Jornal Página 3
A Praia Central está doente
Daniele dos Reis
Por causa da infestação de briozoários, carretas de areia são retiradas todos os dias da Praia Central, sem planejamento ou previsão de impacto disso em longo prazo
Por causa da infestação de briozoários, carretas de areia são retiradas todos os dias da Praia Central, sem planejamento ou previsão de impacto disso em longo prazo

Texto Daniele dos Reis

A Praia Central de Balneário Camboriú está doente. Não é de hoje e mesmo assim os administradores da cidade continuam ignorando um problema que está impactando negativamente o turismo, grande mola propulsora da economia local.

É fato que tratar um problema como a infestação e o mau cheiro dos briozoários não dá tanto ibope como alimentar uma voluptuosa ideia como o engordamento da faixa de areia, mas na gestão de um município, essa omissão pode trazer consequências sérias e causar danos irreparáveis.

A Praia Central é o maior cartão postal de Balneário, suas areias continuam disputadas, porém a imagem que o turista está levando daqui não é das melhores. De acordo com o oceanógrafo Fernando Diehl, especialista no assunto e um dos sócios da Acquaplan - Tecnologia e Consultoria Ambiental, a enseada está sofrendo há mais de 10 anos com o arribamento dos briozoários.

Porém, os briozoários não são os únicos culpados. Levantamentos e estudos realizados ao longo dos anos demonstraram que a praia se tornou o lar de microalgas classificadas como diatomáceas e se não fosse o bastante, essas microalgas (e possivelmente grande quantidade de matéria orgânica que vem do rio Camboriú), têm atraído quantidades crescentes de bolacha do mar. A ocorrência de grandes concentrações de bolachas do mar foram constatadas neste verão, especialmente na parte sul da Praia Central.

O quadro não é novidade para a administração, no entanto, continua sendo ignorado. Os paliativos para limpezas da praia são outra preocupação, com caminhões e mais caminhões de areia retirados da orla sem se pensar no amanhã. O que inclui o impacto financeiro disso com aumento de gastos para limpeza e depósito deste material no aterro. “Na realidade estes recursos certamente poderiam ser direcionados a financiar um projeto de pesquisa, de um amplo estudo, para entender o problema, e buscar a solução deste passivo ambiental”.

O caso enfrentado por Balneário não tem precedentes na região, por isso está sendo alvo de estudo da Acquaplan. “Certamente que temos outras praias, com problemas com espécies de briozoários, mas não me recordo de uma praia, como a de Balneário, de 6 km de extensão, que tem no turismo a sua base econômica, especialmente o turismo de lazer, de verão. Portanto, nestas dimensões, este problema de Balneário, com estes animais, é um caso a ser destacado”, comentou Fernando.

O Página 3 teve acesso a um extrato do material que está sendo desenvolvido e que deverá ser apresentado à prefeitura, confira.

O que são esses organismos

Briozoários

Não são algas. São micro-organismos que fazem parte de um grupo de animais invertebrados. Muito oportunistas, vivem em colônias.

Diatomáceas

Microalgas também conhecidas como fitoplâncton. São organismos protistas, que consistem de seres vivos que não são classificados nem como animais nem como plantas. São organismos unicelulares, mas que muitas vezes vivem em forma de agrupamentos ou colônias.

Bolachas da praia ou Bolachas do Mar

Organismos com carapaças delicadas. Se alimentam de algas e detritos orgânicos. Estudos mostram que se adaptam a locais com nutrientes e correnteza branda, águas calmas.

Origem e fatores agravantes

De acordo com o oceanógrafo Fernando Diehl, não há uma data exata para o surgimento dessas espécies de briozoários na Praia Central. Os primeiros registros na quantidade em que se verifica na enseada de Camboriú, ficam entre 2004 e 2005.

De acordo com os estudos desenvolvidos até aqui, os briozoários encontrados são representados por duas espécies exóticas, ou seja, não são nativas. São oriundas de fora do país, possivelmente trazidas em águas de lastro de navios que circulam pelos portos catarinenses. Ele acredita que por serem mais oportunistas (se adaptam mais facilmente às condições ambientais do meio onde se encontram), essas espécies de briozoários tomaram conta de um espaço antes dominado por outros organismos. 

