Jornal Página 3
Projeto Oficinas: educando através da arte
Foto Gabi dos Anjos

Por Renata Rutes

Tudo começou em 1997, com uma ideia da secretaria de Educação, de tirar as crianças e adolescentes das ruas de Balneário Camboriú, oferecendo atividades no contraturno escolar. Hoje o Projeto Oficinas também atende adultos (ao todo 2,3 mil pessoas) e tornou-se algo educativo, que serve também como uma opção de aprendizado para os alunos de qualquer idade. Há 31 oficinas nas mais diversas áreas, como idiomas, danças, pintura, informática, capoeira, ginástica rítmica, teatro, canto, música, e mais. Tudo é gratuito e aberto a toda a comunidade.

Oficina de bandas

Entre as oficinas, um dos destaques é a Oficina de Bandas, ministrada pela professora e musicista Adriana Neves de Macedo. A ideia surgiu há alguns anos, pois ela também dá aula de violão e via que alguns de seus alunos tinham muito talento e potencial para crescer.

“Eu senti uma necessidade de fazer algo que os desenvolvesse mais. Com alguns desses adolescentes montei uma banda. Então, em 2014, surgiu a Lei de Incentivo à Cultura e eu inscrevi o projeto Banda na Escola... conquistei o primeiro lugar e os R$ 10 mil que recebi investi no estúdio do Oficinas. Montamos uma sala isolada, comprei instrumentos e amplificadores. O tempo passou e hoje já temos sete bandas participando junto”, relembra. Os 28 integrantes têm idade entre 14 e 21 anos.

Adriana idealizou e organizou um festival, o School of Rock, para que as bandas formadas pela oficina se apresentassem e interagissem com bandas profissionais da região. O intuito é incentivar a produção de música autoral (inclusive das bandas de Adri), mas também serão tocados alguns covers”, diz.

Ela destaca que esse projeto foi um sonho que se tornou realidade. “Eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Meus alunos dão o máximo de si, se dedicam muito mesmo... e muitos deles sonham em seguir carreira na música. Inclusive tenho uma aluna que terminou o Ensino Médio e está se preparando para fazer o teste para o Conservatório de Música de Itajaí”, informa.

Algumas das bandas do projeto estão participando do festival Didge Garage Band, que acontece toda terça-feira no Didge Steakhouse Pub, que fica na Barra Sul.

Os alunos vão porque querem

A coordenadora do projeto, Noemí Maria Löser, assumiu o cargo em abril deste ano, mas já atua nele há mais de 10 anos. Ela conta que hoje o foco do Oficinas é atender os alunos da rede pública da cidade, tanto municipal quanto estadual, mas se sobra vagas as crianças e adolescentes dos colégios particulares também podem participar. “É direito de todos, pois pertence ao governo municipal. Todas as atividades são gratuitas, assim como os materiais”, diz.

Hoje 65 funcionários atuam no projeto, sendo que 50 são professores. Há 31 oficinas, e elas se dividem em vários pontos da cidade, estando praticamente em todos os bairros, como Centro, Nações, Municípios, Estados, Barra, Vila Real, Nova Esperança, Iate Clube, Praia Central e Praias Agrestes.

“É um privilégio para Balneário Camboriú ter um projeto desse porte. Atingimos o nosso principal objetivo, que era estar perto de toda a comunidade. Já somos reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC), mas agora nosso intuito é deixarmos de ser Núcleo de Atendimento Contraturno e nos tornarmos Centro de Atendimento Contraturno. Isso já está tramitando na Câmara”, explica.

Segundo Noemí, das atividades, as mais procuradas hoje são as danças, como jazz e hip hop, música e patinação artística.

“O vínculo que firmamos com a Secretaria de Educação nos permitiu criar uma estrutura pedagógica. Hoje nossos alunos são avaliados de acordo com a oficina da qual fazem parte. Os pais são participativos e também temos inclusive a Associação de Pais e Professores (APP), funcionamos como uma escola, porém aqui os alunos vêm porque querem, não há obrigação. É o espaço deles”, comenta.

Hoje podem participar crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos e adultos (somente das oficinas de dança, pintura, violão e português para estrangeiros).

