulher: é preciso falar e combater

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Quinta, 15/8/2019 16:28.

Por Renata Rutes

A Lei Maria da Penha que completou 13 anos no último dia 7 já ajudou muitas mulheres, mas mesmo assim o número de casos de violência doméstica e feminicídios só aumenta no Brasil. Estima-se que uma a cada quatro mulheres passou por violência no país em 2018, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, correspondendo a 27,4% das brasileiras acima dos 16 anos (16 milhões ao total). Dentre os casos, 42% deles ocorreram no ambiente doméstico e mais da metade das vítimas (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda.

Em Balneário Camboriú os números também surpreendem: a Polícia Militar atendeu, somente no primeiro semestre deste ano, 384 ocorrências de violência contra a mulher, seja ela física ou psicológica (ameaças, xingamentos, injúria, etc.), já a Polícia Civil registrou nesses oito meses cerca de duas mil ocorrências do tipo, tendo emitido até o momento aproximadamente 160 medidas protetivas (mecanismos criados pela lei para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar).


Histórias reais de superação

Espero justiça, diz Ivone

Quem inspirou essa reportagem é Ivonilde Terezinha dos Santos, 64 anos, a dona Ivone. Ela abordou a repórter do Página 3 na última semana dizendo que queria contar sua história. Em seu apartamento no Bairro dos Municípios, onde vive com o poodle Peninha e com a gata Nenêm, Ivone fazia com todo o carinho um café e servia bolachas, sem tirar do rosto o sorriso. A mulher é gaúcha de Porto Alegre, onde criou dois dos três filhos. O primeiro e mais velho ela teve aos 17 anos, mas ele foi criado pelo pai – mesmo assim, é com quem ela tem mais contato. Os outros dois, L., o do meio, e S., o caçula, também moram em Balneário Camboriú. Ivone é filha única (a mãe a teve com 14 anos) e conta que sua mãe teve ‘muitos namorados’, mas o último padrasto ela considerou como pai. Ela saiu cedo de casa para trabalhar, mas ainda tem contato com a mãe, que continua morando no Rio Grande do Sul.

A história da mulher é baseada em tudo o que ela fez para não se separar e nem deixar faltar nada para L. e S.. O pai de S., segundo ela, era um homem bom, mas isso mudava quando ele bebia. Ele chegou a bater nela quando ela estava grávida de sete meses, e isso foi o ‘estopim’ para deixá-lo. Como ela não tinha para onde ir com as duas crianças, contou com a ajuda do então patrão, que a auxiliou a conseguir uma casa para viver.

Ele foi um dos anjos da minha vida, mas como eu passei a morar muito longe, tive que mudar de trabalho. Comecei a trabalhar na lanchonete da rodoviária de Porto Alegre, eu não dormia direito e só comia lá. Todo o meu dinheiro ia para alimentar e cuidar dos meus filhos”, diz.

Como a região onde Ivone estava vivendo com os filhos era um pouco perigosa (a casa dela chegou a ser arrombada e furtada), ela decidiu se mudar. Já nos anos 1980, ela conheceu um homem, a quem chama de ‘amigo muito querido’. Ele era casado, mas os dois se relacionaram e ele a ajudou financeiramente.

Fiz curso de cabeleireira, consegui um apartamento e babá para os meninos, até abri meu salão. Ele me ajudou muito. Nessa época meus filhos já eram pré-adolescentes e incomodavam muito. Eles têm um ano e pouquinho de diferença. Na época do Plano Collor eu vendi meu apartamento e o salão porque a área onde estávamos estava tendo problemas com gangues, e meus filhos estavam se envolvendo”, relembra.

L., o mais velho, foi então para o Exército, onde serviu por aproximadamente oito meses. S. ainda era menor de idade, e nessa época, segundo Ivone, ele ‘começou a se perder’, passando a ter problemas com drogas e a andar com más companhias.

Eu passava dias sem ver ele, ia pra rua atrás e quando encontrava enfrentava, falava pra ele voltar pra casa. O S. sempre foi problemático, se fosse hoje eu teria levado ele num psicólogo, mas naquela época não tinha isso”, comenta.

