Jornal Página 3
Especial: o tratamento contra o câncer oferecido pela Unimed Litoral
Daniele Sisnandes/Página 3

Por Marlise Schneider Cezar

Gabriel Moura Quintela Ribeiro, 35, natural do Rio, graduou-se em oncologia em Belo Horizonte e há três anos trabalha na Unimed Litoral, de Balneário Camboriú. É atualmente o coordenador do serviço de oncologia do Hospital Unimed, considerado referência em tratamento de câncer. O especialista recebeu a reportagem em seu consultório para falar sobre a doença, o tratamento, a preocupação com a burocracia do atendimento no setor público e deixou uma sugestão: está na hora da campanha Outubro Rosa evoluir, exigir que as leis sejam cumpridas, que as pessoas tenham acesso ao tratamento, inclusive cirúrgico, sem demora, o que infelizmente ainda não acontece para a maioria dos brasileiros acometidos pela doença.

Por que o Hospital Unimed Litoral é considerado referência hoje?

Primeiro porque a gente consegue oferecer qualquer tratamento hoje em dia, o que tiver de mais moderno. Antes havia uma cultura que o paciente tinha que procurar centros maiores para se tratar e hoje se consegue fazer qualquer quimioterapia, qualquer tratamento aqui. O hospital tem todo o suporte, equipamentos, qualquer exame mais urgente, tomografia, biópsia, cirurgia, é ofertado um serviço completo e não só na oncologia como em outras especialidades também.

Por que optou por oncologia, que não é uma especialidade fácil de lidar...

Não, não é fácil. Primeiro pensei em pediatria, depois cardiologia e nos últimos anos me decidi por oncologia, acho que um pouco por querer trabalhar ‘além de medicina’, gosto muito do contato com os pacientes e familiares, gosto do desafio da oncologia, que exige muita atualização, muito estudo, todo dia sai uma coisa nova, porque o paciente chega aqui e quer o que há de mais moderno no mundo para o seu tratamento. É isso que ele espera da gente (...). Mesmo sabendo de toda carga emocional que a profissão traz, eu gosto e escolheria outra vez a mesma profissão.

Imagino que seja bem difícil ‘desligar’, não é simplesmente passar a chave na porta do consultório e esquecer. Como administra isso?

Com certeza não é como chavear a porta...mas a gente tem vários meios de comunicação, temos uma relação de intimidade entre aspas com todos os pacientes, eles tem nossos telefones(...). É muito comum os pacientes mandarem mensagens, Whats App, então desligar completamente não dá, só se desligar o celular, mas eu não acho que isso incomoda (...). Tenho outras coisas para fazer, para esquecer um pouquinho do trabalho, eu luto jiu jitsu, fazer uma atividade física, toco violão (...).

Com todo esse avanço da medicina, tecnologia, por que o câncer continua ainda associado com sentença de morte?

Primeiro porque no nosso país, principalmente na rede pública, a gente ainda demora muito para fazer o diagnóstico. E se demora muito para fazer o diagnóstico, a taxa de mortalidade ainda é muito alta. Como no Brasil três quartos da população é atendida pelo SUS, esse montante realmente lida com uma taxa muito grande de mortalidade. Por conta de toda uma estrutura deficiente e só um quarto da população tem acesso a tratamentos na iniciativa privada, aí sim tem acesso mais ágil à cirurgia ao exame de rastreamento e então se consegue ter uma chance de cura mais alta. Então acho que esse estigma ainda se mantém porque a gente tem muito que melhorar no sistema público.

Também na questão de informação...por que as pessoas chegam tardiamente no sistema público, por falta de informação?

Um pouco por falta de informação e também por toda uma burocracia que existe. Vou dar um exemplo até que a gente conseguiu em Balneário de um projeto que quando estive no Marieta percebi que existia uma demora muito grande entre fazer o exame da mamografia alterado e um diagnóstico. O que hoje existe de concreto em Balneário Camboriú, até com apoio da vereadora Marisa, do NAM, com a Gerusa, se tiver uma paciente com mamografia alterada, ela já autoriza previamente, o próprio NAM vai ligar para o paciente, ele é chamado para conversar com o mastologista e logo iniciar o tratamento, porque a demora era meramente burocrática e acredito que avançamos nesse sentido (...).

