Jornal Página 3

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Entrevista: Mário Cortella fala sobre educação e política
Anderson Witthoft

Quinta, 13/10/2016 10:26.

Por Caroline Cezar e Luciana Altmann

Mário Sergio Cortella, filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário, esteve em Balneário Camboriú na última semana, quando falou sobre “Cenários Turbulentos, Mudanças Velozes". O auditório do Clube Ariribá ficou lotado nos dois dias de palestra, 27 e 28, que contou com apoio das principais entidades empresariais da cidade e faz parte do Ciclo de Palestras 2016, promovido pela Unisagres. Cortella conversou com as jornalistas Caroline Cezar e Luciana Altmann na quarta-feira. Confira os principais trechos.

Você acha que estamos numa fase de transição?

Sempre nós estamos. Eu sou da área de Filosofia e um grande pensador, que foi Heróclito, já dizia, há 2.500 anos que "a única coisa permanente é a mudança". Nesse sentido nós estamos sempre em transição. É que algumas são mais aceleradas e exuberantes, outras mais lentas. Estamos agora numa transição mais acelerada num novo modo de organização da cabeça, um novo modo de pensar as relações e movimentos, uma tecnologia que altera até a estrutura comunicacional e informacional, portanto sim, é uma transição que desce cabeça adentro com uma velocidade inédita. De vez em quando nos tonteia, noutras vezes nos deixa animados, às vezes nos encanta, muitas vezes nos assusta, mas é das histórias que a humanidade já viveu, talvez o momento mais acelerado em relação a essa transição, tendo em vista que tudo aquilo que a gente tinha como um mundo mais estável até 20 anos sofreu abalos contínuos. E talvez Karl Marx estivesse certo, quando disse no século 19, que tudo que é sólido, desmancha no ar. Hoje a gente tem uma forma muito expansiva de desmanche daquilo que era o que gente acabou de olhar.

Você atribui isso de maneira significativa às novas tecnologias, ou acha que esse é só mais um elemento?

No Ocidente, nas sociedades ocidentais -porque isso que vou dizer não serve para todas as sociedades, porque há algumas que ainda mantém estruturas menos complexas de convivência- nós temos três fatores que convergiram para essa condição: primeiro uma urbanização acelerada, gerando grandes adensamentos populacionais, grandes metrópoles, em que a ideia da convivência é também acelerada, marcada pelo inédito, afinal a diversidade expressiva gera uma alteração muito forte dos modelos usuais; segundo, uma tecnologia que criou novos modelos de pensar, tecnologia não é só ferramenta, é também ferramenta, mas ela cria outro modelo mental de aproximação com o mundo; e em terceiro, outros parâmetros que a ciência trouxe e que se expressaram tanto na técnica quando na tecnologia e que acabaram fazendo com que nós tivéssemos uma concepção do momento muito mais forte do que da história, e isso nos leva a ter que viver um presente muito mais contínuo. Haja vista o número de vezes que usamos hoje, excessivamente, o gerúndio, e isso não é apenas uma questão ligada aos call centeres, é até um modo de compreensão: "estou levando", "estarei fazendo", "estou pensando", indica sempre um movimento. Como o gerúndio é movimento, diminuímos o uso do infinitivo e passamos a usar o gerúndio… a vida hoje é mais gerúndio que infinitivo.

Quem está chegando ou crescendo agora nesse ambiente, tem mais facilidade de adaptação; mas e quem vivia há 20, 30 anos de maneira totalmente diferente, como faz pra acompanhar?

A primeira coisa que ela faz é evitar de dizer "esse mundo está perdido", porque de maneira geral quem diz essa frase começou a se perder nesse mundo. Há necessidade da gente saber que migrantes digitais, como é o meu caso, não tem a mesma compreensão e presença no mundo que os nativos digitais… E o inverso também é verdade, se eu pego um jovem, que é um nativo digital, e o coloco em outra situação que é muito mais próxima do que era o mundo há 30 anos, no mundo da roça, no interior, algumas coisas que ele tenha que produzir com as mãos, e não apenas abrir a caixa e cortar a fita, isso também vai levá-lo a uma alteração. No entanto uma pessoa que há 30, 40 anos viveu uma situação e hoje tem um mundo novo, ela precisa cuidado pra não ficar velha...há uma diferença entre ficar velho e ficar idoso… ficar idoso é ter bastante idade, uma pessoa velha é aquela que perdeu a condição de viver no presente e passa o tempo todo dizendo "ah no meu tempo, ah não é mais assim", o que leva a uma perda de vitalidade. Cabe a quem tem mais idade seguir firme de maneira que a vida seja longa, mas sem envelhecer.

