Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Especial
Observação de pássaros e cuidados com as aves estão crescendo em Balneário

Quinta, 22/10/2020 15:10.

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Renata Rutes
O turismo de observação de pássaros vem aumentando, segundo especialistas, 15% ao ano no Brasil. A modalidade é sensação em países como os Estados Unidos e Peru, além de ter muitos adeptos na Europa – onde estima-se que um terço da população faz parte de algum grupo. Santa Catarina vem se destacando a nível nacional, através de eventos – boa parte deles acontecem em Balneário Camboriú, cidade que por ser rodeada da Mata Atlântica possui variedade de espécies de pássaros, assim como atrai muitas ao longo do ano. O Página 3 conversou nesta semana com moradores da cidade que são entusiastas do assunto, assim como biólogos e veterinários, que contam suas histórias e lembram a importância de olharmos para o meio ambiente e protegê-lo.

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Mãe e filhas dividem o amor pelos pássaros

Lilian, Ligia e Veronica.

Verônica Martins, 74 anos, é mãe de Lilian e Lígia. As três dividem o amor pelos pássaros, que nasceu com a matriarca, ainda nos tempos em que ela morava em Itajaí e Massaranduba. Em Balneário Camboriú, em 1968, Verônica passou a morar no Bairro dos Estados, onde reside até hoje. Ela conta que na época existiam poucas casas na localidade e muito mato pela região.

“Não existia a BR ainda, estavam fazendo ela. Não tinha a rodoviária também. E com isso, pelo mata, chegavam muitos pássaros. Desde essa época eu colocava um pouco de comida para eles, e continuo a fazer isso até hoje, por 52 anos”, diz.

Perto da casa da aposentada há uma praça, ‘separada apenas por um muro baixo’, ela costuma ir até lá e também deixar comida para os passarinhos.

“Eu tinha uma pitangueira grande no quintal, tive que cortar porque atrapalhava o telhado, e plantei mudas na pracinha também. Os passarinhos vêm comer, coloco banana, mamão, semente de girassol, nada ‘não natural’. Mas percebo que eles vêm bem menos do que antigamente, não sei se eles estão indo embora, por qual motivo estão sumindo, se é a falta de espaço ou alimentação para eles”, conta, citando que há aves que vêm ‘do sul’ e ficam na região por apenas alguns meses, assim como há também algumas nativas.

“Há muitos coloridos, como a saíra, bem-te-vi, canários, sabiá, rolinhas, coleirinhas. Eu queria ter mais espaço em casa para ampliar esse cuidado. Minhas filhas também cuidam, quando eu não estou em casa elas vêm e alimentam. É preciso preservar o pouco que ainda temos. Os pássaros precisam ser livres, voar, gostaria que as pessoas não mantivessem os passarinhos em gaiolas. O certo é tratar deles e depois soltar. É tão bom cuidar, mas o lugar deles é na natureza”, acrescenta.

O amor das irmãs, as artistas Lilian e Lígia, pelas aves se reflete nos trabalhos: elas gostam de fotografar e pintar pássaros. Dizem que o amor da mãe pelos bichinhos inspira. Contam que recentemente quatro passarinhos caíram de um ninho e a mãe cuidou.

“Uma vez viajamos e ela levou o pássaro junto porque precisava alimentar ele de hora em hora. O cuidado com a natureza sempre foi muito presente, desde a nossa infância”, conta Lilian, que vive em um sítio em Gaspar, onde também aparecem muitos pássaros, como periquitos, papagaios, tucanos, e até mesmo uma coruja(foto), a qual ela define como ‘inquilina’ do atelier do marido, o escultor Pita Camargo.

Urubu e gaivota no apartamento de Ligia.

Lígia reside em um edifício na Barra Sul. O apartamento fica no 25º andar e recebe frequentemente ‘visita’, que pousam próximo das janelas, como gaivotas, gaviões e urubus.

“É muito bacana ter eles por perto, já é algo comum, de vez em quando eles aparecem. Já fotografei algumas vezes. Mesmo assim é inusitado, às vezes levamos cada susto (risos). Tenho que fechar as cortinas, porque tenho uma cachorrinha e ela late, quer pegar”, salienta.

Dado Cherem descobriu um novo prazer: fotografar pássaros

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC), Luiz Eduardo Cherem (Dado) descobriu com a quarentena da pandemia de Covid-19 um novo hobby: fotografar pássaros. Ele conta que apesar de sempre gostar de passarinhos, só começou a fotografá-los em maio deste ano, quando comprou uma câmera especialmente para isso.

“Era algo que não tinha aflorado, apesar de eu sempre ter tido esse sentimento. Acabei comprando uma Canon, e aproveito para fotografar quando viajo com a família. Fui para Urubici, também quando vou para Florianópolis para trabalhar, assim como na região dos Macacos, em Camboriú. Eu moro em um condomínio na Praia Brava e aqui tem mata, então também consigo fotografar alguns pássaros. Eu vivo com a minha câmera por perto. Nas horas vagas me dedico a isso, acordo cedo, às 6h, e aproveito para fotografar”, destaca.

Lavadeira mascarada alimentando o filhote, quero-quero, pintassilgo e tié fotografados por Dado.

Dado afirma que há pássaros que chamam mais a sua atenção, como a saíra, sabiá, tiê-preto, alma-de-gato, lavadeira-mascarada e pica-pau-do-campo.

“Gosto muito do aracuã também, que era muito caçado no passado, e agora as pessoas têm a consciência de não matar. Frustração eu tenho por nunca ter visto em Balneário o tucano, mas já consegui fotografá-lo em Santo Amaro”, diz, comentando que se preocupa que os jovens vivem muito o mundo virtual e que precisam ser mais conscientes quanto ao meio ambiente.

“Precisamos nos atentar quanto a preservação dos biomas. Quanto mais termos conhecimento sobre os pássaros, mais conscientes seremos quanto a importância deles, que polinizam, levam sementes, ajudam no controle de pragas. A presença ou ausência deles é sinal bom ou ruim. A minha geração castigou muito os pássaros com a caça, prendíamos em gaiolas. O pássaro bonito é o pássaro na natureza”, completa.

Saíra-bico-fino: a ave-símbolo de Balneário Camboriú

Nem todos sabem, mas Balneário Camboriú possui, desde 2018, uma ave-símbolo: a saíra-bico-fino, escolhida pelo público. Carla Cravo, bióloga e representante do Instituto de Desenvolvimento e Integração Ambiental (IDEIA), responsável pela votação, conta que o macho possui coloração azul e a fêmea tem penas verdes com nuances azuis – o que remete ao mar e a natureza, duas das principais características de Balneário.

