Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Miguel Falabella fala sobre o futuro da cultura e o ‘ódio’ por selfies e por quem colocou câmera num telefone

Terça, 3/12/2019 21:45.
Renata Rutes

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Renata Rutes

O ator, diretor e produtor Miguel Falabella esteve em Balneário Camboriú na noite de ontem (2) para palestrar na Univali, a convite do Núcleo Catarinense de Decoração (NCD). Ele contou sobre sua trajetória, que iniciou ainda aos oito anos quando, acompanhado pela avó, foi ao teatro e se apaixonou. Falabella defendeu a importância da poesia (citando que “A poesia nos torna pessoas diferenciadas”), e sobre a importância de sonhar, dizendo que em sua casa inicialmente não apoiavam sua carreira artística.

“Dizem que a gente não pode dar o passo maior que a perna, mas você sabe qual é o tamanho da minha perna? Deixa eu sonhar”, disse.

Ele também contou histórias de sua trajetória, como um episódio que aprendeu com a atriz Cláudia Raia a importância da dedicação. Juntos os dois fizeram um musical e Cláudia precisava dançar e cantar ao mesmo tempo, e todos os dias ela ‘treinava’ cantando correndo na esteira, para não ficar ‘afobada’ no palco, mesmo o musical estando em cartaz por dois anos.

Antes da palestra, ele conversou com a reportagem do Página 3 e opinou sobre o cenário cultural no Brasil e como é o contato com o público, destacando que não gosta de tirar selfies. Confira.

JP3: Você acaba de estrear a série ‘Eu, a Vó e a Boi’ pelo Globo Play. Como é essa mudança de plataforma, saindo da TV aberta para um aplicativo?

Miguel Falabella: Eu não parei pra pensar ainda porque acabou de estrear. Na verdade eu fiz 12 episódios e acabaram virando seis, então eu não sei o que foi que eles fizeram com a série. Honestamente, eu não vi. Eu tinha um pensamento e eu acho que virou outro. A Globo Play achou por bem enxugar, porque eles querem que as pessoas ‘maratonem’ tudo num dia só. Enfim, eu não sei exatamente o que te dizer ainda, eu acho que em dois anos eu vou ter uma opinião melhor.

JP3: Você acha que esse é o futuro da TV? Que as pessoas vão ver mais séries?

Miguel Falabella: Eu acho que as pessoas vão ver mais séries. Se bem que o Brasil nunca está muito inserido, porque o Brasil é um pouco à parte. O Brasil assiste as mesmas coisas há 30 anos, né. É um povo que deveria ser estudado, é um povo que vê a mesma novela há 30 anos. Eles sentam lá e veem a mesma coisa há 30 anos. A Universidade Harvard deveria comprar os nossos cérebros para ver o que há de novo no cérebro do brasileiro, porque eu nunca vi um povo igual.

JP3: Você também está no teatro com a peça ‘A Mentira’, como é essa sua paixão que dura tantos anos?

Miguel Falabella: Teatro é tudo, é fundamental. Eu acho que um ator que não faz teatro ele acaba forçadamente se tornando um ator pior. O teatro te ensina não só a dominar a palavra, mas a dar novos significados, apurar o seu tempo dramático. É bem interessante.

JP3: Como você analisa o cenário cultural no nosso país? E o futuro disso?

Miguel Falabella: Uma desgraça profunda. É melhor dar um tiro na cabeça ou tentar nascer em outro lugar, se houver reencarnação, que aqui o negócio está feio. Não vejo futuro nenhum, porque eu não vou pegar, eu já vou ter desencarnado. Então o que acontecer eu já não vou ver.

JP3: Como é o seu contato com o público dessa forma diferente, como Miguel palestrante?

