Jornal Página 3
Pastor Valdim, da Luterana, fala sobre o papel da igreja neste mundo
Valdim (D), com o filho mais velho Mateus e a neta Sarah
Valdim (D), com o filho mais velho Mateus e a neta Sarah

Por Marlise Schneider Cezar

Nome – Valdim Utech
Idade - 60
Natural – Marialva/PR
Formação – Superior - Teólogo
Estado civil Casado com Annemarie Liesenberg Utech
Filhos Mateus (Flora), Camila e Lucas
Netos - Sarah
Comida prediletaComida caseira
Lazer - Caminhada
Um livro - As brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
Um filme – Ben-Hur
Uma música/gênero musical - Pink Floyd, banda britânica de rock com o álbum The Dark Side of the Moon
Planos pessoais e profissionais – Continuar a apascentar as ovelhas até a aposentadoria.

A comunidade luterana da igreja Martin Luther comemorou no último mês quatro momentos especiais da vida do seu líder, pastor Valdim Utech: 34 anos de ministério (Formado em São Leopoldo/RS), 30 anos de ordenação, 25 anos de Balneário Camboriú e 60 anos de idade. Nesta reportagem, ele conta um pouco dessa trajetória e sobre o papel da igreja neste mundo cada vez mais exigente e veloz. Confira: 

O que motivou a sua escolha profissional?

Minha família vivia no interior do Paraná, sua atividade estava ligada à agricultura. Filho de agricultor fazia o primário (série iniciais) e olhe lá. Não havia como ir pra diante nos estudos. A igreja era algo levado muito a sério por todos. Nossa igreja, a luterana, era atendida por pastores vindos da Alemanha. Eles se tornaram uma espécie de "olheiros", pois precisávamos melhorar nossa formação de teólogos no Brasil. Assim, tive a "sorte" de ser escolhido para esta jornada. Sair cedo de casa e ir para longe estudar. O que se tornou uma bênção para minha vida.

Eram tempos diferentes. O que mudou de lá até aqui?

Sim, mudou muito. Hoje as instituições de ensino estão próximas das casas dos interessados em estudar. O que pode afastar da verdadeira vocação. Não há mais muito tempo para se preocupar com isso. Comecei a ir pra aula com seis anos, quando a regra era iniciar com sete. Hoje é possível terminar uma faculdade com 22 anos. Já não é a igreja que determina os passos de uma criança. A vocação ainda pode ajudar, porém, é a premência da vida que faz as escolhas.

Há alguns anos Religião fazia parte da grade curricular das escolas. Hoje o assunto está restrito às igrejas, às comunidades, às famílias. Quais as consequências que isso gerou?

Bem, aulas de ensino religioso estão presentes nas salas de aulas. Hoje o controle da grade escolar está com o MEC. O que é correto. Escola pública ou privada não é espaço para ensinar minhas convicções de fé. No tempo em que se tinha aulas de religião na escola, não podemos esquecer que a predominância absoluta era o ensino católico. Quando essa predominância passou a ser ameaçada com o crescimento de outras denominações, pentecostais, por exemplo, iniciou uma espécie de rebeldia dos que não queriam mais o contato com elementos católicos. Então foi necessário disciplinar o assunto. O que vem gerando bons frutos. Veja que quando cheguei em Balneário Camboriú, em 1991, criamos um conselho religioso, o qual presidi, com outras igrejas (católica, batista, quadrangular...), justamente para disciplinar o assunto aulas de ensino religioso nas escolas públicas. Na época o prefeito era Leonel Pavan, que colocava todo o aparato da prefeitura à disposição para que pudéssemos desenvolver um bom trabalho. Hoje tudo é diferente.

É provável que uma dessas consequências seja a grande dificuldade hoje em atrair jovens para a igreja?

Vivemos numa sociedade de consumo, baseada nos valores capitalistas. Sou eu que escolho o mercado onde vou comprar minha farinha, escolho o posto para abastecer o chevette, então porque não posso escolher minha igreja? Esse processo de constante mudança nos valores sociais acaba confundindo a cabeça dos jovens. Os jovens são violentamente explorados na sua essência pelo bombardeio midiático. São pressionados e direcionados para consumir determinados produtos. No caso: o que vestir, o que comer, que espaços frequentar, que equipamentos ter no bolso... Então a igreja, as coisas da fé, passam para um plano complicado. Ainda não vi nenhuma igreja que se habilitou a atrair especificamente jovens. O jovem de hoje sofre. Tiraram-lhe os conteúdos pelos quais brigar, não corre atrás de ideais, se acomodou. O "inimigo" ficou invisível. Sente que algo está errado, mas não sabe com quem e como lutar.

A era digital é uma contribuição importante na vida das pessoas. A igreja está acompanhando essa corrida digital?

