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Luta por justiça vale mais que índice de católicos, diz CNBB
EBC.
"No Brasil há um fenômeno de multiplicidade religiosa, em que as pessoas frequentam várias religiões."

Quinta, 29/12/2016 5:38.

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais importante que a porcentagem de católicos no Brasil é "quantas pessoas realmente buscam justiça e vivem o amor até as últimas consequências", diz o secretário-geral da CNBB (conferência dos bispos brasileiros), dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília.

A declaração foi dada a respeito da queda na porcentagem de católicos no país, segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo (25).

Em outubro de 2014, eram 60% dos brasileiros de 16 anos ou mais que diziam pertencer à Igreja Católica. Em dezembro deste ano, 50%.

Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, a queda ficou entre 6 e 14 pontos percentuais -entre 9 milhões e 20 milhões de fiéis (algo como a população da Grande SP).

A reportagem pediu entrevista à CNBB na semana passada. A conferência respondeu nesta terça (27), por escrito.

NÃO PRATICANTES

Para o secretário-geral da CNBB, os números não necessariamente indicam encolhimento do rebanho. Os que se disseram sem religião (14%) podem eclipsar os não praticantes, "que hesitam em se declarar católicos por causa da distância em que vivem hoje da igreja", diz ele.

O professor de antropologia da Unicamp e pesquisador do Cebrap Ronaldo de Almeida também afirma que católicos não praticantes podem passar a se dizer sem religião e que os dados indicam um pluralismo cristão crescente no país.

"Há maior liberdade em relação à religião", afirma o professor de sociologia da USP Reginaldo Prandi. Com isso, o número de autodeclarados católicos tem caído em toda a América Latina.

O sociólogo diz que há também no Brasil um fenômeno de multiplicidade religiosa, em que as pessoas frequentam várias religiões simultaneamente, facilitado pelo passado histórico sincrético, em que o segmento afrobrasileiro assimilou o catolicismo "de forma orgânica".

Para o professor de filosofia da religião da PUC-SP e colunista da Folha Luiz Felipe Pondé, o catolicismo continuará a minguar à medida em que o mercado religioso brasileiro fica mais competitivo.

"É uma igreja centralizada, antiquada, cheia de pequenos poderes, movimentos de inveja, que corroem a instituição. E sua gestão é incompetente e pouco meritocrática."

ALÉM DAS ESTATÍSTICAS

O secretário-geral da CNBB diz que os números não justificam ações especiais: "A igreja cuida do anúncio dos valores do Evangelho e não se ocupa com estratégias para melhorar estatísticas."

Dom Leonardo afirma que a igreja tem diretrizes, não para "'estancar' a suposta perda de fiéis" ou "'recuperar' os que a abandonaram", mas para "animar e fortalecer suas comunidades".

O "plano de trabalho" tem cinco "urgências pastorais": 1) permanecer em estado de missão; 2) cuidar da iniciação à vida cristã; 3) amplificar a animação bíblico-catequética das comunidades; 4) reconhecer e vivenciar a igreja como comunidade de comunidades, e 5) "ser cada vez com maior vigor e coragem uma Igreja a serviço da vida plena para todas as pessoas".

MIGRAÇÃO EVANGÉLICA

Desde outubro de 2014, a porcentagem de evangélicos se manteve constante, perto de 30%, segundo o Datafolha. Mas mais da metade dos que estão hoje nos templos foram criados como católicos, mostra pesquisa do Instituto Pew feita no Brasil.

O instituto perguntou aos convertidos por que haviam mudado de religião. Mais da metade justificou a troca por maior conexão com Deus (77%), estilo de culto (68%), convite feito por membro da nova igreja (65%), mais ênfase em moralidade (58%) e mais ajuda da igreja (55%).

Para d. Leonardo, o índice não indica uma falha na ação evangelizadora católica.

Ele afirma que a igreja não pode ceder aos que se distanciam "do compromisso mais engajado de transformação social", nem aos que concentram sua atividade religiosa "na busca individual da prosperidade e fazem da oração um instrumento único para esse objetivo".

CARISMÁTICOS

Para Reginaldo Prandi, os brasileiros que deixaram o catolicismo foram atrás da solução de problemas concretos, objetivos ou subjetivos.
"O catolicismo oferece menos esses bens simbólicos. A renovação carismática tem mais, mas nunca conseguiu chegar aos pobres. Trafega em trilho próprio, voltada para a classe média e nunca concorreu com evangélicos."

Pondé diz que a migração não reflete falha na atuação social dos católicos, mas "uma sociedade muito mercantilizada, em que as religiões são bens commodities [indiferenciados]".

"A igreja se aproximou do marxismo e se afastou da dona de casa. Se ela tem filho envolvido com drogas, não quer saber se a culpa é do capitalismo; quer é que ele troque as drogas por Jesus."

Ronaldo de Almeida, do Cebrap, diz que a mensagem do papa Francisco, "de acolhimento", pode balançar parte dos que deixaram a igreja. "Mas o importante é que isso desça até os fiéis." 

