Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Eleições
'Brasil precisa de um governo de coalizão', diz Manuela D'Ávila

Terça, 2/10/2018 14:59.
Carol Caminha
Hoje pela manhã no debate do UOL, SBT e Folha.

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MARINA DIAS(FOLHAPRESS)

Candidata a vice na chapa de Fernando Haddad ao Planalto, Manuela D'Ávila (PC do B) afirmou que o PT nunca governou sozinho e que não será diferente caso o partido vença a eleição este ano.

À reportagem, Manuela disse que o país precisa de "um governo de coalizão nacional", com mais participação popular, mas também com "os melhores quadros" da política, inclusive de siglas como MDB, PP e PSDB, que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff.

"O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela", afirmou.

A candidata fez ainda um aceno ao PDT, de Ciro Gomes, e disse que não é possível imaginar um governo sem o apoio dele. "No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT?"
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

PERGUNTA - A eleição está polarizada entre direita e esquerda. Concorda que Fernando Haddad (PT) faça acenos ao centro político e ao mercado se passar ao segundo turno?
MANUELA D'ÁVILA - Discordo da interpretação de que a eleição está polarizada entre direita e esquerda, apenas. Talvez a principal polarização seja entre quem acredita em saídas democráticas para a crise e quem não acredita. O que a gente vê nas ruas é uma reação àqueles que dizem que não vão reconhecer o resultado das urnas, que dividem os brasileiros entre homens em uma categoria e mulheres em uma segunda categoria. Temos tentado dizer que somos esse lado, que defende a democracia. Para mim, os acenos são a esse campo democrático.

P - Haddad admite, mesmo que nos bastidores, que fará um governo de coalizão, com os melhores quadros políticos, caso seja eleito. Não é contraditório fechar acordo com siglas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, como MDB, PP e PSDB?
MD - A gente tem um programa claro e é ele que vai nos nortear. O Brasil precisa de um governo de coalizão nacional, abrir um novo ciclo de unidade para sair da crise. Imagina a gravidade que seria ter no comando do país alguém que não tolera opiniões diferentes das suas, que questiona a opinião da maior parte do povo, se for derrotado na eleição. O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o golpe, com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela.

P - PT e PC do B não vão governar sozinhos se vencerem a eleição?
MD - Existe como governar sozinho depois do que a gente viu nas ruas no dia 29 de setembro [manifestações contra Bolsonaro em vários estados do país]? O governo precisa ser profunda e radicalmente democrático. Retomar etapas que avançou lá atrás, de participação popular. A rua é a manifestação de que o povo quer participar dessa construção e essas pessoas não são dos nossos partidos. A gente precisa governar com essas pessoas. No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT? É um partido que tem um programa com muitos pontos em comum com o nosso.

P - Como colocar Ciro Gomes (PDT) nessa aliança se ele mesmo já disse que preferia governar sem o PT caso fosse eleito?
MD - Não estou falando de um segundo turno concreto, ainda faltam seis dias para a eleição. Só temos um instrumento, que é o programa de governo: lá estão as formas que a gente compreende para o país sair da crise. Assim que a gente aglutinará as pessoas até o fim do primeiro turno, assim que a gente vai vencer as eleições e governar.

P - Como não cometer o mesmo erro de Dilma, que perdeu apoio de parte da esquerda ao fazer acenos ao mercado, com medidas de ajuste e a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda?
MD - Haddad tem demonstrado qualidades para a campanha e para governar. A principal é a capacidade de ouvir e a tranquilidade para tomar decisões. Isso faz com que as pessoas errem menos. Não é um paralelo com ninguém, são apenas as características dele.

P - Como evitar que atritos com setores mais à esquerda do PT e do PC do B prejudiquem um eventual governo?
MD - Não sei o que você caracteriza como mais à esquerda.

P - No programa de governo há propostas que causam polêmica, como a regulação da mídia e a ausência da idade mínima para a aposentadoria. Haddad já disse que pode haver discussão sobre esses pontos.
MD - O governo estabelece metas e projetos e eles se materializam a partir da relação que se tem com o Congresso. Na vida real, não são caixinhas: aqui tem os partidos, as pessoas mais à esquerda, os setores conservadores. Na vida real, é uma disputa que se dá na sociedade.

