Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Economia
Comentarista-chefe de economia do Financial Times diz que recessão deve continuar no próximo ano

O sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso

Domingo, 22/3/2020 7:46.
Marco Santos

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Luciana Dyniewicz
A crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus é mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf. Em entrevista, Wolf afirma estar preocupado com o Brasil e com outros países emergentes, que terão dificuldade para aumentar os gastos para tentar reduzir os efeitos da recessão que está por vir.

Diz ainda que a atuação dos principais líderes globais é inferior à de 2008, quando os países se uniram para enfrentar o problema. "Na crise financeira, tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado."

Para Wolf, dada a escassez de recursos, a prioridade no Brasil tem de ser a população mais carente. "Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um." A seguir, trechos da entrevista:

Que motivos levam o sr. a acreditar que essa crise será pior que a de 2008?

As medidas que estão sendo adotadas para controlar a epidemia vão fechar grande parte da economia. Vimos isso na China. Ninguém sabe ainda o que aconteceu lá no primeiro trimestre, mas deve haver uma contração muito grande do PIB e, provavelmente, no segundo trimestre também. A Europa e os Estados Unidos estão fazendo o mesmo: fechando lojas, restaurantes, entretenimento. Teremos uma interrupção massiva de oferta. Depois, trabalhadores não serão pagos, empresas ficarão sem receita e vão demitir funcionários. Muitas podem ir à falência. Tudo isso não importaria se voltássemos ao normal em dois meses. Mas não parece que isso vai acontecer. A doença será controlada enquanto ninguém está tendo contato com os outros. Quando as economias forem reabertas, é esperado que a transmissão volte. É o que está acontecendo na China. Se isso acontecer, teremos uma nova fase de fechamento da economia. Esse processo de abrir e fechar a economia pode continuar até o ano que vem. Pode continuar até que haja uma cura, e os especialistas parecem concordar que não haverá uma cura que possa ser disponibilizada em escala antes do fim do ano que vem. Até lá, muitos negócios vão desaparecer. Esse vai ser um choque de oferta gigantesco, com consequências graves de solvência e de demanda. Então, é provável que tenhamos uma recessão neste ano e que isso prossiga em 2021. Por isso, acho razoável assumir que esse choque econômico pode ser pior que a crise financeira de 2008. Também pode ter efeitos de mais longo prazo, porque haverá uma grande interrupção de comércio e viagens. Uma consequência pode ser que a estrutura da cadeia de fornecimento e da economia global sejam transformadas permanentemente. Mas, claro, tudo isso pode ser muito pessimista e o vírus pode acabar sendo controlado no verão (do Hemisfério Norte). Aí, seria algo menos grave. Mas, neste momento, me parece mais provável que haja uma recessão grave.

Em sua última coluna, o sr. escreveu que precisaremos de líderes fortes e inteligentes para lidar com essa crise. As principais lideranças globais são capacitadas para isso?

O problema é que, ao contrário da crise financeira, as principais economias do mundo hoje são incapazes de colaborar umas com as outras. Trump é um ignorante nacionalista que não entende como lidar com esse tipo de problema. Essa questão está completamente além dele intelectualmente. Por sorte, tem uma ou duas pessoas competentes no seu governo. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) é eficiente e o Congresso americano está fazendo alguma coisa. Os europeus estão desmoronando. Muitos países europeus estão respondendo de modo nacionalista, sem solidariedade. O Japão está lidando bem. Isso porque já teve a experiência com a Sars antes. Mas, se olharmos para a Europa e para os EUA, é assustador. Na crise financeira (de 2008), tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Eles produziram um plano comum que funcionou bem para o setor financeiro e em termos de política fiscal. A recuperação pode não ter sido como se esperava, mas havia qualidade de lideranças Houve muita colaboração nos primeiros encontros do G-20. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado. Não sei como essas pessoas vão cooperar. Já pararam de comercializar itens vitais, como ventiladores e máscaras.

O sr. acredita que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preparado para o desafio?

Não conheço pessoalmente o sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso. Como Trump, mas um pouco pior. Apesar disso, sua equipe econômica parece competente e inteligente. São provavelmente muito mais Chicago do que preferiria. Mas as reformas que estão fazendo eram necessárias. Como eles vão funcionar nessa crise, dado que o Brasil não está numa posição econômica forte e não pode aumentar seus gastos facilmente, realmente não sei. Será um desafio grande para o Brasil. É preciso uma capacidade do governo para gastar mais e rapidamente, o que é difícil para o Brasil, que já está altamente endividado. Vai ser um desafio grande para o Brasil e para muitos emergentes.