“O critério da escolha era procurar dar uma identidade para a nossa cidade. A saíra-bico-fino é facilmente avistada. Eu fui professora da Educação Infantil no Carrossel, no Bairro das Nações, ‘aos pés’ do morro da prefeitura, e na escola conseguimos catalogar 23 espécies diferentes de aves. A saíra-bico-fino era nossa visitante diária, assim como é possível vê-la em diversos locais da cidade, como Interpraias, Bairro das Nações, perto de mata”, comenta.

Carla relembra que a votação para a escolha da ave-símbolo ficou aberta por dois meses online, e também percorreram as escolas da cidade para que as crianças também auxiliassem no processo. Cerca de sete mil pessoas votaram e a saíra foi escolhida com 47% dos votos. Ela concorreu contra a gaivota, garça-branca-pequena, sabiá-branco, cambacica e o beija-flor-tesoura – todos bem comuns em Balneário e região.

“A Santacosta (conhecida marca local, com sede na Praia Brava de Itajaí) também fez uma camiseta na época, com a saíra. É muito bacana uma cidade ter sua ave-símbolo, porque conhecendo os habitantes da nossa fauna, as pessoas ajudam a cuidar dos ambientes que ainda temos”, diz.

Aves são reabilitadas e, se possível, devolvidas para a natureza no Complexo Cyro Gevaerd

80% dos animais que lá vivem são resgatados

Filhotes de gambás, papagaio e araras-canindé resgatados.

Filhote arara sendo pesado e alimentado

O Página 3 visitou o Complexo Ambiental Cyro Gevaerd (mais conhecido como Zoológico da Santur) na manhã de quarta-feira (21). O local está seguindo todas as normas sanitárias de prevenção ao Covid-19 e recebe ao público diariamente, com mais de 30 ‘pit-stops’ de álcool gel espalhados pelo parque. Guiada pela bióloga do zoo, Márcia Achutti, e pela veterinária Samara de Oliveira Freitas, a reportagem visitou as principais áreas do Complexo, desde a passarela que fica logo na entrada, onde o público pode conferir bem de perto os recintos de alguns animais, como lhamas, emas e avestruzes, assim como o espaço onde ficam os filhotes – no dia da visita estavam lá araras-canindé, papagaio, gambás e até ouriços – todos resgatados por órgãos como IMA e Guarda Ambiental de Balneário Camboriú, vítimas de maus tratos e/ou até mesmo tráfico, e também o espaço onde os animais que precisam de acompanhamento veterinário permanecem.

“Tivemos uma surpresa recente, que foi um filhote de coruja buraqueira(foto). Ano passado recebemos quatro buraqueiras, que vieram pelo IMA, com problemas de asa e cegas, não podiam ser soltas. Fomos surpreendidos há três semanas, elas colocaram ovos e nasceu uma bebezinha. Filhotes podem ser um problema, porque temos que ensiná-los a ser independentes, e eles podem acabar se acostumando, porque todos os dias a equipe os alimenta na boca, pesamos diariamente também”, salienta Márcia.

Na ‘reabilitação’, o parque recebe principalmente aves, como tucano, arara, gavião e até gaivotas(foto) – essas últimas vindas de uma parceria com o R3 e o projeto de Monitoramento das Praias, de Florianópolis. Elas possuem problemas físicos, principalmente nas asas, e estão sendo cuidadas pela equipe do zoo, e ganharão em breve um recinto próprio, tendo então uma ‘segunda chance’ de viverem bem.

A médica veterinária Samara conta que sempre quando chegam animais resgatados é feita uma avaliação para ver se possuem condições de retornar à natureza. Normalmente os que ficam no parque são aqueles com problemas físicos, como asa que precisa ser amputada ou até mesmo cegos.

“Monitoramos o dia a dia deles no recinto, se estão comendo normalmente, se vai ser aceito com o grupo, caso hajam outras aves no recinto onde ele vai ficar. Inclusive sempre onde há um animal resgatado, contamos a ‘história’ deles com placas informativas, como é o caso do tucano-do-bico-verde Thor,(foto) que teve um problema na asa e no bico”, diz Márcia.

Um ponto destacado por Samara e pela bióloga Márcia é que o foco principal é soltar os animais, e que só não são devolvidos para a natureza aqueles que não terão condição de sobreviverem sozinhos – tanto que 80% de todos os animais que vivem no Complexo são resgatados e possuem algum problema físico ou ‘psicológico’, sendo dóceis demais e muito apegados ao convívio com humanos, como foi o caso de uma aracuã, que no dia de ser solta voltava para perto da equipe, ‘recusando-se’ a ficar na natureza. Ela vive até hoje no zoo.

“Fazemos uma adaptação para que ele viva bem no parque, como é o caso de um gavião cego. Ele conseguiu aprender onde fica a comida e vive muito bem no recinto dele”, conta a veterinária, citando que também recebem pombos, mas quando eles chegam até o zoo normalmente já estão ‘no último suspiro’. Aqueles reabilitados, acabam sendo soltos.

As especialistas de preocupam com as aves presas em gaiolas, além das queimadas em matas ocorridas recentemente.

“Há aves que chegam de apreensão que passaram tanto tempo presas em gaiolas que às vezes nem conseguem ser soltas. Tem gente que diz ‘ah, por que em uma apreensão não abrem as gaiolas e deixam todas voarem?’, mas se elas passaram a vida toda em uma gaiola pequena, comendo ração, ela não vai conseguir isso na natureza, por isso também acabamos ficando com algumas nessa situação”, acrescenta Samara.

Márcia completa que quem optar por ter pets exóticos, como araras – inclusive há alguns criadores na região, é preciso cuidado e entender que esses animais necessitam de uma atenção e recinto especial.

“Não podem viver em apartamento, por exemplo. Precisam ser microchipados, ter origem certa, e precisa ter o ambiente certo para ela. Não compre porque está na moda, esses animais têm uma personalidade diferente, não é como um gato ou cão”, aponta.

Algumas aves que vivem no zoológico.

Unipraias: união da natureza com o turismo

Aves nos tratadouros, gralha-azu e tucanos.

O Parque Unipraias é um dos atrativos turísticos mais conhecidos de Balneário Camboriú, exatamente por unir as belezas naturais da cidade com uma das vistas mais incríveis do alto de seus bondinhos aéreos. No passeio, os visitantes podem caminhar por trilhas, onde é possível ver diversas aves que ali vivem.