P - Bolsonaro disse que não aceita nenhum resultado que não seja a vitória dele na eleição. Teme que, no caso de vitória do PT, haja uma convulsão social que impeça a posse ou o eventual governo Haddad?
MD - O dia 29/09 é resposta a um conjunto de declarações do nosso adversário, que perderá. As pessoas foram para a rua dizer que defendem a democracia.

P - Mas no dia seguinte também havia bastante gente na rua, desta vez a favor do Bolsonaro.
MD - Vi as manifestações no meu estado [Rio Grande do Sul], e elas eram bem pequenas. No Rio e em São Paulo também.

P - Haddad tem consultado o ex-presidente Lula constantemente durante a campanha e pretende continuar sob sua influência caso seja eleito. Isso não compromete a independência do governo? Fico pensando por que será que o Bolsonaro não consulta e ainda esconde as referências dele?
MD - Talvez por que o [coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra tenha morrido? Que bom poder ouvir alguém com tanta experiência e com referência tão positiva como Lula. Isso prejudica a independência do governo aonde? Por que a pessoa [Haddad] tem capacidade de ouvir?

P - Qual será o papel de Lula no governo caso Haddad vença a eleição?
MD - Ele é o maior presidente da história do país, é natural que as pessoas que têm capacidade de ouvir escutem boas referências.

P - Concorda em conceder indulto ao ex-presidente?
MD - Lula nunca pediu indulto, então não se trata de concordar ou discordar. Ele quer um julgamento justo, deixou claro que quer o desfecho de seu julgamento.

P - Mas e se não houver desfecho favorável a ele?
MD - Não falo nunca 'e se', porque se fosse 'e se' eu seria veterinária. E se eu tivesse sido, não estaria aqui conversando contigo.

P - Nessa disputa em que o voto das mulheres será definitivo, há poucas propostas direcionadas para as eleitoras nos programas de governo, inclusive no seu. Por quê?
MD - É uma visão equivocada que decorre da ideia de que é possível colocar as mulheres em uma caixinha do programa: vamos falar sobre mulher e aí são dois ou três itens sobre a saúde da mulher. Para nós, mulher não é uma caixinha do programa. Quando a gente propõe revogar a reforma trabalhista, pensamos que metade das mulheres, depois da licença maternidade, não consegue vaga no mercado de trabalho. Com a informalidade, as mulheres vão ser mais punidas. Com a revogação do teto dos gastos públicos, a gente vai voltar a investir em creche. Não há saída para a crise que não passe pelas mulheres e por propostas que sejam inversas às do governo Temer. Para mim, o que interessa mais às mulheres hoje é revogar a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

P - Muito se falou na campanha sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho, mas quase não há discussão sobre o tema na administração pública. Um governo Haddad-Manuela tomará medida concreta nesse aspecto?
MD - Haddad tem uma ideia de criar uma espécie de reconhecimento social para empresas que remuneram igualmente homens e mulheres.

P - Mas e na administração pública?
MD - Dilma não avançou muito na ampliação de vagas para mulheres em cargos de confiança no governo. Ela nomeou metade dos ministros mulheres. Acho que sim, é possível, é uma coisa natural nos nossos governos, porque a gente tem uma militância grande de mulheres.

P - O plano de governo do PT sugere que será possível corrigir o desequilíbrio nas contas públicas e na Previdência com a volta do crescimento econômico, mas as projeções indicam que o déficit dificilmente será eliminado antes de 2022. O programa é realista?
MD - As projeções também diziam que as medidas do Temer iam diminuir o déficit e o déficit aumentou. Ele [Temer] é um case de fracasso. A tradição brasileira é de movimentar a economia a partir do conjunto de investimentos públicos. Retomar as obras públicas, como o Minha Casa, Minha Vida, que faz justiça social, mas gera um volume de emprego muito rápido e, com isso, aquece a economia a partir da retomada do consumo; conceder crédito a juro baixo para que as pessoas paguem suas dívidas e voltem a empreender e a consumir; diminuir a cobrança de impostos de quem recebe até 5 salários mínimos... Sim, a gente já fez isso acontecer em outro período de crise.