Tudo isso que a gente está falando se encaixa muito no tema da palestra ‘cenários turbulentos’. Esse cenário turbulento que você descreve é a política, algo específico, ou diz respeito a tudo?

É o conjunto da vida; a maneira da economia acontecer; a política, que altera as maneiras de percepção; é a convivência na família; o nível de tsunami informacional que a gente vive hoje em relação às várias fontes de base de dados que se tem... há uma turbulência no cotidiano e isso tem levado a um efeito muito curioso: de um lado as pessoas procurarem um certo isolamento pra ver se elas saem do ruído do mundo, o mundo tá muito ruidoso; segundo uma procura maior em relação à religiosidade, como se a religiosidade pudesse oferecer um modo sereno de existir, mesmo que em algumas circunstâncias; em terceiro, uma certa ansiedade pela filosofia, isto é, imaginar que com o estudo da filosofia ele pode acalmar aquilo que é a perturbação do mundo, esse mundo em voz alta, como diria Guimarães Rosa. A pessoa que quer lidar com isso, ela não pode desconhecer que essa turbulência existe, mas precisa acalmar-se, fazer uma coisa que os antigos ensinavam, ao atravessar uma linha de trem, pare, olhe, escute. Ao invés de viver de modo automático, robótico, precisa parar, olhar, escutar, isto é prestar mais atenção ao invés de viver de modo distraído, pra não ser atropelado pelo cotidiano.

...se dedicar mais ao momento presente.

...entendendo o momento presente. Não deixar de entendê-lo, para ter uma referência do que vai fazer. Percebê-lo, e não vivê-lo de modo passageiro, distraído, sem meditar sobre o que se tem, sair da maneira automática de ser, porque ela aliena, deixa a pessoa fora de si mesma. É ganhar-se novamente, ter uma vida consciente, deliberada, é preciso pensar mais.

Nós precisamos nos preocupar em direcionar, conscientizar os jovens nessa busca; ou esse é um caminho individual?

Claro, todas as vezes que você é responsável pela educação de alguém, até determinada idade, até que a pessoa tenha autonomia legal ou médica, você precisa fazer com que ela conquiste essa autonomia. E uma pessoa só é autônoma se ela é capaz de decidir por si mesma; só é capaz de decidir por si mesmo alguém que tenha clareza, portanto é nossa tarefa sim fazer com que a criança e o jovem não vivam de maneira distraída, e automática.

A televisão, o mercado, a tecnologia conduzem...

Conduzem mas não obrigam. Você pode interromper esse fluxo em algumas circunstâncias, por exemplo, quando meus filhos eram pequenos, a cada quatro semanas, nós tínhamos uma semana sem microondas, de modo que as refeições tinham que ser feitas todas juntas, sem ninguém esquentar a sua comida em separado. Tenho uma chácara em São Paulo onde fico com filhos, netos e amigos e lá não tem televisão, e não terá. Embora eu mesmo faça atividades de televisão, sou comentarista, a tv não pode ser algo onipresente, porque o que a gente faz à noite? Conversa...canta...quem for pego vendo algo no youtube lava a louça por três dias (risos)...Isso significa que sim, eu uso tecnologia e preciso usá-la, mas eu não posso ser por ela dominado. Eu não sou servo daquilo que tenho, preciso possuir aquilo que eu possuo...o jovem terá que ser informado nessa direção.

Se a gente quer acompanhar o mundo em mudança, e quer que as coisas mudem, a gente tem que mudar também… mas quando falamos isso pra alguém, a pessoa devolve que é um lugar comum, que todo mundo sabe...

Uma coisa é saber, outra coisa é a prática, muitas vezes é preciso chamar atenção em relação ao óbvio, para que as pessoas comecem a prestar atenção. O óbvio é muito calmante, muito familiar, deixa a gente muito sossegado, às vezes é preciso trazer o óbvio bem na cara da pessoa para que ela possa meditar sobre aquilo, ao invés de tomar como algo evidente. De nada adianta alguém dizer, "mas é óbvio que é assim", se não agir… de nada adianta fazer constatação e não agir, essa é uma maneira de esconder-se daquilo que precisa ser feito...a pessoa precisa avaliar por que ela não altera aquilo que precisa; ou porque ela já se habituou em excesso aquilo que tem, ou porque ela é covarde pra mudar.