Com isso, já em 1996, Ivone decidiu mudar-se para Balneário Camboriú, cidade que ela conhecia como turista e que sempre a encantou. Ela e os filhos vieram ‘de mala e cuia’ para Balneário, com mochilas e uma TV portátil. Eles ficaram em uma pensão, mas quando o verão passou os filhos decidiram voltar para Porto Alegre. Já em 1997, Ivone conseguiu um emprego como cuidadora de uma senhora acamada, que é sua amiga até hoje. L. decidiu voltar para Balneário, ficando com ela no apartamento da patroa, e pouco tempo depois S. apareceu.

Ele havia apanhado, estava muito mal. Consegui um emprego de manicure e fiz uma boa clientela, atendia o pessoal dos restaurantes, do Hotel Marambaia. O Beto Carrero estava começando e meus filhos trabalharam lá. Foi uma época muito boa”, afirma.

Com o tempo, os filhos casaram e S., o mais novo, teve um filho, B., que hoje tem 19 anos. Porém, os problemas recomeçaram e S. enfrentou uma relação conturbada com a então esposa.

“Ele batia nela. Ela era professora e ia trabalhar com o olho roxo. E isso aconteceu com todas as mulheres que ele se envolveu”, diz.

Em 2008, S. voltou a morar com a mãe, incentivando que ela construísse uma casa pra ele, o que aconteceu. Ela emprestou cheques para ele e por um ano eles viviam bem, até que o homem conseguiu um emprego em uma casa noturna da cidade e ‘sumiu’. Quando reapareceu, trouxe uma mulher e pediu para a mãe sair de casa porque os dois queriam morar juntos. Ivone negou e S. não gostou.

“Ele começou a se vingar, ameaçava me despejar, me chamava de negra suja, fazia fogo perto da minha casa para me assustar, cortava a minha luz direto do poste. Foi horrível”, conta.

Por três anos, Ivone ainda criou o neto B., filho de S., pois o homem agredia o filho e a então madrasta não gostava dele. Nesse tempo também, a mãe de Ivone adoeceu e ela teve que viajar para o Rio Grande do Sul. Quando ela voltou, encontrou a casa destruída por S., que também pegou suas coisas, como máquina de lavar, microondas, geladeira, cama box, toalhas, máquina de sorvete, fogão e joias.

“Fui atrás dele, ele debochou de mim. Eu bati nele e ele me empurrou. Denunciei para o Ministério Público, mas a polícia dizia que eu não tinha como provar tudo o que ele tinha feito. Agora eu vivo sozinha, também não tenho contato com o L.. Os dois moram no Bairro dos Municípios. Eu espero justiça e sempre aconselho que as mulheres olhem para como os homens tratam as mães. Eu durmo em um sofá cama e minha perna dói, muitos dos meus móveis são da dona do apartamento e peguei algumas coisas do lixo também. Espero ajuda, qualquer ajuda, mas realmente agora eu vivo em paz. Eu perdoei o meu filho, mas vejo que ele é um monstro, infelizmente sempre foi”, completa.

“Tenho que estar sempre atenta”, diz Raíssa

Quem vê Raíssa, 30 anos, logo reconhece pelo olhar dela que algo aconteceu. Dona de um sorriso bonito e longos cabelos lisos, ela não consegue esconder que não está bem. Ao falar com a reportagem, seus olhos se enchem de lágrimas. Raíssa teve um relacionamento de quatro anos, onde foi agredida diversas vezes e até mesmo abusada sexualmente. Ela conta que no parto de seu filho, que hoje tem dois anos, estava com o olho roxo. Mas no começo a história era bem diferente: seu ex-companheiro era ‘o homem que toda mulher queria’. Ela o conheceu através de uma amiga, que namorava o irmão dele. “Quando estávamos juntos há um ano ele me bateu pela primeira vez. Ele prometia mudar, e como eu gostava dele eu perdoava. Tudo piorou quando ele começou a usar cocaína, ele chegou a vender meus móveis de casa, dei outra chance, tentamos recomeçar, mas ele me bateu de novo”, relembra.

