Jornal Página 3
Um Ruth Cardoso que muitos desconhecem

O Ruth Cardoso é um grande hospital, faz centenas de atendimentos todos os dias e vem batendo até recordes de seus próprios números, mas o que ecoa são seus problemas. Desde o começo do ano ele vem passando por transformações que já estão surtindo efeito.

O Hospital Municipal e Maternidade Ruth Cardoso foi inaugurado seis anos atrás, numa tarde quente de longos discursos e muitas fotos. Depois disso as portas se fecharam para a imprensa, pelo menos para o jornal Página 3.

Nos anos seguintes a casa de saúde foi palco de um escândalo envolvendo a Cruz Vermelha, CPI, teve estado de emergência decretado e passou a custar para o contribuinte de Balneário Camboriú cada ano mais.

As reclamações de pacientes se multiplicavam, algumas foram parar até na justiça e falaram alto na mídia regional. De fora, pouco se sabia sobre o Ruth, só que a conta continuava a aumentar.

Conforme o diretor geral Rodrigo Massaroli hoje o custo do Ruth beira os R$ 4 milhões por mês e a atual administração tenta acordos efetivos para tentar dividir - o mínimo que seja - esse fardo financeiro.

Os problemas do PS

Vereador Bola Pereira publicou nas redes sociais fotos do PS cheio.

Na metade de maio a nova gestão do Ruth Cardoso abriu as portas do nosocômio para o Página 3. Logo de cara fica claro que o pronto-socorro improvisado é uma fonte das demandas mais difíceis. Para começar, ele nem deveria estar ali.

A diretora técnico-médica, Céres Fabiana Felski da Silva, explicou que o Ruth em si não foi construído para ser um hospital com pronto-socorro. Era para atender pacientes agendados previamente.

Porém o Hospital Santa Inês, que fazia os atendimentos de urgência, foi alvo de uma CPI sobre seus gastos. Depois disso, como o município decidiu transferir o atendimento de urgência e emergência para o Ruth, ele passou a ser oferecido dentro das condições possíveis.

A fila e a espera não são novidade - e continuam lá, mas certamente não é por morosidade no atendimento. A demanda é absurda. Conforme Massaroli, a média é de 300 atendimentos ao dia.

Nos últimos quatro meses houve um incremento de cerca de mil atendimentos, em comparação ao mesmo período de 2016. Entre os dados que chamaram a atenção dos gestores, um crescimento fora do comum de casos de pediatria, o que pode indicar deficiências nas redes dos municípios vizinhos.

Dia a dia

Em meados de maio, quando o Página 3 anunciou que o secretário de Estado da Saúde Vicente Caropreso visitaria o Ruth, os comentários nas redes foram indômitos e bradaram que as dificuldades seriam maquiadas.

A reportagem esteve no PS no dia marcado para a visita e o que encontrou não tinha nada de amenizado.

Os corredores estavam apinhados de pessoas, sentadas nas cadeiras, em macas, gemendo e até urrando de dor. Filas, espera, gente com expressão aflita aguardando o atendimento.

Para quem não está acostumado à rotina das urgências, não é lá uma visão fácil de digerir. As macas com pacientes vão e vêm, todas as salas têm pessoas e o movimento é atordoante, especialmente quando encosta uma ambulância do SAMU.

Não precisariam estar ali

O diretor do Ruth, Rodrigo Massaroli, destaca que 60% dos pacientes que chegam à fila do PS não precisariam estar ali. Eles poderiam buscar atendimento diretamente nos postos de saúde. Isso não é de domínio de todos, falta informação sobre a própria rede básica de atendimento.

Para Rodrigo, é até uma questão cultural a pessoa buscar diretamente o hospital.

Céres complementa lembrando que são esses atendimentos que costumam demorar nas filas.

