Jornal Página 3
Lojas desocupadas são uma mostra da retração econômica em Balneário
Renata Rutes/Página 3

Por Waldemar Cezar Neto

Na última semana a reportagem contou 30 lojas vazias na Avenida Brasil, no trecho compreendido entre as ruas 1131 e 3000. Esse é o efeito mais visível da crise no varejo que, desde o final de 2013, aflige comerciantes de todo o país e só no ano passado, segundo a Confederação Nacional do Comércio, levou ao fechamento de 80 mil lojas.

É desanimador, passa uma imagem palpável de crise econômica ver a região comercial mais nobre da cidade, que já foi chamada de “shopping a céu aberto” e de “filé mignon do comércio”, amargando a realidade de vitrines vazias exceto pelas placas de aluga-se.

“A procura caiu muito, os empresários dizem que o ponto já não importa tanto, estão migrando para pontos mais baratos, em ruas transversais” testemunha Pedro Henrique Adriano, gerente de locações da Adim Imóveis.

Ele contou que mesmo com os proprietários reduzindo o aluguel (do ano passado para cá alguns preços caíram até 30%) é difícil achar interessados e algumas salas ficam fechadas por longos períodos.

Em outros casos os proprietários não aceitam reduzir o preço porque lojistas vizinhos pagam valores semelhantes aos que eles estão pedindo. Financeiramente há raciocínios difíceis de entender, como o caso de uma sala com aluguel fixado em R$ 18 mil que está fechada há um ano. Parece tolice deixar de receber, ainda que um valor menor, já que um mês de aluguel perdido não é recuperável, trata-se de um “produto perecível”.

Na última semana, o presidente da Associação Comercial de São Paulo comentou que a expectativa é queda das vendas de 3,3% neste ano, mas se disse otimista, porque há vários sinais que o pior já passou e o comércio, assim como toda a economia, dá os primeiros passos para voltar a crescer.

Otimismo não enche lojas vazias e a realidade, pelo menos por enquanto, não é animadora. Entre janeiro e maio 1.882 pessoas perderam o emprego com carteira assinada em Balneário Camboriú e só no comércio foram fechadas 1.237 vagas.

No ano passado, com a economia já em crise, o comércio contratou cerca de 700 pessoas para a temporada.

Corretor lamenta e diz que “nunca foi assim”

Um dos corretores mais experientes em locação comercial em Balneário Camboriú, Edson Rescarolli de Souza, da Imobiliária Deltamar, disse que há muitos anos não via uma situação no setor tão ruim como a atual.

Ele explica que existe muita oferta, os proprietários não abrem mão do valor do aluguel e fica difícil fechar negócios. “Os inquilinos estão saindo por causa do preço, toda semana desocupa uma, tenho vinte e poucas na carteira e nunca foi assim”, lamenta o corretor.

Edson diz que alguns proprietários pedem preços absurdos, o comerciante não consegue pagar e acaba falindo, gerando processos na justiça que demoram até acontecer a cobrança da dívida, normalmente paga pelo fiador. “Acontece muito” sintetiza o corretor que acumula 35 anos de praia.

Permutas por salas novas inflacionaram o mercado

Foto: Renata Rutes

Quase todos os prédios novos construídos em Balneário Camboriu têm salas comerciais no térreo, porque o proprietário do terreno, quando faz a permuta com o construtor, exige esses espaços que são vistos como fonte de renda segura e duradoura, uma espécie de aposentadoria.

O problema é que muitas dessas salas tiveram seus valores inflados, entraram na permuta com preços irreais, acima do que o mercado determina e isso gerou a expectativa de aluguéis exorbitantes.

Existe uma regra não escrita que o aluguel deve ser no mínimo 1% do valor do imóvel, então se a sala comercial “vale” R$ 1 milhão, o aluguel deve ser R$ 10 mil. O proprietário nem se dá conta que é impossível cobrar esse preço numa sala de 50 m2 numa transversal sem estacionamento, onde não passa um volume atraente de potenciais consumidores.

A construção desordenada de salas gerou excesso de oferta, o que deprimiu os preços. Além disso, os especialistas garantem que a “regra do 1%” mudou, nos últimos anos o percentual caiu para 0,5% a 0,3% do valor do imóvel.

Numa crise econômica como a vivida agora, não existe regra nenhuma, as relações comerciais ficam desorganizadas e se o comerciante não consegue vender sua mercadoria qualquer aluguel é caro.

Proprietários esperam recuperação para a temporada

O secretário do turismo e desenvolvimento econômico, presidente licenciado do Sindicato do Comércio Varejista de Balneário Camboriú, Hélio Dagnoni, o Helinho, diz que os proprietários de salas comerciais esperam a pré-temporada quando algum “aventureiro” chega aqui e paga qualquer preço.