Depois disso, o ex de Raíssa foi morar na rua pela primeira vez, onde conheceu o crack. Ele voltou a procurá-la, dessa vez para pedir ajuda para se internar numa clínica de reabilitação, onde ficou por dois meses. Quando saiu, a mulher lhe deu outra chance, mas logo ele teve uma recaída e voltou para as drogas.

“Em fevereiro desse ano ele me bateu e eu registrei o meu primeiro boletim de ocorrência. Dei outra chance, ele me bateu de novo e em abril eu decidi que daria um basta nessa situação. Ele passou dias na rua e acabou indo para Luiz Alves, onde a mãe dele mora, mas voltou pedindo para ver nosso filho. Ele passou a noite me torturando e então minha mãe me socorreu, mandando ele embora outra vez”, diz. Depois disso, Raíssa foi ameaçada de morte pelo ex, e ele tinha a senha do prédio onde ela morava, chegando a invadir o local para tentar agredi-la. Raíssa conseguiu chamar a Guarda Municipal e foi ameaçada na frente dos guardas, além de um deles ter sido agredido pelo ex dela.

“Ele ficou dois meses preso na Canhanduba e só ficaria fora de lá se aceitasse se internar. Isso venceu segunda-feira (12), não sei o que aconteceu, mas ele estava morando em Camboriú. Eu tenho medo por ele estar perto, tenho que estar sempre atenta na rua e em casa”, explica.

Raíssa está recebendo atendimento do projeto Abraço à Mulher, onde recebe ajuda psicológica e participa de oficinas e atividades esportivas e educacionais. Lá, mulheres vítimas como ela recebem apoio gratuito.

“A Polícia Militar me encaminhou para o programa, e sem dúvidas tem feito muita diferença. Ajuda muito, me fortalece e me dá ânimo para querer continuar. Acredito que agora as coisas só vão melhorar”, acrescenta.

“Eu achava que o problema era eu”, diz Lúcia

Assim como Raíssa, um dos casos atendidos pelo Abraço à Mulher é o de Lúcia, também de 30 anos. Ao começar a contar a sua história, após ouvir a de Raíssa, ela define que foi ‘o oposto’, pois seu marido, com quem se relacionou por três anos ‘era um lord, e o primeiro a dizer que não se bate em mulher’. Apesar de nunca ter agredido-a fisicamente, Lúcia sofreu um dos piores tipos de violência: a psicológica. Ele afastou ela dos amigos, sempre a diminuía, dizia que ela ‘só atraía desgraça’, a fazendo acreditar nisso. A mulher fez terapia por todos esses anos, buscando entender o que havia de errado com ela.

“Eu achava que eu era o problema, mas quando eu falava em me separar ele não aceitava. E tinha uma criança na situação, o filho adotivo dele, por quem eu tinha muito carinho. Ele queria que tivéssemos um filho biológico, mas eu comecei a cair na real que se isso acontecesse a situação pioraria. Em janeiro eu decidi me separar dele, mas em fevereiro descobri que estava grávida”, conta.

Mesmo assim, o ex-marido de Lúcia acusou que o filho não era dele, o que a fez ver que ela não se sujeitaria a continuar na situação por conta da gravidez. No dia em que ela se mudou, passando a morar sozinha, o homem assumiu o relacionamento com outra mulher.

“Ele me levou no médico algum tempo depois e voltou pela BR-101, era em Itajaí, ameaçando causar um acidente de trânsito para me matar, além de dizer que me esquartejaria quando o bebê nascesse. Decidi dar uma basta na situação e em março pedi a medida protetiva. Ele nunca teve problemas com drogas, é um psicopata narcisista mesmo. Conheci a ex dele e ela também passou por coisas parecidas”, diz.

Até então, todos os dias o homem tentava contato com ela, e em certa ocasião, quando Lúcia foi na igreja, ele a abordou e fez uma ‘cena’, se jogando no chão e pedindo desculpa. Ninguém chamou a polícia para ajudá-la. Em junho ele ameaçou uma colega de trabalho dela, a procura de informações sobre ela. Lúcia está participando do Abraço à Mulher há um mês. Soube do programa através de um folder de divulgação.