O sr. mencionou que o Brasil já está bastante endividado. E o sr. também tinha escrito que os governos deveriam prover solvência ao sistema. Se o Brasil não pode fazer isso, como fica a situação do País?

Vai ser difícil para o Brasil conseguir financiamento em moeda estrangeira. Talvez a questão seja quanto o governo conseguirá emprestar domesticamente. Provavelmente, precisará da ajuda do Banco Central. Mas, dada a história brasileira de inflação e altas taxas de juros, vai ser muito difícil fazer isso sem criar pânico no mercado financeiro. O Brasil terá de realocar gastos existentes, o que pode ser difícil politicamente. Politicamente, é quase impossível mudar os gastos nessa situação. Mas essa parece ser a coisa lógica a se fazer. Gastar com o que realmente é prioridade. Mas, para ser honesto, para um país como o Brasil responder de forma efetiva a essa emergência, vai ser um desafio gigantesco. Se você comparar o Brasil com a China, a China obviamente tem vantagens enormes em termos de recursos financeiros e de poder de organização e controle social. A maioria dos países emergentes não tem esses ativos. Os próximos dois anos vão ser muito difíceis para os mercados emergentes.

Uma das medidas que o governo brasileiro anunciou foi a autorização para empresas reduzirem jornadas e salários dos trabalhadores. É uma boa opção?

Na Alemanha, que é um país rico, o governo financia o trabalhador de meio período. O governo diz para a empresa reduzir o número de horas que o funcionário trabalha e cobre a diferença de salário. Mas o governo alemão tem solvência, pode emprestar a taxas de juros negativas. Se o governo brasileiro não tem condições financeiras de fazer isso, então o que está sugerindo me parece fazer sentido. Caso contrário, as pessoas ficarão desempregadas e em um problema terrível. Acho que não é uma má ideia se for algo organizado. Para mim, o problema no Brasil é que a maioria das pessoas não trabalha em uma grande empresa. A maioria tem empregos informais. O que o governo vai fazer para ajudar essas pessoas?

Vai dar R$ 200 por pessoa por mês nos próximos três meses

Não parece muito. Isso é suficiente para viver no Brasil?

Não.

O problema é que, em um país pobre como o Brasil, o governo não tem os recursos para proteger as pessoas. No Brasil, a grande questão não é salvar o setor organizado, é proteger a população. É preciso encontrar um jeito que possibilite que as pessoas sobrevivam. Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um.

O sr. já disse também que estamos em uma situação de guerra e que os países devem gastar o quanto for preciso para incentivar a economia. Eles estão agindo nessa direção?

Os Estados Unidos estão fazendo isso. Eu não ficaria surpreso se alguns países tiverem um déficit neste ano e no próximo de 10% do PIB ou mais. Não estou prevendo isso, mas era onde estávamos na crise financeira. Os principais países desenvolvidos, com exceção da Itália, podem fazer isso de forma fácil sem gerar grandes problemas. Se você empresta na sua própria moeda, tem o Banco Central para ajudar e com as taxas de juros da dívida do governo próximas a zero, que é basicamente onde estão agora, não é problema aumentar a dívida. O problema fiscal vai ser negligenciável. Em muitos países emergentes, como discutimos antes, o problema é que vai ser mais difícil conseguir dinheiro no mercado global por causa da aversão ao risco.

Então, os brasileiros devem se preparar para uma recessão profunda neste e no próximo ano?

A economia global vai ter uma desaceleração massiva, possivelmente uma recessão. O Brasil não é superdependente dos mercados globais como outros emergentes, mas obviamente isso vai afetar os negócios brasileiros significativamente. Empresas importantes exportam e têm ativos no exterior. Deve haver um efeito deflacionário. As condições no mercado de crédito para o Brasil ficarão muito apertadas e as empresas brasileiras também terão mais dificuldade para emprestar nos mercados globais. Essa é uma segunda razão para haver recessão. Outra é que, aí, pessoas também vão ficar em casa e haverá um choque de oferta. Esperaria que a economia desacelerasse consideravelmente, e já está em uma taxa de crescimento muito lenta. Se o País for muito bem mesmo, o PIB será próximo de zero. Mas ficarei incrivelmente surpreso se não for negativo.