Por conta dessa preocupação que você procurou a vereadora Marisa no início do ano...

A vereadora ajudou, me levou na secretaria da Saúde e logo marcaram uma reunião com a coordenação do NAM e depois de algumas conversas, conseguimos em dois meses mudar esse fluxo sem gastar nada, sem contratar mais ninguém, simplesmente alterando a burocracia.

Mitos e verdades no tratamento do câncer. O que o paciente pode ou não acreditar?

Não sei se pela cultura brasileira, mas a gente tem uma capacidade de acreditar o que sai em revistas, jornais sem comprometimento com nada impressionante..

...internet!

Sim, internet, facebook...é impressionante às vezes você tirar da cabeça do paciente uma coisa que ele leu, sem saber onde foi, onde leu, infelizmente isso acontece e eu queria um dia conhecer uma pessoa que coloca uma coisa do tipo...vamos pensar na última moda que estão escrevendo...falando sobre uma associação do limão e do bicarbonato que beneficia o paciente (...), depois é difícil tirar da cabeça do paciente!

Às vezes o paciente acredita porque o tratamento com radio e quimio é pesado, então se surge algo mais simples...ele quer acreditar...

Também acho...igual à ideia da fosfoetanolamina, aquela substância que um professor de São Paulo estudou, fez alguma coisa em ratos, nada muito concreto e aí já acharam que era a cura de tudo. Eu também trabalho em Blumenau e aí peguei a fase em que um senhor de Pomerode fornecia aqueles comprimidos e pedia para os pacientes pararem seus tratamentos porque poderia interferir e muitos por esta simplicidade de trocar a quimioterapia por esse tratamento, paravam, eu vi muitos pacientes usando aquilo. Infelizmente nunca vi ninguém se beneficiar!

Então a recomendação é cautela e não acreditar em tudo que lê ou vê?

Exatamente. Acreditar no oncologista. Acho que tirar uma dúvida, levar para o médico, questionar sobre isso, é absolutamente normal. Agora já acreditar depois que leu uma matéria...é diferente.

Acredita na cura do câncer?

Acredito que muitos cânceres dependendo da hora que você pega tem grande chance de cura. Sei também que quando a doença está espalhada a chance de cura é pequena. Acredito que um dia se a gente não conseguir curar, vai conseguir alongar, deixar ela como doença crônica, como diabetes, por exemplo e eu diria que esta fase está próxima, considerando que há 50 anos a gente não sabia nada de quimioterapia, acho que podemos pensar nesse avanço nas últimas décadas e que em breve o câncer será uma doença crônica.

Qual o perfil do cliente da Unimed?

Primeiro, as mulheres com câncer de mama, bastante homens com câncer de próstata, depois intestino, pulmão em terceiro lugar.

A campanha do Outubro Rosa deu uma reduzida no número de pacientes por conta da farta informação?

Acho que sim e acho também que poderíamos evoluir um pouquinho o discurso. Detecção precoce a gente considera quando a gente encontra alguma coisa em exame de imagem, mamografia, ultrassom, ressonância...o diagnóstico com apalpação, o auto exame esse infelizmente não significa uma detecção tão precoce assim, por isso acho que é preciso evoluir um pouco nesse discurso, evitar valorizar tanto assim o auto exame e talvez evoluir para uma cobrança maior das autoridades responsáveis no sentido de não só ofertar uma mamografia, mas de se preocupar com a lei que existe para seguir o tratamento, operar, que infelizmente não é cumprida, não existe multa para quem não cumpre (...).

O paciente diagnosticado vem para a Unimed iniciar o tratamento com os médicos oncologistas (são 4) e uma equipe de apoio. Qual a importância dessa equipe?

Eles são fundamentais. Minha parte no tratamento é uma e o paciente com certeza é atendido melhor com nossa equipe multidisciplinar. Toda quinta-feira nos reunimos, é uma equipe de enfermagem com duas técnicas, nutricionista, psicóloga, uma assistente social, essa equipe consegue dar um apoio integral aos nossos pacientes. Eles são muito importantes.

Essa palavra câncer assusta muito e a pessoa quando recebe o diagnóstico fica meio ‘sem chão’. Como essa pessoa chega a primeira vez para o médico? O que você diz para ela?