“Eu precisava de orientação jurídica, e também estou fazendo as sessões de terapia. Eu não estou bem ainda, mas no caminho para isso. Existe vida nova, não é fácil, mas a mulher vítima de violência precisa colocar a cara, é difícil sair, mas quando sai é libertador”, completa.


Abraço à Mulher: programa de ajuda

A psicóloga Andrea Gonçalves atende no programa Abraço à Mulher, que começou em abril e desde então já atendeu mais de 100 mulheres por telefone, Whatsapp e pessoalmente. Seguem em acompanhamento frequente aproximadamente 60 vítimas de violência doméstica.

Andrea vê que a psicoterapia é essencial, já que é o olhar externo e profissional sobre o caso.

“Não é uma amiga aconselhando, é uma visão profissional. A minha função é dar ferramentas e estrutura para que essas mulheres consigam seguir adiante por conta própria, e parte delas decidirem o que querem para suas vidas”, explica.

A psicóloga vê que recaídas acontecem, mas que essas mulheres não podem desistir de lutar para se verem livres dos agressores.

“Relações assim são como uma droga, envolve toda a parte emocional e biológica. A psicoterapia é exatamente para mudar esse padrão, mantendo a mulher bem estruturada, para que ela não se deixe cair e aprenda com tudo o que aconteceu”, opina.

Andrea relembra que, apesar da Lei Maria da Penha estar completando 13 anos, desde os anos 80 há campanhas contra a violência doméstica.

“Tinha o slogan ‘quem ama não mata’, mas é algo que precisa ser trabalhado até hoje, demanda muito esforço físico e mental. 90% do esforço é da paciente. E também temos que trabalhar o agressor, que inclusive é acompanhado pelo CREAS. Eles precisam de ajuda tanto quanto as vítimas, não dá para olhar só para um dos lados. Há casos de psicopatia severas e também de problemas com drogas. Há homens que são muito mimados pelas mães e quando crescem descontam nas parceiras, sendo carentes e ciumentos, por exemplo”, destaca.

A psicóloga acrescenta o quanto é importante as vítimas denunciarem, pois tem apoio, salientando que Balneário Camboriú é uma cidade diferenciada por ter essa rede.

“No Abraço há apoio jurídico gratuito, psicoterapia, oficinas, há a Casa das Anas onde elas podem se abrigar, elas não estão sozinhas. Outras cidades precisam se adaptar também, recebemos muitas ligações e infelizmente hoje só podemos ajudar quem é de Balneário”, explica.

A coordenadora do Abraço à Mulher é Alda Dudek, formada em História e que fez mestrado em Gênero. Ela conta que sempre teve vontade de trabalhar auxiliando mulheres vítimas de violência doméstica, e que o prefeito Fabrício Oliveira realizou isso.

“Tem situações pesadas, mas salvar uma vida vale todo o esforço e dedicação que temos”, analisa. Alda aponta que, apesar do programa ser a nível municipal, já atenderam casos de turistas e até de estrangeiras, citando uma situação envolvendo uma mulher uruguaia que recebeu ajuda. Ela estava em Balneário Camboriú, morando com um companheiro, e ela a agrediu.

“Ela veio até nós bastante machucada, pedindo para voltar para o Uruguai e encontrar a filha e a mãe. Conseguimos através da Secretaria de Inclusão Social levá-la até a fronteira, no Rio Grande do Sul, e elas vieram buscá-la. Ela voltou para casa, está livre do agressor e bem, até hoje temos contato. É um programa municipal, priorizamos quem está na cidade e não vamos negar ajuda para quem precisa”, descreve.

Segundo Alda, os casos que atendem são diversos, desde adolescentes de 16 anos como idosas de mais de 60, por isso ela afirma que ‘onde há violência, o Abraço vai’.

O sonho dela é ver os altos índices diminuírem, e ela salienta que o que lhe dá esperança é a percepção de que as mulheres estão denunciando cada vez mais e que querem se libertar dessas situações ruins.