O diretor do empreendimento, Evódio João de Souza, salienta que as mais fáceis de serem avistadas são a gralha azul, aracuã e o tucano.

“Elas se alimentam nos tratadores distribuídos ao longo do parque, que oferecem frutas e são regularmente higienizadas, conforme recomendação de biólogos. A interação entre visitantes, funcionários e aves ocorre de forma muito natural, pois elas estão em seu habitat, livres e é um privilégio estar em contato com tantas espécies fora do cativeiro. De certa forma, os colaboradores se capacitam com essa convivência diária e conseguem interpretar facilmente o comportamento de cada ave. Para o visitante, é uma experiência singular avistar os tucanos enquanto caminha pelas trilhas ou ver se aproximar um aracuã enquanto toma um suco no mirante. São muitas aves lindas e majestosas, que se tornaram uma atração à parte, oferecida pela natureza”, explica.

O Unipraias conta também com o projeto Parque Escola, que rendeu ao atrativo turístico diversos prêmios, sendo um destaque como educação ambiental, focado nos estudantes de escolas públicas e privadas. Através dele, os alunos têm a oportunidade de passear no bondinho e ainda são guiados pelas trilhas, onde os monitores do Unipraias abordam os diferentes aspectos da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta, assim como a importância de sua preservação.

“Desde a implantação do projeto, em 2001, já atendeu mais de 135 mil estudantes e 14 mil professores, um dos mais bem-sucedidos trabalhos de educação ambiental de Santa Catarina. A preocupação com a conservação da flora e fauna é constante aqui no Unipraias, pois o visitante, ao vir até aqui, busca esse contato com a Mata Atlântica e acaba se tornando nosso principal fiscalizador”, diz, acrescentando que acreditam que o tema envolve toda a sociedade e projetos como o Parque Escola apostam no futuro, uma vez que focam em crianças e adolescentes.

“O despertar da consciência pela preservação deve começar cedo e nessa idade eles observam e exploram o meio ambiente com curiosidade, percebendo-se como ser integrante, dependente, transformador e, acima de tudo, que tem atitudes de conservação”, analisa.

Secretária do Meio Ambiente analisa situação das aves na cidade

Pombas na praia central de Balneario

A secretária do Meio Ambiente de Balneário Camboriú, Maria Heloísa Lenzi, lembra que há muitos fragmentos de Mata Atlântica na cidade, com uma ‘biodiversidade bastante considerável’, por isso que é tão importante a existência de árvores no meio urbano, permitindo assim o ‘trânsito de espécies’, além de garantir a dispersão de sementes.

“Isso com relação às aves nativas, como as nossas gaivotas(foto), pirupiru, garça, trinta-réis, quero-quero, saíras, tucano-bico-verde-, aracuã, tangará, também há corujas na região das praias agrestes, como em Taquaras. No Parque Natural Raimundo Gonçalez Malta (o Parque Ecológico, sede também da SEMAM) aparecem gralha-azul, gavião”, conta.

Uma das preocupações da SEMAM é a questão das pombas, animais considerados pragas urbanas e que são originários do Marrocos, já que eles competem com os animais silvestres da região.

“Não podemos fazer nada sobre porque configura maus tratos, mas o principal jeito de reduzir é parar de alimentá-los, assim eles passam a ter menos filhotes e consequentemente reduz a comunidade. Eles realmente não deveriam estar por aqui, mas estão em grande número”, diz.

Segundo Heloísa, há pessoas que denunciam desde a presença dessas aves, pedindo que a prefeitura ‘faça algo sobre’, como ainda aqueles que reclamam que proibiram de alimentá-los.

“Os dois caminhos são errados. Não podemos capturar e matar eles, mas se houver diminuição na oferta de alimento, haverá um controle biológico. Quando alimentam-se os pombos proliferam-se ratos também, e os próprios pombos podem transmitir doenças para nós. Todo animal exótico compete com a fauna nativa, e principalmente por isso não é positivo termos aqui”, finaliza.

Colisões de aves: uma realidade que precisa mudar

Um assunto que vem sendo bastante discutido em Balneário Camboriú é a colisão de aves em vidros – em casas, prédios e comércios – causando a morte da maioria delas. Após uma matéria publicada pelo Página 3 em setembro o tema ganhou espaço, e foi definido pelo Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa Brava que podem ser utilizados vidros em construções da localidade em aberturas, como portas e janelas. Só será tolerado o uso como barreira física com uso de dispositivos que evitem o embate das aves como adesivos, cortinas etc.

A professora e pedagoga Patrícia Debrassi, representante da Associação de Conscientização para a Preservação do Meio Ambiente (ACONPREMA), é uma das principais militantes da causa e vem fortemente buscando conscientizar a população de Balneário Camboriú acerca do tema.

“A partir da publicação do Página 3, que nos deu abertura, conseguimos fazer as pessoas passarem a perceber esse problema. Muita gente até então não parava para analisar. Pautas ambientais precisam ser mais divulgadas como forma de conscientizar o público, por isso pedimos esse apoio também da prefeitura e da Secretaria do Meio Ambiente”, define.

Aproveitando o período eleitoral, a ACONPREMA está entregando para candidatos a prefeito e vereadores uma carta ambiental, tanto em Balneário quanto em Camboriú, citando a importância de uma legislação voltada para esse segmento, com destaque para as normas quanto uso de vidros em construções e também calçadas ecológicas.

Viidro sinalizado para evitar a colisão de aves

“São ações simples que podem ser desenvolvidas. Com a aprovação do regramento para utilização na APA já é um começo, agora vamos aguardar e tentar tornar isso a nível municipal. Se conseguirmos, será uma das primeiras legislações do tipo no Brasil. Queremos que os construtores nos apoiem a evitar as colisões, principalmente nessas fachadas enormes de vidros que há na cidade. É possível utilizar adesivos, cortinas, redes, cordas... há inúmeras opções”, explica.

Patrícia finaliza lembrando que o grande diferencial de Balneário Camboriú é o contraste do concreto com a área verde e que os turistas não vão gostar de visitar um lugar ‘só com prédios, cimento, sem árvores’.

“Precisamos planejar uma cidade para daqui 30, 50 anos, e não pensar só nos próximos cinco, para não acontecer o que aconteceu com a praia e com o Rio Marambaia, tudo por falta de planejamento. Nós somos só uma das espécies que aqui vivem, e cabe a nós pensarmos num futuro para que todos possamos existir”, salienta.