Combate à crise tem de passar pela área fiscal, dizem economistas

Luciana Dyniewicz
O governo Jair Bolsonaro demorou para agir diante da crise do novo coronavírus e ainda tomou medidas tímidas demais dada a situação de calamidade global, segundo economistas ouvidos pela reportagem. Os especialistas pedem, principalmente, medidas mais profundas na área fiscal, a exemplo do que já foi feito em países desenvolvidos.

O Reino Unido, por exemplo, anunciou na sexta-feira passada que vai pagar até 80% dos salários dos trabalhadores nos próximos meses, enquanto o governo dos Estados Unidos articula com o Congresso um pacote emergencial que pode chegar a US$ 1 trilhão - ante -R$ 184,6 bilhões no Brasil.

Para o economista Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami, o governo precisa injetar muito mais recursos na economia do que foi anunciado e, neste momento, seria melhor pecar pelo excesso. Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, afirma que a situação é de guerra e que, para bancar um aumento de gastos, o governo poderia se financiar através de instituições financeiras domésticas.

Teto de gastos. Se os especialistas são unânimes ao defender um aumento dos gastos neste ano, eles divergem em relação à manutenção do teto dos gastos (emenda constitucional que limita o aumento dos gastos à inflação). Segundo Monica, a regra deve ser temporariamente suspensa, já que a realidade é dramática.

Ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, no entanto, afirma que é possível aumentar os gastos abrindo um crédito extraordinário para despesas de calamidade pública, que não seria contabilizado no teto. A economista Zeina Latif também apoia a manutenção do teto. "Tem de haver um esforço para manter o teto. Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo. Grupos de interesse sempre tentam abocanhar partes crescentes do Orçamento."

Além de criticarem o alcance das medidas anunciadas, os economistas também apontam problemas políticos que têm atrapalhado o combate à pandemia e à crise econômica. Leme destaca que o governo precisa retomar a capacidade de informar a população de forma clara. "O presidente tem de apoiar a equipe de Saúde. O País tem de remar na mesma direção."

Zeina ataca a falta de articulação do governo e a demora do governo para reconhecer a gravidade da situação. "O governo subestimou o problema, agora será mais difícil lidar com essa crise. Não é que ela fosse inevitável, mas queimamos algumas etapas, como a da comunicação."

PONTOS DE VISTA

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute

‘Plano de Guedes não basta. Tem de ser maior’

A economista Monica de Bolle, que há algumas semanas vem defendendo a suspensão temporária do teto dos gastos durante a crise, afirma que o pacote de medidas do governo é tímido demais para a recessão que virá - ela estima uma queda do PIB de até 6% no Brasil neste ano. "Esse plano do Paulo Guedes não basta. Tem de ser algo muito maior. Tem de ser: o governo vai pagar os trabalhadores. O Reino Unido anunciou isso nesta semana." Ela propõe que o governo repasse R$ 50 bilhões ao Sistema Único de Saúde (o governo destinou R$ 11,8 bilhões ao combate da pandemia, sendo R$ 4,5 bilhões para o SUS) e outros R$ 30 bilhões para empresas mais afetadas pela crise. Monica sugere ainda, entre outras medidas, o repasse de R$ 500 mensais por um ano aos 36 milhões do Cadastro Único que não recebem o Bolsa Família. Todo o pacote elevaria a dívida brasileira em 4% do PIB, calcula. "4% não é nada. Alguém acha que o Brasil acaba se a dívida aumentar isso?"

Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami

‘É melhor errar por fazer demais’

"Esquece o teto dos gastos, agora é preciso cuidar dos doentes", diz o economista Paulo Leme, que já comandou o Goldman Sachs no Brasil. Para ele, dada a gravidade da situação, cumprir uma meta fiscal deixou de ter prioridade e a resposta para a emergência econômica é política fiscal. "Reconheço que o pacote fiscal apresentado pelo governo é significativo, são 2,3% do PIB. Mas acho melhor errar por fazer demais, porque temo que ainda possa ser insuficiente." O economista afirma que os R$ 11,8 bilhões que o governo destinou para a Saúde, é pouco. "Duplicaria, triplicaria esse valor para, por exemplo, a construção de hospitais." Leme afirma ainda que o governo deveria ampliar linhas de crédito tanto para pequenas e médias empresas, como para algumas maiores, como as aéreas, e usar o BNDES para comprar debêntures de companhias. Do lado do consumidor, outra rodada de liberação de recursos do FGTS deveria ser providenciada. "O jogo é ser gigantesco e rápido."

