Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Mana Bernardes lança Ritos do Nascer ao Parir em Curitiba

A multiartista carioca estreia na literatura propondo envolvimento: com livro e perfomance, traz suas histórias pessoais universais pra roda e chama geral para movimentar junto

Segunda, 4/11/2019 16:33.
Caroline Cezar

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Por Caroline Cezar

Mana Bernardes, multiartista carioca, tem quase 38 e muita história pra contar. Algumas estão em Ritos do Nascer ao Parir, livro lançado ao público com perfomance coletiva, onde ela, autora, e a protagonista Rute-Mãe convidam para integrar esse grande vestido, costurado com histórias de vida das duas, que ressoam em quem lê. "O livro fala da gente mas é universal, porque trata de temas comuns a todos. Acho que por isso gera tanta identificação", diz Rute Casoy, mãe da Mana, que se sente "totalmente representada" por ela.

Na sua estreia na literatura, Mana, que faz arte em muitas expressões -poemas, jóias, performances, comidas, danças, relações- usa uma linguagem direta e espontânea para tratar naturalmente alegrias, dores, frustrações, doença, mortes, nascimentos e tantas outras passagens na sua trajetória como filha, artista e mulher. O desejo latente e a dificuldade de engravidar a fazem botar no mundo essas histórias, e levam a olhar profundamente para as relações e principalmente para a linhagem feminina da família.

Nesse primeiro final de semana de novembro Mana esteve em Curitiba lançando Ritos no espaço Marielle do acampamento Lula Livre e no Festival da Felicidade, com oficina, perfomance e autógrafos. Duas tardes de conversas e aberturas, onde ela contou histórias do livro, e em companhia da Rute-mãe, convidou os participantes a dançar em roda com o grande vestido, alternando entre o centro -onde há dois lugares para vestir- e as bordas, sustentadas por cordões vermelhos umbilicais, que dão amplitude e movimento ao todo. As histórias originais -Mana escreveu as 1260 páginas do livro à mão- estampam o espaçoso traje feminino e coletivo.

Fomos até lá, ouvir, conversar e dançar um pouco dessas histórias profundas trazidas à tona por essa mulher, que se sente compromissada em trazer protagonismo às mulheres, incentivar a criação, e também incluir os homens nessa grande saia. "É muito pesada essa masculinidade tóxica, é também um trabalho que quer trazer os homens pra esse lugar do feminino, de poder ser".


Foto João Pedro OrbanMana Bernardes

Carol - Mana, o Ritos é um rito profundo pra quem lê, pra mim foi, e tenho visto muitos relatos nas suas redes que falam dessa mesma intensidade de sentimentos… Ao mesmo tempo é muito difícil descrever o livro, porque ele é amplo, alcança muitos lugares, e também passa por um abstrato, um indefinível, é como se tivesse uma magia ali, que fala desse lugar teu pra esse lugar no outro.

Mana - Eu me identifico quando você diz que é difícil descrever, mas quando esse homem veio perguntar (durante a entrevista alguém está passando e quer saber sobre o que é o livro) acho que consegui: É um livro sobre criação, a criação que a gente recebe, e a criação que a gente coloca no mundo. É uma boa frase pra sintetizar, porque meu lugar é também incentivar a criação dessas mulheres, porque acho que cada vez mais nós temos muito poder de ser autoras, assumir nossa autoralidade, até meu jeito de ser como artista é pra que outras mulheres se sintam também no lugar de criar. Porque pra assumir criação a gente não precisa de nada, não precisa dinheiro, talvez um pouco de tempo... quantas vezes tive que me esconder no banheiro pra escrever porque tava sendo tão solicitada externamente que tinha que me trancar, fazer a privada de mesa, fingir que tô cagando, mas no fundo tava escrevendo um poema (risos).

Carol - É sobre criação em todos os sentidos.

Mana - Sim, como a criação não convencional que eu tive da minha mãe e que me libertou pra viver todos os meus traumas, tudo que eu passei, de maneira criativa. É sobre a criação que a gente recebe dos pais e sobre o criativo que a gente pode oferecer pro mundo através da criação.

Carol - Você levou dez meses pra escrever, como foi esse tempo? Sua mãe disse que você "cuspiu" o livro.

