Jornal Página 3
Os prós e os contras que vieram com o celular
Fotos Divulgação

 Responda rápido: você conhece algum adulto que não tenha celular? São poucos. Na verdade estamos dependendo cada dia mais dos smartphones. Encontramos neles a sensação de companhia que precisávamos para nos sentir seguros, mesmo estando sozinhos e mergulhamos no mundo de funcionalidades sedutoras. Quem indica isso são os pesquisadores, que têm se debruçado sobre esta “recente” relação do homem com a internet. Mas além das pesquisas, vemos no dia a dia como o uso exagerado dos dispositivos eletrônicos tem causado consequências como isolamento, depressão, lesões e até a dependência.

Daniele Sisnandes

 

O começo de tudo

Já nos habituamos tanto que não percebemos, mas a internet começou a se popularizar no Brasil em 1997, ou seja, há apenas 20 anos. Já os smartphones apareceram em meados dos anos 2000. A Apple lançou o seu primeiro Iphone há uma década (chegou só em 2008 no Brasil), revolucionando o mercado. Desde então as empresas vivem uma corrida permanente para seduzir os usuários.  

E elas têm cumprido seu papel. A última estimativa do IBGE apontou que o Brasil tem cerca de 207 milhões de habitantes. Já segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) são 242 milhões de linhas de telefonia móvel em operação. Para efeito de ilustração, é como se todos os habitantes do país (inclusive os bebês) tivessem um celular.

 

Cinco vantagens dos celularese dispositivos móveis 

Mas o que atrai tanto o usuário?

A convite do Página 3, o social media e jornalista Joel Minusculi, gerente de mídias digitais da Oficina das Palavras, fez um resumo dos principais benefícios trazidos pelos celulares inteligentes.

Mobilidade: a principal vantagem por permitir a comunicação com outras pessoas e fazer tarefas através deles onde quer que estejamos. 

Segurança: poder chamar por ajuda em qualquer lugar que você esteja (desde que tenha sinal). Seja por um acidente que ocorreu com você ou uma pessoa próxima na rua em apuros. 

Praticidade: principalmente com o surgimento dos smartphones, existem hoje milhões de aplicativos que podem ser usados para facilitar a vida. Desde simples controle financeiro pessoal, passando por jogos para matar o tempo em filas, até aplicativos para ajudar a saúde física e mental. 

Acessibilidade: a tecnologia mais barata e prática permite que pessoas com algum tipo de deficiência possam aproveitar experiências que antes eram complicadas. Por exemplo, pessoas com problemas de visão usam a câmera do celular que traduz as imagens em arquivos sonoros. Ou mesmo pessoas com problema de audição usam aplicativos que captam áudio e transformam em sinais de LIBRAS.

Democratização da internet: celulares e outros dispositivos móveis são mais baratos e fáceis de aprender a lidar do que a maioria dos computadores. Isso permite mais pessoas acessarem a internet e participar da vida virtual.

 

Educação quer usar a tecnologia a favor

Apesar de todas as funcionalidades, os dispositivos móveis surtiram um certo pavor logo que começaram a se popularizar entre os mais jovens, especialmente dentro das escolas.

Em Balneário não foi diferente, e em 2010 a Câmara de Vereadores aprovou uma lei que proibiu o uso de celulares, câmeras e filmadoras em todos os colégios, públicos e privados. Agora um movimento que reverter esses anos de atraso.

A diretora do Departamento Técnico Pedagógico, Nilzete Teixeira, conta que a ideia de sugerir a derrubada desta lei surgiu durante uma formação de professores de matemática sobre dispositivos móveis.

“Não estamos querendo que seja liberado para os alunos usarem de qualquer forma, mas sim para usarmos no aprendizado”, explicou o coordenador dos professores de matemática e informática, Juliano Júnior Machado.

A professora de Matemática do Centro Educacional Municipal (CEM) Ivo Silveira, Vera Cristina Magnani, também defende o uso da tecnologia.