Existe inclusive uma classificação de risco para o acolhimento. Ele se divide assim: casos gravíssimos são atendidos de imediato, muito urgentes em 10 minutos e urgentes em até 30 minutos. Para esses casos de menor gravidade, que poderiam ser atendidos pelas unidades básicas e Estratégia da Saúde da Família, a espera pode ser de até quatro horas.

“No pronto-socorro atendemos uma pessoa que há três meses está com dor nas costas ou que está há uma semana com febre, ninguém procura a unidade básica, até porque todos os postos de saúde têm enfermeiros que fazem a triagem”, lembra Céres.

Ela explica que os enfermeiros avaliam a necessidade e se for o caso, usam as vagas de emergência para aqueles que não podem esperar os dois ou três dias de agendamento com o médico.

Reclamações falam mais alto

A diretora técnico-médica Céres admite que as reclamações acontecem e falam alto, mais do que os elogios.

“Temos visto que quem reclama é quem não passa para dentro, a pessoa fica lá esperando, cansa e vai embora, mas quem entra percebe que tinha muita gente mais grave”, reforça.

Ela reforça que no PS não há ordem de chegada é atendido primeiro o caso mais grave. Não é possível deixar um esfaqueado esperando porque uma pessoa com dor nas costas estava ali há mais tempo.

“Para quem está sofrendo sempre o seu caso é o mais importante, para quem está com um problema... e quando isso acontece é difícil olhar para o lado, porque a dor da gente atinge uma dimensão maior”, reconhece a médica.

Ela afirma que o teor dos comentários de quem é atendido são bem diferentes dos que ficam na fila. “Mais o elogio vem no inbox, no email, quem elogia não grita, então a gente só via essa imagem de quem reclama”, pontua.

Aliás, era justamente essa imagem negativa do Ruth que fez a médica negar três vezes o convite da atual administração para assumir o cargo de direção. “Quando eu vim para cá eu me surpreendi, porque eu não sabia que o Ruth tinha tanta coisa boa, tanta gente boa trabalhando aqui dentro”.

Pediatria destaque

A direção informou que a Pediatria está com uma média de 50% a mais dos atendimentos, em comparação com 2016.

A média é de 1,5 mil crianças atendidas todos os meses no Ruth Cardoso. Isso pode estar acontecendo por deficiências nos atendimentos de cidades vizinhas, mas também pelo que o Ruth oferece.

A enfermeira da Pediatria, Rosimeri Aparecida Cândido, é uma apaixonada pela ala. Ao mostrar o setor descrevia de cabeça cada problema, de cada paciente. “As crianças são nosso bem mais precioso”, enfatizou enquanto caminhava pelos quartos.

A Pediatria tem 21 leitos e só metade são usados, assim que vão vindo mais pacientes, eles são transferidos para hospitais que possuem o credenciamento em alta complexidade.

Ali não apenas se trata a doença, algumas crianças ficam internadas por dias e o alento (para crianças e pais) é uma área com mini playground, televisão e brinquedos. As crianças também podem desenhar enquanto ficam sob observação e o resultado estampa as paredes do setor.


Da porta para dentro um outro hospital

E realmente. Do pronto-socorro para dentro o Ruth não parece um hospital com tantas dificuldades. “Temos um pessoal do serviço social aqui, que veio do Rio de Janeiro e eles dizem, ‘gente, vocês não sabem o que é trabalhar sob condições precárias’. O nosso referencial é diferente”, comenta a médica Céres.

São 105 leitos, desses 10 de UTI adulto e nove de UTI neonatal. São mais de 400 colaboradores, 180 médicos.

O diretor Rodrigo Massaroli relata que em 2016 foram feitas 720 internações no primeiro quadrimestre. Em 2017 esse número subiu para 745.

Na obstetrícia um recorde de atendimentos. Em março do ano passado foram 220 partos realizados. Em março deste ano foram 273.

Refeições

A alimentação é outro setor à parte. O cheiro que emana do refeitório, localizado no centro do hospital, se espalha pelos corredores e é difícil não ficar com vontade.