Aves Catarinenses: biólogo de Balneário está produzindo segundo livro

O biólogo de Balneário Camboriú, Cristiano Voitina, se dedica ao estudo das aves há 12 anos, inicialmente incentivado pela falta de conhecimento e conteúdo das aves brasileiras e de cada localidade. Focado na causa ambiental, ele começou a ver que se mostrasse para a comunidade quem são os moradores das matas, pássaros e outros animais, o público passaria a se sensibilizar mais. Disso, surgiu o seu primeiro livro, Aves Catarinenses, lançado em 2017. Neste momento, Cristiano está viajando pelo Brasil e por países próximos, como a Argentina, para produzir o seu segundo livro. Ele conversou com o Página 3 por telefone, enquanto estava em São Paulo. O diferencial dessa nova publicação será a profundidade: no primeiro livro ele só pôde usar uma página para falar sobre cada ave, e desta vez poderá contar mais histórias e curiosidades sobre elas.

“Vai estar mais ‘recheado’ de histórias, com muitas aventuras e emoções”, antecipa.

Outra grande defesa de Voitina é o turismo de observação, segmento que conta com 40 milhões de adeptos somente nos Estados Unidos e na Europa estima-se que um terço da população seja observadora de pássaros.

“Nós só temos cerca de 40 mil observadores no Brasil, e temos 20% de todas as aves do mundo aqui. O Peru, que é um país muito menor que o Brasil, recebe quatro vezes mais turistas observadores do que aqui. Fico me perguntando, o que falta para os políticos abrirem os olhos e fomentarem isso de forma sustentável? Podemos movimentar bilhões de reais. Balneário já possui toda a estrutura hoteleira, gastronômica. Temos muito potencial”, explica.

O especialista diz que a população precisa ser mais consciente quanto as aves, já que os humanos podem escolher onde vivem, já os animais não, citando que um quero-quero não consegue morar dentro da mata, já que é adaptado para a área aberta, enquanto há pássaros que não conseguem viver em pastagem, só em florestas.

“O vidro também é muito ‘doido’ para o pássaro, pois funciona como um espelho. Ele vai voar, vai dar contra o vidro e morrer. Já encontrei diversas aves mortas por colisões em vidros em Balneário, infelizmente. Até um tucano. É lamentável isso, e ao mesmo tempo louvável o que a Patrícia está fazendo. Ela viu a situação, reclamou e fez algo sobre. Só reclamar e não fazer nada não adianta”, afirma.

Voitina aproveita para lembrar que Balneário precisa cuidar de suas riquezas naturais, e impedir que aconteça o mesmo que aconteceu com a praia central, que está ‘destruída, com o mar poluído, e com o sol somente até um tempo’.

Sabiá-laranjeira ave-símbolo do Brasil fotografada por Cristiano Voitina.

“Temos que pensar na qualidade de vida para todos os seres vivos. A saúde ambiental é para todos, não somente para nós. As pessoas estão começando a sentir falta das partes ‘mais silvestres’, quanto mais vida temos ao nosso redor, melhor nos sentimos. Não precisamos destruir para que haja progresso. Temos muitas aves que vivem dentro da área urbana e que precisam do nosso olhar, como o joão-de-barro, bem-te-vi, andorinha, quero-quero... todos os anos também vêm o falcão-peregrino, que viaja da América do Norte e chega aqui, além das gaivotas, garças, trinta-réis, cambacica, sabiá-branco. Há corujas nas praias e também em nossa área urbana, o urutau, que é uma ave interessante, com toda uma lenda por trás. Chamam de ave fantasma, porque nesta época do ano, perto do Dia de Finados, é quando ela se reproduz, e tem um canto diferente, que assusta algumas pessoas”, relata.

Assim como a secretária Heloísa, Cristiano também se preocupa com a questão das pombas, lembrando que elas são pragas e estão ‘roubando’ o alimento das aves nativas.

“O que elas encontrarem pelo chão, vão comer, e poderia ser para os nossos pássaros aquilo. Eles estão competindo por alimento e o complicado é que as pessoas jogam comida para elas, além de ficarem restos na praia, onde elas ficam em grande quantidade. Não é errado chamá-las de pragas urbanas, elas são nocivas, podem transmitir doenças para nós e para as nossas aves”, pontua.

Evento de observação de pássaros durante a quarentena foi destaque nacional

Aves da Minha Janela , por Marcio Albuquerque

Desde 2011, o Instituto Alouatta, que existe há 15 anos e foca em fomentar o ecoturismo e o turismo de aventura em Santa Catarina, possui um convênio com o Consórcio Intermunicipal de Turismo Costa Verde e Mar – CITMAR. Paulo Renato Cadallora, um dos representantes do Instituto, conta que desde então começaram a desenvolver roteiros de ecoturismo para a região, e a cada ano realizam ações de fomento. Dentro disso, propuseram, ainda em 2018, o turismo de observação de aves.

“Firmamos parcerias com fundações ambientais, fizemos um guia de observação de aves, um curso de iniciação à observação – no final de 2019, e para este ano, 2020, havíamos planejado sete eventos presenciais, mas tivemos que adaptar por conta da pandemia”, conta.

Com isso nasceu o Observa Costa Verde & Mar - Aves da Minha Janela, primeiro evento de observação de aves a nível nacional onde a principal regra é não sair de casa para fotografar.

“Conseguimos manter o grupo com 100 pessoas nesses sete encontros, o último do ano aconteceu no domingo (18). Foi uma experiência única, que cruzou fronteiras, com participantes em Portugal, Inglaterra. As pessoas faziam fotos ou vídeos de suas varandas, fotografando o quintal, da janela de casa. Tudo valia. Acabou sendo um evento bem completo”, diz.

Paulo cita que a observação de aves pode ser feita por pessoas de qualquer idade, citando um garoto de 12 anos, do Nordeste, que é adepto do movimento e já fotografou mais de 300 aves. “Ainda mais nessa pandemia, recebemos relatos de pessoas que se sentiam solitárias e não tinham ideia do que estava ao redor delas”, acrescenta. Segundo o especialista, já há ideia de fazer um evento presencial no próximo ano, com elementos que participaram do Aves da Minha Janela.

“O caminho é seguirmos divulgando esse nicho tão importante do turismo, o qual o Brasil tem muito potencial, já que somos o segundo país do mundo em espécies de aves, com 1.1919, perdendo apenas para a Colômbia, que tem 2.015”, completa.