...ou porque é demais condicionado?

...pode se descondicionar, ninguém é incapaz de dizer não para as coisas. Se alguém coloca uma arma na sua cabeça, você pode inclusive oferecer, em nome do teu não, sua própria vida, esse é o limite do não, enquanto houver vida pode-se dizer não. Se alguém diz não, é escolha; essa escolha tem um ônus, esse ônus tem uma consciência que a pessoa às vezes amortece dizendo "mas isso é óbvio", mas aí não se mexe e nada muda.

Não existe receita de bolo..

...existe receita de bolo e nenhum bolo é idêntico ao outro, cada pessoa caminha em uma direção, mas há algumas coisas que funcionam para seres humanos em geral: a primeira é humildade, a capacidade de entender que eu preciso estar disponível para aprender o que não sei; em segundo, lembrar o óbvio, que ajuda bastante, que toda caminhada de cem quilômetros começa por um passo, mas esse passo precisa ser dado; e em terceiro, que é preciso afastar dois grandes mitos, o primeiro é "tudo é possível", e o segundo "nada é possível", aí começamos a lidar com o que é possibilidade.

Você comentou que tem alunos muito novos, como você vê a questão da escola, nessa transição de mundo?

A escola é um pedaço muito pequeno na vida de uma criança, de um jovem no dia a dia. A mídia, a família, os pais, tem muito mais presença. Supor que um professor, que fica quatro horas com 35 crianças, tenha mais capacidade que um pai e uma mãe que ficam só com uma ou duas crianças, é não entender as coisas, é atribuir uma responsabilidade onde ela não está. Imaginar que alguém, sozinho, possa formar 35 crianças em relação a educação física, artística, para o sexo, para o trânsito, contra drogas, religião, ainda alimentá-las, fazer exercício, e ensinar português, matemática, química, inglês moderno… é uma insanidade supor isso. Oferecer à escola uma tarefa que ela não consegue fazer é desviar a questão. É claro que os professores não conseguem lidar com isso...se um pai ou uma mãe tem dificuldade com um filho ou dois... Por isso a família tem que antes assumir a responsabilidade dela do que colocar o foco no lugar errado. Podemos formar professores o tempo todo, mas eles não tem como dar conta.

Mas a escola também não teria que mudar?

Sim, ela já vem mudando, é claro que ela tem que mudar...mas como você faz isso sozinho, com toda essa carga? Como mudar se não for liberado de algumas tarefas? Em que horário ela fará a mudança? Há uma sociedade que reclama demais, mas não dá direção alguma.

É muito comum essa postura de se sentar e apontar, reclamar.

É uma postura cômoda e tola; porque é ignorante e a nada leva, não funciona.

Você acha que a ‘vida na roça’, como você disse, ou aproximar-se da natureza, é uma ferramenta essencial nesse cenário?

É uma parcela daquele que é o mundo da paciência, da visita, da capacidade de olhar o mundo para além da referência artificial. Aquilo que é plástico se tornou muito presente, e nós perdemos um pouco dessa percepção, o que faz mal pra nós...por exemplo você vê uma criança bonita e diz, "nossa parece uma boneca"; ou vê uma belíssima planta e diz "nossa parece de plástico… Essa referência na artificialidade tem que ser diminuída pra gente não perder a conexão com o conjunto da vida. A gente perdeu conhecimento sobre a vida, porque ela ganhou uma abstração muito forte, há uma ausência de concretude, tudo é muito transformado de átomos em bits…e isso que é uma coisa encantadora acaba sendo danosa se não tiver uma medida. A diferença entre remédio e veneno é a dose, uma substância pode ser danosa ou benéfica de acordo com a dose, a tecnologia também.

Qual tua posição sobre a crise política?

Eu acho que é um momento maravilhoso na história do país, de aprendizado, que a gente começa a tomar vergonha na cara sobre algumas coisas. No primeiro momento o cidadão prestou muita atenção aos governantes, e agora é hora de olhar pra si mesmo, portanto é um momento pedagógico exuberante, eu nunca fiquei tão civicamente alegre como nos tempos atuais. É difícil, é desagradável, mas é belo; em 516 anos de história nós nunca tivemos uma chance tão grande.

Qualquer mudança gera esse medo, essa resistência?

Todas, sempre. Não existe outra possibilidade.

