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Desde a morte de Carlos Gardel em 1935, Medellín abraça a dor alheia
Fifa.com
"Temos estigmas de maus, por causa da violência e do narcotráfico, mas queremos mostrar ao mundo que somos sensíveis"

Domingo, 4/12/2016 7:59.

FABIO VICTOR, ENVIADO ESPECIAL
MEDELLÍN, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Carlos Gardel já era uma estrela quando, na tarde de 24 de junho de 1935, o avião trimotor Ford que o conduzia se chocou com outro de modelo semelhante no aeroporto de Medellín, matando o maior nome do tango e outras 16 pessoas. Três sobreviveram.

A tragédia com o cantor argentino consternou a cidade colombiana. Uma multidão seguiu o cortejo fúnebre até o cemitério de São Pedro, onde o corpo foi enterrado -os restos depois seriam trasladados à Argentina, numa viagem cinematográfica de mais de dois meses.

Oitenta e um anos depois, outro desastre aéreo na região de Medellín (a 50 km da cidade), desta vez com o avião que conduzia a Chapecoense, matando 71 pessoas, permite ao mundo conhecer melhor o caráter solidário do povo antioquenho. Antioquia é o departamento (equivalente aos Estados brasileiros) onde está Medellín, sua capital.

Da manifestação do Atlético Nacional -que disputaria com o time brasileiro a final da Copa Sul-Americana- defendendo a concessão do título à Chape à comovente homenagem na noite de quarta (30) no estádio Atanásio Girardot, quando milhares dentro e fora do estádio cantaram e choraram pelos mortos, o espírito fraterno dos locais já está fixado no imaginário dos nossos tempos como emblema dessa nova tragédia.

Recordar a morte de Gardel ajuda a compreender esse espírito. Segundo pesquisadores, a cena de tango até 1935 era incipiente em Medellín. Depois, a cidade tornou-se centro importante do gênero.

"Assim como hoje a gente daqui assume a tragédia da Chapecoense como sua (já defendem que a camisa do Atlético Nacional tenha uma inscrição permanente lembrando os mortos), no caso de Gardel assumimos o tango como se fosse de nossa cultura", afirma José Fernando Londoño, coordenador da Casa Gardeliana, centro de preservação da memória do cantor e que oferece aulas de tango.

A Casa Gardeliana está no bairro de Manrique, cortado pela avenida Gardel, onde há padarias, cabeleireiros, sapatarias e docerias com o nome do cantor. Há nesta via uma estátua de Gardel, ao lado de uma escadaria com a letra do seu tango "Volver" espalhada pelos degraus. Entre as casas de tango do bairro está o Café Alaska, com 77 anos.

No aeroporto Olaya Herrera, local do desastre que matou o artista, está a praça Gardel, onde foi erguido outro monumento, este com o cantor em frente a um casal que dança tango.

MONTANHAS E VIOLÊNCIA

Advogado e professor aposentado da Universidade Autônoma Latinoamericana, o pesquisador Jaime Jaramillo Panesso, 78, é uma referência em Medellín sobre a história e cultura da cidade.

A raiz da solidariedade local, interpreta, está no fato de que os antioquenhos foram uma comunidade muito isolada durante a colonização espanhola, por estarem numa região cercada de montanhas. "Por isso, a convivência entre nós sempre foi muito estreita, e essa vida 'endogâmica' nos tornou uma sociedade que se ajuda mutuamente."

Para Jaramillo, o que une as tragédias de Gardel e da Chapecoense é que "a solidão de corpos sem vida, de famílias que chegam a um lugar desconhecido, despertam no povo daqui o espírito de fraternidade". "É como se os mortos de vocês fossem nossos também", afirma.

É impossível, contudo, abordar a questão sem o contexto de violência que desde os anos 1980 tomou a Colômbia, e em particular Medellín, com índices recorde de assassinatos, cujo símbolo maior foi Pablo Escobar e o cartel de drogas com o nome da cidade. Violência que diminuiu gradativamente até o chamado renascimento de Medellín a partir dos anos 2010, baseado em políticas públicas sociais e urbanas.