Segundo as nutricionistas, são servidas 22 mil refeições ao mês. São cinco refeições ao dia para pacientes internados, acompanhantes e funcionários. O cardápio é refeito mensalmente e inclui feijão, arroz, carne, frango, três tipos de saladas e até sobremesa.

Modelo

Mesmo com uma equipe pequena, um setor que vem se destacando no Ruth é a regulação, responsável por distribuir as vagas disponíveis, oferecer leitos vagos e buscar vagas para pacientes que precisem de atendimento fora.

 Ele é o único que funciona 100% informatizado e 24 horas. Os demais hospitais trabalham apenas em horário comercial e quem precisa, tem que esperar.

No caminho da humanização

Desde o começo do ano a nova administração tem apostado em humanizar o hospital. Isso não se restringe ao atendimento direto ao ‘cliente’, dá para ver nas paredes e no clima entre os colaboradores.

A Dra. Céres trouxe muito disso de sua forma de exercer a medicina. Ela mesma decidiu o perfil que queria seguir ainda jovem, quando leu um livro sobre a vida de São Lucas, padroeiro dos médicos. “Eu pensei, é esse médico que eu quero ser, quero ser uma médica de almas”, confidenciou.

A empatia para ela é algo natural, tanto que já confundiram a nefrologista com psicóloga. Ela acha graça, mas admite que é algo natural e que pequenas mudanças na forma de atender se refletem em todo um hospital.

A porta de sua sala não fica fechada. Quando ela está por lá, mantém o canal aberto e vira e mexe alguém chega em busca de opiniões. “Eu venho trabalhar sábado porque não esperam que tenha alguém na administração e aí eu consigo trabalhar”, diz a médica.

Segundo ela, quando chegou ali não havia espaço para essa troca, a administração era isolada. Hoje ela costuma caminhar pelos corredores “trocando figuras”, da diretoria às auxiliares de limpeza.

A proposta de humanização veio naturalmente. O Ruth Cardoso abriu as suas portas para o voluntariado e hoje são cerca de 60 grupos cadastrados. Há teatro do Sesc para os enfermos, varal literário, rede da alegria. Cada ação dessa age de alguma forma no tratamento de quem está adoentado.

Uma das principais atrações são os chamados acolhimentos culturais, nas noites de quarta-feira, quando músicos se apresentam em uma sala de espera entre as alas. Vem gente de maca ouvir de perto, até o prefeito Fabrício Oliveira já tocou por lá.

O Reiki (terapia alternativa milenar que passou a integrar os procedimentos do SUS) é feito por voluntários desde janeiro.

A maternidade é outro setor que vem sentindo as mudanças. A humanização não é uma bandeira nova, mas agora ela está estampada na porta do Centro Obstétrico, enfatizando os direitos da mulher na hora do parto.

Além disso no mês de abril foi implantado uma ouvidoria dentro do Ruth. Lá o paciente pode fazer solicitações e dar opinião sobre o atendimento, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Na maioria das vezes, uma conversa basta para solucionar o problema.

Atendimentos regionalizados

Quando se fala em serviço público de saúde não se pode negar atendimento, isso vai contra a ética médica e é uma arbitrariedade, pois a universalidade do atendimento está prevista nas diretrizes do Sistema Único de Saúde e garantida pela Constituição Federal.

O fato é que desde a implantação da urgência improvisada o hospital passou a atender toda uma região, sem falar nos turistas especialmente nos meses de maior movimento.

A conta atualmente está sendo paga 73% pela prefeitura de Balneário Camboriú, 25% pelo Governo Federal e apenas 2% pelo Estado. Não há valor algum dos municípios vizinhos, mas um acordo se justificaria com o Estado - considerando a atuação regionalizada e com pelo menos duas prefeituras vizinhas: Camboriú e Itapema.

Conforme um levantamento fornecido ao Página 3 pela direção do Ruth, nos primeiros quatro meses do ano, só o pronto-socorro fez mais de 33 mil atendimentos.