Coral infantil Encantando

Outro destaque do Oficinas é o coral infantil, que existe desde 2009 e faz muito sucesso por onde passa. O Encantando é regido por Silvana Luvison, que ocupa o cargo desde sua criação. Ela conta que hoje o grupo possui 120 alunos, entre crianças de 7 a 12 anos.

Os participantes ensaiam em três lugares: nos colégios Dona Lili e Vereador Santa e na sede do projeto, porém há alunos de diversas escolas como Alfredo Domingos da Silva, Tomaz Francisco Garcia, Professor Armando César Ghislandi, Jardim Iate Clube e Presidente João Goulart. Todos aprendem o mesmo repertório, porque se apresentam juntos.

“É um combustível, porque vejo que eles realmente fazem o que gostam. Cantar não é só um dom, há muitas que aprendem junto conosco... é muito bom”, afirma Silvana.

O repertório escolhido é formado por canções que trazem mensagens positivas, além de MPB e pop. Algumas das músicas que fazem parte dele é Aleluia (John Cale), O Caderno (Toquinho), Tempo de Alegria (Ivete Sangalo), marchinhas e o hino da cidade.

As próximas apresentações do grupo serão na festa julina do Oficinas (7 de julho, às 19h30, no Centro Comunitário Casa da Sogra), no Arraial do Bom Sucesso (10 de julho, às 19h, na Praça Higino Pio) e na passagem da tocha olímpica em BC (12 de julho, às 9h, na escadaria do Teatro Bruno Nitz).

Coral adulto: ótima experiência para pessoas tímidas

Em março deste ano começou a se formar o Coral Municipal, que hoje conta com 35 pessoas dos 18 até maiores de 60 anos.

O grupo está no início de sua composição e é regido pela ex-coordenadora do Oficinas, Ana Carolina Manhães, que agora dirige o Teatro Bruno Nitz. “Tem sido muito bom, porque são pessoas da comunidade mesmo, sendo que algumas nunca haviam tido vivência musical”, salienta.
O grupo se reúne toda quarta às 19h na Biblioteca Pública. Por enquanto não há vagas, mas em breve serão abertas novamente.

“Começamos recentemente, então ainda temos muitas coisas para alinhar. No momento estamos vendo como será o nosso uniforme. Está dando tudo certo, mesmo com o frio ninguém falta aos ensaios... todos estão muito animados”, afirma.

Ana salienta que o coral é uma ótima experiência para as pessoas tímidas, já que as vozes se misturam. “Todos estão melhorando cada vez mais, e adquirindo confiança, que é um ponto muito importante”, diz.

Ela relembra com carinho os anos em que esteve à frente do Oficinas (de maio de 2011 até março de 2016). “As crianças podem escolher o que querem fazer e seguem o que tem a ver com elas... é um ambiente incrível que reúne pessoas que acreditam que a arte transforma a sociedade. E realmente transforma. Afinal, as crianças não estão nas ruas e sim atuando junto à arte. Os resultados são sociais, cognitivos, emocionais e artísticos... e tudo isso é de extrema importância para o desenvolvimento da criança e do adolescente”, descreve.

Canto e musicalização


Foto: Renata Rutes

Algumas das oficinas que fazem sucesso no Projeto são as de Canto e Musicalização. Um dos professores que as ministra é Ageu Costa Filho. Ele ensina aos alunos desde técnicas de respiração como canto em conjunto e harmonização. “Algumas das crianças não cantavam e outras já tinham experiência, por isso se eu pudesse dividiria em turmas (inicial, intermediário e avançado), mas infelizmente por conta da carga horária não podemos fazer isso”, pontua.

Ele trabalha no Oficinas há dois anos e é formado em Música. Diz que se sente abençoado em poder fazer parte do projeto e que já havia trabalhado com crianças em uma ONG da qual fez parte. “Elas são muito carinhosas e gostam muito de música, o que melhora ainda mais as nossas aulas”, diz.

O repertório é formado por Ageu junto dos alunos, que também auxiliam na escolha das canções, mas normalmente as aulas são formadas por músicas infantis, canções que falam sobre educação e respeito, MPB e até mesmo música religiosa, porque há alunos que cantam em igrejas da cidade. “Tenho alunos que já tocam em bandas e que inclusive já gravaram CD! A maioria deles já possuíam alguma experiência, e a aula os profissionaliza ainda mais”, explica.