“Elas têm em nós um apoio. Fazem terapia, tem aulas de dança, ginástica e maquiagem, apoio jurídico também. Atendemos desde moradoras de rua a quem mora no Centro. A violência não tem classe social e pode vitimar qualquer uma, por isso é tão importante incentivarmos campanhas de combate e também de denúncias, que podem ser feitas em anônimo e até por terceiros”, completa.

  • O Abraço à Mulher atende todos os dias, em sistema 24h. Se você precisa de ajuda ou sabe de alguma mulher que está em situação de risco ligue para (47) 9.9982-1906.

Casa das Anas: abrigo para vítimas

O projeto Casa das Anas, que abriga vítimas de violência, possui unidade em Balneário Camboriú, sendo o único local na cidade atualmente que recebe mulheres em situação de risco de forma gratuita. Em Balneário, o abrigo tem suporte para acolher 24 pessoas, incluindo mulheres e crianças. O foco é receber as mulheres até que elas consigam encontrar um local para viver, auxiliando-as no contato com familiares, orientando para retornar aos estudos e/ou mercado de trabalho, encaminhamento para cursos profissionalizantes, realizam oficinas artesanais e atividades culturais, tudo de forma gratuita.

A Casa das Anas tem parceria com a prefeitura de Balneário Camboriú e também recebe ajuda do público, através de doações (pontuais, regulares ou constantes) que podem ser tanto financeiras (Vidas Recicladas – Banco Bradesco, agência: 7223, conta poupança: 1000027-0) como ainda de produtos, alimentos e roupas.

O projeto também é aberto para voluntários, que podem contribuir com as atividades diárias da Casa, ministrando oficinas ou auxiliando nos serviços gerais. A Casa das Anas também pede o apoio das empresas da cidade, que podem oferecer oportunidades para que as mulheres vítimas de agressões possam retornar ao mercado de trabalho. O endereço da Casa das Anas está sob sigilo, exatamente para resguardar a segurança das mulheres abrigadas.


Delegacia de Proteção à Mulher

A Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) é um dos principais locais para que casos de violência contra a mulher sejam denunciados. A Lei Maria da Penha estabelece que, após o registro do Boletim de Ocorrência (B.O.), o caso seja remetido ao Juiz em, no máximo, 48 horas. A Justiça também tem 48 horas para analisar e julgar a concessão das medidas protetivas (em caso de descumprimento o homem pode ser preso, sem direito a pagar fiança).

Em Balneário, a delegacia é coordenada pela delegada Inara Danielle Marques Drapalski, que ocupa o cargo há dois anos e meio, sendo delegada há oito – já tendo atuado em Garuva e Itapema.

Ela conta que a princípio não queria atuar nessa área (antes trabalhava com o foco em investigações criminais) porque nunca teve em casa nenhum problema de violência doméstica, além de que se sentia ‘constrangida’ em aconselhar mulheres que passavam por situações que ela não sabia como era. Porém, atualmente, Inara afirma que se sente grata por poder auxiliá-las.

A delegada conta que, infelizmente, muitas mulheres não percebem que são vítimas de violência doméstica e por isso fica mais difícil para conseguirem sair dos relacionamentos abusivos. Há ainda os casos de dependência emocional e financeira e aquelas que pensam nos filhos, optando por ‘suportar’ a situação para preservar a família. Segundo Inara, o primeiro semestre foi ‘terrível’, com muitos atendimentos de violência doméstica, sendo as principais ameaça e injúria, que são consideradas violências psicológicas.

“Todos os casos que chegam até nós são registrados e investigados, e esses são os piores porque muitas vezes não há provas. Tudo é válido e nos ajuda, até conversas e áudios do WhatsApp, por exemplo”, diz.

Segundo ela, há casos de casais mais novos, como uma menina de 16 anos que foi agredida pelo namorado e o pai a levou na delegacia para registrar o caso, como de uma idosa de mais de 60 anos, com 40 anos de casamento, que percebeu que vivia um relacionamento abusivo.

“No geral, os principais casos envolvem mulheres entre 30 e 35 anos, mas é muito variado. Há de diversas classes sociais também, e quando é o pessoal mais simples costuma envolver também problemas com álcool e drogas, totalizando 80% dos casos mais ou menos”, explica.