Mana - Carol, eu não voltei nenhuma palavra. Como eu escrevo à mão, eu rabiscava às vezes uma palavra ou outra, mas eu não volto. Tem uma coisa que eu acredito que é a escrita automática, a primeira coisa que sai tem que ser aceita como ela sai, é o não julgamento, é aceitar o processo, não querer que esteja polido lindo acabado, é a natureza selvagem e eu quero cada vez mais que a minha literatura aceite essa natureza. Depois o livro passou por um processo de edição de 40 dias com a Camila Savóia, que é uma editora maravilhosa. Porque ele foi escrito à mão em 1260 páginas, então também tinha um certo caos ali, e ela fez esse trabalho, essa parceria super importante que a gente chamou de cronologia emocional, foi juntando as coisas.

Carol - O livro nasceu da vontade de dar nascimento a um filho…

Mana - Sim, eu comecei a tentar engravidar, e não consegui. Aí descobri que quando fizeram minha cirurgia aos 13 anos, e cortaram um pedaço do meu intestino, minhas trompas ficaram aderidas (Mana conta essa história de quase morte na adolescência em detalhes no livro). Dei início ao processo de fertilização, engravidei e perdi várias vezes, e fui escrevendo durante esse processo hormonal, que estava sendo muito difícil pra mim, sofri muito. Sempre fui muito maternal, e é muito difícil compreender por que a vida trouxe essa constituição pra mim, sou mãe de todo mundo, minha casa vive cheia de meninos, ajudei a criar meus irmãos quando meu pai morreu… A única forma de sobreviver a essa situação era escrevendo, então pra mim a escrita não é minha arte, não é egóico, é o jeito de aguentar o que estava passando, meu processo de cura, minha frustração. Hoje ainda está acontecendo, estou vivendo as etapas, os ritos. É isso, a gente tem que colocar na vida. A doença, a morte, os apertos, se a gente expressa a gente tá colocando na vida.

Foto Caroline Cezar

Rute-mãe, no lançamento em Curitiba, com o vestido que estampa os manuscritos do livro.


Rute
- No caso da Mana ela não teve opção, o sintoma foi tão evidente, a doença, a cirurgia enorme aos 13 anos, não só ela mas todo entorno familiar teve que olhar pra isso, pra esse rasgo, esse corte. E isso deu pra todo mundo que se envolveu a possibilidade de se curar, extirpar o mal. Porque o mal é sempre o não dito, quando é dito deixa de ser mal porque pode ser transformado, em crescimento, aprendizado, mas quando não é dito vai torturando.

Carol - Acaba sendo um convite a olhar pras coisas de maneira mais crua.

Mana - É bonito ver o espaço que o livro vai abrindo, contar a minha história pra que os outros possam contar as suas, se assumir, esse é o grande espaço que o livro abre. Cada um chega pra mim com uma história pra contar, todo mundo tem seus ritos… e é isso, qual o problema de fazer uma fertilização, ter uma cicatriz, ter uma doença auto imune… De olhar para a raiz das coisas, que vem lá de trás e entender, nossa é óbvio, eu sou a primeira geração que se dá com a minha mãe, minha trompa não tá entupida à toa.

Rute - A Mana é uma mulher que põe a boca no trombone...eu sempre tive muito medo, a gente tinha esse comando interno de que mulher não fala, que não conta sua história, não tem a história valorizada, ninguém dava valor às potências das mulheres, do mundo doméstico, aquele bordar, costurar, cozinhar...minha avó não escreveu o livro, minha mãe não escreveu, eu não escrevi, a Mana teve que escrever porque sua barriga foi escancarada. E teve que escrever antes de ter um filho, veio nesse momento.

Carol - Ritos foi sua estreia na literatura?

Mana - Sim, eu já tinha um livro, que se chama Mana e Manuscritos, que é um compilado do meu trabalho como um todo. Tem a área dos ambientes pedagógicos, que são os projetos sociais que faço pelo Brasil e que são muitos; tem a área dos meus trabalhos voltados mais pra galeria e museus; tem os manuscritos e tem as jóias de lixo, que eu passei 20 anos fazendo… Mas o Ritos vai pra literatura e como ele aconteceu por financiamento coletivo, já começou a existir nesse movimento de re existência, de acreditar que podem ter outros códigos pra botar uma coisa no mundo. E o financiamento coletivo tem tudo a ver com esse momento atual, da gente ressignificar a maneira como a gente faz, assumir o nosso processo, da gente como artista mostrar que precisa do outro, e nesse lugar o público vira participante, deixa de ser só público. Fizemos um Catarse muito bem sucedido, consegui captar bem e isso me deu muita coragem pra continuar escrevendo, como se cada capítulo eu tivesse respondendo a essas 500 pessoas que apoiaram.