Ela chega com muita expectativa, muita ansiedade, desconfiada, querendo colo, um amparo, é comum a gente perceber até a expressão do paciente que chega mais fechada...e depois começa a se soltar um pouco mais. É importante demonstrar nesse primeiro momento que a gente está muito próximo, presente, disponível o tempo todo para esse paciente.

Cada caso é um caso, mas pacientes com mais ou menos idade tem mais ou menos chances no tratamento?

O câncer é uma doença predominantemente mais comum em adultos e idosos. Câncer de mama é mais comum a partir dos 50 anos assim como o câncer de próstata também(...).

Dizem que o câncer já nasce com a pessoa. Isso é mais um mito?

A minoria está relacionada com alguma herança, genética. A maioria tem muito a ver com o que se come, o ritmo de vida, hábitos, sedentários, obesos (...)

Vocês planejam novas ações relacionadas ao tratamento do câncer aqui?

Cada vez mais atender nossos pacientes, temos estrutura para isso, temos um hospital que recentemente abriu a parte de cirurgia, então hoje o paciente pode chegar, ser operado aqui, fazer todo seu tratamento e queremos sempre continuar mantendo a excelência desse tratamento, continuar estudando e atualizando, agora está chegando o Centro de Eventos aqui em Balneário, quem sabe possamos organizar, trazer, participar de grandes eventos da nossa área nesse local.

Gostaria de colocar mais alguma coisa?

Gosto muito de trabalhar aqui, é um ambiente muito interessante, o paciente chega e logo toda a equipe já sabe quem é o paciente, o que ele vai fazer e isso deixa o paciente seguro. Esse é o meu primeiro emprego, não sou daqui, mas desde que cheguei senti um apoio muito grande, tanto da diretoria, Dr.Humberto, de toda a equipe, me senti muito acolhido e já me sinto em casa.

Cerca de 160 pessoas recebem quimio todos os meses

Por Daniele Sisnandes

O câncer não é uma doença qualquer. O estigma da morte o cerca. O diagnóstico soa como uma bomba para os pacientes, para familiares, amigos. Todos adoecem juntos, caso não haja um tratamento integrado. É justamente nesta linha que o setor de oncologia do Hospital da Unimed de Balneário vem atuando, com atendimentos baseados na proximidade. Os resultados estão nas grandes doses de esperança dos que conseguiram vencer a doença e encarar o problema como uma nova oportunidade de enxergar a vida.

O centro oncológico Unimed Litoral trabalha com equipe multiprofissional, desde médicos, psicólogos, enfermeiros e até nutricionista. Apesar de relativamente novo, já está recebendo pacientes de fora, hoje numa média de 165 tratamentos de quimioterapia realizados todos os meses. A radioterapia é uma das novidades, trazida para o centro há cerca de um ano e meio.

A maioria dos pacientes são mulheres. Os pacientes são acometidos em primeiro lugar devido ao câncer de mama e em segundo pelo câncer de pulmão.

Entre a consulta com o oncologista, a definição de qual tratamento seguir e o início das aplicações, o paciente não costuma esperar mais do que dez dias. Não há demanda reprimida, até porque os atendimentos por plano ou particulares acabam sendo divididos com outra unidade particular na cidade.

Apoio emocional ajuda a superar o diagnóstico

Segundo a psicóloga Karine Soares Alves (D), o momento mais difícil para o paciente é receber o diagnóstico, quando surgem o medo, a ansiedade e muitas dúvidas sobre a doença e o tratamento. Logo depois disso começa o acompanhamento da profissional.

“Abordamos como está sendo aquele momento, qual o entendimento dele sobre a doença e avaliamos se ele tem recursos emocionais para que possa enfrentá-la de uma forma positiva”, explica.

A família também é ouvida, geralmente em separado, pois nem todos os pacientes têm facilidade em compartilhar as emoções. “Geralmente a pessoa diz que está bem, mas não está”, pontua. Os familiares também são orientados sobre comportamentos que podem surgir durante o tratamento. É essencial que todos estejam preparados para dar sustentação ao paciente ao longo do tratamento.

Além de consultas individualizadas, ela realiza conversas informais até durante a aplicação dos remédios. “As pessoas têm vontade de falar sobre o que estão passando e muitas vezes de como o câncer veio e mudou a vida de uma forma positiva, é um trabalho voltado ao acolhimento e a tratar as questões negativas que aparecem”, complementa Karine.