No entanto, agora que a Avenida Brasil “está um terror de lojas fechadas”, se falhar a espera por um locatário incauto os aluguéis baixarão fortemente acredita Helinho, que também é lojista.

Ter comércio bem sucedido em Balneário Camboriú é uma empreitada arriscada.

“Para pagar aluguel de 20 mil tem que faturar 250 a 300 mil por mês diz o secretário, fazendo eco ao corretor Edson Rescarolli de Souza, que afirma ser necessário faturar 65 mil para segurar um aluguel de 7”.

A dificuldade não é faturar em janeiro, o problema para os tais “aventureiros” acontece depois do Carnaval, quando a praia esvazia e tem demais de tudo. Num cenário econômico normal, muitos não agüentam e quebram. Numa recessão aguda como a de agora, surge uma realidade que espanta o secretário: “Nunca tinha visto tantas lojas vazias; antes mal começava a construir e já alugava as salas”.

Atlântico Shopping quase não tem salas vazias

A responsável pela comercialização de lojas no Atlântico Shopping, Fátima Lima, comemora que naquele centro comercial, das 147 lojas apenas seis estão vazias.

É um excelente desempenho (4%) num setor que no Brasil, segundo a Unidade de Shopping, Varejo e Imobiliário do Ibope Inteligência,vive uma vacância de 15%; com 12 mil lojas vazias e outras 11 mil que estão em construção e ninguém sabe quem irá alugá-las.

Os dados do Ibope são recentes, a pesquisa foi divulgada em abril e mostra que entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016 foram inauguradas 5.850 lojas em shoppings, mas quase não houve crescimento porque 5.600 fecharam.

O Atlântico Shopping tem um diferencial, a localização espetacular, bem no coração da cidade. Ali é possível alugar uma loja de 25 m2 por R$ 5.400,00 já incluídos condomínio, verba de marketing e IPTU.

Fátima diz que sempre existe rotatividade, pessoas que montam negócios que não dão certo, mas a maioria dos lojistas, segundo ela, são proprietários presentes no negócio o que ajuda a melhorar o desempenho das lojas.

Lojas de rua ganham espaço em relação aos shoppings

Uma década atrás muita gente acreditava que os shoppings iriam liquidar com as lojas de rua devido à segurança, facilidade para estacionar e a comodidade de encontrar dezenas de opções num mesmo local, mas o cenário mudou radicalmente segundo pesquisa da consultoria Deloitte para a Associação Brasileira de Franchising (ABF) divulgada em setembro de 2014.

Aquela pesquisa mostrou que para 53% dos franqueadores a loja de rua é que apresenta maior faturamento. Em seguida vêm os shoppings com 18% e o restante está distribuído em aeroportos, academias, galerias, clubes etc.

A pesquisa indica também que em 63% dos casos as lojas de rua tiveram melhor rentabilidade, ajudadas pelo fato que os aluguéis são mais baixos do que em shoppings.

No primeiro trimestre deste ano a ABF realizou nova pesquisa e dessa vez 65% das lojas eram de rua, contra 17% em shoppings.

E podem ser uma opção mais segura para o empreendedor novato

O diretor de Inteligência de Mercado, Relacionamento e Sustentabilidade da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Cláudio Tieghi, disse ao Página 3 que o setor de franquias sempre é um dos últimos a entrar e dos primeiros a sair das crises.

Falando por telefone desde São Paulo, Tieghi explicou que há três anos as redes vinham se preparando para a crise, negociando com fornecedores, revisando a matriz de produtos e principalmente otimizando processos.

Parece claro que para uma empresa convencional fazer tudo isso é mais difícil do que em rede, onde outras pessoas, algumas muito qualificadas buscam soluções para o negócio continuar sustentável.

O setor experimentou no primeiro trimestre deste ano crescimento de 7,6%, mas o potencial ainda é enorme já que as redes franqueadas não chegam a 60% das cidades brasileiras.

O diretor da ABF defende que as franquias são o melhor caminho para quem deseja empreender. O índice de fechamento é relativamente baixo e as franqueadoras mais estruturadas ajudam o franqueado que vai mal até a passar o negócio adiante.

Como todo empreendimento envolve riscos, que podem ser minimizados estudando cuidadosamente com quem se está fazendo negócios, como a franqueadora trata os parceiros etc.

A internet é um aliado, nas redes se encontra relatos de todo tipo sobre franquias, desde pessoas amargamente arrependidas até os que se deram bem e estão felizes na vida.

LOJAS DESOCUPADAS

Foto: Roger Samuel

Av. Brasil entra Ruas 1131 e 2300 – 30 lojas

Quarta Avenida – 10 lojas

Terceira Avenida entre Rua 2448 e Alvin Bauer – 9 lojas


Quarta, 13/7/2016 10:47.


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