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Entrevista: Mário Cortella fala sobre educação e política

Anderson Witthoft
Quinta, 13/10/2016 10:26.

Por Caroline Cezar e Luciana Altmann

Mário Sergio Cortella, filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário, esteve em Balneário Camboriú na última semana, quando falou sobre “Cenários Turbulentos, Mudanças Velozes". O auditório do Clube Ariribá ficou lotado nos dois dias de palestra, 27 e 28, que contou com apoio das principais entidades empresariais da cidade e faz parte do Ciclo de Palestras 2016, promovido pela Unisagres. Cortella conversou com as jornalistas Caroline Cezar e Luciana Altmann na quarta-feira. Confira os principais trechos.

Você acha que estamos numa fase de transição?

Sempre nós estamos. Eu sou da área de Filosofia e um grande pensador, que foi Heróclito, já dizia, há 2.500 anos que "a única coisa permanente é a mudança". Nesse sentido nós estamos sempre em transição. É que algumas são mais aceleradas e exuberantes, outras mais lentas. Estamos agora numa transição mais acelerada num novo modo de organização da cabeça, um novo modo de pensar as relações e movimentos, uma tecnologia que altera até a estrutura comunicacional e informacional, portanto sim, é uma transição que desce cabeça adentro com uma velocidade inédita. De vez em quando nos tonteia, noutras vezes nos deixa animados, às vezes nos encanta, muitas vezes nos assusta, mas é das histórias que a humanidade já viveu, talvez o momento mais acelerado em relação a essa transição, tendo em vista que tudo aquilo que a gente tinha como um mundo mais estável até 20 anos sofreu abalos contínuos. E talvez Karl Marx estivesse certo, quando disse no século 19, que tudo que é sólido, desmancha no ar. Hoje a gente tem uma forma muito expansiva de desmanche daquilo que era o que gente acabou de olhar.

Você atribui isso de maneira significativa às novas tecnologias, ou acha que esse é só mais um elemento?

No Ocidente, nas sociedades ocidentais -porque isso que vou dizer não serve para todas as sociedades, porque há algumas que ainda mantém estruturas menos complexas de convivência- nós temos três fatores que convergiram para essa condição: primeiro uma urbanização acelerada, gerando grandes adensamentos populacionais, grandes metrópoles, em que a ideia da convivência é também acelerada, marcada pelo inédito, afinal a diversidade expressiva gera uma alteração muito forte dos modelos usuais; segundo, uma tecnologia que criou novos modelos de pensar, tecnologia não é só ferramenta, é também ferramenta, mas ela cria outro modelo mental de aproximação com o mundo; e em terceiro, outros parâmetros que a ciência trouxe e que se expressaram tanto na técnica quando na tecnologia e que acabaram fazendo com que nós tivéssemos uma concepção do momento muito mais forte do que da história, e isso nos leva a ter que viver um presente muito mais contínuo. Haja vista o número de vezes que usamos hoje, excessivamente, o gerúndio, e isso não é apenas uma questão ligada aos call centeres, é até um modo de compreensão: "estou levando", "estarei fazendo", "estou pensando", indica sempre um movimento. Como o gerúndio é movimento, diminuímos o uso do infinitivo e passamos a usar o gerúndio… a vida hoje é mais gerúndio que infinitivo.

Quem está chegando ou crescendo agora nesse ambiente, tem mais facilidade de adaptação; mas e quem vivia há 20, 30 anos de maneira totalmente diferente, como faz pra acompanhar?

A primeira coisa que ela faz é evitar de dizer "esse mundo está perdido", porque de maneira geral quem diz essa frase começou a se perder nesse mundo. Há necessidade da gente saber que migrantes digitais, como é o meu caso, não tem a mesma compreensão e presença no mundo que os nativos digitais… E o inverso também é verdade, se eu pego um jovem, que é um nativo digital, e o coloco em outra situação que é muito mais próxima do que era o mundo há 30 anos, no mundo da roça, no interior, algumas coisas que ele tenha que produzir com as mãos, e não apenas abrir a caixa e cortar a fita, isso também vai levá-lo a uma alteração. No entanto uma pessoa que há 30, 40 anos viveu uma situação e hoje tem um mundo novo, ela precisa cuidado pra não ficar velha...há uma diferença entre ficar velho e ficar idoso… ficar idoso é ter bastante idade, uma pessoa velha é aquela que perdeu a condição de viver no presente e passa o tempo todo dizendo "ah no meu tempo, ah não é mais assim", o que leva a uma perda de vitalidade. Cabe a quem tem mais idade seguir firme de maneira que a vida seja longa, mas sem envelhecer.