Quem fica parado fica pra trás! Quando falamos em era digital penso que falamos na instrumentalização do trabalho. A igreja precisa do computador, precisa de ferramentas que facilitem o trabalho. Um pastor não pode mais ter uma escrivaninha, uma caneta, bíblia, caderno e um comentário bíblico, para executar suas tarefas. Hoje pode buscar auxílio em pesquisas já elaboradas por outros, de uma forma muito mais fácil. Pode se envolver com tabelas e mapas que facilitem sua visão de campo. A igreja nunca pode esquecer o essencial, o Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. Precisa ser fiel ao Evangelho. Ele não pode ser mascarado com truques. Nós queremos um Evangelho puro e simples. O mundo necessita da esperança e das boas-novas do Cristo vivo. Fiquei a pensar nesses dias: em meio a tantas dores, pessoas vivendo à margem de tudo o que há na sociedade, o que leva um pastor que diz amar as almas, que tem o interesse em pregar o Evangelho em todo o mundo, a adquirir um avião de 12 milhões de reais? Será que esse avião será usado para levar donativos, ou para uma grande cruzada em Angra dos Reis ou até mesmo em Porto Príncipe? Algo está errado. Eu creio em uma vida próspera, mas creio numa prosperidade que não ultrapasse os limites da vaidade. Quando a prosperidade produz luxo, ao ponto de ser usada como o único foco de testemunho de um programa de televisão diário, aí estamos no terreno da vaidade, e a Bíblia nos diz que vaidade mais vaidades para nada se aproveita. Insisto no Evangelho puro e simples.

Como imagina a igreja do futuro?

Menos teatral, menos circense. Uma igreja que não esteja aí para vender ilusões. Que seja serva fiel do Evangelho puro e simples. Com suas lideranças realmente ocupadas e preocupadas com as dores deste mundo. Não comprometida com o poder reinante, pois o poder corrompe. Realmente dedicada às crianças, assim como Jesus Cristo disse: deixar vir para mim as criancinhas, não as atrapalheis. Não precisamos criar evangélicos para ter uma bancada evangélica. Aliás, essa bancada não me representa. Uma igreja que não seja concorrente entre si. Que não pregue a prosperidade fajuta, que não engane os incautos. Que não alimente "olho gordo", mas que saiba confortar e consolar com o Espírito de Deus.

A proliferação de igrejas deixa visível em muitas delas a mercantilização da fé. Abrir uma igreja virou um grande negócio. Como é lidar com essa realidade 'concorrente de fé', que vem ganhando proporções cada vez maiores no país?

Esses pequenos "impérios" vem e vão. Pois dependem de um homem só. Não dependem de Deus. São caçadores de fortunas que se embrenham na exploração da fé alheia. Para isso precisam embelezar o produto que vendem, precisam falsificar a Palavra de Deus. Insistir em coisas que realmente não existem, ou que nunca saíram da boca dos profetas ou de Cristo. Igrejas espetaculares são meramente espetaculares. Preferimos manter os pés no chão. Para isso precisamos manter comunhão com outros que também pensem e atuem assim. Então criamos o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), composto por Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil(IEAB), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA), Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Debatemos temas teológicos, temas relevantes no país, oramos em conjunto para nos fortalecermos na fé em Cristo.

Como as pessoas distinguem uma igreja ‘honesta’ dessas que prometem milagres, brincam com a fé e cobram caro por isso?

Jesus nunca cobrou para pregar às multidões, e assim deixou-nos a preciosa lição de que aquilo que recebemos de graça devemos dar de graça também. O apóstolo Paulo, apesar das constantes necessidades que envolvem a obra missionária, nunca exigiu que nenhuma igreja lhe enviasse ofertas, antes recebia de bom grado e com ações de graças aquilo que lhe era enviado. A verdade é que nenhum dos apóstolos do Senhor jamais estipulou uma quantia para pregar a palavra de Deus em alguma cidade. A missão da igreja é pregar o Evangelho. Custos decorrentes disso precisam ser mantidos de alguma forma, sem jamais enriquecer. As pessoas precisam conhecer para avaliar. Tem gente que cai no conto do bilhete. Por quê? Pois é um conto bem contado, que promete uma coisa e dá outra (vergonha e prejuízo).

Em 2017 a igreja luterana comemora 500 anos da Reforma Protestante de Martim Lutero. O que representa essa data e como estão os preparativos por aqui?

2017 é uma data especial para as igrejas da Reforma luterana espalhadas pelo globo. A Reforma completará seu aniversário de 500 anos! E como não poderia deixar de ser, um evento desse porte não deixará de ser divulgado e badalado. Em muitos países tem havido uma mobilização especial rumo a essa data. Palestras, cultos especiais, concertos, simpósios, shows públicos, inauguração de edificações e placas memoriais, etc. Tudo deve ajudar o público mundial a lembrar de um evento que marcou significativamente a face, não só da Europa, mas do Ocidente cristão. O mundo não é mais o mesmo desde a Reforma. A redescoberta do evangelho feita por Lutero, Calvino e os demais Reformadores, bem como suas contribuições teológicas, mudaram a face das igrejas e ofereceram impulsos decisivos para a transformação da vida na sociedade. O zelo por criar e manter escolas e universidades, a cultura do trabalho dedicado e abnegado e a ideia de que dentro de cada profissão a pessoa vive dentro da vocação de Deus foram alguns impulsos que deixaram rastros profundos nas sociedades em que a Reforma chegou. E, já há mais de 190 anos atrás, o espírito e os valores da Reforma também chegaram, junto com os imigrantes europeus, aqui ao Brasil. Em especial, cristãos de tradição luterana fixaram residência em várias localidades no sul do Brasil, incluindo muitas localidades de Santa Catarina. Estamos envolvidos com nosso Sínodo que já planejou diversas atividades alusivas à data.