Na visão do sociólogo Daniel Castaño Zapata, 34, professor da Universidade de Medellín, o povo local herda as mortes alheias "porque nos revelam nossas próprias fragilidades, numa dinâmica de espelho em que é mais simples se reconhecer na dor do outro que na sua própria".
"A Colômbia, e Medellín em especial, têm uma ampla tradição em se blindar contra a dor. Desde a violência extrema dos anos 80, anos de matança firmaram as bases de uma cultura pouco sensível ao sofrimento e à morte, que estão banalizados no noticiário. Para conviver com a violência, tivemos de normalizá-la", observa Castaño.

"Essa insensibilidade com nossos próprios mortos, contudo, contrasta com a solidariedade manifestada com os mortos alheios. Gardel e o time da Chapecoense são expressões deste fenômeno", afirma o sociólogo.

"A hospitalidade com estrangeiros é outra característica da cultura paisa [antioquenha]. É como se o outro nos resultasse valoroso na totalidade de sua dimensão humana, porque tal reconhecimento já perdemos nós mesmos. Eles, os outros, merecem a dignidade a que nós nos negamos", completa.

CHAPE NA PLACA

More onde for a raiz do fenômeno, o fato é que, nos dias que correm, Medellín é toda Chapecoense.

Nesta sexta (2), um táxi circulava na região central com escudos do time catarinense e do Atlético Nacional grudados na placa traseira.
"Fiz pela tragédia e pela beleza dos dois juntos, como um sinal de nosso apoio ao povo brasileiro", disse o motorista Carlos Mejía, 28.

Uma rua no bairro Campo Valdéz ostentava um bandeirão verde, branco e preto entre dois postes. Fora colocado ali antes do desastre, em tributo ao Atlético Nacional. Mas acabou mantido após a tragédia, em sinal de apoio ao time brasileiro.

"Temos estigmas de maus, por causa da violência e do narcotráfico, mas queremos mostrar ao mundo que somos sensíveis", afirmou o vendedor de carros Armando Arango, 44, responsável por amarrar o adereço ali.

Numa tornearia no mesmo bairro, o mecânico industrial Javier García, 44, também deu o seu pitaco: "Todos estamos de luto. Somos um dos países mais sentimentais e chorões do mundo, um lugar em que os estrangeiros vêm e ficam, porque são tomados como iguais. Ah, e eu sou torcedor do Brasil desde os tempos de Pelé". 

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Desde a morte de Carlos Gardel em 1935, Medellín abraça a dor alheia

Fifa.com
"Temos estigmas de maus, por causa da violência e do narcotráfico, mas queremos mostrar ao mundo que somos sensíveis"
Domingo, 4/12/2016 7:59.

FABIO VICTOR, ENVIADO ESPECIAL
MEDELLÍN, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Carlos Gardel já era uma estrela quando, na tarde de 24 de junho de 1935, o avião trimotor Ford que o conduzia se chocou com outro de modelo semelhante no aeroporto de Medellín, matando o maior nome do tango e outras 16 pessoas. Três sobreviveram.

A tragédia com o cantor argentino consternou a cidade colombiana. Uma multidão seguiu o cortejo fúnebre até o cemitério de São Pedro, onde o corpo foi enterrado -os restos depois seriam trasladados à Argentina, numa viagem cinematográfica de mais de dois meses.

Oitenta e um anos depois, outro desastre aéreo na região de Medellín (a 50 km da cidade), desta vez com o avião que conduzia a Chapecoense, matando 71 pessoas, permite ao mundo conhecer melhor o caráter solidário do povo antioquenho. Antioquia é o departamento (equivalente aos Estados brasileiros) onde está Medellín, sua capital.

Da manifestação do Atlético Nacional -que disputaria com o time brasileiro a final da Copa Sul-Americana- defendendo a concessão do título à Chape à comovente homenagem na noite de quarta (30) no estádio Atanásio Girardot, quando milhares dentro e fora do estádio cantaram e choraram pelos mortos, o espírito fraterno dos locais já está fixado no imaginário dos nossos tempos como emblema dessa nova tragédia.

Recordar a morte de Gardel ajuda a compreender esse espírito. Segundo pesquisadores, a cena de tango até 1935 era incipiente em Medellín. Depois, a cidade tornou-se centro importante do gênero.

"Assim como hoje a gente daqui assume a tragédia da Chapecoense como sua (já defendem que a camisa do Atlético Nacional tenha uma inscrição permanente lembrando os mortos), no caso de Gardel assumimos o tango como se fosse de nossa cultura", afirma José Fernando Londoño, coordenador da Casa Gardeliana, centro de preservação da memória do cantor e que oferece aulas de tango.