Tudo isso que a gente está falando se encaixa muito no tema da palestra ‘cenários turbulentos’. Esse cenário turbulento que você descreve é a política, algo específico, ou diz respeito a tudo?

É o conjunto da vida; a maneira da economia acontecer; a política, que altera as maneiras de percepção; é a convivência na família; o nível de tsunami informacional que a gente vive hoje em relação às várias fontes de base de dados que se tem... há uma turbulência no cotidiano e isso tem levado a um efeito muito curioso: de um lado as pessoas procurarem um certo isolamento pra ver se elas saem do ruído do mundo, o mundo tá muito ruidoso; segundo uma procura maior em relação à religiosidade, como se a religiosidade pudesse oferecer um modo sereno de existir, mesmo que em algumas circunstâncias; em terceiro, uma certa ansiedade pela filosofia, isto é, imaginar que com o estudo da filosofia ele pode acalmar aquilo que é a perturbação do mundo, esse mundo em voz alta, como diria Guimarães Rosa. A pessoa que quer lidar com isso, ela não pode desconhecer que essa turbulência existe, mas precisa acalmar-se, fazer uma coisa que os antigos ensinavam, ao atravessar uma linha de trem, pare, olhe, escute. Ao invés de viver de modo automático, robótico, precisa parar, olhar, escutar, isto é prestar mais atenção ao invés de viver de modo distraído, pra não ser atropelado pelo cotidiano.

...se dedicar mais ao momento presente.

...entendendo o momento presente. Não deixar de entendê-lo, para ter uma referência do que vai fazer. Percebê-lo, e não vivê-lo de modo passageiro, distraído, sem meditar sobre o que se tem, sair da maneira automática de ser, porque ela aliena, deixa a pessoa fora de si mesma. É ganhar-se novamente, ter uma vida consciente, deliberada, é preciso pensar mais.

Nós precisamos nos preocupar em direcionar, conscientizar os jovens nessa busca; ou esse é um caminho individual?

Claro, todas as vezes que você é responsável pela educação de alguém, até determinada idade, até que a pessoa tenha autonomia legal ou médica, você precisa fazer com que ela conquiste essa autonomia. E uma pessoa só é autônoma se ela é capaz de decidir por si mesma; só é capaz de decidir por si mesmo alguém que tenha clareza, portanto é nossa tarefa sim fazer com que a criança e o jovem não vivam de maneira distraída, e automática.

A televisão, o mercado, a tecnologia conduzem...

Conduzem mas não obrigam. Você pode interromper esse fluxo em algumas circunstâncias, por exemplo, quando meus filhos eram pequenos, a cada quatro semanas, nós tínhamos uma semana sem microondas, de modo que as refeições tinham que ser feitas todas juntas, sem ninguém esquentar a sua comida em separado. Tenho uma chácara em São Paulo onde fico com filhos, netos e amigos e lá não tem televisão, e não terá. Embora eu mesmo faça atividades de televisão, sou comentarista, a tv não pode ser algo onipresente, porque o que a gente faz à noite? Conversa...canta...quem for pego vendo algo no youtube lava a louça por três dias (risos)...Isso significa que sim, eu uso tecnologia e preciso usá-la, mas eu não posso ser por ela dominado. Eu não sou servo daquilo que tenho, preciso possuir aquilo que eu possuo...o jovem terá que ser informado nessa direção.

Se a gente quer acompanhar o mundo em mudança, e quer que as coisas mudem, a gente tem que mudar também… mas quando falamos isso pra alguém, a pessoa devolve que é um lugar comum, que todo mundo sabe...

Uma coisa é saber, outra coisa é a prática, muitas vezes é preciso chamar atenção em relação ao óbvio, para que as pessoas comecem a prestar atenção. O óbvio é muito calmante, muito familiar, deixa a gente muito sossegado, às vezes é preciso trazer o óbvio bem na cara da pessoa para que ela possa meditar sobre aquilo, ao invés de tomar como algo evidente. De nada adianta alguém dizer, "mas é óbvio que é assim", se não agir… de nada adianta fazer constatação e não agir, essa é uma maneira de esconder-se daquilo que precisa ser feito...a pessoa precisa avaliar por que ela não altera aquilo que precisa; ou porque ela já se habituou em excesso aquilo que tem, ou porque ela é covarde pra mudar.

