Jornal Página 3
Geninho Goes fala sobre adoção e o grupo Anjos da Vida
Arquivo Pessoal
Geninho e Duda e a primeira festa da princesa Maria
Geninho e Duda e a primeira festa da princesa Maria

 “Não adotamos apenas uma criança, adotamos uma história e mudamos a história de alguém que mudou nossas vidas para sempre”

Geninho Genivaldo Goes, 50, empresário, fundador da BNT Mercosul, um dos principais eventos turismo do Brasil, sócio da Magrass BC e diretor de Marketing da Rede Magrass, hoje a maior rede de emagrecimento saudável do Brasil, diretor da ReInove Comunica, publicou seis livros de autoajuda, foi palestrante sobre paixão pelo que faz, por quase 20 anos, viajando por todo Brasil, desde o ano passado ocupa a presidência do Grupo Anjos da Vida (grupo de estudos e apoio à adoção) e este ano tornou-se pai. “De tudo o que faço esta é a função que mais me representa, porque é a certeza de que posso me reinventar, passar minha vida a limpo e mostrar o que realmente tenho de melhor”, disse em entrevista ao Página3. Casado com Eduardo Domingos (Duda), pai de Maria Helena, Geninho diz que está vivendo a melhor fase de sua vida. Nesta entrevista ele fala sobre a adoção que mudou a vida do casal e da menina Maria e sua responsabilidade no comando do Anjos da Vida. 

Por Marlise Schneider Cezar

 

Há quanto tempo está no Grupo Anjos da Vida?

Desde 2013, quando decidimos adotar. 

O que motivou participar do grupo?

Inicialmente foi o curso de adoção obrigatório para todos os pretendentes, depois por conhecer tudo que envolve uma adoção e por último ter vivido de perto a realidade sendo pai por adoção. Não teve como não se apaixonar pela necessidade de apoiar.

Quantas pessoas participam?

Depende muito, mas já foram mais de 400 pessoas pretendentes desde que o grupo existe. Um curso tem em média 20 pretendentes…ou mais! 

Como o grupo se mantém, recebem algum recurso público? Ou fazem eventos, como a macarronada no dia 4 de novembro?

O grupo tem sim apoio da prefeitura, é um programa obrigatório para quem pretende adotar uma criança. Possui selo de responsabilidade social e apoio do judiciário. Ou seja, sem o curso preparatório a pessoa não pode adotar uma criança. Ele é super importante. O governo fornece verba para manter a equipe técnica do curso Passos de Ano que, além do curso, atende crianças e  pais, antes e após o processo de adoção. Porém existem outros projetos importantes que podem ser desenvolvidos e somente com participação. Recentemente transformamos a ONG numa associação para que as pessoas possam contribuir. A Macarronada foi o primeiro evento da associação. 

Quais as discussões no grupo?

Todos assuntos que envolvem os direitos das crianças, bem como assuntos relacionados à adoção, desde jurídicos, saúde, psicologia e comportamento de uma criança, o filho idealizado e o real, assistência social, entre outros. 

Todos estão registrados no Cadastro Nacional ou basta o cadastro local?

Após todo processo e o curso concluído as pessoas passam a fazer parte de um cadastro que tem o nome de CUIDA, que é nacional. A adoção sempre será feita primeiro no âmbito municipal, depois estadual e não tendo pretendentes vai para o nacional, seguindo uma lista de prioridade e inscrição, visando sempre o bem estar da criança. 

A Constituição garante que a prioridade é sempre a infância e a juventude. Nossas promotorias e varas da infância e da juventude em todo o país estão preparadas?

Em todo país eu não posso falar, porém acredito que existem melhorias a serem feitas para que as crianças não fiquem esperando por tanto tempo depois que se conclui que a família e família extensa não tem mesmo condições de  ficar com a criança. 

Quanto tempo leva em média uma adoção?

Tudo depende muito do perfil da criança. Por exemplo, hoje estima-se que os pretendentes de bebês levam de 7 a 9 anos, porque 90% dos pretendentes querem crianças até 1 ano de idade e meninas. Quanto mais a pessoa abre o perfil, alterando a idade para maiores e sem restrições, mais fácil será a adoção. Existem crianças com doenças tratáveis, crianças com mais de 5 anos, grupos de irmãos e para estes existem menos pessoas candidatas. As pessoas costumam dizer que após os 5 anos a criança já está com a personalidade formada…e então eu respondo… Você se casa com alguém que tem mais de 20 anos de idade com a esperança de que ela mude algumas coisas e ainda fala que uma criança de 6 ou 7 anos não pode mudar? O bom exemplo, o amor e o limite podem sim transformar uma criança. 

Qual o perfil de quem quer adotar?

Segundo dados do CNJ, publicado em maio de 2016, diminuiu o número de pretendentes que só querem crianças brancas: em 2010, 38,73% dos pretendentes queriam crianças brancas e em 2016, 22, 56% ainda fazem essa exigência. Também subiu o número de pretendentes para crianças negras: em 2010, 30,59% aceitavam e em 2016 47,7% aceitavam. Em 2010, 58,58% aceitavam pardas, em 2016, 75,03% aceitam.

O que mais tem no grupo, casais, homossexuais, solteiros?

Casais.

O que pedem?