Miguel Falabella: Eu não tenho muita paciência pra selfie. Eu tenho ódio do Steve Jobs. Eu quero que ele queime no inferno (risos), entendeu? O infeliz que colocou câmera num telefone. Eu quero que ele queime o resto da eternidade no inferno, porque ele acabou com a vida da gente. Aqui, né. Porque brasileiro tem isso. Nos Estados Unidos ninguém chega perto. Aqui no Brasil as pessoas fazem isso, né. Tira uma foto comigo (nesse momento ele apertou as pessoas ao redor, demonstrando que é puxado e apertado na hora que o público se aproxima). Se você fizer isso nos Estados Unidos você é presa na mesma hora. Eu chamo a polícia e você vai em cana. Se você fala ‘não, não me toque’. As pessoas falam ‘ele é nojento, né’, ‘ele é mal educado, né’. Eu digo ‘claro que eu sou, com certeza eu sou mal educado com uma pessoa que vem me pegando, eu não lhe conheço’. Mas as palestras eu adoro, elas não tem nada a ver com isso. As palestras eu adoro fazer.

Bolívar Salerno/TV Univali: Miguel, hoje (ontem, 2) vai ter muita gente da área criativa, mas também muito empresário e acho interessante você falar dessa parte do desenvolvimento criativo, para esse pessoal poder desenvolver nesse sentido...

Miguel Falabella: Eu acho talvez que a minha grande dificuldade seja aliar o meu lado empresário, porque eu sou produtor de mim mesmo, né. Então como produtor eu preciso ter lucro. E não abrir mão dos meus credos artísticos, então de que maneira eu tenho que continuar oferecendo ao público produtos de qualidade com uma boa assinatura e ter lucro num país que está andando para trás culturalmente. É difícil, mas a gente consegue. Todos os grandes homens notáveis que eu convivi, foram muitos, todos eles eram pessoas que tinham uma sensibilidade muito apurada, que gostavam de literatura, de poesia. O Boni, por exemplo, é um homem extremamente culto, conhece poesia, conhece música clássica e ninguém esperaria isso, ele não precisaria ter todo esse lado cultural. Mas eu acho que isso é fundamental, é isso que faz a diferença.

Entrevista em áudio:


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Página 3
Renata Rutes

Miguel Falabella fala sobre o futuro da cultura e o ‘ódio’ por selfies e por quem colocou câmera num telefone

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Terça, 3/12/2019 21:45.
Renata Rutes

O ator, diretor e produtor Miguel Falabella esteve em Balneário Camboriú na noite de ontem (2) para palestrar na Univali, a convite do Núcleo Catarinense de Decoração (NCD). Ele contou sobre sua trajetória, que iniciou ainda aos oito anos quando, acompanhado pela avó, foi ao teatro e se apaixonou. Falabella defendeu a importância da poesia (citando que “A poesia nos torna pessoas diferenciadas”), e sobre a importância de sonhar, dizendo que em sua casa inicialmente não apoiavam sua carreira artística.

“Dizem que a gente não pode dar o passo maior que a perna, mas você sabe qual é o tamanho da minha perna? Deixa eu sonhar”, disse.

Ele também contou histórias de sua trajetória, como um episódio que aprendeu com a atriz Cláudia Raia a importância da dedicação. Juntos os dois fizeram um musical e Cláudia precisava dançar e cantar ao mesmo tempo, e todos os dias ela ‘treinava’ cantando correndo na esteira, para não ficar ‘afobada’ no palco, mesmo o musical estando em cartaz por dois anos.

Antes da palestra, ele conversou com a reportagem do Página 3 e opinou sobre o cenário cultural no Brasil e como é o contato com o público, destacando que não gosta de tirar selfies. Confira.

JP3: Você acaba de estrear a série ‘Eu, a Vó e a Boi’ pelo Globo Play. Como é essa mudança de plataforma, saindo da TV aberta para um aplicativo?

Miguel Falabella: Eu não parei pra pensar ainda porque acabou de estrear. Na verdade eu fiz 12 episódios e acabaram virando seis, então eu não sei o que foi que eles fizeram com a série. Honestamente, eu não vi. Eu tinha um pensamento e eu acho que virou outro. A Globo Play achou por bem enxugar, porque eles querem que as pessoas ‘maratonem’ tudo num dia só. Enfim, eu não sei exatamente o que te dizer ainda, eu acho que em dois anos eu vou ter uma opinião melhor.