...ou porque é demais condicionado?

...pode se descondicionar, ninguém é incapaz de dizer não para as coisas. Se alguém coloca uma arma na sua cabeça, você pode inclusive oferecer, em nome do teu não, sua própria vida, esse é o limite do não, enquanto houver vida pode-se dizer não. Se alguém diz não, é escolha; essa escolha tem um ônus, esse ônus tem uma consciência que a pessoa às vezes amortece dizendo "mas isso é óbvio", mas aí não se mexe e nada muda.

Não existe receita de bolo..

...existe receita de bolo e nenhum bolo é idêntico ao outro, cada pessoa caminha em uma direção, mas há algumas coisas que funcionam para seres humanos em geral: a primeira é humildade, a capacidade de entender que eu preciso estar disponível para aprender o que não sei; em segundo, lembrar o óbvio, que ajuda bastante, que toda caminhada de cem quilômetros começa por um passo, mas esse passo precisa ser dado; e em terceiro, que é preciso afastar dois grandes mitos, o primeiro é "tudo é possível", e o segundo "nada é possível", aí começamos a lidar com o que é possibilidade.

Você comentou que tem alunos muito novos, como você vê a questão da escola, nessa transição de mundo?

A escola é um pedaço muito pequeno na vida de uma criança, de um jovem no dia a dia. A mídia, a família, os pais, tem muito mais presença. Supor que um professor, que fica quatro horas com 35 crianças, tenha mais capacidade que um pai e uma mãe que ficam só com uma ou duas crianças, é não entender as coisas, é atribuir uma responsabilidade onde ela não está. Imaginar que alguém, sozinho, possa formar 35 crianças em relação a educação física, artística, para o sexo, para o trânsito, contra drogas, religião, ainda alimentá-las, fazer exercício, e ensinar português, matemática, química, inglês moderno… é uma insanidade supor isso. Oferecer à escola uma tarefa que ela não consegue fazer é desviar a questão. É claro que os professores não conseguem lidar com isso...se um pai ou uma mãe tem dificuldade com um filho ou dois... Por isso a família tem que antes assumir a responsabilidade dela do que colocar o foco no lugar errado. Podemos formar professores o tempo todo, mas eles não tem como dar conta.

Mas a escola também não teria que mudar?

Sim, ela já vem mudando, é claro que ela tem que mudar...mas como você faz isso sozinho, com toda essa carga? Como mudar se não for liberado de algumas tarefas? Em que horário ela fará a mudança? Há uma sociedade que reclama demais, mas não dá direção alguma.

É muito comum essa postura de se sentar e apontar, reclamar.

É uma postura cômoda e tola; porque é ignorante e a nada leva, não funciona.

Você acha que a ‘vida na roça’, como você disse, ou aproximar-se da natureza, é uma ferramenta essencial nesse cenário?

É uma parcela daquele que é o mundo da paciência, da visita, da capacidade de olhar o mundo para além da referência artificial. Aquilo que é plástico se tornou muito presente, e nós perdemos um pouco dessa percepção, o que faz mal pra nós...por exemplo você vê uma criança bonita e diz, "nossa parece uma boneca"; ou vê uma belíssima planta e diz "nossa parece de plástico… Essa referência na artificialidade tem que ser diminuída pra gente não perder a conexão com o conjunto da vida. A gente perdeu conhecimento sobre a vida, porque ela ganhou uma abstração muito forte, há uma ausência de concretude, tudo é muito transformado de átomos em bits…e isso que é uma coisa encantadora acaba sendo danosa se não tiver uma medida. A diferença entre remédio e veneno é a dose, uma substância pode ser danosa ou benéfica de acordo com a dose, a tecnologia também.

Qual tua posição sobre a crise política?

Eu acho que é um momento maravilhoso na história do país, de aprendizado, que a gente começa a tomar vergonha na cara sobre algumas coisas. No primeiro momento o cidadão prestou muita atenção aos governantes, e agora é hora de olhar pra si mesmo, portanto é um momento pedagógico exuberante, eu nunca fiquei tão civicamente alegre como nos tempos atuais. É difícil, é desagradável, mas é belo; em 516 anos de história nós nunca tivemos uma chance tão grande.

Qualquer mudança gera esse medo, essa resistência?

Todas, sempre. Não existe outra possibilidade.

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