“A tecnologia faz parte da vida dos alunos e o professor tem que se atualizar. Acredito que isso é o futuro para fazer a criança a prestar mais atenção, aprender de forma mais fácil e ter interesse no conteúdo abordado na sala de aula. O aluno já nasce com a tecnologia, cabe a nós nos adequarmos”, disse.

Eles se mobilizaram e produziram um documento, assinado por educadores, que será encaminhado à Comissão da Educação da Câmara.

 

Planejamento e estrutura

A diretora do Departamento Técnico Pedagógico, Nilzete Teixeira relata que a gestão acredita cada vez mais no uso das mídias e vê nelas uma forma de estender o conhecimento e a estrutura já disponibilizada nos laboratórios. A Educação está inclusive em conversação com a Google para tornar os professores multiplicadores do conhecimento através da tecnologia. 

A parceria ainda não está fechada, mas a diretora adiantou que a empresa fará uma apresentação em breve e que a intenção é aderir ao programa, mesmo que em parte.

Desde o início do ano a Educação vem dando atenção a laboratórios das escolas, alguns estavam obsoletos e já foram reativados para os alunos. A pasta está criando normativas de uso desses espaços. “Não é só ter um laboratório, é necessário definir como será o uso, o planejamento das aulas, a intencionalidade para que seja compartilhado”, comentou. 

Também é intenção que com a liberação do uso, os dispositivos dos próprios alunos passem a ser empregados como ferramenta a favor da aprendizagem. Segundo Nilzete, outra preocupação da gestão é melhorar a rede através da implantação de um projeto de fibra ótica.

 

EDUCADORES OPINAM

 

Concordo com a utilização do celular como ferramenta pedagógica. Trata-se de um instrumento completamente incorporado à vida de todos os membros da família, inclusive das crianças. Vale ressaltar o papel do professor como mediador desse processo, pois os objetivos de aprendizagem que deverão nortear a utilização dos aparelhos. A escola precisa estar aberta a utilização das novas tecnologias, trazendo para as salas de aula os conhecimentos e as experiências globais que estão disponíveis na rede, ensinando também o exercício da análise e da crítica sobre os seus conteúdos”, doutora Mara Regina Zluhan, coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Avantis. 

 “A nossa política funciona super bem, o uso de celular é proibido durante a aula e os alunos respeitam, mas o uso nos intervalos é liberado, inclusive temos rede para eles usarem. Então não temos problemas com isso. Depende muito da postura da direção e coordenação, conseguir controlar ou não. Se estão querendo derrubar a lei, então ninguém deve estar tendo problema com isso”, Denis Kerber, biólogo, professor no Sistema COC de Ensino. 

 

“Eu não permito, só o tablet ou notebook, porque aí eles usam a internet do colégio e alguns aplicativos são bloqueados. Se não, é tenso controlar o que fazem. Mas sou a favor de usar dispositivos digitais no momento que o professor permite. Eles têm livro digital, fazem pesquisa, usam o Google Drive, temos até uma revista no colégio sobre educação digital. É muito útil para a aprendizagem, já o celular às vezes atrapalha porque eles ficam em rede social, tiram foto, filmam a aula, tem o lado negativo, por isso tem que ser muito bem orientado”, Mariana Ferret, professora de Artes do Colégio Salesiano, de Itajaí. 

“Eu defendo o uso do celular em sala de aula como uma ferramenta pedagógica rica em possibilidades capaz de auxiliar no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. O importante é tratar da organização e funcionalidade do uso. Por isso o projeto pedagógico, o planejamento educativo precisam definir o propósito desta utilização. Vivemos em um mundo altamente tecnológico e negar isso na escola é uma postura incoerente quando pensamos na educação como possibilidade de desenvolvimento de cidadania. Portanto planejar e disciplinar o uso com função pedagógica é a tarefa urgente da escola”, Marisa Zanoni Fernandes, doutora em educação e professora universitária.

 

Mas afinal, qual é o limite?

Os benefícios do uso do celular são muitos e concretos, entretanto, qual é a linha que separa o lazer e a necessidade da dependência? 