Jazz: as crianças valorizam muito

O dançarino e coreógrafo Waldir Coral, que já se apresentou com famosos como Daniel, Rick & Renner e Gian & Giovani ressalta a importância do Oficinas pelo lado social.

“Aqui é diferente de tudo onde já trabalhei, principalmente pelo lado social. Nas academias os alunos normalmente frequentam porque pagam, aqui eles estão porque querem estar e valorizam muito. Dou aula para crianças de 5 anos como também para adultos. As crianças são agitadas, mas são animadas e adoram as aulas”, diz.

A temática que todas as oficinas estão trabalhando neste ano é etnias, que serão apresentadas no fim do ano em um espetáculo no teatro municipal da cidade. “Eles (os alunos) estão adorando montar as coreografias, tem sido o ponto alto de nossas aulas”, conta.

Hip Hop: divertir ensinando através da dança

Foto Projeto OficinasOutra dança disponível é o Hip Hop. Um dos professores responsáveis é Benício Júnior Gomes da Silva, que atua no Oficinas desde 2009. “Comecei a dançar em 1996 e parei em 2008, logo depois comecei a dar aulas”, conta. A maioria dos alunos de Benício é de crianças e adolescentes dos 5 aos 14 anos. Ele ressalta que seu foco não é a estética e sim divertir e ensinar os alunos através da dança.

O professor e dançarino comemora que há uma troca e afinidade muito fortes entre ele e seus alunos, e que isso faz toda a diferença na hora das aulas. Além das coreografias, os alunos também aprendem um pouco sobre a história do Hip Hop, que nasceu nas ruas.

“Apresento vídeos e também trago dançarinos para falar com eles. Neste ano tentarei levar eles até o Festival de Dança de Joinville, para que eles vejam um pouco sobre como de fato é esse mundo”, comenta.

Benício lamenta que infelizmente poucos de seus alunos seguem o caminho da dança. “Acredito que é porque ela ainda é pouco valorizada. Apesar de que tenho alguns alunos que hoje fazem parte do grupo de Hip Hop Elite Unity, que é aqui de Balneário, destaca.

Ginástica Rítmica: aulas animadas e lúdicas

A professora Karyane Santana Archer foi aluna do Projeto Oficinas no ano de 1996, quando começou a fazer aula de dança – ainda não tinha ginástica, que só abriu em 1997.

“Fiz parte da primeira turma de GR e me apaixonei de cara, abandonando então a dança e seguindo nisso. Fui atleta e representei Balneário nesse esporte”, relembra. Porém, com o tempo ela passou a dar aulas, e foi onde se encontrou, tanto que hoje afirma que não pensa em trabalhar com outra coisa. O amor pelo esporte é tanto que ela se divide entre 230 alunos nos cinco dias da semana. E, segundo ela, faça chuva ou faça sol sempre boa parte deles está presente nas aulas. “Já trabalhei em São Paulo, por dois anos, e lá os alunos eram muito ‘elitizados’. Aqui é mais social, eles realmente querem participar”, informa.

Karyane tenta fazer com que as aulas sejam animadas e lúdicas, trabalhando com dança, flexibilidade e todas as técnicas básicas que envolvem a GR. “Infelizmente a Fundação Municipal de Esportes de Balneário Camboriú não conta mais com Ginástica Rítmica, por isso inclusive já acabamos perdendo atletas para outras cidades vizinhas. As alunas sentem muita falta”, salienta.

Pintura: incentivados a seguir com arte

Foto: Renata Rutes

Outra atividade oferecida pelo Oficinas é pintura. Durante as aulas os alunos, que muitas vezes já possuem alguma noção básica de arte através da escola, têm a liberdade de produzirem o que quiserem e ainda aprendem novas técnicas e até mesmo um pouco da História da Arte.

Uma das professoras responsáveis é Darlene Hoff Albino de Castro. No dia da produção desta reportagem as crianças estavam criando pinturas com a temática da Festa Julina, que serão expostas no evento que o Projeto está organizando, e que acontecerá no próximo dia 7 de julho. “Tudo que eles fazem é documentado em um caderno que cada um deles tem. Eles são muito incentivados a continuar a pintar e seguir com a arte, porque faz muita diferença… arte é um aprendizado contínuo”, afirma.