O casal com os filhos Lucas, Camila, Flora (com a neta Sarah), Mateus e seus pais Traudy e Bruno (ele falecido em 19/7)

Balneário Camboriú foi uma escolha sua há 25 anos?

Pois olha que cheguei junto com o Jornal Página3. Na verdade fui estimulado a me candidatar à vaga existente aqui. Era Paróquia nova, recém desmembrada de Itajaí. Tinha um pastor que atuou três anos, pastor João, como ele já era aposentado, só veio para organizar a paróquia. Lembro que tinha uns 17 candidatos, fui o eleito pelo presbitério da época. Não queria vir para cá, pois achava que não era meu perfil. Então vim, e fui ficando.

O Sr. acompanhou uma fase importante do crescimento da praia. Como era a cidade que conheceu em 1991 e como avalia as mudanças que ela sofreu?

Nosso terceiro filho não tinha um ano quando aportamos por aqui. Um pouco mais adiante, com o menino já mais forte, andava com ele de noite de bicicleta pela orla. Quando era tempo de inverno não tinha viva alma andando pela praia ou calçada. A iluminação era bem mais simples, porém boa para os padrões da época. O comércio fechava bem cedo, ainda não tinha os shoppings, os quiosques. Era uma beleza. Ainda antes do ano dois mil tudo começa a mudar. Eram incontáveis os prédios em construção. Vinham levas e levas de famílias para trabalhar na construção civil. Os bairros começaram a crescer vertiginosamente. Nós criamos a “Pastoral das Praias”, que integrava os pastores que atuavam no litoral de SC. Os governos de Espiridião Amin e depois Luis Henrique da Silveira nos forneciam dados para estudos migratórios. Governador Luis Henrique falava muito da litoralização de SC. As igrejas deveriam estar atentas à isso.

Assim como a cidade cresceu rapidamente, a comunidade luterana também acompanhou, principalmente após a construção do templo, hoje considerado uma atração turística. Como foi essa trajetória?

Em 1987 foi realizado o primeiro culto no novo endereço da igreja luterana, Rua Indonésia, 220. Antes sua atuação estava na Rua 2300, na “igrejinha”. O novo templo foi inaugurado em 2002. Foram 11 anos de muito trabalho. Trabalhávamos como formiguinhas, buscando pequenas doações, fazendo almoços, jantares, algum recurso da igreja maior. Importante dizer que muita gente da cidade colaborou para esta construção, não só luteranos. Sobre isso somos gratos até hoje. Tanto que sempre tínhamos as portas abertas para eventos culturais, como uma espécie de retribuição. Alguns lembram que trouxemos bandas e corais do exterior, orquestras e outras atividades afins. A cidade não tinha teatro. A comunidade nunca cobrou ingresso para estas atividades. A igreja está sempre à disposição. A igreja cumpre sua função social para cuidar dos mais fracos. Sempre estamos juntando recursos para atender situações de risco. Quando há muita fome não adianta ensinar a pescar, tem que dar o peixe primeiro.

A igreja luterana de Balneário Camboriú está inserida numa rede de igrejas?

Sim, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil contabiliza hoje mais de 1000 pastores, catequistas, diáconos e diaconisas, missionários. São mais de 2000 comunidades mais 1200 pontos de pregação. A ordenação feminina (pastoras) já passa de 30 anos. Fazemos parte da Federação Luterana Mundial que foi criada em 1947 em Lund, Suécia. Considera-se uma comunhão de igrejas cristãs de tradição luterana, fazendo parte do Conselho Mundial de Igrejas. O presidente da FLM é Munib Younan, da Igreja Evangélica Luterana da Jordânia e da Terra Santa. O secretário geral da FLM é Rev. Martin Junge, da Igreja Evangélica Luterana do Chile, sendo o primeiro latino americano a ocupar este cargo. Atualmente conta com 142 igrejas-membro em 79 países ao redor do mundo. Conta com uma membresia de mais de 70 milhões de pessoas. A Federação coopera em áreas de interesse comum tais como o ecumenismo e as relações inter-religiosas, teologia, assistência humanitária, direitos humanos, comunicação, e as várias faces da missão e o desenvolvimento. Sua sede encontra-se em Genebra, Suíça. Também temos parte ativa no Conselho Mundial de Igrejas. É a principal organização ecumênica em nível internacional, fundada em 1948, em Amsterdam, Holanda. Com sede em Genebra, Suíça, o CMI congrega mais de 340 igrejas e denominações em sua membresia. Estas igrejas e denominações representam mais de 500 milhões de fiéis presentes em mais de 120 países.

 


Quarta, 31/8/2016 8:15.


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