O Instituto Delete - primeiro núcleo no Brasil especializado em Detox Digital e institucionalizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) para pesquisar sobre o assunto e oferecer suporte e tratamento aos usuários abusivos de tecnologia - desenvolveu uma lista de níveis (veja ao lado) que pode ajudar nessa identificação. 

Para o núcleo, “a dependência digital não está diretamente relacionada ao tempo de conexão de uma pessoa aos seus dispositivos eletrônicos; mas sim ao nível de perda de controle na vida real, trazendo prejuízos nos campos profissional, familiar, afetivo ou social”. 


1 - Excitação e Segurança

Tentativa de esquecer problemas, buscando a tecnologia como um meio melhor ou mais seguro. Primeiro indício normalmente mascarado com a falsa sensação de satisfação experimentada ao utilizar a tecnologia.

2 - Relevância

Importância que dá à necessidade de se conectar e usar dispositivos. Ocorre quando não consegue desligar o pensamento de forma que a tecnologia começa a dominar lentamente o comando da sua vida

3 - Tolerância

Tempo dedicado e nível de controle que se tem dela. Gastam cada vez mais horas para buscar as mesmas sensações experimentadas antes. Perde o controle e substitui os programas reais do dia por maior tempo na tecnologia.

4 - Abstinência e Efeitos

Quando não estão conectados ou não conseguem usar certos dispositivos ou aplicativos, tornam-se irritados, ansiosos e com medo, podendo gerar alterações no padrão do sono ou alimentação e sinais de depressão.

5 - Evidências de Conflitos

Quando o uso excessivo compromete as relações na vida real. Este é o momento em que percebem a evidência do problema, mas sentem-se incapazes de reduzir ou parar, podendo comprometer a educação, desempenho profissional e social.

Fonte: Instituto Delete


 

Quando o celular gera problemas comportamentais

Estudiosos vêm definindo nomes e conceitos para novos padrões motivados pelo uso dos smartphones. A nomofobia é um deles. Esse termo é uma abreviação, do inglês, “no mobile phone phobia”, ou fobia de ficar sem celular. 

As pessoas que são acometidas por essa fobia podem desenvolver sintomas semelhantes a ataques de pânico se afastadas dos celulares ou mesmo desconectadas da internet. O tratamento inclui terapias e até o uso de medicamentos.

Os especialistas Anna Lúcia Spear King e Antonio Egidio Nardi, que possuem artigos e livros sobre o tema, indicam que a busca do equilíbrio deve ser uma constante e que os pais devem ser vigilantes quanto ao uso dos filhos, para que essa relação com a tecnologia não prive ninguém da vida social.

O Phubbing é outro termo relacionado. Nascido da união das palavras phone (celular) e snubbing (esnobar), ele vem sendo usado para definir o ato de ignorar ou deixar de conversar com alguém por estar focado no celular. 

O Sexting, ou a prática de enviar conteúdo de conotação sexual pelo celular também vem se popularizando, inclusive entre os mais jovens. Enviar mensagens ou nudes pode ser uma escolha com consequências sérias.

 

Terapia e atividades físicas podem ajudar 

Segundo a professora da Univali e doutora em Psicologia, Giovana Delvan Stuhler, pesquisas ligadas à neurociência mostram que é possível que a relação com o celular gere sensações de recompensa no cérebro, como acontece com substâncias como álcool e drogas.

Ela comenta que esses comportamentos possam estar camuflando ou negligenciando outros transtornos. “Geralmente quem procura o tratamento não é a pessoa que apresenta a dependência, é alguém do convívio e nem é pela dependência tecnológica, é por conta de uma ansiedade ou depressão”, complementa Giovana.

Muitas vezes esse comportamento é uma fuga. Por exemplo a pessoa tem uma fobia social e encontra na rede uma forma de se comunicar, deixando de lado as convivências da vida real.

Quando a pessoa demonstra dependência e até sofrimento em ficar sem rede e sem poder se comunicar, o tratamento deve ser indicado no sentido de tentar encontrar outras atividades que possam gerar consequências positivas e conforto. 

