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Fazenda vê confirmação da ‘mais intensa recessão da história’
Roberto Parizzoti/ CUT.
Metalúrgicos da Ford ontem, em São Bernardo do Campo (SP), se manifestando em favor do emprego

Quinta, 2/6/2016 7:23.

Por Sandra Manfrini e Vinícius Neder

Brasília e Rio, 01 (AE) - A confirmação da "mais intensa recessão de nossa história". Assim o Ministério da Fazenda definiu, em nota divulgada nesta quarta-feira, 1, o resultado das contas nacionais no primeiro trimestre do ano.

A expectativa do governo, entretanto, é de que, nos próximos trimestres, "em grande parte como consequência da implementação tempestiva de iniciativas recentemente anunciadas, deve ter início o processo de recuperação da economia brasileira".

Essa perspectiva de retomada deve nortear decisões estratégicas do governo, como a definição do programa de concessões e até as negociações das dívidas dos Estados e municípios.

"As estatísticas das Contas Nacionais hoje divulgadas confirmaram que, no primeiro trimestre, como resultado essencialmente de desenvolvimentos domésticos, teve continuidade a mais intensa recessão de nossa história, a qual, dentre outros aspectos, gerou um contingente de 11 milhões de desempregados", diz a Fazenda, na nota.

No Rio de Janeiro, ao participar da solenidade de posse da nova presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Maria Silvia Bastos Marques, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, voltou a falar sobre a gravidade do período recessivo, sem contudo fazer uma referência direta ao Produto Interno Bruto (PIB).

"Temos possivelmente a mais intensa e profunda recessão da história do País", discursou o ministro, repetindo os mesmos termos da nota distribuída pelo ministério. Ele citou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que fixa um teto para os gastos públicos, sem aumento real daqui para a frente, "fazendo com que a gente possa ter uma queda da dívida pública total", com queda na participação dos dispêndios públicos no PIB.

Segundo Meirelles, depois de anos de trajetória insustentável, é hora de a sociedade se confrontar com fatos. "Esse é o momento de discutir com a sociedade como mudar a trajetória", disse.

Mercado

A divulgação de dados econômicos melhores que o esperado foi determinante para a Bovespa fechar em alta de 1,12%, aos 49 012,65 pontos. O baixo volume de negócios no primeiro pregão de junho, no entanto, mostra que a cautela ainda prevalece nos negócios. Foram movimentados R$ 5,7 bilhões, ante R$ 6,6 bilhões da média diária de maio e R$ 8,3 bilhões da média de abril. 

'Ainda devemos ter dois trimestres negativos', prevê economista

 

O PIB do primeiro trimestre de 2016, que recuou 0,3% ante o último trimestre de 2015, na comparação dessazonalizada, veio melhor que as projeções do Banco Safra. Carlos Kawall, economista-chefe da instituição, considera, no entanto, que o resultado não muda muito sua visão de novas quedas do PIB nos próximos dois trimestres, seguidas de uma recuperação lenta, com crescimento de apenas 0,5% em 2017. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a sua análise do PIB do primeiro trimestre?

Nossa previsão era de uma queda de 0,9%, comparado ao trimestre anterior, dessazonalizado, um pouco além do consenso, de 0,8%. Foi melhor do que imaginávamos, e as melhoras foram quase generalizadas.

Como o sr. viu o PIB pela ótica de demanda?

Na parte de consumo das famílias, bateu com a nossa previsão de queda de 1,7%. O consumo do governo foi um pouco mais forte do que prevíamos, mas a grande diferença foi no investimento. Esperávamos queda de 4,9% e ela foi de 2,7%. O setor externo veio basicamente em linha com nossas projeções, mostrando contribuição positiva, como tem sido há vários trimestres.

Esse PIB acima das suas projeções significa que devemos ficar otimistas?

É claro que o quadro fica um pouco melhor, mas eu diria que é "menos ruim" do que a gente imaginava. Ainda estamos falando em queda do PIB, e esta é a quinta consecutiva.

O resultado de hoje muda a previsão para este ano?

Devemos mudar de queda de 3,9% para queda de 3,7%. Começamos o ano com queda de 3,8%, fomos para 3,9%, agora voltamos para 3,7%, não muda muito o cenário. E é bom ter em mente estatísticas como os oito trimestres consecutivos de queda da indústria, cinco do setor de serviços, cinco do consumo das famílias. A formação bruta de capital fixo, o investimento, cai há dez trimestres, um número horrível.