Diferentes formas de encarar a doença

As reações variam bastante e podem ocorrer efeitos colaterais rigorosos. Para muitos, a barra pesa demais e é necessário um acompanhamento medicamentoso, com antidepressivos e ansiolíticos.

Por outro lado, há luz. A psicóloga Karine Soares Alves relata que em sua experiência na oncologia costuma se deparar muito mais com esperança, do que com dificuldades.

“As pessoas aprendem muito com o câncer, com o tratamento, a valorizar a vida, as coisas pequenas. Às vezes um prato de comida vira ‘o’ prato de comida, então acho que a gente pode olhar dessa forma e não como uma coisa tenebrosa, porque tem um lado bonito de se ver”, comemora.

As mulheres costumam se abrir com mais facilidade, já com os homens, ela conta que precisa “ir pelas beiradas”, porque eles são mais fechados na hora de compartilhar. Mesmo assim os resultados têm sido animador. “A gente percebe que isso tem mudado, talvez pela nossa atuação aqui”, conclui.

A alegria da última sessão de quimioterapia

Para Cleonice Bedra Pegoraro, a tarde de quarta-feira (26) foi especial pela última sessão de quimioterapia que realizou no Hospital da Unimed.

Vítima de um câncer de mama, ela descobriu a doença em março. Cleonice tinha acabado de deixar de amamentar o filho mais novo, que já estava com três anos e meio. Sentiu algo estranho no seio, fez uma mamografia, mas nada foi encontrado. “Cheguei a achar que poderia ser leite empedrado, porque não aparecia no exame”.

Uma ressonância magnética e um ultrassom depois, o diagnóstico veio. Precisou retirar a mama e na mesma ocasião fez a reconstrução com silicone. Agora vai passar por uma nova cirurgia para refazer o mamilo.

12 sessões de quimioterapia depois, enfrentadas lado ao lado com o companheiro Claudiomir, Cleonice comemorou. “Foi muito tranquilo, tenho reagido muito bem, quase não tive queda de cabelo. O atendimento foi excelente”, disse.

O papel da alimentação antes, durante e depois do câncer

Não dá para prever um câncer, mas é possível prevenir-se contra ele, evitando fatores de risco para o surgimento de células cancerígenas. A alimentação inadequada, por exemplo, é o segunda causa de câncer que pode ser prevenida.

Conforme a nutricionista Thainá Bertollo (E), a maioria dos pacientes que chegam ao centro diagnosticados com câncer são adeptos de nutrição desequilibrada, o que muitas vezes vai de encontro ao porquê do aparecimento da doença.

Ela indica uma alteração qualitativa na alimentação, ou seja, na qualidade do que se está ingerindo. Não é fazer uma dieta, é reaprender a se alimentar e de preferência levar esse novo estilo para a vida, evitando assim a reincidência ou mesmo o surgimento de outras doenças.

O temido durante

Falar em quimio ou radioterapia assusta devido aos efeitos colaterais como falta de apetite, debilitação, enjoos, vômitos, diarreia e queda de cabelo. Tudo varia conforme o protocolo recomendado para cada caso, uns podem sentir muito e outros nem tanto.

Para aqueles que não conseguem comer, o acompanhamento da nutricionista se torna essencial. A inapetência e a perda de peso podem levar o profissional a indicar os suplementos alimentares para repor nutrientes importantes ao organismo.

Durante o tratamento não existe uma dieta específica, mas Thainá orienta aos pacientes com imunidade muito baixa a ficarem longe dos sushis e alimentos crus comidos fora de casa, como folhas e frutas, para evitar ocorrência de diarreia e vômitos, por exemplo.

Antes e sempre

A nutricionista alerta que como prevenção ao câncer e até após a cura, há alimentos que devem ser evitados por terem forte relação com o crescimento de células cancerígenas como excesso de açúcar refinado, carboidratos como pão, massas e arroz branco. Eles se transformam em glicose facilmente no sangue e seu excesso vai de encontro com a doença.

Também deve ser evitado o consumo excessivo de alimentos industrializados (devido aos conservantes, nitratos e nitritos), gorduras, adoçantes à base de ciclamato e refrigerantes.

“É importante aliar tudo isso à prática de atividades físicas e exames regulares com o médico”, finalizou.


Sexta, 4/11/2016 23:02.


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