Inara fala que, em seu ponto de vista, a violência doméstica ainda é algo cultural, citando que o sentimento de posse em relacionamentos é algo muito presente.

“O ciúme é o principal elemento das agressões. Muitas mulheres denunciam seus companheiros no momento da raiva e depois voltam atrás, infelizmente é algo muito comum. 40% delas também voltam para o relacionamento, por isso vejo a importância de ter um acompanhamento desses casais, é algo que quero implantar em Balneário, para ver se eles estão mesmo recomeçando”, comenta.

A delegada salienta que espera que esse quadro de violência doméstica mude com as próximas gerações, e diz que há trabalhos para isso principalmente nas escolas, diretamente com as crianças e adolescentes.

“É preciso denunciar, não podemos deixar que chegue ao ponto de ser tarde demais e perder mais vidas. No primeiro sinal, nas primeiras palavras ruins, a mulher precisa ficar atenta. Às vezes o tapa não vem, mas ser rebaixada e considerada louca é ainda pior, é a violência que mais machuca. O ditado que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’ é errado. Se eles não se resolvem outras pessoas tem que se meter, sim. Nós podemos ajudar essas vítimas, queremos mostrar para elas que é possível viver uma nova vida. Pode não ser fácil no começo, mas é possível. Balneário é privilegiada com a rede de apoio, desde o trabalho da PM, Abraço à Mulher, Casa das Anas. Há também o OAB Por Elas, onde advogadas atendem gratuitamente mulheres vítimas de violência doméstica”, acrescenta.

  • Casos podem ser denunciados ao Disque Denúncia (181) ou diretamente para o Disque Denúncia Direitos Humanos (100), que trata de casos de agressão a mulheres, crianças, adolescentes e idosos.

Rede Catarina de Proteção à Mulher

A Polícia Militar de Santa Catarina também conta com um programa de apoio às vítimas de agressões. O Rede Catarina atua em Balneário Camboriú através de visitas e acompanhamento de mulheres, que são diretamente atendidas por policiais militares femininas.

O policial Denício Rosa explica que o programa existe desde 2018, e que após a implantação dele aumentaram muito as ocorrências, porque as mulheres perceberam o apoio da PM, com isso se sentem protegidas e assim denunciam os agressores.

“A tendência é o número começar a reduzir, porque antes não tinha essa proteção, não havia fiscalização das medidas protetivas. O cara se aproximava e até agredia a mulher, mesmo com a protetiva. Em Itajaí aconteceu um caso desse tipo. O Rede Catarina está funcionando muito bem, e sem dúvida é importante a vítima denunciar, ela tem esse amparo. Liga para o 190, a viatura tenta chegar o quanto antes e será acompanhada posteriormente também”, destaca.

Um caso que marcou Denício foi uma situação onde a mulher relatou que estava sendo agredida pelo marido. Ela estava fora de casa e o marido dentro, ‘quebrando tudo’.

“Ela estava com uns vermelhões no rosto, confirmou que havia sido agredida. Entregamos uma requisição de autorização para entrarmos na residência. Embora tivesse o flagrante, pedimos que ela nos autorizasse. Ela assinou, quando vimos o cara, completamente alterado, fomos colocar a algema nele e ele reagiu. Deu um rolo. Quando o dominamos, a vassoura comeu em cima da gente, a mulher começou a nos agredir, dizendo que não era para prender, porque ela o amava, que ia perdoar ele, que não precisava prender. A própria vítima! Foi um caso que marcou”, relata.

Denício também atendeu uma situação onde uma mulher todos os dias procurava a PM, ligava, pedia ajuda, os policiais iam pessoalmente acompanhá-la, ela fez a medida protetiva e após um tempo sumiu.

“Um ano depois eu a vi em um restaurante, almoçando com o homem que ela denunciava, beijando, juntos, no maior ‘love’. Fiquei com cara de palhaço, pois dávamos atenção, ela pedia urgência. Infelizmente é comum acontecer, e o Rede Catarina também acompanha para saber porque a mulher desistiu da denúncia e se ela está mesmo em segurança”, completa.



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