A queda trimestral foi inferior às registradas em 2015. Isso significa que estamos mais próximos do fundo do poço?

Por definição, estamos sempre mais perto da hora em que vai melhorar. Mas, como mencionei, ainda acreditamos em dois trimestres negativos. Em termos da nossa visão do processo econômico daqui para a frente, tem um componente de confiança que é fundamental. Mas ainda assim há motivos para que eu não acredite numa recuperação mais intensa e rápida da economia.

O sr. poderia detalhá-los?

Estamos vendo uma contração muito forte do consumo. Há três fatores que influenciam o consumo: confiança, nível de renda e crédito. As duas últimas não estão dando sinais de melhora ao longo dos próximos dois ou três trimestres. Ainda projetamos piora do desemprego, cuja velocidade de alta está muito acentuada. A queda da população ocupada e do nível de renda, idem. A gente acha que o desemprego pode ir do patamar de 11,2% para algo mais próximo de 13%, afetando a massa salarial. Isso não sugere uma recuperação mais rápida do consumo. Com relação ao crédito, os dados do Banco Central mostram uma tendência de o estoque de crédito zerar o crescimento. É algo que depende, é claro, da trajetória da política monetária. Achamos que tem queda da Selic a partir de agosto, mas demora a fazer efeito na economia.

O que a atual crise tem de diferente para que dure tanto e a recuperação seja tão lenta?

A economia entrou nessa crise muito mais alavancada do que em crises anteriores. Quem trabalha em banco vê que a situação agora é bem mais frágil do que em outras crises, por causa da combinação do grau de alavancagem com uma contração do PIB muito forte. As empresas estão alongando dívidas, tentando reescalonar pagamentos a credores, mas a situação patrimonial não melhora, por causa dos prejuízos, do fluxo de caixa. Os problemas não são resolvidos no curto prazo. E note que esta crise já é bem mais prolongada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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Fazenda vê confirmação da ‘mais intensa recessão da história’

Roberto Parizzoti/ CUT.
Metalúrgicos da Ford ontem, em São Bernardo do Campo (SP), se manifestando em favor do emprego
Metalúrgicos da Ford ontem, em São Bernardo do Campo (SP), se manifestando em favor do emprego
Quinta, 2/6/2016 7:23.

Por Sandra Manfrini e Vinícius Neder

Brasília e Rio, 01 (AE) - A confirmação da "mais intensa recessão de nossa história". Assim o Ministério da Fazenda definiu, em nota divulgada nesta quarta-feira, 1, o resultado das contas nacionais no primeiro trimestre do ano.

A expectativa do governo, entretanto, é de que, nos próximos trimestres, "em grande parte como consequência da implementação tempestiva de iniciativas recentemente anunciadas, deve ter início o processo de recuperação da economia brasileira".

Essa perspectiva de retomada deve nortear decisões estratégicas do governo, como a definição do programa de concessões e até as negociações das dívidas dos Estados e municípios.

"As estatísticas das Contas Nacionais hoje divulgadas confirmaram que, no primeiro trimestre, como resultado essencialmente de desenvolvimentos domésticos, teve continuidade a mais intensa recessão de nossa história, a qual, dentre outros aspectos, gerou um contingente de 11 milhões de desempregados", diz a Fazenda, na nota.

No Rio de Janeiro, ao participar da solenidade de posse da nova presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Maria Silvia Bastos Marques, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, voltou a falar sobre a gravidade do período recessivo, sem contudo fazer uma referência direta ao Produto Interno Bruto (PIB).

"Temos possivelmente a mais intensa e profunda recessão da história do País", discursou o ministro, repetindo os mesmos termos da nota distribuída pelo ministério. Ele citou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que fixa um teto para os gastos públicos, sem aumento real daqui para a frente, "fazendo com que a gente possa ter uma queda da dívida pública total", com queda na participação dos dispêndios públicos no PIB.

Segundo Meirelles, depois de anos de trajetória insustentável, é hora de a sociedade se confrontar com fatos. "Esse é o momento de discutir com a sociedade como mudar a trajetória", disse.