Em média 60% desses pacientes (cerca de 5 mil/mês) se dizem moradores de Balneário Camboriú. Cerca de 25% dizem morar em Camboriú, seguido por 6% de Itapema. Os demais se dividem entre cidades como Itajaí, Porto Belo, Navegantes, Bombinhas, Tijucas e outros.

Parcerias e o futuro

O secretário de Estado da Saúde Vicente Caropreso esteve em Balneário Camboriú em maio a convite do vereador Aldemar Bola Pereira (PSDB) para conhecer de perto a realidade do Hospital Ruth Cardoso. Ele se comprometeu a enviar uma equipe técnica para analisar as condições do Ruth.

Caropreso adiantou que justamente a importância do hospital para a região, devido sua localização estratégica, perto da BR-101 pode ser um ponto favorável na busca da habilitação da alta complexidade. Com ela, haveria incremento nos repasses e a conta poderia ficar menos pesada para o contribuinte de Balneário.

O secretário se comprometeu ainda em recambiar aparelhos que ainda não estão em uso para o município de Balneário e assim melhorar o centro de imagens do Ruth.

Entretanto já alertou sobre a necessidade de reavaliação sobre o modelo de gestão e se o município vai continuar mantendo o atendimento 100% SUS, considerando o aumento exponencial de custos.

O secretário municipal de Saúde Jorge Teixeira já declarou que o retorno de Balneário para a AMFRI pode facilitar as discussões sobre o assunto de forma regionalizada.

Anexo à estrutura original do Ruth Cardoso foi construído um pronto-socorro com os fluxos certos de atendimento, mas ele nunca foi aberto. O atual governo já se comprometeu a abri-lo, mas isso depende de recursos e na prática, não vai acabar com filas, porque a demanda em busca de uma infraestrutura totalmente nova deve aumentar ainda mais. 


 Essa reportagem foi publicada na edição de maio no Página 3 impresso, para ter acesso ao conteúdo BEM antes da internet, assine o Página 3.


Página 3

Um Ruth Cardoso que muitos desconhecem

O Ruth Cardoso é um grande hospital, faz centenas de atendimentos todos os dias e vem batendo até recordes de seus próprios números, mas o que ecoa são seus problemas. Desde o começo do ano ele vem passando por transformações que já estão surtindo efeito.

O Hospital Municipal e Maternidade Ruth Cardoso foi inaugurado seis anos atrás, numa tarde quente de longos discursos e muitas fotos. Depois disso as portas se fecharam para a imprensa, pelo menos para o jornal Página 3.

Nos anos seguintes a casa de saúde foi palco de um escândalo envolvendo a Cruz Vermelha, CPI, teve estado de emergência decretado e passou a custar para o contribuinte de Balneário Camboriú cada ano mais.

As reclamações de pacientes se multiplicavam, algumas foram parar até na justiça e falaram alto na mídia regional. De fora, pouco se sabia sobre o Ruth, só que a conta continuava a aumentar.

Conforme o diretor geral Rodrigo Massaroli hoje o custo do Ruth beira os R$ 4 milhões por mês e a atual administração tenta acordos efetivos para tentar dividir - o mínimo que seja - esse fardo financeiro.

Os problemas do PS

Vereador Bola Pereira publicou nas redes sociais fotos do PS cheio.

Na metade de maio a nova gestão do Ruth Cardoso abriu as portas do nosocômio para o Página 3. Logo de cara fica claro que o pronto-socorro improvisado é uma fonte das demandas mais difíceis. Para começar, ele nem deveria estar ali.

A diretora técnico-médica, Céres Fabiana Felski da Silva, explicou que o Ruth em si não foi construído para ser um hospital com pronto-socorro. Era para atender pacientes agendados previamente.

Porém o Hospital Santa Inês, que fazia os atendimentos de urgência, foi alvo de uma CPI sobre seus gastos. Depois disso, como o município decidiu transferir o atendimento de urgência e emergência para o Ruth, ele passou a ser oferecido dentro das condições possíveis.