Foto Caroline Cezar

"O rito se apresenta, qualquer momento que a gente esteja presente é um rito".

Carol - Ele veio por um processo racional? Você pensou o livro, idealizou, tinha um formato na mente?

Mana - Sempre falo que não gasto pensamento à toa, sou mais da ação, porque meu trabalho é muito manufaturado, tô aqui autografando, e não é "com amor, para fulano", eu olho a pessoa, escrevo o que vem, eu acredito muito mais na ação, se a gente age pensando é muito melhor que pensar e depois agir. Eu vou pra ação, e enquanto tô agindo to pensando, cozinhando, escrevendo, tem uns momentos que brotam os pensamentos mas não é da estrutura racional, eu escrevo com o corpo inteiro, não é só a mão que escreve.

Carol - Você lembra de ter sido diferente isso na tua vida, ou sempre foi assim?

Mana - Minha doença mudou muito minha vida. Fiquei dois anos cagando sangue sem ir pra escola, sendo internada e voltando, eu era mais velha quando tinha 11 anos, antes da doença, porque depois, a partir dos 13, meus códigos com a vida mudaram sabe? Porque tem que aproveitar a vida né. E ser muito racional é muito chato, pra quem está por perto, mas pra pessoa que é, mais ainda. Óbvio que sou racional, senão não conseguiria calcular a quantidade de realização que eu dou conta, eu trabalho muito, mas de uma certa forma fico tentando driblar a minha racionalidade.

Carol - Como?

Mana - Quanto tá demais eu vou, sei lá, cozinhar… eu não sou racional fazendo, cozinhando por exemplo, nunca peguei um livro de receita, vou brincando. Eu cozinho todos os dias, faço a comida da casa, almoço e jantar, passo um bom tempo ali, é um ambiente pra mim de muita saúde, é onde eu me curei mesmo... porque com essa doença que eu tenho que é a doença de Chron, é auto imune, sempre pode voltar e dar crise, e às vezes ainda tenho, então preciso fazer um calendário de auto cuidado. Eu sou muito intensa, então tenho que tentar ir pros lugares que resfriam esse calor tão grande, a própria doença me dá essa condição comportamental de tentar não me atacar… tipo agora, que ainda tô nesse processo de tentar a fertilização, é difícil, minha cara estourou de acne, e a gente é meio barra pesada né, vai pro espelho espreme a cara inteira, não sou maravilhosa, não posso ficar aqui defendendo o auto cuidado porque eu também me destruo, você também se destrói…a gente se destrói em algum lugar.

Carol - E isso continua gerando assunto pra segunda parte de Ritos… Já tem algo em vista?

Mana - Agora tô cuidando muito desse processo, vou ter que fazer uma cirurgia, tirar essas trompas, e quero dar esse tempo, viver um pouco mais pro próximo livro ter o que contar. Respeito muito isso, tem três meses que não escrevo nada, nem um poema, aí de repente escrevo loucamente tudo que não escrevi em dois dias, acho que a criação é um corpo muito orgânico, não tem que se cobrar.

Carol - Você chama de livro de poemas?

Mana - Acho que é literatura, é o meu primeiro livro de literatura, eu estou entrando nesse meio que nunca entrei, em feiras literárias, prêmios, nesse ambiente da literatura… já me consolidei muito no ambiente do design, da arte, e na literatura tô entrando com esse livro, batendo na porta das bienais e tal… E também aproveitando pra mostrar que livro não é um autor no fundo de uma livraria autografando, livro é envolvimento, tenho muito tentado trocar a palavra desenvolvimento por envolvimento, porque ficou uma conta pra gente no mundo trabalhar tanto por desenvolvimento... Eu quero que a gente tenha envolvimento e que o desenvolvimento seja um sucesso desse envolvimento e não uma coisa que não se envolve.

Carol - E isso você faz lindamente com esse trabalho, essa teia, essa costura…

Mana - Tô muito feliz. Fico feliz com vocês, com mulheres podendo receber essa atitude não linear e é isso né, que a Rute falou, como mãe acaba tendo um monte de culpa, ficando frustrada o tempo todo, achando que não está sendo a mãe que você projetou que ia ser, acho que esse recado de tornar protagonista a minha própria mãe, aceitar como ela é e a gente se aceitar nas nossas limitações humanas….Esse recado de assumir-se, assumir a potência que é, as nossas dores…

Carol - E isso tá longe de ser perfeito….

Mana - Mas isso é humano né.