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MARINA DIAS(FOLHAPRESS)

Candidata a vice na chapa de Fernando Haddad ao Planalto, Manuela D'Ávila (PC do B) afirmou que o PT nunca governou sozinho e que não será diferente caso o partido vença a eleição este ano.

À reportagem, Manuela disse que o país precisa de "um governo de coalizão nacional", com mais participação popular, mas também com "os melhores quadros" da política, inclusive de siglas como MDB, PP e PSDB, que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff.

"O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela", afirmou.

A candidata fez ainda um aceno ao PDT, de Ciro Gomes, e disse que não é possível imaginar um governo sem o apoio dele. "No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT?"
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

PERGUNTA - A eleição está polarizada entre direita e esquerda. Concorda que Fernando Haddad (PT) faça acenos ao centro político e ao mercado se passar ao segundo turno?
MANUELA D'ÁVILA - Discordo da interpretação de que a eleição está polarizada entre direita e esquerda, apenas. Talvez a principal polarização seja entre quem acredita em saídas democráticas para a crise e quem não acredita. O que a gente vê nas ruas é uma reação àqueles que dizem que não vão reconhecer o resultado das urnas, que dividem os brasileiros entre homens em uma categoria e mulheres em uma segunda categoria. Temos tentado dizer que somos esse lado, que defende a democracia. Para mim, os acenos são a esse campo democrático.

P - Haddad admite, mesmo que nos bastidores, que fará um governo de coalizão, com os melhores quadros políticos, caso seja eleito. Não é contraditório fechar acordo com siglas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, como MDB, PP e PSDB?
MD - A gente tem um programa claro e é ele que vai nos nortear. O Brasil precisa de um governo de coalizão nacional, abrir um novo ciclo de unidade para sair da crise. Imagina a gravidade que seria ter no comando do país alguém que não tolera opiniões diferentes das suas, que questiona a opinião da maior parte do povo, se for derrotado na eleição. O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o golpe, com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela.

P - PT e PC do B não vão governar sozinhos se vencerem a eleição?
MD - Existe como governar sozinho depois do que a gente viu nas ruas no dia 29 de setembro [manifestações contra Bolsonaro em vários estados do país]? O governo precisa ser profunda e radicalmente democrático. Retomar etapas que avançou lá atrás, de participação popular. A rua é a manifestação de que o povo quer participar dessa construção e essas pessoas não são dos nossos partidos. A gente precisa governar com essas pessoas. No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT? É um partido que tem um programa com muitos pontos em comum com o nosso.

P - Como colocar Ciro Gomes (PDT) nessa aliança se ele mesmo já disse que preferia governar sem o PT caso fosse eleito?
MD - Não estou falando de um segundo turno concreto, ainda faltam seis dias para a eleição. Só temos um instrumento, que é o programa de governo: lá estão as formas que a gente compreende para o país sair da crise. Assim que a gente aglutinará as pessoas até o fim do primeiro turno, assim que a gente vai vencer as eleições e governar.

P - Como não cometer o mesmo erro de Dilma, que perdeu apoio de parte da esquerda ao fazer acenos ao mercado, com medidas de ajuste e a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda?
MD - Haddad tem demonstrado qualidades para a campanha e para governar. A principal é a capacidade de ouvir e a tranquilidade para tomar decisões. Isso faz com que as pessoas errem menos. Não é um paralelo com ninguém, são apenas as características dele.

P - Como evitar que atritos com setores mais à esquerda do PT e do PC do B prejudiquem um eventual governo?
MD - Não sei o que você caracteriza como mais à esquerda.

P - No programa de governo há propostas que causam polêmica, como a regulação da mídia e a ausência da idade mínima para a aposentadoria. Haddad já disse que pode haver discussão sobre esses pontos.
MD - O governo estabelece metas e projetos e eles se materializam a partir da relação que se tem com o Congresso. Na vida real, não são caixinhas: aqui tem os partidos, as pessoas mais à esquerda, os setores conservadores. Na vida real, é uma disputa que se dá na sociedade.