A fila e a espera não são novidade - e continuam lá, mas certamente não é por morosidade no atendimento. A demanda é absurda. Conforme Massaroli, a média é de 300 atendimentos ao dia.

Nos últimos quatro meses houve um incremento de cerca de mil atendimentos, em comparação ao mesmo período de 2016. Entre os dados que chamaram a atenção dos gestores, um crescimento fora do comum de casos de pediatria, o que pode indicar deficiências nas redes dos municípios vizinhos.

Dia a dia

Em meados de maio, quando o Página 3 anunciou que o secretário de Estado da Saúde Vicente Caropreso visitaria o Ruth, os comentários nas redes foram indômitos e bradaram que as dificuldades seriam maquiadas.

A reportagem esteve no PS no dia marcado para a visita e o que encontrou não tinha nada de amenizado.

Os corredores estavam apinhados de pessoas, sentadas nas cadeiras, em macas, gemendo e até urrando de dor. Filas, espera, gente com expressão aflita aguardando o atendimento.

Para quem não está acostumado à rotina das urgências, não é lá uma visão fácil de digerir. As macas com pacientes vão e vêm, todas as salas têm pessoas e o movimento é atordoante, especialmente quando encosta uma ambulância do SAMU.

Não precisariam estar ali

O diretor do Ruth, Rodrigo Massaroli, destaca que 60% dos pacientes que chegam à fila do PS não precisariam estar ali. Eles poderiam buscar atendimento diretamente nos postos de saúde. Isso não é de domínio de todos, falta informação sobre a própria rede básica de atendimento.

Para Rodrigo, é até uma questão cultural a pessoa buscar diretamente o hospital.

Céres complementa lembrando que são esses atendimentos que costumam demorar nas filas.

Existe inclusive uma classificação de risco para o acolhimento. Ele se divide assim: casos gravíssimos são atendidos de imediato, muito urgentes em 10 minutos e urgentes em até 30 minutos. Para esses casos de menor gravidade, que poderiam ser atendidos pelas unidades básicas e Estratégia da Saúde da Família, a espera pode ser de até quatro horas.

“No pronto-socorro atendemos uma pessoa que há três meses está com dor nas costas ou que está há uma semana com febre, ninguém procura a unidade básica, até porque todos os postos de saúde têm enfermeiros que fazem a triagem”, lembra Céres.

Ela explica que os enfermeiros avaliam a necessidade e se for o caso, usam as vagas de emergência para aqueles que não podem esperar os dois ou três dias de agendamento com o médico.

Reclamações falam mais alto

A diretora técnico-médica Céres admite que as reclamações acontecem e falam alto, mais do que os elogios.

“Temos visto que quem reclama é quem não passa para dentro, a pessoa fica lá esperando, cansa e vai embora, mas quem entra percebe que tinha muita gente mais grave”, reforça.

Ela reforça que no PS não há ordem de chegada é atendido primeiro o caso mais grave. Não é possível deixar um esfaqueado esperando porque uma pessoa com dor nas costas estava ali há mais tempo.

“Para quem está sofrendo sempre o seu caso é o mais importante, para quem está com um problema... e quando isso acontece é difícil olhar para o lado, porque a dor da gente atinge uma dimensão maior”, reconhece a médica.

Ela afirma que o teor dos comentários de quem é atendido são bem diferentes dos que ficam na fila. “Mais o elogio vem no inbox, no email, quem elogia não grita, então a gente só via essa imagem de quem reclama”, pontua.

Aliás, era justamente essa imagem negativa do Ruth que fez a médica negar três vezes o convite da atual administração para assumir o cargo de direção. “Quando eu vim para cá eu me surpreendi, porque eu não sabia que o Ruth tinha tanta coisa boa, tanta gente boa trabalhando aqui dentro”.

Pediatria destaque

A direção informou que a Pediatria está com uma média de 50% a mais dos atendimentos, em comparação com 2016.