Não quer dizer trocar um vício pelo outro, no entanto, buscar um equilíbrio para realinhar a relação com o uso do celular. Para isso, recomenda-se dividir o tempo em que a pessoa passa no celular com atividades físicas ou aumentar o tempo em outras atividades senão à tela do smartphone.

A terapia cognitivo-comportamental é outra abordagem indicada. Ela vai ajudar a identificar relações de dependência e auxiliar com reestruturação cognitiva encontrando outra forma de se relacionar com o aparelho, além de técnicas de relaxamento, caso a pessoa fique muito ansiosa. 

 

Celular pode causar problemas posturais?

“Apesar de ser uma ideia bem difundida na população em geral, e até mesmo pelos profissionais da saúde, de que o uso do celular ou computador pode gerar alterações na postura é mais mito do que verdade. Pode parecer estranho, mas não existem evidências científicas que comprovem esta ideia”, afirma o fisioterapeuta Murilo de Marco.

Ele lembra no entanto, que pessoas que usam demais o celular e o PC tendem a ser mais sedentárias e passam muitas horas sentadas na mesma posição. É aí que mora o perigo. 

“Esta falta de mobilidade do corpo pode ser muito prejudicial para a coluna e, inclusive, já existem estudos que mostram a associação entre sedentarismo e dor lombar”, comenta. Ele ressalta que o corpo foi feito para estar em movimento.

Murilo destaca que o ponto principal para a saúde da coluna é a atividade física, de preferência um exercício que a pessoa goste. A fisioterapia especializada também pode ajudar bastante, por isso a importância de fazer uma boa avaliação com um profissional. 

“Muitas pessoas costumam negligenciar a dor e esperar muito tempo para buscar ajuda, mas isso pode ser bastante prejudicial, pois, em alguns casos, quanto mais crônica (antiga) a dor mais difícil pode ser o tratamento”, alerta.

Tratamentos para melhorar a postura levam um certo tempo. Murilo indica pelo menos quatro ou seis sessões (sendo uma por semana) para se perceber melhora. 

“O mais importante no tratamento não é, necessariamente, a melhora da postura e sim a melhora da mobilidade da coluna. Isso é fundamental! Por isso, a minha dica é que as pessoas se preocupem menos em ter uma postura correta e mais em ter um corpo que consiga se movimentar livremente”, enfatiza.

Apesar de muitas informações difundidas na internet de lesões causadas pelo uso excessivo de celular, Murilo acredita que esses problemas aconteçam só em casos extremos, não são comuns. Ele mesmo nunca atendeu alguém com queixa do tipo na cidade. 

O fisioterapeuta recomenda a quem sentir desconforto, que tente mudar a forma como segura o celular. “Se as dores persistirem a fisioterapia pode ajudar sim”, encerra. 

 

E  N  Q  U  E  T  E

 

Priscila Ogg, cantora

“Minha relação com o celular é intensa. Mistura trabalho e vida pessoal. Por ser artista,  recebo muitas mensagens para trabalhos via celular. Só largo o aparelho em caso de as duas baterias extras acabarem e realmente não ter onde carregá-lo e quando durmo (inclusive só consigo dormir direito após checar todas as mensagens. Se o celular vibra, não consigo não olhar. Os olhos às vezes ardem por conta da luz da tela, dores de cabeça são comuns e sei que isso não é saudável. Mas como lidar com a demanda de informações em um mundo onde se faz o que precisa por um simples aparelho? A coluna também sente a sobrecarga de ficar tanto tempo com o pescoço curvado, mas o que realmente pega é o fato da prisão tecnológica a qual nos dispomos”. 

  

Leonardo Mohr, comerciante

“Uso para trabalho e para falar com os amigos. Já tive problemas em casa com a esposa e também com outras pessoas pelo uso do celular. Às vezes o dedão chega a doer”, contou Leonardo enquanto esperava o conserto de meia hora do celular, agoniado, com a capinha do mesmo na mão. Mas é a esposa Taís Scalcon que revela a intensidade da relação dele com o aparelho a todo momento, inclusive conversando e resolvendo problemas enquanto dirige.  