Mercado

A divulgação de dados econômicos melhores que o esperado foi determinante para a Bovespa fechar em alta de 1,12%, aos 49 012,65 pontos. O baixo volume de negócios no primeiro pregão de junho, no entanto, mostra que a cautela ainda prevalece nos negócios. Foram movimentados R$ 5,7 bilhões, ante R$ 6,6 bilhões da média diária de maio e R$ 8,3 bilhões da média de abril. 

'Ainda devemos ter dois trimestres negativos', prevê economista

 

O PIB do primeiro trimestre de 2016, que recuou 0,3% ante o último trimestre de 2015, na comparação dessazonalizada, veio melhor que as projeções do Banco Safra. Carlos Kawall, economista-chefe da instituição, considera, no entanto, que o resultado não muda muito sua visão de novas quedas do PIB nos próximos dois trimestres, seguidas de uma recuperação lenta, com crescimento de apenas 0,5% em 2017. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a sua análise do PIB do primeiro trimestre?

Nossa previsão era de uma queda de 0,9%, comparado ao trimestre anterior, dessazonalizado, um pouco além do consenso, de 0,8%. Foi melhor do que imaginávamos, e as melhoras foram quase generalizadas.

Como o sr. viu o PIB pela ótica de demanda?

Na parte de consumo das famílias, bateu com a nossa previsão de queda de 1,7%. O consumo do governo foi um pouco mais forte do que prevíamos, mas a grande diferença foi no investimento. Esperávamos queda de 4,9% e ela foi de 2,7%. O setor externo veio basicamente em linha com nossas projeções, mostrando contribuição positiva, como tem sido há vários trimestres.

Esse PIB acima das suas projeções significa que devemos ficar otimistas?

É claro que o quadro fica um pouco melhor, mas eu diria que é "menos ruim" do que a gente imaginava. Ainda estamos falando em queda do PIB, e esta é a quinta consecutiva.

O resultado de hoje muda a previsão para este ano?

Devemos mudar de queda de 3,9% para queda de 3,7%. Começamos o ano com queda de 3,8%, fomos para 3,9%, agora voltamos para 3,7%, não muda muito o cenário. E é bom ter em mente estatísticas como os oito trimestres consecutivos de queda da indústria, cinco do setor de serviços, cinco do consumo das famílias. A formação bruta de capital fixo, o investimento, cai há dez trimestres, um número horrível.

A queda trimestral foi inferior às registradas em 2015. Isso significa que estamos mais próximos do fundo do poço?

Por definição, estamos sempre mais perto da hora em que vai melhorar. Mas, como mencionei, ainda acreditamos em dois trimestres negativos. Em termos da nossa visão do processo econômico daqui para a frente, tem um componente de confiança que é fundamental. Mas ainda assim há motivos para que eu não acredite numa recuperação mais intensa e rápida da economia.

O sr. poderia detalhá-los?

Estamos vendo uma contração muito forte do consumo. Há três fatores que influenciam o consumo: confiança, nível de renda e crédito. As duas últimas não estão dando sinais de melhora ao longo dos próximos dois ou três trimestres. Ainda projetamos piora do desemprego, cuja velocidade de alta está muito acentuada. A queda da população ocupada e do nível de renda, idem. A gente acha que o desemprego pode ir do patamar de 11,2% para algo mais próximo de 13%, afetando a massa salarial. Isso não sugere uma recuperação mais rápida do consumo. Com relação ao crédito, os dados do Banco Central mostram uma tendência de o estoque de crédito zerar o crescimento. É algo que depende, é claro, da trajetória da política monetária. Achamos que tem queda da Selic a partir de agosto, mas demora a fazer efeito na economia.

O que a atual crise tem de diferente para que dure tanto e a recuperação seja tão lenta?

A economia entrou nessa crise muito mais alavancada do que em crises anteriores. Quem trabalha em banco vê que a situação agora é bem mais frágil do que em outras crises, por causa da combinação do grau de alavancagem com uma contração do PIB muito forte. As empresas estão alongando dívidas, tentando reescalonar pagamentos a credores, mas a situação patrimonial não melhora, por causa dos prejuízos, do fluxo de caixa. Os problemas não são resolvidos no curto prazo. E note que esta crise já é bem mais prolongada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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