A média é de 1,5 mil crianças atendidas todos os meses no Ruth Cardoso. Isso pode estar acontecendo por deficiências nos atendimentos de cidades vizinhas, mas também pelo que o Ruth oferece.

A enfermeira da Pediatria, Rosimeri Aparecida Cândido, é uma apaixonada pela ala. Ao mostrar o setor descrevia de cabeça cada problema, de cada paciente. “As crianças são nosso bem mais precioso”, enfatizou enquanto caminhava pelos quartos.

A Pediatria tem 21 leitos e só metade são usados, assim que vão vindo mais pacientes, eles são transferidos para hospitais que possuem o credenciamento em alta complexidade.

Ali não apenas se trata a doença, algumas crianças ficam internadas por dias e o alento (para crianças e pais) é uma área com mini playground, televisão e brinquedos. As crianças também podem desenhar enquanto ficam sob observação e o resultado estampa as paredes do setor.


Da porta para dentro um outro hospital

E realmente. Do pronto-socorro para dentro o Ruth não parece um hospital com tantas dificuldades. “Temos um pessoal do serviço social aqui, que veio do Rio de Janeiro e eles dizem, ‘gente, vocês não sabem o que é trabalhar sob condições precárias’. O nosso referencial é diferente”, comenta a médica Céres.

São 105 leitos, desses 10 de UTI adulto e nove de UTI neonatal. São mais de 400 colaboradores, 180 médicos.

O diretor Rodrigo Massaroli relata que em 2016 foram feitas 720 internações no primeiro quadrimestre. Em 2017 esse número subiu para 745.

Na obstetrícia um recorde de atendimentos. Em março do ano passado foram 220 partos realizados. Em março deste ano foram 273.

Refeições

A alimentação é outro setor à parte. O cheiro que emana do refeitório, localizado no centro do hospital, se espalha pelos corredores e é difícil não ficar com vontade.

Segundo as nutricionistas, são servidas 22 mil refeições ao mês. São cinco refeições ao dia para pacientes internados, acompanhantes e funcionários. O cardápio é refeito mensalmente e inclui feijão, arroz, carne, frango, três tipos de saladas e até sobremesa.

Modelo

Mesmo com uma equipe pequena, um setor que vem se destacando no Ruth é a regulação, responsável por distribuir as vagas disponíveis, oferecer leitos vagos e buscar vagas para pacientes que precisem de atendimento fora.

 Ele é o único que funciona 100% informatizado e 24 horas. Os demais hospitais trabalham apenas em horário comercial e quem precisa, tem que esperar.

No caminho da humanização

Desde o começo do ano a nova administração tem apostado em humanizar o hospital. Isso não se restringe ao atendimento direto ao ‘cliente’, dá para ver nas paredes e no clima entre os colaboradores.

A Dra. Céres trouxe muito disso de sua forma de exercer a medicina. Ela mesma decidiu o perfil que queria seguir ainda jovem, quando leu um livro sobre a vida de São Lucas, padroeiro dos médicos. “Eu pensei, é esse médico que eu quero ser, quero ser uma médica de almas”, confidenciou.

A empatia para ela é algo natural, tanto que já confundiram a nefrologista com psicóloga. Ela acha graça, mas admite que é algo natural e que pequenas mudanças na forma de atender se refletem em todo um hospital.

A porta de sua sala não fica fechada. Quando ela está por lá, mantém o canal aberto e vira e mexe alguém chega em busca de opiniões. “Eu venho trabalhar sábado porque não esperam que tenha alguém na administração e aí eu consigo trabalhar”, diz a médica.

Segundo ela, quando chegou ali não havia espaço para essa troca, a administração era isolada. Hoje ela costuma caminhar pelos corredores “trocando figuras”, da diretoria às auxiliares de limpeza.