 


 

 

 


Página 3

Os prós e os contras que vieram com o celular

Fotos Divulgação

 Responda rápido: você conhece algum adulto que não tenha celular? São poucos. Na verdade estamos dependendo cada dia mais dos smartphones. Encontramos neles a sensação de companhia que precisávamos para nos sentir seguros, mesmo estando sozinhos e mergulhamos no mundo de funcionalidades sedutoras. Quem indica isso são os pesquisadores, que têm se debruçado sobre esta “recente” relação do homem com a internet. Mas além das pesquisas, vemos no dia a dia como o uso exagerado dos dispositivos eletrônicos tem causado consequências como isolamento, depressão, lesões e até a dependência.

Daniele Sisnandes

 

O começo de tudo

Já nos habituamos tanto que não percebemos, mas a internet começou a se popularizar no Brasil em 1997, ou seja, há apenas 20 anos. Já os smartphones apareceram em meados dos anos 2000. A Apple lançou o seu primeiro Iphone há uma década (chegou só em 2008 no Brasil), revolucionando o mercado. Desde então as empresas vivem uma corrida permanente para seduzir os usuários.  

E elas têm cumprido seu papel. A última estimativa do IBGE apontou que o Brasil tem cerca de 207 milhões de habitantes. Já segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) são 242 milhões de linhas de telefonia móvel em operação. Para efeito de ilustração, é como se todos os habitantes do país (inclusive os bebês) tivessem um celular.

 

Cinco vantagens dos celularese dispositivos móveis 

Mas o que atrai tanto o usuário?

A convite do Página 3, o social media e jornalista Joel Minusculi, gerente de mídias digitais da Oficina das Palavras, fez um resumo dos principais benefícios trazidos pelos celulares inteligentes.

Mobilidade: a principal vantagem por permitir a comunicação com outras pessoas e fazer tarefas através deles onde quer que estejamos. 

Segurança: poder chamar por ajuda em qualquer lugar que você esteja (desde que tenha sinal). Seja por um acidente que ocorreu com você ou uma pessoa próxima na rua em apuros. 

Praticidade: principalmente com o surgimento dos smartphones, existem hoje milhões de aplicativos que podem ser usados para facilitar a vida. Desde simples controle financeiro pessoal, passando por jogos para matar o tempo em filas, até aplicativos para ajudar a saúde física e mental. 

Acessibilidade: a tecnologia mais barata e prática permite que pessoas com algum tipo de deficiência possam aproveitar experiências que antes eram complicadas. Por exemplo, pessoas com problemas de visão usam a câmera do celular que traduz as imagens em arquivos sonoros. Ou mesmo pessoas com problema de audição usam aplicativos que captam áudio e transformam em sinais de LIBRAS.

Democratização da internet: celulares e outros dispositivos móveis são mais baratos e fáceis de aprender a lidar do que a maioria dos computadores. Isso permite mais pessoas acessarem a internet e participar da vida virtual.

 

Educação quer usar a tecnologia a favor

Apesar de todas as funcionalidades, os dispositivos móveis surtiram um certo pavor logo que começaram a se popularizar entre os mais jovens, especialmente dentro das escolas.

Em Balneário não foi diferente, e em 2010 a Câmara de Vereadores aprovou uma lei que proibiu o uso de celulares, câmeras e filmadoras em todos os colégios, públicos e privados. Agora um movimento que reverter esses anos de atraso.

A diretora do Departamento Técnico Pedagógico, Nilzete Teixeira, conta que a ideia de sugerir a derrubada desta lei surgiu durante uma formação de professores de matemática sobre dispositivos móveis.

“Não estamos querendo que seja liberado para os alunos usarem de qualquer forma, mas sim para usarmos no aprendizado”, explicou o coordenador dos professores de matemática e informática, Juliano Júnior Machado.

A professora de Matemática do Centro Educacional Municipal (CEM) Ivo Silveira, Vera Cristina Magnani, também defende o uso da tecnologia.