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Observação de pássaros e cuidados com as aves estão crescendo em Balneário

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Quinta, 22/10/2020 15:10.
Renata Rutes
O turismo de observação de pássaros vem aumentando, segundo especialistas, 15% ao ano no Brasil. A modalidade é sensação em países como os Estados Unidos e Peru, além de ter muitos adeptos na Europa – onde estima-se que um terço da população faz parte de algum grupo. Santa Catarina vem se destacando a nível nacional, através de eventos – boa parte deles acontecem em Balneário Camboriú, cidade que por ser rodeada da Mata Atlântica possui variedade de espécies de pássaros, assim como atrai muitas ao longo do ano. O Página 3 conversou nesta semana com moradores da cidade que são entusiastas do assunto, assim como biólogos e veterinários, que contam suas histórias e lembram a importância de olharmos para o meio ambiente e protegê-lo.

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Mãe e filhas dividem o amor pelos pássaros

Lilian, Ligia e Veronica.

Verônica Martins, 74 anos, é mãe de Lilian e Lígia. As três dividem o amor pelos pássaros, que nasceu com a matriarca, ainda nos tempos em que ela morava em Itajaí e Massaranduba. Em Balneário Camboriú, em 1968, Verônica passou a morar no Bairro dos Estados, onde reside até hoje. Ela conta que na época existiam poucas casas na localidade e muito mato pela região.

“Não existia a BR ainda, estavam fazendo ela. Não tinha a rodoviária também. E com isso, pelo mata, chegavam muitos pássaros. Desde essa época eu colocava um pouco de comida para eles, e continuo a fazer isso até hoje, por 52 anos”, diz.

Perto da casa da aposentada há uma praça, ‘separada apenas por um muro baixo’, ela costuma ir até lá e também deixar comida para os passarinhos.

“Eu tinha uma pitangueira grande no quintal, tive que cortar porque atrapalhava o telhado, e plantei mudas na pracinha também. Os passarinhos vêm comer, coloco banana, mamão, semente de girassol, nada ‘não natural’. Mas percebo que eles vêm bem menos do que antigamente, não sei se eles estão indo embora, por qual motivo estão sumindo, se é a falta de espaço ou alimentação para eles”, conta, citando que há aves que vêm ‘do sul’ e ficam na região por apenas alguns meses, assim como há também algumas nativas.

“Há muitos coloridos, como a saíra, bem-te-vi, canários, sabiá, rolinhas, coleirinhas. Eu queria ter mais espaço em casa para ampliar esse cuidado. Minhas filhas também cuidam, quando eu não estou em casa elas vêm e alimentam. É preciso preservar o pouco que ainda temos. Os pássaros precisam ser livres, voar, gostaria que as pessoas não mantivessem os passarinhos em gaiolas. O certo é tratar deles e depois soltar. É tão bom cuidar, mas o lugar deles é na natureza”, acrescenta.

O amor das irmãs, as artistas Lilian e Lígia, pelas aves se reflete nos trabalhos: elas gostam de fotografar e pintar pássaros. Dizem que o amor da mãe pelos bichinhos inspira. Contam que recentemente quatro passarinhos caíram de um ninho e a mãe cuidou.

“Uma vez viajamos e ela levou o pássaro junto porque precisava alimentar ele de hora em hora. O cuidado com a natureza sempre foi muito presente, desde a nossa infância”, conta Lilian, que vive em um sítio em Gaspar, onde também aparecem muitos pássaros, como periquitos, papagaios, tucanos, e até mesmo uma coruja(foto), a qual ela define como ‘inquilina’ do atelier do marido, o escultor Pita Camargo.

Urubu e gaivota no apartamento de Ligia.

Lígia reside em um edifício na Barra Sul. O apartamento fica no 25º andar e recebe frequentemente ‘visita’, que pousam próximo das janelas, como gaivotas, gaviões e urubus.

“É muito bacana ter eles por perto, já é algo comum, de vez em quando eles aparecem. Já fotografei algumas vezes. Mesmo assim é inusitado, às vezes levamos cada susto (risos). Tenho que fechar as cortinas, porque tenho uma cachorrinha e ela late, quer pegar”, salienta.

Dado Cherem descobriu um novo prazer: fotografar pássaros

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC), Luiz Eduardo Cherem (Dado) descobriu com a quarentena da pandemia de Covid-19 um novo hobby: fotografar pássaros. Ele conta que apesar de sempre gostar de passarinhos, só começou a fotografá-los em maio deste ano, quando comprou uma câmera especialmente para isso.

“Era algo que não tinha aflorado, apesar de eu sempre ter tido esse sentimento. Acabei comprando uma Canon, e aproveito para fotografar quando viajo com a família. Fui para Urubici, também quando vou para Florianópolis para trabalhar, assim como na região dos Macacos, em Camboriú. Eu moro em um condomínio na Praia Brava e aqui tem mata, então também consigo fotografar alguns pássaros. Eu vivo com a minha câmera por perto. Nas horas vagas me dedico a isso, acordo cedo, às 6h, e aproveito para fotografar”, destaca.

Lavadeira mascarada alimentando o filhote, quero-quero, pintassilgo e tié fotografados por Dado.

Dado afirma que há pássaros que chamam mais a sua atenção, como a saíra, sabiá, tiê-preto, alma-de-gato, lavadeira-mascarada e pica-pau-do-campo.

“Gosto muito do aracuã também, que era muito caçado no passado, e agora as pessoas têm a consciência de não matar. Frustração eu tenho por nunca ter visto em Balneário o tucano, mas já consegui fotografá-lo em Santo Amaro”, diz, comentando que se preocupa que os jovens vivem muito o mundo virtual e que precisam ser mais conscientes quanto ao meio ambiente.

“Precisamos nos atentar quanto a preservação dos biomas. Quanto mais termos conhecimento sobre os pássaros, mais conscientes seremos quanto a importância deles, que polinizam, levam sementes, ajudam no controle de pragas. A presença ou ausência deles é sinal bom ou ruim. A minha geração castigou muito os pássaros com a caça, prendíamos em gaiolas. O pássaro bonito é o pássaro na natureza”, completa.

Saíra-bico-fino: a ave-símbolo de Balneário Camboriú

Nem todos sabem, mas Balneário Camboriú possui, desde 2018, uma ave-símbolo: a saíra-bico-fino, escolhida pelo público. Carla Cravo, bióloga e representante do Instituto de Desenvolvimento e Integração Ambiental (IDEIA), responsável pela votação, conta que o macho possui coloração azul e a fêmea tem penas verdes com nuances azuis – o que remete ao mar e a natureza, duas das principais características de Balneário.