A Casa Gardeliana está no bairro de Manrique, cortado pela avenida Gardel, onde há padarias, cabeleireiros, sapatarias e docerias com o nome do cantor. Há nesta via uma estátua de Gardel, ao lado de uma escadaria com a letra do seu tango "Volver" espalhada pelos degraus. Entre as casas de tango do bairro está o Café Alaska, com 77 anos.

No aeroporto Olaya Herrera, local do desastre que matou o artista, está a praça Gardel, onde foi erguido outro monumento, este com o cantor em frente a um casal que dança tango.

MONTANHAS E VIOLÊNCIA

Advogado e professor aposentado da Universidade Autônoma Latinoamericana, o pesquisador Jaime Jaramillo Panesso, 78, é uma referência em Medellín sobre a história e cultura da cidade.

A raiz da solidariedade local, interpreta, está no fato de que os antioquenhos foram uma comunidade muito isolada durante a colonização espanhola, por estarem numa região cercada de montanhas. "Por isso, a convivência entre nós sempre foi muito estreita, e essa vida 'endogâmica' nos tornou uma sociedade que se ajuda mutuamente."

Para Jaramillo, o que une as tragédias de Gardel e da Chapecoense é que "a solidão de corpos sem vida, de famílias que chegam a um lugar desconhecido, despertam no povo daqui o espírito de fraternidade". "É como se os mortos de vocês fossem nossos também", afirma.

É impossível, contudo, abordar a questão sem o contexto de violência que desde os anos 1980 tomou a Colômbia, e em particular Medellín, com índices recorde de assassinatos, cujo símbolo maior foi Pablo Escobar e o cartel de drogas com o nome da cidade. Violência que diminuiu gradativamente até o chamado renascimento de Medellín a partir dos anos 2010, baseado em políticas públicas sociais e urbanas.

Na visão do sociólogo Daniel Castaño Zapata, 34, professor da Universidade de Medellín, o povo local herda as mortes alheias "porque nos revelam nossas próprias fragilidades, numa dinâmica de espelho em que é mais simples se reconhecer na dor do outro que na sua própria".
"A Colômbia, e Medellín em especial, têm uma ampla tradição em se blindar contra a dor. Desde a violência extrema dos anos 80, anos de matança firmaram as bases de uma cultura pouco sensível ao sofrimento e à morte, que estão banalizados no noticiário. Para conviver com a violência, tivemos de normalizá-la", observa Castaño.

"Essa insensibilidade com nossos próprios mortos, contudo, contrasta com a solidariedade manifestada com os mortos alheios. Gardel e o time da Chapecoense são expressões deste fenômeno", afirma o sociólogo.

"A hospitalidade com estrangeiros é outra característica da cultura paisa [antioquenha]. É como se o outro nos resultasse valoroso na totalidade de sua dimensão humana, porque tal reconhecimento já perdemos nós mesmos. Eles, os outros, merecem a dignidade a que nós nos negamos", completa.

CHAPE NA PLACA

More onde for a raiz do fenômeno, o fato é que, nos dias que correm, Medellín é toda Chapecoense.

Nesta sexta (2), um táxi circulava na região central com escudos do time catarinense e do Atlético Nacional grudados na placa traseira.
"Fiz pela tragédia e pela beleza dos dois juntos, como um sinal de nosso apoio ao povo brasileiro", disse o motorista Carlos Mejía, 28.

Uma rua no bairro Campo Valdéz ostentava um bandeirão verde, branco e preto entre dois postes. Fora colocado ali antes do desastre, em tributo ao Atlético Nacional. Mas acabou mantido após a tragédia, em sinal de apoio ao time brasileiro.

"Temos estigmas de maus, por causa da violência e do narcotráfico, mas queremos mostrar ao mundo que somos sensíveis", afirmou o vendedor de carros Armando Arango, 44, responsável por amarrar o adereço ali.

Numa tornearia no mesmo bairro, o mecânico industrial Javier García, 44, também deu o seu pitaco: "Todos estamos de luto. Somos um dos países mais sentimentais e chorões do mundo, um lugar em que os estrangeiros vêm e ficam, porque são tomados como iguais. Ah, e eu sou torcedor do Brasil desde os tempos de Pelé". 

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