Atualmente são 41 casais e dois solteiros aptos à adoção no grupo. O perfil desejado são bebês até 1 ano e meninas. Dos que esperam 31 aceitam qualquer sexo, 10 preferem meninas e dois querem meninos. A segunda faixa etária mais solicitada é de 0 a 5 anos, tem seis nessa fila. No ítem ‘Etnia’ 15 não fazem exigências nesse sentido; 13 pedem crianças brancas e 10 brancas ou mulatas. Na questão ‘Saúde’ 18 pedem crianças saudáveis; 22 aceitam com problemas tratáveis; 15 aceitam prematuros etc. 

O preconceito continua muito visível?

Na minha opinião a falta de informação (pra não dizer ignorância) é a porta do preconceito. Ele existe em todas as esferas da sociedade, mas preconceito em que? Por serem adotivos ou porque as pessoas não aceitam crianças com algumas características? Existem preferências, falta de preparo, poderia dizer.  

Quantas crianças temos esperando adoção?

Crianças em processo de destituição do poder familiar: Grupo de 3 irmãos com idades de 3, 5 e 7 anos (chance de reinserção na família extensa); Uma criança com 4 anos; Uma criança com 2 anos e um adolescente com 14 anos e 6 meses.

Quantas adoções aconteceram ano passado?

Duas crianças com menos de 1 ano; três adoções tardias (sendo um grupo de 2 irmãos e outro adolescente, os quais adotados por pretendentes de outras comarcas); Dez crianças de outras comarcas foram adotadas por pretendentes desta comarca; Um casal adotou 4 irmãos com idades entre 1 e 4 anos; Um casal adotou 2 irmãos de um grupo de quatro, com idade de 4 e 6 anos; Um casal adotou 2 irmãos desse grupo de quatro com 2 e 7 anos; Um casal está em processo de adoção de uma criança com 5 anos; Um casal está em processo de adoção de uma criança com 8 anos.

E este ano quantas adoções?

Uma criança com 4 anos e 9 meses  em processo de adoção por casal de outra comarca. Uma criança com 1 ano e 2 meses por casal desta comarca.

Se pudesse mudar alguma coisa, por onde começaria?

Um olhar mais atento para as famílias que não dão condições para as crianças. Auxílio com programas sociais eficientes e acompanhamento. Campanhas sobre abuso e mudança na lei, para evitar a morosidade em alguns casos.

Como foi a tua experiência e o que ela representa na tua vida?

Seria uma história longa! Mas resumindo, optamos pela adoção considerada tardia, uma criança com quase 8 anos e que estava abrigada há quase dois. Passamos por prova de amor, rejeição. O curso nos preparou teoricamente, mas tivemos total apoio dos profissionais. Fomos acolhidos e amparados junto com a criança. É a experiência mais transformadora das nossas vidas. Não adotamos apenas uma criança, adotamos uma história. Não apenas adotamos uma criança, fomos adotados. Aprendemos diariamente o que é o amor. Alguns momentos difíceis, porém, grande parte é repleta de alegria, carinho, amor. Estamos construindo os valores da nossa família. Mudamos a história de alguém que mudou a nossa vida pra sempre.

Planos para aplicar no Grupo?

Sim, alguns projetos são pensados, como acolhimento afetivo, atuação junto aos pais, campanhas…Mas para tudo isto se faz necessário projeto e recursos.Vamos em frente…

Fotos Arquivo Pessoal


 Dados do CNJ e Senado – 2015- 2016

  • O Brasil tem 45 mil crianças abrigadas, mas apenas 5.592 aptas à adoção em 2016. 
  • Possui 33.300 pretendentes à adoção (uma criança para cada 6 adotantes).
  • 87,42% das crianças tem mais de 5 anos, faixa etária aceita por apenas 11% dos pretendentes;
  • 67,8% das crianças não são brancas;
  • 26,33% dos pretendentes só aceitam crianças brancas;
  • 38,72% dos pretendentes são indiferentes quanto a raça;
  • 76,87% das crianças aptas possuem irmãos e apenas 17,5% dos pretendentes aceitam irmãos.
  • 43,59% são do sexo feminino e 56,41% masculino;
  • 47,6% são pardas; 19,01% negras; 33,01% brancas;
  • 36% das crianças possuem irmãos para adoção;
  • 77,31% das crianças tem mais de 10 anos de idade;
  • Apenas 4,5% tem entre 0 e 3 anos;

Dados do CNJ - 2017

  • 46 mil crianças em situação de acolhimento e 7.400  cadastradas para adoção;
  • Brasil tem 4 mil entidades acolhedoras cadastradas em todo judiciário, de acordo com o Cadastro de Crianças Acolhidas.
  • Santa Catarina tem 1600 crianças em acolhimento e mais de duas mil famílias na fila para adotar, no entanto, a maioria das crianças não se encaixa no perfil idealizado (tem mais de 3 anos; portadoras de deficiências e possuem irmãos ou diferenças de raça em relação aos potenciais pais).
  • Balneário Camboriú tem uma Casa de Passagem; uma instituição de acolhimento (Lar dos Adolescentes) e as crianças em acolhimento estão em instituição na vizinha cidade de Camboriú.

 

 


Segunda, 25/12/2017 9:34.


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