“A tecnologia faz parte da vida dos alunos e o professor tem que se atualizar. Acredito que isso é o futuro para fazer a criança a prestar mais atenção, aprender de forma mais fácil e ter interesse no conteúdo abordado na sala de aula. O aluno já nasce com a tecnologia, cabe a nós nos adequarmos”, disse.

Eles se mobilizaram e produziram um documento, assinado por educadores, que será encaminhado à Comissão da Educação da Câmara.

 

Planejamento e estrutura

A diretora do Departamento Técnico Pedagógico, Nilzete Teixeira relata que a gestão acredita cada vez mais no uso das mídias e vê nelas uma forma de estender o conhecimento e a estrutura já disponibilizada nos laboratórios. A Educação está inclusive em conversação com a Google para tornar os professores multiplicadores do conhecimento através da tecnologia. 

A parceria ainda não está fechada, mas a diretora adiantou que a empresa fará uma apresentação em breve e que a intenção é aderir ao programa, mesmo que em parte.

Desde o início do ano a Educação vem dando atenção a laboratórios das escolas, alguns estavam obsoletos e já foram reativados para os alunos. A pasta está criando normativas de uso desses espaços. “Não é só ter um laboratório, é necessário definir como será o uso, o planejamento das aulas, a intencionalidade para que seja compartilhado”, comentou. 

Também é intenção que com a liberação do uso, os dispositivos dos próprios alunos passem a ser empregados como ferramenta a favor da aprendizagem. Segundo Nilzete, outra preocupação da gestão é melhorar a rede através da implantação de um projeto de fibra ótica.

 

EDUCADORES OPINAM

 

Concordo com a utilização do celular como ferramenta pedagógica. Trata-se de um instrumento completamente incorporado à vida de todos os membros da família, inclusive das crianças. Vale ressaltar o papel do professor como mediador desse processo, pois os objetivos de aprendizagem que deverão nortear a utilização dos aparelhos. A escola precisa estar aberta a utilização das novas tecnologias, trazendo para as salas de aula os conhecimentos e as experiências globais que estão disponíveis na rede, ensinando também o exercício da análise e da crítica sobre os seus conteúdos”, doutora Mara Regina Zluhan, coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Avantis. 

 “A nossa política funciona super bem, o uso de celular é proibido durante a aula e os alunos respeitam, mas o uso nos intervalos é liberado, inclusive temos rede para eles usarem. Então não temos problemas com isso. Depende muito da postura da direção e coordenação, conseguir controlar ou não. Se estão querendo derrubar a lei, então ninguém deve estar tendo problema com isso”, Denis Kerber, biólogo, professor no Sistema COC de Ensino. 

 

“Eu não permito, só o tablet ou notebook, porque aí eles usam a internet do colégio e alguns aplicativos são bloqueados. Se não, é tenso controlar o que fazem. Mas sou a favor de usar dispositivos digitais no momento que o professor permite. Eles têm livro digital, fazem pesquisa, usam o Google Drive, temos até uma revista no colégio sobre educação digital. É muito útil para a aprendizagem, já o celular às vezes atrapalha porque eles ficam em rede social, tiram foto, filmam a aula, tem o lado negativo, por isso tem que ser muito bem orientado”, Mariana Ferret, professora de Artes do Colégio Salesiano, de Itajaí. 

“Eu defendo o uso do celular em sala de aula como uma ferramenta pedagógica rica em possibilidades capaz de auxiliar no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. O importante é tratar da organização e funcionalidade do uso. Por isso o projeto pedagógico, o planejamento educativo precisam definir o propósito desta utilização. Vivemos em um mundo altamente tecnológico e negar isso na escola é uma postura incoerente quando pensamos na educação como possibilidade de desenvolvimento de cidadania. Portanto planejar e disciplinar o uso com função pedagógica é a tarefa urgente da escola”, Marisa Zanoni Fernandes, doutora em educação e professora universitária.

 

Mas afinal, qual é o limite?

Os benefícios do uso do celular são muitos e concretos, entretanto, qual é a linha que separa o lazer e a necessidade da dependência? 