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Caroline Cezar

Mana Bernardes lança Ritos do Nascer ao Parir em Curitiba

A multiartista carioca estreia na literatura propondo envolvimento: com livro e perfomance, traz suas histórias pessoais universais pra roda e chama geral para movimentar junto

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Segunda, 4/11/2019 16:33.
Por Caroline Cezar

Mana Bernardes, multiartista carioca, tem quase 38 e muita história pra contar. Algumas estão em Ritos do Nascer ao Parir, livro lançado ao público com perfomance coletiva, onde ela, autora, e a protagonista Rute-Mãe convidam para integrar esse grande vestido, costurado com histórias de vida das duas, que ressoam em quem lê. "O livro fala da gente mas é universal, porque trata de temas comuns a todos. Acho que por isso gera tanta identificação", diz Rute Casoy, mãe da Mana, que se sente "totalmente representada" por ela.

Na sua estreia na literatura, Mana, que faz arte em muitas expressões -poemas, jóias, performances, comidas, danças, relações- usa uma linguagem direta e espontânea para tratar naturalmente alegrias, dores, frustrações, doença, mortes, nascimentos e tantas outras passagens na sua trajetória como filha, artista e mulher. O desejo latente e a dificuldade de engravidar a fazem botar no mundo essas histórias, e levam a olhar profundamente para as relações e principalmente para a linhagem feminina da família.

Nesse primeiro final de semana de novembro Mana esteve em Curitiba lançando Ritos no espaço Marielle do acampamento Lula Livre e no Festival da Felicidade, com oficina, perfomance e autógrafos. Duas tardes de conversas e aberturas, onde ela contou histórias do livro, e em companhia da Rute-mãe, convidou os participantes a dançar em roda com o grande vestido, alternando entre o centro -onde há dois lugares para vestir- e as bordas, sustentadas por cordões vermelhos umbilicais, que dão amplitude e movimento ao todo. As histórias originais -Mana escreveu as 1260 páginas do livro à mão- estampam o espaçoso traje feminino e coletivo.

Fomos até lá, ouvir, conversar e dançar um pouco dessas histórias profundas trazidas à tona por essa mulher, que se sente compromissada em trazer protagonismo às mulheres, incentivar a criação, e também incluir os homens nessa grande saia. "É muito pesada essa masculinidade tóxica, é também um trabalho que quer trazer os homens pra esse lugar do feminino, de poder ser".


Foto João Pedro OrbanMana Bernardes

Carol - Mana, o Ritos é um rito profundo pra quem lê, pra mim foi, e tenho visto muitos relatos nas suas redes que falam dessa mesma intensidade de sentimentos… Ao mesmo tempo é muito difícil descrever o livro, porque ele é amplo, alcança muitos lugares, e também passa por um abstrato, um indefinível, é como se tivesse uma magia ali, que fala desse lugar teu pra esse lugar no outro.

Mana - Eu me identifico quando você diz que é difícil descrever, mas quando esse homem veio perguntar (durante a entrevista alguém está passando e quer saber sobre o que é o livro) acho que consegui: É um livro sobre criação, a criação que a gente recebe, e a criação que a gente coloca no mundo. É uma boa frase pra sintetizar, porque meu lugar é também incentivar a criação dessas mulheres, porque acho que cada vez mais nós temos muito poder de ser autoras, assumir nossa autoralidade, até meu jeito de ser como artista é pra que outras mulheres se sintam também no lugar de criar. Porque pra assumir criação a gente não precisa de nada, não precisa dinheiro, talvez um pouco de tempo... quantas vezes tive que me esconder no banheiro pra escrever porque tava sendo tão solicitada externamente que tinha que me trancar, fazer a privada de mesa, fingir que tô cagando, mas no fundo tava escrevendo um poema (risos).

Carol - É sobre criação em todos os sentidos.

Mana - Sim, como a criação não convencional que eu tive da minha mãe e que me libertou pra viver todos os meus traumas, tudo que eu passei, de maneira criativa. É sobre a criação que a gente recebe dos pais e sobre o criativo que a gente pode oferecer pro mundo através da criação.

Carol - Você levou dez meses pra escrever, como foi esse tempo? Sua mãe disse que você "cuspiu" o livro.