Violão: quando não gostam desistem logo

O músico Thales de Godoi Nunes é formado em Música pela Univali e faz parte da orquestra do Conservatório de Música de Itajaí e de um grupo de choro da região. Ele também é professor de violão no Projeto Oficinas, trabalho que adora. “É bacana porque os alunos realmente participam das aulas porque querem aprender. Eles gostam de estar lá. Às vezes há incentivo por parte dos pais, mas na maioria das ocasiões é a criança ou o adolescente que decidiu estar participando… quando eles não gostam desistem logo no início”, explica.

Os violões utilizados nas aulas precisam ser dos alunos. Quando a criança é carente o professor ‘dá um jeitinho’ e incentiva que ela empreste de um parente, vizinho ou amigo. “Também reformo violões para que todos consigam participar. Começamos do zero até a tocar em grupo… eles aprendem questões de melodia e até pestana, que são coisas mais difíceis”, diz.

O repertório das aulas é variado, vai desde música clássica como também rock, MPB, internacional e música indígena – esta última por conta da temática das etnias.

“Os alunos gostam de tudo. Mesmo com chuva e frio a maioria da turma sempre está lá. Alguns tem muito potencial e eu incentivo que eles sigam na área. Eles podem trabalhar com conserto e construção de instrumentos como também ter um estúdio, tocar na noite, participar de bandas ou orquestras… as opções são inúmeras, e alguns já demonstram que querem levar a música para suas vidas”, informa.

Para esses, Thales empresta CDs, livros e busca os auxiliar o máximo que consegue, porém ele lamenta que nem sempre os pais dos alunos incentivam, porque consideram que ‘viver de música’ não é uma tarefa fácil. “E realmente não é, exige muito trabalho… assim como qualquer outra profissão. Eu, por exemplo, já consegui lançar meu CD de música instrumental, que mistura jazz com ritmos brasileiros. Hoje meu foco é a música brasileira”, acrescenta.

Inglês: a primeira escola pública da cidade

A grande novidade do Oficinas é a Extensão de Contraturno do Ensino da Língua Inglesa (EXCELI). Desde essa semana, os alunos que fazem a oficina de inglês já possuem sede própria, na Rua Brusque, s/n, no Bairro dos Municípios (foto). Os últimos detalhes estão sendo ajustados e a meta é atender até 320 alunos, hoje há apenas 50. As inscrições ainda estão abertas (informações: 3264-7154).

Um dos professores (são três) é William. Ele afirma que sua principal motivação com a abertura da sede do EXCELI é fazer com que alunos não privilegiados consigam falar inglês. “Estamos com muita expectativa. Será a primeira escola pública de inglês da cidade. É muito especial, porque o inglês é o idioma universal, e nem todas as crianças e adolescentes possuem condições de pagar um curso de inglês em uma escola privada. A gratuidade é muito importante”, explica.

As turmas serão divididas em 12 alunos, a princípio por idade, e as aulas acontecem duas vezes por semana, totalizando três horas semanais. A inauguração deve acontecer nos próximos dias.

Informática: as crianças cobram mais infraestrutura

Foto Projeto Oficinas

A maioria das pessoas hoje tem computador com internet em casa, mas essa não é a realidade de todos. Mesmo com a tecnologia evoluindo a cada dia, há muitas crianças e adolescentes em Balneário que não possuem acesso. Por isso, ainda hoje a oficina de informática é bastante requisitada.

A professora Andréia Herrmann Pedroti conta que hoje atende 40 alunos, só não atende mais por falta de estrutura (há poucos computadores disponíveis). Cada aula dura 40min exatamente por esse motivo. “Eles sempre pedem para ficar mais tempo”, diz. Segundo ela, a maioria dos alunos chega acreditando que vão ficar navegando na internet, mas o foco da aula é o aprendizado. Para isso ela usa softwares e jogos educativos. “Eles também aprendem o que é hardware e a como fazer jogos. Eu os faço pensar que a informática não é só internet e redes sociais”, acrescenta.

Andréia avalia que as crianças tem muita facilidade e que estão acompanhando as mudanças tecnológicas, que estão acontecendo cada vez mais depressa. “Precisamos acompanhar para não ficarmos para trás, por isso precisamos melhorar nossa infraestrutura. As crianças cobram isso”, afirma.


Segunda, 4/7/2016 14:47.


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