Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Fama
'Querido Embaixador' se ancora em personagem extraordinário

Segunda, 6/8/2018 16:31.
Divulgação.

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LÚCIA MONTEIRO
(FOLHAPRESS) - Os intercâmbios e contaminações entre filme de ficção e documentário já renderam alguns dos melhores momentos do cinema mundial -dos docudramas de Jean Rouch às fabulações dos personagens de Eduardo Coutinho, passando por distopias audiovisuais como as de Peter Watkins ("The War Game", 1965) e Chris Marker ("2084", 1984), entre muitos outros exemplos.

É nessa fronteira porosa, pela qual transitam imagens de arquivo, depoimentos e encenação, que "Querido Embaixador" se inscreve. Dirigido por Luiz Fernando Goulart, o longa-metragem narra o percurso de Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador brasileiro em Paris entre 1922 e 1944.

Trata-se de um personagem extraordinário. Bon-vivant absolutamente apaixonado pela capital francesa e suas delícias, desde a ascensão do nazismo o diplomata forneceu mais de mil vistos para o Brasil a judeus europeus na iminência da deportação e da morte. Isso apesar da interdição expressa do governo de Getúlio Vargas, que proibia as embaixadas brasileiras a concederem vistos a "judeus e outras pessoas indesejáveis".

A porção mais "documental" do filme conta com boas entrevistas com imigrantes e seus descendentes que sobreviveram graças à ajuda do embaixador, além de preciosos arquivos fílmicos encontrados em acervos de instituições como a Fundação Pathé, na França, e o Museu do Holocausto, em Nova York.

Há belos documentos da realidade de Paris e do Rio de Janeiro entre as décadas de 1920 e 1950, e sobretudo imagens terríveis da expulsão de judeus de cidades europeias. É pena, porém, que essas imagens de arquivo, não cheguem a ser suficientemente valorizadas no filme.

Aparecem, na maioria das vezes, com um estatuto de ilustração pouco apropriado diante da gravidade do que é exibido.

Há, por outro lado, a encenação de momentos marcantes da vida de Souza Dantas, e é aí que se encontra o principal problema do longa. O português falado pelo elenco, de forte sotaque carioca, compromete a verossimilhança das histórias, que adquirem, assim, uma incômoda semelhança com as telenovelas.

Outra dificuldade do filme é seu didatismo. As cartas que o embaixador escreve são lidas por ele e vistas na tela, junto com o barulho da pena que desliza sobre o papel. Os diálogos têm tom professoral e, apesar do valor de preservarem o vocabulário da época, soam pouco verdadeiros.

Essas fraquezas talvez fiquem ainda mais evidentes nas sequências em que depoimentos, imagens de arquivo e encenação aparecem juntos, como um sinal de indecisão sobre qual caminho seguir que acaba provocando redundância.

O casamento entre documentário e ficção não se dá, aqui, em nome da ambivalência, mas da explicação quase excessiva.

É verdade, porém, que nos sombrios tempos que vivemos, marcados pela hostilidade diante do estrangeiro e pela triste realidade dos refugiados, é preciso contar e recontar com clareza histórias como a de Souza Dantas, valorizando seu humanismo.

QUERIDO EMBAIXADOR
QUANDO Em cartaz
CLASSIFICAÇÃO 16 anos
ELENCO Norival Rizzo, Miriam Mehler, Felipe Rocha
PRODUÇÃO Brasil, 2017
DIREÇÃO Luiz Fernando Goulart
AVALIAÇÃO Regular.


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Página 3
Divulgação.

'Querido Embaixador' se ancora em personagem extraordinário

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Segunda, 6/8/2018 16:31.

LÚCIA MONTEIRO
(FOLHAPRESS) - Os intercâmbios e contaminações entre filme de ficção e documentário já renderam alguns dos melhores momentos do cinema mundial -dos docudramas de Jean Rouch às fabulações dos personagens de Eduardo Coutinho, passando por distopias audiovisuais como as de Peter Watkins ("The War Game", 1965) e Chris Marker ("2084", 1984), entre muitos outros exemplos.

É nessa fronteira porosa, pela qual transitam imagens de arquivo, depoimentos e encenação, que "Querido Embaixador" se inscreve. Dirigido por Luiz Fernando Goulart, o longa-metragem narra o percurso de Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador brasileiro em Paris entre 1922 e 1944.

Trata-se de um personagem extraordinário. Bon-vivant absolutamente apaixonado pela capital francesa e suas delícias, desde a ascensão do nazismo o diplomata forneceu mais de mil vistos para o Brasil a judeus europeus na iminência da deportação e da morte. Isso apesar da interdição expressa do governo de Getúlio Vargas, que proibia as embaixadas brasileiras a concederem vistos a "judeus e outras pessoas indesejáveis".

A porção mais "documental" do filme conta com boas entrevistas com imigrantes e seus descendentes que sobreviveram graças à ajuda do embaixador, além de preciosos arquivos fílmicos encontrados em acervos de instituições como a Fundação Pathé, na França, e o Museu do Holocausto, em Nova York.

Há belos documentos da realidade de Paris e do Rio de Janeiro entre as décadas de 1920 e 1950, e sobretudo imagens terríveis da expulsão de judeus de cidades europeias. É pena, porém, que essas imagens de arquivo, não cheguem a ser suficientemente valorizadas no filme.

Aparecem, na maioria das vezes, com um estatuto de ilustração pouco apropriado diante da gravidade do que é exibido.

Há, por outro lado, a encenação de momentos marcantes da vida de Souza Dantas, e é aí que se encontra o principal problema do longa. O português falado pelo elenco, de forte sotaque carioca, compromete a verossimilhança das histórias, que adquirem, assim, uma incômoda semelhança com as telenovelas.

Outra dificuldade do filme é seu didatismo. As cartas que o embaixador escreve são lidas por ele e vistas na tela, junto com o barulho da pena que desliza sobre o papel. Os diálogos têm tom professoral e, apesar do valor de preservarem o vocabulário da época, soam pouco verdadeiros.

Essas fraquezas talvez fiquem ainda mais evidentes nas sequências em que depoimentos, imagens de arquivo e encenação aparecem juntos, como um sinal de indecisão sobre qual caminho seguir que acaba provocando redundância.

O casamento entre documentário e ficção não se dá, aqui, em nome da ambivalência, mas da explicação quase excessiva.

É verdade, porém, que nos sombrios tempos que vivemos, marcados pela hostilidade diante do estrangeiro e pela triste realidade dos refugiados, é preciso contar e recontar com clareza histórias como a de Souza Dantas, valorizando seu humanismo.

QUERIDO EMBAIXADOR
QUANDO Em cartaz
CLASSIFICAÇÃO 16 anos
ELENCO Norival Rizzo, Miriam Mehler, Felipe Rocha
PRODUÇÃO Brasil, 2017
DIREÇÃO Luiz Fernando Goulart
AVALIAÇÃO Regular.


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