O Instituto Delete - primeiro núcleo no Brasil especializado em Detox Digital e institucionalizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) para pesquisar sobre o assunto e oferecer suporte e tratamento aos usuários abusivos de tecnologia - desenvolveu uma lista de níveis (veja ao lado) que pode ajudar nessa identificação. 

Para o núcleo, “a dependência digital não está diretamente relacionada ao tempo de conexão de uma pessoa aos seus dispositivos eletrônicos; mas sim ao nível de perda de controle na vida real, trazendo prejuízos nos campos profissional, familiar, afetivo ou social”. 


1 - Excitação e Segurança

Tentativa de esquecer problemas, buscando a tecnologia como um meio melhor ou mais seguro. Primeiro indício normalmente mascarado com a falsa sensação de satisfação experimentada ao utilizar a tecnologia.

2 - Relevância

Importância que dá à necessidade de se conectar e usar dispositivos. Ocorre quando não consegue desligar o pensamento de forma que a tecnologia começa a dominar lentamente o comando da sua vida

3 - Tolerância

Tempo dedicado e nível de controle que se tem dela. Gastam cada vez mais horas para buscar as mesmas sensações experimentadas antes. Perde o controle e substitui os programas reais do dia por maior tempo na tecnologia.

4 - Abstinência e Efeitos

Quando não estão conectados ou não conseguem usar certos dispositivos ou aplicativos, tornam-se irritados, ansiosos e com medo, podendo gerar alterações no padrão do sono ou alimentação e sinais de depressão.

5 - Evidências de Conflitos

Quando o uso excessivo compromete as relações na vida real. Este é o momento em que percebem a evidência do problema, mas sentem-se incapazes de reduzir ou parar, podendo comprometer a educação, desempenho profissional e social.

Fonte: Instituto Delete


 

Quando o celular gera problemas comportamentais

Estudiosos vêm definindo nomes e conceitos para novos padrões motivados pelo uso dos smartphones. A nomofobia é um deles. Esse termo é uma abreviação, do inglês, “no mobile phone phobia”, ou fobia de ficar sem celular. 

As pessoas que são acometidas por essa fobia podem desenvolver sintomas semelhantes a ataques de pânico se afastadas dos celulares ou mesmo desconectadas da internet. O tratamento inclui terapias e até o uso de medicamentos.

Os especialistas Anna Lúcia Spear King e Antonio Egidio Nardi, que possuem artigos e livros sobre o tema, indicam que a busca do equilíbrio deve ser uma constante e que os pais devem ser vigilantes quanto ao uso dos filhos, para que essa relação com a tecnologia não prive ninguém da vida social.

O Phubbing é outro termo relacionado. Nascido da união das palavras phone (celular) e snubbing (esnobar), ele vem sendo usado para definir o ato de ignorar ou deixar de conversar com alguém por estar focado no celular. 

O Sexting, ou a prática de enviar conteúdo de conotação sexual pelo celular também vem se popularizando, inclusive entre os mais jovens. Enviar mensagens ou nudes pode ser uma escolha com consequências sérias.

 

Terapia e atividades físicas podem ajudar 

Segundo a professora da Univali e doutora em Psicologia, Giovana Delvan Stuhler, pesquisas ligadas à neurociência mostram que é possível que a relação com o celular gere sensações de recompensa no cérebro, como acontece com substâncias como álcool e drogas.

Ela comenta que esses comportamentos possam estar camuflando ou negligenciando outros transtornos. “Geralmente quem procura o tratamento não é a pessoa que apresenta a dependência, é alguém do convívio e nem é pela dependência tecnológica, é por conta de uma ansiedade ou depressão”, complementa Giovana.

Muitas vezes esse comportamento é uma fuga. Por exemplo a pessoa tem uma fobia social e encontra na rede uma forma de se comunicar, deixando de lado as convivências da vida real.

Quando a pessoa demonstra dependência e até sofrimento em ficar sem rede e sem poder se comunicar, o tratamento deve ser indicado no sentido de tentar encontrar outras atividades que possam gerar consequências positivas e conforto. 