“O critério da escolha era procurar dar uma identidade para a nossa cidade. A saíra-bico-fino é facilmente avistada. Eu fui professora da Educação Infantil no Carrossel, no Bairro das Nações, ‘aos pés’ do morro da prefeitura, e na escola conseguimos catalogar 23 espécies diferentes de aves. A saíra-bico-fino era nossa visitante diária, assim como é possível vê-la em diversos locais da cidade, como Interpraias, Bairro das Nações, perto de mata”, comenta.

Carla relembra que a votação para a escolha da ave-símbolo ficou aberta por dois meses online, e também percorreram as escolas da cidade para que as crianças também auxiliassem no processo. Cerca de sete mil pessoas votaram e a saíra foi escolhida com 47% dos votos. Ela concorreu contra a gaivota, garça-branca-pequena, sabiá-branco, cambacica e o beija-flor-tesoura – todos bem comuns em Balneário e região.

“A Santacosta (conhecida marca local, com sede na Praia Brava de Itajaí) também fez uma camiseta na época, com a saíra. É muito bacana uma cidade ter sua ave-símbolo, porque conhecendo os habitantes da nossa fauna, as pessoas ajudam a cuidar dos ambientes que ainda temos”, diz.

Aves são reabilitadas e, se possível, devolvidas para a natureza no Complexo Cyro Gevaerd

80% dos animais que lá vivem são resgatados

Filhotes de gambás, papagaio e araras-canindé resgatados.

Filhote arara sendo pesado e alimentado

O Página 3 visitou o Complexo Ambiental Cyro Gevaerd (mais conhecido como Zoológico da Santur) na manhã de quarta-feira (21). O local está seguindo todas as normas sanitárias de prevenção ao Covid-19 e recebe ao público diariamente, com mais de 30 ‘pit-stops’ de álcool gel espalhados pelo parque. Guiada pela bióloga do zoo, Márcia Achutti, e pela veterinária Samara de Oliveira Freitas, a reportagem visitou as principais áreas do Complexo, desde a passarela que fica logo na entrada, onde o público pode conferir bem de perto os recintos de alguns animais, como lhamas, emas e avestruzes, assim como o espaço onde ficam os filhotes – no dia da visita estavam lá araras-canindé, papagaio, gambás e até ouriços – todos resgatados por órgãos como IMA e Guarda Ambiental de Balneário Camboriú, vítimas de maus tratos e/ou até mesmo tráfico, e também o espaço onde os animais que precisam de acompanhamento veterinário permanecem.

“Tivemos uma surpresa recente, que foi um filhote de coruja buraqueira(foto). Ano passado recebemos quatro buraqueiras, que vieram pelo IMA, com problemas de asa e cegas, não podiam ser soltas. Fomos surpreendidos há três semanas, elas colocaram ovos e nasceu uma bebezinha. Filhotes podem ser um problema, porque temos que ensiná-los a ser independentes, e eles podem acabar se acostumando, porque todos os dias a equipe os alimenta na boca, pesamos diariamente também”, salienta Márcia.

Na ‘reabilitação’, o parque recebe principalmente aves, como tucano, arara, gavião e até gaivotas(foto) – essas últimas vindas de uma parceria com o R3 e o projeto de Monitoramento das Praias, de Florianópolis. Elas possuem problemas físicos, principalmente nas asas, e estão sendo cuidadas pela equipe do zoo, e ganharão em breve um recinto próprio, tendo então uma ‘segunda chance’ de viverem bem.

A médica veterinária Samara conta que sempre quando chegam animais resgatados é feita uma avaliação para ver se possuem condições de retornar à natureza. Normalmente os que ficam no parque são aqueles com problemas físicos, como asa que precisa ser amputada ou até mesmo cegos.

“Monitoramos o dia a dia deles no recinto, se estão comendo normalmente, se vai ser aceito com o grupo, caso hajam outras aves no recinto onde ele vai ficar. Inclusive sempre onde há um animal resgatado, contamos a ‘história’ deles com placas informativas, como é o caso do tucano-do-bico-verde Thor,(foto) que teve um problema na asa e no bico”, diz Márcia.

Um ponto destacado por Samara e pela bióloga Márcia é que o foco principal é soltar os animais, e que só não são devolvidos para a natureza aqueles que não terão condição de sobreviverem sozinhos – tanto que 80% de todos os animais que vivem no Complexo são resgatados e possuem algum problema físico ou ‘psicológico’, sendo dóceis demais e muito apegados ao convívio com humanos, como foi o caso de uma aracuã, que no dia de ser solta voltava para perto da equipe, ‘recusando-se’ a ficar na natureza. Ela vive até hoje no zoo.

“Fazemos uma adaptação para que ele viva bem no parque, como é o caso de um gavião cego. Ele conseguiu aprender onde fica a comida e vive muito bem no recinto dele”, conta a veterinária, citando que também recebem pombos, mas quando eles chegam até o zoo normalmente já estão ‘no último suspiro’. Aqueles reabilitados, acabam sendo soltos.

As especialistas de preocupam com as aves presas em gaiolas, além das queimadas em matas ocorridas recentemente.

“Há aves que chegam de apreensão que passaram tanto tempo presas em gaiolas que às vezes nem conseguem ser soltas. Tem gente que diz ‘ah, por que em uma apreensão não abrem as gaiolas e deixam todas voarem?’, mas se elas passaram a vida toda em uma gaiola pequena, comendo ração, ela não vai conseguir isso na natureza, por isso também acabamos ficando com algumas nessa situação”, acrescenta Samara.

Márcia completa que quem optar por ter pets exóticos, como araras – inclusive há alguns criadores na região, é preciso cuidado e entender que esses animais necessitam de uma atenção e recinto especial.

“Não podem viver em apartamento, por exemplo. Precisam ser microchipados, ter origem certa, e precisa ter o ambiente certo para ela. Não compre porque está na moda, esses animais têm uma personalidade diferente, não é como um gato ou cão”, aponta.

Algumas aves que vivem no zoológico.

Unipraias: união da natureza com o turismo

Aves nos tratadouros, gralha-azu e tucanos.

O Parque Unipraias é um dos atrativos turísticos mais conhecidos de Balneário Camboriú, exatamente por unir as belezas naturais da cidade com uma das vistas mais incríveis do alto de seus bondinhos aéreos. No passeio, os visitantes podem caminhar por trilhas, onde é possível ver diversas aves que ali vivem.