Mana - Carol, eu não voltei nenhuma palavra. Como eu escrevo à mão, eu rabiscava às vezes uma palavra ou outra, mas eu não volto. Tem uma coisa que eu acredito que é a escrita automática, a primeira coisa que sai tem que ser aceita como ela sai, é o não julgamento, é aceitar o processo, não querer que esteja polido lindo acabado, é a natureza selvagem e eu quero cada vez mais que a minha literatura aceite essa natureza. Depois o livro passou por um processo de edição de 40 dias com a Camila Savóia, que é uma editora maravilhosa. Porque ele foi escrito à mão em 1260 páginas, então também tinha um certo caos ali, e ela fez esse trabalho, essa parceria super importante que a gente chamou de cronologia emocional, foi juntando as coisas.

Carol - O livro nasceu da vontade de dar nascimento a um filho…

Mana - Sim, eu comecei a tentar engravidar, e não consegui. Aí descobri que quando fizeram minha cirurgia aos 13 anos, e cortaram um pedaço do meu intestino, minhas trompas ficaram aderidas (Mana conta essa história de quase morte na adolescência em detalhes no livro). Dei início ao processo de fertilização, engravidei e perdi várias vezes, e fui escrevendo durante esse processo hormonal, que estava sendo muito difícil pra mim, sofri muito. Sempre fui muito maternal, e é muito difícil compreender por que a vida trouxe essa constituição pra mim, sou mãe de todo mundo, minha casa vive cheia de meninos, ajudei a criar meus irmãos quando meu pai morreu… A única forma de sobreviver a essa situação era escrevendo, então pra mim a escrita não é minha arte, não é egóico, é o jeito de aguentar o que estava passando, meu processo de cura, minha frustração. Hoje ainda está acontecendo, estou vivendo as etapas, os ritos. É isso, a gente tem que colocar na vida. A doença, a morte, os apertos, se a gente expressa a gente tá colocando na vida.

Foto Caroline Cezar

Rute-mãe, no lançamento em Curitiba, com o vestido que estampa os manuscritos do livro.


Rute
- No caso da Mana ela não teve opção, o sintoma foi tão evidente, a doença, a cirurgia enorme aos 13 anos, não só ela mas todo entorno familiar teve que olhar pra isso, pra esse rasgo, esse corte. E isso deu pra todo mundo que se envolveu a possibilidade de se curar, extirpar o mal. Porque o mal é sempre o não dito, quando é dito deixa de ser mal porque pode ser transformado, em crescimento, aprendizado, mas quando não é dito vai torturando.

Carol - Acaba sendo um convite a olhar pras coisas de maneira mais crua.

Mana - É bonito ver o espaço que o livro vai abrindo, contar a minha história pra que os outros possam contar as suas, se assumir, esse é o grande espaço que o livro abre. Cada um chega pra mim com uma história pra contar, todo mundo tem seus ritos… e é isso, qual o problema de fazer uma fertilização, ter uma cicatriz, ter uma doença auto imune… De olhar para a raiz das coisas, que vem lá de trás e entender, nossa é óbvio, eu sou a primeira geração que se dá com a minha mãe, minha trompa não tá entupida à toa.

Rute - A Mana é uma mulher que põe a boca no trombone...eu sempre tive muito medo, a gente tinha esse comando interno de que mulher não fala, que não conta sua história, não tem a história valorizada, ninguém dava valor às potências das mulheres, do mundo doméstico, aquele bordar, costurar, cozinhar...minha avó não escreveu o livro, minha mãe não escreveu, eu não escrevi, a Mana teve que escrever porque sua barriga foi escancarada. E teve que escrever antes de ter um filho, veio nesse momento.

Carol - Ritos foi sua estreia na literatura?

Mana - Sim, eu já tinha um livro, que se chama Mana e Manuscritos, que é um compilado do meu trabalho como um todo. Tem a área dos ambientes pedagógicos, que são os projetos sociais que faço pelo Brasil e que são muitos; tem a área dos meus trabalhos voltados mais pra galeria e museus; tem os manuscritos e tem as jóias de lixo, que eu passei 20 anos fazendo… Mas o Ritos vai pra literatura e como ele aconteceu por financiamento coletivo, já começou a existir nesse movimento de re existência, de acreditar que podem ter outros códigos pra botar uma coisa no mundo. E o financiamento coletivo tem tudo a ver com esse momento atual, da gente ressignificar a maneira como a gente faz, assumir o nosso processo, da gente como artista mostrar que precisa do outro, e nesse lugar o público vira participante, deixa de ser só público. Fizemos um Catarse muito bem sucedido, consegui captar bem e isso me deu muita coragem pra continuar escrevendo, como se cada capítulo eu tivesse respondendo a essas 500 pessoas que apoiaram.