JP3: Você acha que esse é o futuro da TV? Que as pessoas vão ver mais séries?

Miguel Falabella: Eu acho que as pessoas vão ver mais séries. Se bem que o Brasil nunca está muito inserido, porque o Brasil é um pouco à parte. O Brasil assiste as mesmas coisas há 30 anos, né. É um povo que deveria ser estudado, é um povo que vê a mesma novela há 30 anos. Eles sentam lá e veem a mesma coisa há 30 anos. A Universidade Harvard deveria comprar os nossos cérebros para ver o que há de novo no cérebro do brasileiro, porque eu nunca vi um povo igual.

JP3: Você também está no teatro com a peça ‘A Mentira’, como é essa sua paixão que dura tantos anos?

Miguel Falabella: Teatro é tudo, é fundamental. Eu acho que um ator que não faz teatro ele acaba forçadamente se tornando um ator pior. O teatro te ensina não só a dominar a palavra, mas a dar novos significados, apurar o seu tempo dramático. É bem interessante.

JP3: Como você analisa o cenário cultural no nosso país? E o futuro disso?

Miguel Falabella: Uma desgraça profunda. É melhor dar um tiro na cabeça ou tentar nascer em outro lugar, se houver reencarnação, que aqui o negócio está feio. Não vejo futuro nenhum, porque eu não vou pegar, eu já vou ter desencarnado. Então o que acontecer eu já não vou ver.

JP3: Como é o seu contato com o público dessa forma diferente, como Miguel palestrante?

Miguel Falabella: Eu não tenho muita paciência pra selfie. Eu tenho ódio do Steve Jobs. Eu quero que ele queime no inferno (risos), entendeu? O infeliz que colocou câmera num telefone. Eu quero que ele queime o resto da eternidade no inferno, porque ele acabou com a vida da gente. Aqui, né. Porque brasileiro tem isso. Nos Estados Unidos ninguém chega perto. Aqui no Brasil as pessoas fazem isso, né. Tira uma foto comigo (nesse momento ele apertou as pessoas ao redor, demonstrando que é puxado e apertado na hora que o público se aproxima). Se você fizer isso nos Estados Unidos você é presa na mesma hora. Eu chamo a polícia e você vai em cana. Se você fala ‘não, não me toque’. As pessoas falam ‘ele é nojento, né’, ‘ele é mal educado, né’. Eu digo ‘claro que eu sou, com certeza eu sou mal educado com uma pessoa que vem me pegando, eu não lhe conheço’. Mas as palestras eu adoro, elas não tem nada a ver com isso. As palestras eu adoro fazer.

Bolívar Salerno/TV Univali: Miguel, hoje (ontem, 2) vai ter muita gente da área criativa, mas também muito empresário e acho interessante você falar dessa parte do desenvolvimento criativo, para esse pessoal poder desenvolver nesse sentido...

Miguel Falabella: Eu acho talvez que a minha grande dificuldade seja aliar o meu lado empresário, porque eu sou produtor de mim mesmo, né. Então como produtor eu preciso ter lucro. E não abrir mão dos meus credos artísticos, então de que maneira eu tenho que continuar oferecendo ao público produtos de qualidade com uma boa assinatura e ter lucro num país que está andando para trás culturalmente. É difícil, mas a gente consegue. Todos os grandes homens notáveis que eu convivi, foram muitos, todos eles eram pessoas que tinham uma sensibilidade muito apurada, que gostavam de literatura, de poesia. O Boni, por exemplo, é um homem extremamente culto, conhece poesia, conhece música clássica e ninguém esperaria isso, ele não precisaria ter todo esse lado cultural. Mas eu acho que isso é fundamental, é isso que faz a diferença.

Entrevista em áudio:


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