O diretor do empreendimento, Evódio João de Souza, salienta que as mais fáceis de serem avistadas são a gralha azul, aracuã e o tucano.

“Elas se alimentam nos tratadores distribuídos ao longo do parque, que oferecem frutas e são regularmente higienizadas, conforme recomendação de biólogos. A interação entre visitantes, funcionários e aves ocorre de forma muito natural, pois elas estão em seu habitat, livres e é um privilégio estar em contato com tantas espécies fora do cativeiro. De certa forma, os colaboradores se capacitam com essa convivência diária e conseguem interpretar facilmente o comportamento de cada ave. Para o visitante, é uma experiência singular avistar os tucanos enquanto caminha pelas trilhas ou ver se aproximar um aracuã enquanto toma um suco no mirante. São muitas aves lindas e majestosas, que se tornaram uma atração à parte, oferecida pela natureza”, explica.

O Unipraias conta também com o projeto Parque Escola, que rendeu ao atrativo turístico diversos prêmios, sendo um destaque como educação ambiental, focado nos estudantes de escolas públicas e privadas. Através dele, os alunos têm a oportunidade de passear no bondinho e ainda são guiados pelas trilhas, onde os monitores do Unipraias abordam os diferentes aspectos da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta, assim como a importância de sua preservação.

“Desde a implantação do projeto, em 2001, já atendeu mais de 135 mil estudantes e 14 mil professores, um dos mais bem-sucedidos trabalhos de educação ambiental de Santa Catarina. A preocupação com a conservação da flora e fauna é constante aqui no Unipraias, pois o visitante, ao vir até aqui, busca esse contato com a Mata Atlântica e acaba se tornando nosso principal fiscalizador”, diz, acrescentando que acreditam que o tema envolve toda a sociedade e projetos como o Parque Escola apostam no futuro, uma vez que focam em crianças e adolescentes.

“O despertar da consciência pela preservação deve começar cedo e nessa idade eles observam e exploram o meio ambiente com curiosidade, percebendo-se como ser integrante, dependente, transformador e, acima de tudo, que tem atitudes de conservação”, analisa.

Secretária do Meio Ambiente analisa situação das aves na cidade

Pombas na praia central de Balneario

A secretária do Meio Ambiente de Balneário Camboriú, Maria Heloísa Lenzi, lembra que há muitos fragmentos de Mata Atlântica na cidade, com uma ‘biodiversidade bastante considerável’, por isso que é tão importante a existência de árvores no meio urbano, permitindo assim o ‘trânsito de espécies’, além de garantir a dispersão de sementes.

“Isso com relação às aves nativas, como as nossas gaivotas(foto), pirupiru, garça, trinta-réis, quero-quero, saíras, tucano-bico-verde-, aracuã, tangará, também há corujas na região das praias agrestes, como em Taquaras. No Parque Natural Raimundo Gonçalez Malta (o Parque Ecológico, sede também da SEMAM) aparecem gralha-azul, gavião”, conta.

Uma das preocupações da SEMAM é a questão das pombas, animais considerados pragas urbanas e que são originários do Marrocos, já que eles competem com os animais silvestres da região.

“Não podemos fazer nada sobre porque configura maus tratos, mas o principal jeito de reduzir é parar de alimentá-los, assim eles passam a ter menos filhotes e consequentemente reduz a comunidade. Eles realmente não deveriam estar por aqui, mas estão em grande número”, diz.

Segundo Heloísa, há pessoas que denunciam desde a presença dessas aves, pedindo que a prefeitura ‘faça algo sobre’, como ainda aqueles que reclamam que proibiram de alimentá-los.

“Os dois caminhos são errados. Não podemos capturar e matar eles, mas se houver diminuição na oferta de alimento, haverá um controle biológico. Quando alimentam-se os pombos proliferam-se ratos também, e os próprios pombos podem transmitir doenças para nós. Todo animal exótico compete com a fauna nativa, e principalmente por isso não é positivo termos aqui”, finaliza.

Colisões de aves: uma realidade que precisa mudar

Um assunto que vem sendo bastante discutido em Balneário Camboriú é a colisão de aves em vidros – em casas, prédios e comércios – causando a morte da maioria delas. Após uma matéria publicada pelo Página 3 em setembro o tema ganhou espaço, e foi definido pelo Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa Brava que podem ser utilizados vidros em construções da localidade em aberturas, como portas e janelas. Só será tolerado o uso como barreira física com uso de dispositivos que evitem o embate das aves como adesivos, cortinas etc.

A professora e pedagoga Patrícia Debrassi, representante da Associação de Conscientização para a Preservação do Meio Ambiente (ACONPREMA), é uma das principais militantes da causa e vem fortemente buscando conscientizar a população de Balneário Camboriú acerca do tema.

“A partir da publicação do Página 3, que nos deu abertura, conseguimos fazer as pessoas passarem a perceber esse problema. Muita gente até então não parava para analisar. Pautas ambientais precisam ser mais divulgadas como forma de conscientizar o público, por isso pedimos esse apoio também da prefeitura e da Secretaria do Meio Ambiente”, define.

Aproveitando o período eleitoral, a ACONPREMA está entregando para candidatos a prefeito e vereadores uma carta ambiental, tanto em Balneário quanto em Camboriú, citando a importância de uma legislação voltada para esse segmento, com destaque para as normas quanto uso de vidros em construções e também calçadas ecológicas.

Viidro sinalizado para evitar a colisão de aves

“São ações simples que podem ser desenvolvidas. Com a aprovação do regramento para utilização na APA já é um começo, agora vamos aguardar e tentar tornar isso a nível municipal. Se conseguirmos, será uma das primeiras legislações do tipo no Brasil. Queremos que os construtores nos apoiem a evitar as colisões, principalmente nessas fachadas enormes de vidros que há na cidade. É possível utilizar adesivos, cortinas, redes, cordas... há inúmeras opções”, explica.

Patrícia finaliza lembrando que o grande diferencial de Balneário Camboriú é o contraste do concreto com a área verde e que os turistas não vão gostar de visitar um lugar ‘só com prédios, cimento, sem árvores’.

“Precisamos planejar uma cidade para daqui 30, 50 anos, e não pensar só nos próximos cinco, para não acontecer o que aconteceu com a praia e com o Rio Marambaia, tudo por falta de planejamento. Nós somos só uma das espécies que aqui vivem, e cabe a nós pensarmos num futuro para que todos possamos existir”, salienta.

