Jornal Página 3
“Encontrei na fotografia a possibilidade de conectar arte”
Fotos Cassiano Cruz

Por Daniele dos Reis

Nome completo: Cassiano Cruz
Idade: 36 anos
Natural de: Itajaí - SC
Mora em: Balneário Camboriú
Estado Civil: união estável
Formação: Oceanografia / mestrado em Geologia Ambiental
Profissão: oceanógrafo e empresário
Lazer: viajar, pegar onda, se divertir com a mulher, família e amigos
Um livro: Eram os Deuses Astronautas?

Comida preferida:
as que são preparadas pela vovó
Música: Rock’n roll, Chill-Out, Dub e Trance Psicodélico
Um hobby: Fotografia
Planos: Tentar fazer mais do que apenas completar o ciclo da vida
Perfil: Um sonhador

O oceanógrafo Cassiano Cruz sempre teve a arte e a natureza muito próximas em sua vida. Na adolescência entrou de cabeça no bodyboard e na juventude se tornou referência na música eletrônica no Brasil, profissão que ajudou a alimentar sua sede por viagens. Quando parou de tocar, focou na oceanografia, mas alguma coisa faltava. Foi quando despertou para a fotografia e descobriu-se um explorador de lugares místicos e de olhares profundos. Cassiano encontrou na fotografia uma nova forma de se conectar com a arte, com uma experiência multiétnica e com a percepção de que somos todos um.

Conte um pouco sobre a história das suas viagens...

Acho que meus sintomas de dromomania (impulso incontrolável de vagar/viajar) nasceram comigo e foram se intensificando ao longo dos anos. Embora eu tenha vindo de família humilde, desde a infância, adquiri experiências viajando foi mais importante do que a necessidade de consumir bens materiais. Eu ansiava por caronas de familiares e amigos da vizinhança para fugir da rotina. Ao longo dos anos, com a melhora das condições financeiras da família bem como a partir de esforços individuais no esporte (bodyboard), na música e na ciência, tive a oportunidade de conhecer muitos lugares.

Desde então por onde já passou?

Já visitei aproximadamente 60 países, sendo a maioria para destinos não muito tradicionais. Seja da Ilha de Páscoa à Mongólia, do Paquistão ao Timor Leste ou da Tanzânia ao Butão, minha preferência sempre foi explorar lugares místicos, exóticos ou espiritualmente transformadores.

O Pequeno Camponês Mongol
Local: Bumbugur, Mongólia - 2016

E como a fotografia chegou na sua vida?

Sou um apaixonado pela diversidade étnica das fisionomias, culturas e costumes. Além desta paixão também sempre senti a necessidade de me expressar artisticamente, o que era extravasada no passado quando tocava música eletrônica em festas e festivais no Brasil, bem como em outros países da América Latina e também da Europa. Após parar de tocar, foquei minhas energias apenas na oceanografia, trabalhando por anos em uma empresa de consultoria ambiental de Balneário Camboriú, o Grupo Acquaplan, pra quem ainda presto consultorias. De alguns anos pra cá encontrei na fotografia a possibilidade de conectar arte e experiências multiétnicas e isto me deixa feliz.

Sempre que você sai para uma nova viagem está indo em busca de algo específico? 

Busco passar por experiências que contribuam no meu enriquecimento cultural e espiritual. Para isso, em cada lugar tento ao máximo viver o cotidiano das pessoas mais simples. Isto gera um respeito maior por parte delas, o que viabiliza ou potencializa vivências ainda mais verdadeiras. Recentemente, passei alguns dias acampado com famílias nômades no interior da Mongólia bem como nas montanhas do Quirguistão, em lugares inóspitos, foi incrível! Tem detalhes de viagens que só conto pra família ao chegar em casa, como foi o caso da minha ida a um festival tribal de três dias no noroeste do Paquistão, numa região próxima a territórios da Talibã.

Você é oceanógrafo e tem especialização em geologia, certo? Mas retrata bastante as pessoas dos locais por onde passa. De onde veio esse olhar?

Embora a ciência e o convívio no meio natural tenham exercido grande influência na minha personalidade e estilo de vida, o que mais me inspira na fotografia é registrar pessoas. Desde o surgimento do homo sapiens, entre 190 mil e 60 mil anos atrás, a evolução e a necessidade de adaptação para diferentes condições climáticas e ecossistemas nos transformou nessa maravilhosa salada de raças, crenças e costumes. Poder viver e registrar isto é muito prazeroso!