Não quer dizer trocar um vício pelo outro, no entanto, buscar um equilíbrio para realinhar a relação com o uso do celular. Para isso, recomenda-se dividir o tempo em que a pessoa passa no celular com atividades físicas ou aumentar o tempo em outras atividades senão à tela do smartphone.

A terapia cognitivo-comportamental é outra abordagem indicada. Ela vai ajudar a identificar relações de dependência e auxiliar com reestruturação cognitiva encontrando outra forma de se relacionar com o aparelho, além de técnicas de relaxamento, caso a pessoa fique muito ansiosa. 

 

Celular pode causar problemas posturais?

“Apesar de ser uma ideia bem difundida na população em geral, e até mesmo pelos profissionais da saúde, de que o uso do celular ou computador pode gerar alterações na postura é mais mito do que verdade. Pode parecer estranho, mas não existem evidências científicas que comprovem esta ideia”, afirma o fisioterapeuta Murilo de Marco.

Ele lembra no entanto, que pessoas que usam demais o celular e o PC tendem a ser mais sedentárias e passam muitas horas sentadas na mesma posição. É aí que mora o perigo. 

“Esta falta de mobilidade do corpo pode ser muito prejudicial para a coluna e, inclusive, já existem estudos que mostram a associação entre sedentarismo e dor lombar”, comenta. Ele ressalta que o corpo foi feito para estar em movimento.

Murilo destaca que o ponto principal para a saúde da coluna é a atividade física, de preferência um exercício que a pessoa goste. A fisioterapia especializada também pode ajudar bastante, por isso a importância de fazer uma boa avaliação com um profissional. 

“Muitas pessoas costumam negligenciar a dor e esperar muito tempo para buscar ajuda, mas isso pode ser bastante prejudicial, pois, em alguns casos, quanto mais crônica (antiga) a dor mais difícil pode ser o tratamento”, alerta.

Tratamentos para melhorar a postura levam um certo tempo. Murilo indica pelo menos quatro ou seis sessões (sendo uma por semana) para se perceber melhora. 

“O mais importante no tratamento não é, necessariamente, a melhora da postura e sim a melhora da mobilidade da coluna. Isso é fundamental! Por isso, a minha dica é que as pessoas se preocupem menos em ter uma postura correta e mais em ter um corpo que consiga se movimentar livremente”, enfatiza.

Apesar de muitas informações difundidas na internet de lesões causadas pelo uso excessivo de celular, Murilo acredita que esses problemas aconteçam só em casos extremos, não são comuns. Ele mesmo nunca atendeu alguém com queixa do tipo na cidade. 

O fisioterapeuta recomenda a quem sentir desconforto, que tente mudar a forma como segura o celular. “Se as dores persistirem a fisioterapia pode ajudar sim”, encerra. 

 

E  N  Q  U  E  T  E

 

Priscila Ogg, cantora

“Minha relação com o celular é intensa. Mistura trabalho e vida pessoal. Por ser artista,  recebo muitas mensagens para trabalhos via celular. Só largo o aparelho em caso de as duas baterias extras acabarem e realmente não ter onde carregá-lo e quando durmo (inclusive só consigo dormir direito após checar todas as mensagens. Se o celular vibra, não consigo não olhar. Os olhos às vezes ardem por conta da luz da tela, dores de cabeça são comuns e sei que isso não é saudável. Mas como lidar com a demanda de informações em um mundo onde se faz o que precisa por um simples aparelho? A coluna também sente a sobrecarga de ficar tanto tempo com o pescoço curvado, mas o que realmente pega é o fato da prisão tecnológica a qual nos dispomos”. 

  

Leonardo Mohr, comerciante

“Uso para trabalho e para falar com os amigos. Já tive problemas em casa com a esposa e também com outras pessoas pelo uso do celular. Às vezes o dedão chega a doer”, contou Leonardo enquanto esperava o conserto de meia hora do celular, agoniado, com a capinha do mesmo na mão. Mas é a esposa Taís Scalcon que revela a intensidade da relação dele com o aparelho a todo momento, inclusive conversando e resolvendo problemas enquanto dirige.