P - Bolsonaro disse que não aceita nenhum resultado que não seja a vitória dele na eleição. Teme que, no caso de vitória do PT, haja uma convulsão social que impeça a posse ou o eventual governo Haddad?
MD - O dia 29/09 é resposta a um conjunto de declarações do nosso adversário, que perderá. As pessoas foram para a rua dizer que defendem a democracia.

P - Mas no dia seguinte também havia bastante gente na rua, desta vez a favor do Bolsonaro.
MD - Vi as manifestações no meu estado [Rio Grande do Sul], e elas eram bem pequenas. No Rio e em São Paulo também.

P - Haddad tem consultado o ex-presidente Lula constantemente durante a campanha e pretende continuar sob sua influência caso seja eleito. Isso não compromete a independência do governo? Fico pensando por que será que o Bolsonaro não consulta e ainda esconde as referências dele?
MD - Talvez por que o [coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra tenha morrido? Que bom poder ouvir alguém com tanta experiência e com referência tão positiva como Lula. Isso prejudica a independência do governo aonde? Por que a pessoa [Haddad] tem capacidade de ouvir?

P - Qual será o papel de Lula no governo caso Haddad vença a eleição?
MD - Ele é o maior presidente da história do país, é natural que as pessoas que têm capacidade de ouvir escutem boas referências.

P - Concorda em conceder indulto ao ex-presidente?
MD - Lula nunca pediu indulto, então não se trata de concordar ou discordar. Ele quer um julgamento justo, deixou claro que quer o desfecho de seu julgamento.

P - Mas e se não houver desfecho favorável a ele?
MD - Não falo nunca 'e se', porque se fosse 'e se' eu seria veterinária. E se eu tivesse sido, não estaria aqui conversando contigo.

P - Nessa disputa em que o voto das mulheres será definitivo, há poucas propostas direcionadas para as eleitoras nos programas de governo, inclusive no seu. Por quê?
MD - É uma visão equivocada que decorre da ideia de que é possível colocar as mulheres em uma caixinha do programa: vamos falar sobre mulher e aí são dois ou três itens sobre a saúde da mulher. Para nós, mulher não é uma caixinha do programa. Quando a gente propõe revogar a reforma trabalhista, pensamos que metade das mulheres, depois da licença maternidade, não consegue vaga no mercado de trabalho. Com a informalidade, as mulheres vão ser mais punidas. Com a revogação do teto dos gastos públicos, a gente vai voltar a investir em creche. Não há saída para a crise que não passe pelas mulheres e por propostas que sejam inversas às do governo Temer. Para mim, o que interessa mais às mulheres hoje é revogar a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

P - Muito se falou na campanha sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho, mas quase não há discussão sobre o tema na administração pública. Um governo Haddad-Manuela tomará medida concreta nesse aspecto?
MD - Haddad tem uma ideia de criar uma espécie de reconhecimento social para empresas que remuneram igualmente homens e mulheres.

P - Mas e na administração pública?
MD - Dilma não avançou muito na ampliação de vagas para mulheres em cargos de confiança no governo. Ela nomeou metade dos ministros mulheres. Acho que sim, é possível, é uma coisa natural nos nossos governos, porque a gente tem uma militância grande de mulheres.

P - O plano de governo do PT sugere que será possível corrigir o desequilíbrio nas contas públicas e na Previdência com a volta do crescimento econômico, mas as projeções indicam que o déficit dificilmente será eliminado antes de 2022. O programa é realista?
MD - As projeções também diziam que as medidas do Temer iam diminuir o déficit e o déficit aumentou. Ele [Temer] é um case de fracasso. A tradição brasileira é de movimentar a economia a partir do conjunto de investimentos públicos. Retomar as obras públicas, como o Minha Casa, Minha Vida, que faz justiça social, mas gera um volume de emprego muito rápido e, com isso, aquece a economia a partir da retomada do consumo; conceder crédito a juro baixo para que as pessoas paguem suas dívidas e voltem a empreender e a consumir; diminuir a cobrança de impostos de quem recebe até 5 salários mínimos... Sim, a gente já fez isso acontecer em outro período de crise.


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