O que faz com o material fotográfico que está acumulando? Já fez exposições ou tem objetivo de publicação?

Somente a partir do ano passado, com o incentivo de minha mulher, familiares e amigos, é que passei a dar mais atenção pro meu arquivo fotográfico. Desde então participei de pequenas exposições e de uma mostra de arquitetura e decoração, a Casa Cor, onde contribuí com 22 fotos distribuídas em dois belos ambientes assinados, individualmente, pelas arquitetas Deisi Priori e Vanessa Larré, ambas de Balneário Camboriú. A minha próxima exposição, “Nepal Mais”, já está pronta e será beneficente. O lucro da venda das fotos, registradas por mim naquele país em 2011, será doado às vítimas dos últimos terremotos ocorridos em 2015. Segundo as Nações Unidas, ainda são necessários cerca de dois bilhões de dólares para ajudar a reconstruir o país.

O guardião do estacionamento do Templo dos Macacos
Local: Nepal/ 2012

Até hoje o que mais te surpreendeu pelo mundo?

É uma pergunta muito difícil, pois cada lugar tem surpresas e encantos próprios. Mas, num contexto geral, me surpreende muito a obstinação das antigas civilizações. Muitas delas foram capazes de prosperar diante severas condições de vida e ainda assim construir estruturas arquitetônicas incríveis sem os recursos tecnológicos atuais. Além das referências mais clássicas que visitei como o sítio arqueológico de Machu Picchu (Peru), e as pirâmides do Egito e do México, também fiquei maravilhado com as ruínas de Pasárgadas, no Irã, o templo de Angkor Wat, no Camboja, a cidade de Petra, na Jordânia, o sítio de Stonehenge, no Reino Unido, além dos moais da Ilha de Páscoa. A experiência que me surpreendeu mais tristemente foi uma visita solidária a um orfanato do Timor Leste. No local, um massivo olhar de vazio e indiferença predominava entre as crianças. Já fui a muitos lugares remotos e pobres, mas ainda não havia presenciado a falta de brilho no olhar de uma criança. Fui embora chorando.

E qual a maior dificuldade que você já passou na estrada?

Felizmente nunca passei por grandes apuros. Mas, certa vez, nas proximidades do Salar Uyuni, um deserto de sal situado numa região montanhosa da Bolívia, passei o mal de altitude. Em menos de 24 horas eu saí do nível do mar e fui para os quase quatro mil metros de altitude daquele local, quando o ideal seria me aclimatar aos poucos em altitudes inferiores. Fiquei quase três dias de cama sofrendo com dor de cabeça, enjoo e alucinações por falta de ar. Outra vez, visitei o Quênia alguns meses após o atentado terrorista em um shopping de Nairóbi onde morreram quase 70 pessoas. A energia do lugar ainda estava bem esquisita e senti que devia partir para o sul, à Tanzânia.

Mas além das fotografias, você está trazendo um pouco do mundo na sua loja, conta a história da Pangea.

A Pangea Home Decor é um projeto idealizado por mim e minha mulher, Cássia Siqueira. Nasceu do desejo de compilarmos em um só espaço uma variedade de móveis, objetos de decoração, tapeçaria e artigos têxteis que representem a identidade artesanal e expressões artísticas de diversos lugares. A bagagem de experiências adquiridas através de nossos anos de mochila vem sendo crucial na curadoria das peças. Em nossa loja você encontra desde artigos tribais de Papua Nova Guiné até as clássicas poltronas inglesas de couro. Os clientes que nos visitam recebem uma explicação detalhada de cada peça. A Pangea fica na Avenida Brasil, 247, na Barra Norte.

O Falcoeiro das Montanhas Tien Shan
Local: Cazaquistão/ 2016

Qual o seu próximo destino? Já tem previsão?

Quero muito voltar para a África e conhecer a Etiópia e o Sudão do Sul, mas sem previsão ainda.

Quando ou onde o pessoal pode conferir mais sobre o seu trabalho?

Várias fotos estão disponíveis em nossa loja ou no meu Instagram. Pretendo anunciar a exposição “Nepal Mais” no meu Facebook. Seja no Instagram ou no Facebook, basta digitar cassianocruz para me encontrar. Gostaria de agradecer ao Jornal Página 3 pela oportunidade de compartilhar minhas experiências. Vida longa e próspera para todos!

Lutadores de Kabadhi se enfrentam em festival tribal no Paquistão
Local: Paquistão/ 2014


Segunda, 4/7/2016 18:28.


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