O estudo que está sendo desenvolvido levanta a possibilidade de isso ter acontecido em decorrência de alterações ambientais e ecológicas da Praia Central, a exemplo da dragagem do rio Camboriú e do despejo destes sedimentos para o engordamento de faixa de areia na Barra Sul, realizados há mais de 14 anos.

Depois do engordarmento da faixa da Barra Sul, houve grande mortalidade de organismos na praia, especialmente o mexilhão nativo da Praia Central, na Barra Sul, e esse ambiente pode ter favorecido à instalação dos briozoários mais oportunistas.

“Explicar aqui, qual, ou quais os nichos ecológicos (o espaço ambiental onde determinada espécie ocupa), e quais as espécies que os briozoários passaram a substituir, ou dominar, isso ainda não sabemos. Temos algumas conjecturas e estas hipóteses passam pelas grandes transformações ocorridas na enseada com as obras de engodamento da praia, na Barra Sul, com alta carga de sedimentos finos, lama, e matéria orgânica, utilizada, entre os anos de 2002 e 2004”, lembra Diehl.

Há solução?

“Certamente que existe”, destaca Fernando. Contudo, ele esclarece que isso depende de entender o problema, as razões e os fatos que impactaram a enseada. “Somente a partir do momento que compreendermos o que está realmente acontecendo, vai-se para a adoção das soluções”, concluiu.

Cronologia, por Diehl

* Jun/ago de 2002

A prefeitura iniciou obra de engordamento da Barra Sul. Foram retirados 50 mil metros cúbicos de sedimento das obras de dragagem do rio e depositados na praia.

* Junho de 2002 

Técnicos do CTTMar da Univali constataram a morte de espécies por soterramento; sufocamento e efeitos associados às características químicas do material depositado no engordamento.

* Fev/nov de 2003 

Mortalidade massiva de organismos na areia. Isso exigiu mais trabalho da limpeza urbana, chamando a atenção das agências ambientais e da opinião pública.

* Junho de 2004

A prefeitura concluiu a construção de um molhe de 452m na foz do Rio Camboriú, o que pode ter afetado a circulação local e a distribuição de sedimentos na bacia.

* 2005 a 2007

Surgimento frequente de organismos marinhos, trazendo mal cheiro e aparência desagradável. Material orgânico enchia até três caçambas da Ambiental.

Limpeza da praia e responsabilidade

Foto: Isaque de Borba Corrêa

A Praia Central enfrenta dias com grande aparecimento de briozoários e consequente cheiro forte e reclamações de turistas, principalmente nos dias mais quentes. Já as diatomáceas se proliferam mais nos dias frios, por isso engana-se quem acha que o problema é pontual. As bolachas estão também cada vez mais frequentes, já que a fonte de alimento é farta. Enquanto não busca uma solução para a raiz do problema, o município trabalha paliativamente na limpeza da orla.

A preocupação de muitos moradores é a mesma: qual o impacto de fazer essa limpeza constante com caminhões e máquinas pesadas, removendo muita areia, além da matéria orgânica? Esta é outra pergunta que segue sem resposta.

Desde que os briozoários se instalaram, a manutenção é feita desse jeito. De acordo com o gerente da Ambiental, Eduardo Alvino da Silva, quando a empresa era responsável pela limpeza urbana, fazia na medida do possível, a retirada manual do material, mas também utilizava caminhões para tal.

“Fazíamos com muito cuidado para retirar o mínimo de areia. Depois levávamos diretamente ao aterro”, comenta.

Ele informa que ainda hoje os resíduos coletados na praia são encaminhados ao aterro sanitário pelas equipes da Emasa. O que leitores indagam é que esse material orgânico vem sendo ensacado em plásticos para depois ser levado ao aterro, causando mais um passivo ambiental.

O atual diretor do Departamento de Limpeza Urbana, Humberto Alves foi procurado pela reportagem diversas vezes, mas não foi encontrado.


Sexta, 5/8/2016 16:51.


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