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Luta por justiça vale mais que índice de católicos, diz CNBB

EBC.
"No Brasil há um fenômeno de multiplicidade religiosa, em que as pessoas frequentam várias religiões."
Quinta, 29/12/2016 5:38.

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais importante que a porcentagem de católicos no Brasil é "quantas pessoas realmente buscam justiça e vivem o amor até as últimas consequências", diz o secretário-geral da CNBB (conferência dos bispos brasileiros), dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília.

A declaração foi dada a respeito da queda na porcentagem de católicos no país, segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo (25).

Em outubro de 2014, eram 60% dos brasileiros de 16 anos ou mais que diziam pertencer à Igreja Católica. Em dezembro deste ano, 50%.

Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, a queda ficou entre 6 e 14 pontos percentuais -entre 9 milhões e 20 milhões de fiéis (algo como a população da Grande SP).

A reportagem pediu entrevista à CNBB na semana passada. A conferência respondeu nesta terça (27), por escrito.

NÃO PRATICANTES

Para o secretário-geral da CNBB, os números não necessariamente indicam encolhimento do rebanho. Os que se disseram sem religião (14%) podem eclipsar os não praticantes, "que hesitam em se declarar católicos por causa da distância em que vivem hoje da igreja", diz ele.

O professor de antropologia da Unicamp e pesquisador do Cebrap Ronaldo de Almeida também afirma que católicos não praticantes podem passar a se dizer sem religião e que os dados indicam um pluralismo cristão crescente no país.

"Há maior liberdade em relação à religião", afirma o professor de sociologia da USP Reginaldo Prandi. Com isso, o número de autodeclarados católicos tem caído em toda a América Latina.

O sociólogo diz que há também no Brasil um fenômeno de multiplicidade religiosa, em que as pessoas frequentam várias religiões simultaneamente, facilitado pelo passado histórico sincrético, em que o segmento afrobrasileiro assimilou o catolicismo "de forma orgânica".

Para o professor de filosofia da religião da PUC-SP e colunista da Folha Luiz Felipe Pondé, o catolicismo continuará a minguar à medida em que o mercado religioso brasileiro fica mais competitivo.

"É uma igreja centralizada, antiquada, cheia de pequenos poderes, movimentos de inveja, que corroem a instituição. E sua gestão é incompetente e pouco meritocrática."

ALÉM DAS ESTATÍSTICAS

O secretário-geral da CNBB diz que os números não justificam ações especiais: "A igreja cuida do anúncio dos valores do Evangelho e não se ocupa com estratégias para melhorar estatísticas."

Dom Leonardo afirma que a igreja tem diretrizes, não para "'estancar' a suposta perda de fiéis" ou "'recuperar' os que a abandonaram", mas para "animar e fortalecer suas comunidades".

O "plano de trabalho" tem cinco "urgências pastorais": 1) permanecer em estado de missão; 2) cuidar da iniciação à vida cristã; 3) amplificar a animação bíblico-catequética das comunidades; 4) reconhecer e vivenciar a igreja como comunidade de comunidades, e 5) "ser cada vez com maior vigor e coragem uma Igreja a serviço da vida plena para todas as pessoas".

MIGRAÇÃO EVANGÉLICA

Desde outubro de 2014, a porcentagem de evangélicos se manteve constante, perto de 30%, segundo o Datafolha. Mas mais da metade dos que estão hoje nos templos foram criados como católicos, mostra pesquisa do Instituto Pew feita no Brasil.

O instituto perguntou aos convertidos por que haviam mudado de religião. Mais da metade justificou a troca por maior conexão com Deus (77%), estilo de culto (68%), convite feito por membro da nova igreja (65%), mais ênfase em moralidade (58%) e mais ajuda da igreja (55%).

Para d. Leonardo, o índice não indica uma falha na ação evangelizadora católica.

Ele afirma que a igreja não pode ceder aos que se distanciam "do compromisso mais engajado de transformação social", nem aos que concentram sua atividade religiosa "na busca individual da prosperidade e fazem da oração um instrumento único para esse objetivo".

CARISMÁTICOS

Para Reginaldo Prandi, os brasileiros que deixaram o catolicismo foram atrás da solução de problemas concretos, objetivos ou subjetivos.
"O catolicismo oferece menos esses bens simbólicos. A renovação carismática tem mais, mas nunca conseguiu chegar aos pobres. Trafega em trilho próprio, voltada para a classe média e nunca concorreu com evangélicos."

Pondé diz que a migração não reflete falha na atuação social dos católicos, mas "uma sociedade muito mercantilizada, em que as religiões são bens commodities [indiferenciados]".

"A igreja se aproximou do marxismo e se afastou da dona de casa. Se ela tem filho envolvido com drogas, não quer saber se a culpa é do capitalismo; quer é que ele troque as drogas por Jesus."

Ronaldo de Almeida, do Cebrap, diz que a mensagem do papa Francisco, "de acolhimento", pode balançar parte dos que deixaram a igreja. "Mas o importante é que isso desça até os fiéis." 

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