A proposta de humanização veio naturalmente. O Ruth Cardoso abriu as suas portas para o voluntariado e hoje são cerca de 60 grupos cadastrados. Há teatro do Sesc para os enfermos, varal literário, rede da alegria. Cada ação dessa age de alguma forma no tratamento de quem está adoentado.

Uma das principais atrações são os chamados acolhimentos culturais, nas noites de quarta-feira, quando músicos se apresentam em uma sala de espera entre as alas. Vem gente de maca ouvir de perto, até o prefeito Fabrício Oliveira já tocou por lá.

O Reiki (terapia alternativa milenar que passou a integrar os procedimentos do SUS) é feito por voluntários desde janeiro.

A maternidade é outro setor que vem sentindo as mudanças. A humanização não é uma bandeira nova, mas agora ela está estampada na porta do Centro Obstétrico, enfatizando os direitos da mulher na hora do parto.

Além disso no mês de abril foi implantado uma ouvidoria dentro do Ruth. Lá o paciente pode fazer solicitações e dar opinião sobre o atendimento, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Na maioria das vezes, uma conversa basta para solucionar o problema.

Atendimentos regionalizados

Quando se fala em serviço público de saúde não se pode negar atendimento, isso vai contra a ética médica e é uma arbitrariedade, pois a universalidade do atendimento está prevista nas diretrizes do Sistema Único de Saúde e garantida pela Constituição Federal.

O fato é que desde a implantação da urgência improvisada o hospital passou a atender toda uma região, sem falar nos turistas especialmente nos meses de maior movimento.

A conta atualmente está sendo paga 73% pela prefeitura de Balneário Camboriú, 25% pelo Governo Federal e apenas 2% pelo Estado. Não há valor algum dos municípios vizinhos, mas um acordo se justificaria com o Estado - considerando a atuação regionalizada e com pelo menos duas prefeituras vizinhas: Camboriú e Itapema.

Conforme um levantamento fornecido ao Página 3 pela direção do Ruth, nos primeiros quatro meses do ano, só o pronto-socorro fez mais de 33 mil atendimentos.

Em média 60% desses pacientes (cerca de 5 mil/mês) se dizem moradores de Balneário Camboriú. Cerca de 25% dizem morar em Camboriú, seguido por 6% de Itapema. Os demais se dividem entre cidades como Itajaí, Porto Belo, Navegantes, Bombinhas, Tijucas e outros.

Parcerias e o futuro

O secretário de Estado da Saúde Vicente Caropreso esteve em Balneário Camboriú em maio a convite do vereador Aldemar Bola Pereira (PSDB) para conhecer de perto a realidade do Hospital Ruth Cardoso. Ele se comprometeu a enviar uma equipe técnica para analisar as condições do Ruth.

Caropreso adiantou que justamente a importância do hospital para a região, devido sua localização estratégica, perto da BR-101 pode ser um ponto favorável na busca da habilitação da alta complexidade. Com ela, haveria incremento nos repasses e a conta poderia ficar menos pesada para o contribuinte de Balneário.

O secretário se comprometeu ainda em recambiar aparelhos que ainda não estão em uso para o município de Balneário e assim melhorar o centro de imagens do Ruth.

Entretanto já alertou sobre a necessidade de reavaliação sobre o modelo de gestão e se o município vai continuar mantendo o atendimento 100% SUS, considerando o aumento exponencial de custos.

O secretário municipal de Saúde Jorge Teixeira já declarou que o retorno de Balneário para a AMFRI pode facilitar as discussões sobre o assunto de forma regionalizada.

Anexo à estrutura original do Ruth Cardoso foi construído um pronto-socorro com os fluxos certos de atendimento, mas ele nunca foi aberto. O atual governo já se comprometeu a abri-lo, mas isso depende de recursos e na prática, não vai acabar com filas, porque a demanda em busca de uma infraestrutura totalmente nova deve aumentar ainda mais. 


 Essa reportagem foi publicada na edição de maio no Página 3 impresso, para ter acesso ao conteúdo BEM antes da internet, assine o Página 3.