Aves Catarinenses: biólogo de Balneário está produzindo segundo livro

O biólogo de Balneário Camboriú, Cristiano Voitina, se dedica ao estudo das aves há 12 anos, inicialmente incentivado pela falta de conhecimento e conteúdo das aves brasileiras e de cada localidade. Focado na causa ambiental, ele começou a ver que se mostrasse para a comunidade quem são os moradores das matas, pássaros e outros animais, o público passaria a se sensibilizar mais. Disso, surgiu o seu primeiro livro, Aves Catarinenses, lançado em 2017. Neste momento, Cristiano está viajando pelo Brasil e por países próximos, como a Argentina, para produzir o seu segundo livro. Ele conversou com o Página 3 por telefone, enquanto estava em São Paulo. O diferencial dessa nova publicação será a profundidade: no primeiro livro ele só pôde usar uma página para falar sobre cada ave, e desta vez poderá contar mais histórias e curiosidades sobre elas.

“Vai estar mais ‘recheado’ de histórias, com muitas aventuras e emoções”, antecipa.

Outra grande defesa de Voitina é o turismo de observação, segmento que conta com 40 milhões de adeptos somente nos Estados Unidos e na Europa estima-se que um terço da população seja observadora de pássaros.

“Nós só temos cerca de 40 mil observadores no Brasil, e temos 20% de todas as aves do mundo aqui. O Peru, que é um país muito menor que o Brasil, recebe quatro vezes mais turistas observadores do que aqui. Fico me perguntando, o que falta para os políticos abrirem os olhos e fomentarem isso de forma sustentável? Podemos movimentar bilhões de reais. Balneário já possui toda a estrutura hoteleira, gastronômica. Temos muito potencial”, explica.

O especialista diz que a população precisa ser mais consciente quanto as aves, já que os humanos podem escolher onde vivem, já os animais não, citando que um quero-quero não consegue morar dentro da mata, já que é adaptado para a área aberta, enquanto há pássaros que não conseguem viver em pastagem, só em florestas.

“O vidro também é muito ‘doido’ para o pássaro, pois funciona como um espelho. Ele vai voar, vai dar contra o vidro e morrer. Já encontrei diversas aves mortas por colisões em vidros em Balneário, infelizmente. Até um tucano. É lamentável isso, e ao mesmo tempo louvável o que a Patrícia está fazendo. Ela viu a situação, reclamou e fez algo sobre. Só reclamar e não fazer nada não adianta”, afirma.

Voitina aproveita para lembrar que Balneário precisa cuidar de suas riquezas naturais, e impedir que aconteça o mesmo que aconteceu com a praia central, que está ‘destruída, com o mar poluído, e com o sol somente até um tempo’.

Sabiá-laranjeira ave-símbolo do Brasil fotografada por Cristiano Voitina.

“Temos que pensar na qualidade de vida para todos os seres vivos. A saúde ambiental é para todos, não somente para nós. As pessoas estão começando a sentir falta das partes ‘mais silvestres’, quanto mais vida temos ao nosso redor, melhor nos sentimos. Não precisamos destruir para que haja progresso. Temos muitas aves que vivem dentro da área urbana e que precisam do nosso olhar, como o joão-de-barro, bem-te-vi, andorinha, quero-quero... todos os anos também vêm o falcão-peregrino, que viaja da América do Norte e chega aqui, além das gaivotas, garças, trinta-réis, cambacica, sabiá-branco. Há corujas nas praias e também em nossa área urbana, o urutau, que é uma ave interessante, com toda uma lenda por trás. Chamam de ave fantasma, porque nesta época do ano, perto do Dia de Finados, é quando ela se reproduz, e tem um canto diferente, que assusta algumas pessoas”, relata.

Assim como a secretária Heloísa, Cristiano também se preocupa com a questão das pombas, lembrando que elas são pragas e estão ‘roubando’ o alimento das aves nativas.

“O que elas encontrarem pelo chão, vão comer, e poderia ser para os nossos pássaros aquilo. Eles estão competindo por alimento e o complicado é que as pessoas jogam comida para elas, além de ficarem restos na praia, onde elas ficam em grande quantidade. Não é errado chamá-las de pragas urbanas, elas são nocivas, podem transmitir doenças para nós e para as nossas aves”, pontua.

Evento de observação de pássaros durante a quarentena foi destaque nacional

Aves da Minha Janela , por Marcio Albuquerque

Desde 2011, o Instituto Alouatta, que existe há 15 anos e foca em fomentar o ecoturismo e o turismo de aventura em Santa Catarina, possui um convênio com o Consórcio Intermunicipal de Turismo Costa Verde e Mar – CITMAR. Paulo Renato Cadallora, um dos representantes do Instituto, conta que desde então começaram a desenvolver roteiros de ecoturismo para a região, e a cada ano realizam ações de fomento. Dentro disso, propuseram, ainda em 2018, o turismo de observação de aves.

“Firmamos parcerias com fundações ambientais, fizemos um guia de observação de aves, um curso de iniciação à observação – no final de 2019, e para este ano, 2020, havíamos planejado sete eventos presenciais, mas tivemos que adaptar por conta da pandemia”, conta.

Com isso nasceu o Observa Costa Verde & Mar - Aves da Minha Janela, primeiro evento de observação de aves a nível nacional onde a principal regra é não sair de casa para fotografar.

“Conseguimos manter o grupo com 100 pessoas nesses sete encontros, o último do ano aconteceu no domingo (18). Foi uma experiência única, que cruzou fronteiras, com participantes em Portugal, Inglaterra. As pessoas faziam fotos ou vídeos de suas varandas, fotografando o quintal, da janela de casa. Tudo valia. Acabou sendo um evento bem completo”, diz.

Paulo cita que a observação de aves pode ser feita por pessoas de qualquer idade, citando um garoto de 12 anos, do Nordeste, que é adepto do movimento e já fotografou mais de 300 aves. “Ainda mais nessa pandemia, recebemos relatos de pessoas que se sentiam solitárias e não tinham ideia do que estava ao redor delas”, acrescenta. Segundo o especialista, já há ideia de fazer um evento presencial no próximo ano, com elementos que participaram do Aves da Minha Janela.

“O caminho é seguirmos divulgando esse nicho tão importante do turismo, o qual o Brasil tem muito potencial, já que somos o segundo país do mundo em espécies de aves, com 1.1919, perdendo apenas para a Colômbia, que tem 2.015”, completa.



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