Foto Caroline Cezar

"O rito se apresenta, qualquer momento que a gente esteja presente é um rito".

Carol - Ele veio por um processo racional? Você pensou o livro, idealizou, tinha um formato na mente?

Mana - Sempre falo que não gasto pensamento à toa, sou mais da ação, porque meu trabalho é muito manufaturado, tô aqui autografando, e não é "com amor, para fulano", eu olho a pessoa, escrevo o que vem, eu acredito muito mais na ação, se a gente age pensando é muito melhor que pensar e depois agir. Eu vou pra ação, e enquanto tô agindo to pensando, cozinhando, escrevendo, tem uns momentos que brotam os pensamentos mas não é da estrutura racional, eu escrevo com o corpo inteiro, não é só a mão que escreve.

Carol - Você lembra de ter sido diferente isso na tua vida, ou sempre foi assim?

Mana - Minha doença mudou muito minha vida. Fiquei dois anos cagando sangue sem ir pra escola, sendo internada e voltando, eu era mais velha quando tinha 11 anos, antes da doença, porque depois, a partir dos 13, meus códigos com a vida mudaram sabe? Porque tem que aproveitar a vida né. E ser muito racional é muito chato, pra quem está por perto, mas pra pessoa que é, mais ainda. Óbvio que sou racional, senão não conseguiria calcular a quantidade de realização que eu dou conta, eu trabalho muito, mas de uma certa forma fico tentando driblar a minha racionalidade.

Carol - Como?

Mana - Quanto tá demais eu vou, sei lá, cozinhar… eu não sou racional fazendo, cozinhando por exemplo, nunca peguei um livro de receita, vou brincando. Eu cozinho todos os dias, faço a comida da casa, almoço e jantar, passo um bom tempo ali, é um ambiente pra mim de muita saúde, é onde eu me curei mesmo... porque com essa doença que eu tenho que é a doença de Chron, é auto imune, sempre pode voltar e dar crise, e às vezes ainda tenho, então preciso fazer um calendário de auto cuidado. Eu sou muito intensa, então tenho que tentar ir pros lugares que resfriam esse calor tão grande, a própria doença me dá essa condição comportamental de tentar não me atacar… tipo agora, que ainda tô nesse processo de tentar a fertilização, é difícil, minha cara estourou de acne, e a gente é meio barra pesada né, vai pro espelho espreme a cara inteira, não sou maravilhosa, não posso ficar aqui defendendo o auto cuidado porque eu também me destruo, você também se destrói…a gente se destrói em algum lugar.

Carol - E isso continua gerando assunto pra segunda parte de Ritos… Já tem algo em vista?

Mana - Agora tô cuidando muito desse processo, vou ter que fazer uma cirurgia, tirar essas trompas, e quero dar esse tempo, viver um pouco mais pro próximo livro ter o que contar. Respeito muito isso, tem três meses que não escrevo nada, nem um poema, aí de repente escrevo loucamente tudo que não escrevi em dois dias, acho que a criação é um corpo muito orgânico, não tem que se cobrar.

Carol - Você chama de livro de poemas?

Mana - Acho que é literatura, é o meu primeiro livro de literatura, eu estou entrando nesse meio que nunca entrei, em feiras literárias, prêmios, nesse ambiente da literatura… já me consolidei muito no ambiente do design, da arte, e na literatura tô entrando com esse livro, batendo na porta das bienais e tal… E também aproveitando pra mostrar que livro não é um autor no fundo de uma livraria autografando, livro é envolvimento, tenho muito tentado trocar a palavra desenvolvimento por envolvimento, porque ficou uma conta pra gente no mundo trabalhar tanto por desenvolvimento... Eu quero que a gente tenha envolvimento e que o desenvolvimento seja um sucesso desse envolvimento e não uma coisa que não se envolve.

Carol - E isso você faz lindamente com esse trabalho, essa teia, essa costura…

Mana - Tô muito feliz. Fico feliz com vocês, com mulheres podendo receber essa atitude não linear e é isso né, que a Rute falou, como mãe acaba tendo um monte de culpa, ficando frustrada o tempo todo, achando que não está sendo a mãe que você projetou que ia ser, acho que esse recado de tornar protagonista a minha própria mãe, aceitar como ela é e a gente se aceitar nas nossas limitações humanas….Esse recado de assumir-se, assumir a potência que é, as nossas dores…

Carol - E isso tá longe de ser perfeito….

Mana - Mas isso é humano né.




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