Zeina latif, consultora e doutora em Economia pela USP

‘Desarticulação do governo agrava situação’

Para Zeina Latif, o plano do governo de conceder R$ 200 por mês, durante três meses, aos trabalhadores informais não apenas é insuficiente para essa população como também é um projeto de difícil execução. Ela destaca que o governo se preparou mal para a crise e subestimou o problema, o que torna tudo mais complexo agora. Segundo Zeina, quando o Ministério da Saúde colocou o alerta em nível um, ainda em janeiro, era preciso ter começado a traçar um plano emergencial. "O governo é desarticulado. Isso agrava a situação. As medidas anunciadas ainda estão na borda do problema. Como executar medidas para ter capilaridade e para que recursos cheguem aonde é preciso rapidamente?", questiona. Para Zeina, deve-se aumentar os gastos agora - "não fazer isso é um equívoco" -, mas o teto de gastos precisa ser respeitado. "Acho que tem de fazer um esforço para manter o teto. "A questão é reduzir o sofrimento e tentar fazer com que a crise não seja tão forte."

Maílson de Nóbrega, ex-ministro da Fazenda

‘Governo tardou em agir na área econômica’

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega avalia que o governo Bolsonaro errou ao insistir que acelerar as reformas estruturais solucionaria a crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus. "O governo tardou em agir na área econômica. Quando a situação começou a se agravar, insistia no discurso equivocado de que era preciso fazer reformas. Se aprovadas, elas terão impactos daqui a anos. A crise precisa de algo emergencial." O economista destaca que é preciso aumentar o orçamento da Saúde para evitar mortes e providenciar um alívio de caixa para empresas e famílias. Ele sugere ainda que a contribuição previdenciária seja dispensada temporariamente. "É preciso colocar dinheiro no bolso das pessoas." Maílson admite que o déficit primário do Brasil vai aumentar neste ano, mas defende que o teto dos gastos não seja eliminado. "O governo pode propor a abertura de um crédito extraordinário para cobrir despesas de calamidade pública, que não é contabilizado no teto."


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Marco Santos

Comentarista-chefe de economia do Financial Times diz que recessão deve continuar no próximo ano

O sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso

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Domingo, 22/3/2020 7:46.

Luciana Dyniewicz
A crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus é mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf. Em entrevista, Wolf afirma estar preocupado com o Brasil e com outros países emergentes, que terão dificuldade para aumentar os gastos para tentar reduzir os efeitos da recessão que está por vir.

Diz ainda que a atuação dos principais líderes globais é inferior à de 2008, quando os países se uniram para enfrentar o problema. "Na crise financeira, tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado."

Para Wolf, dada a escassez de recursos, a prioridade no Brasil tem de ser a população mais carente. "Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um." A seguir, trechos da entrevista:

Que motivos levam o sr. a acreditar que essa crise será pior que a de 2008?

As medidas que estão sendo adotadas para controlar a epidemia vão fechar grande parte da economia. Vimos isso na China. Ninguém sabe ainda o que aconteceu lá no primeiro trimestre, mas deve haver uma contração muito grande do PIB e, provavelmente, no segundo trimestre também. A Europa e os Estados Unidos estão fazendo o mesmo: fechando lojas, restaurantes, entretenimento. Teremos uma interrupção massiva de oferta. Depois, trabalhadores não serão pagos, empresas ficarão sem receita e vão demitir funcionários. Muitas podem ir à falência. Tudo isso não importaria se voltássemos ao normal em dois meses. Mas não parece que isso vai acontecer. A doença será controlada enquanto ninguém está tendo contato com os outros. Quando as economias forem reabertas, é esperado que a transmissão volte. É o que está acontecendo na China. Se isso acontecer, teremos uma nova fase de fechamento da economia. Esse processo de abrir e fechar a economia pode continuar até o ano que vem. Pode continuar até que haja uma cura, e os especialistas parecem concordar que não haverá uma cura que possa ser disponibilizada em escala antes do fim do ano que vem. Até lá, muitos negócios vão desaparecer. Esse vai ser um choque de oferta gigantesco, com consequências graves de solvência e de demanda. Então, é provável que tenhamos uma recessão neste ano e que isso prossiga em 2021. Por isso, acho razoável assumir que esse choque econômico pode ser pior que a crise financeira de 2008. Também pode ter efeitos de mais longo prazo, porque haverá uma grande interrupção de comércio e viagens. Uma consequência pode ser que a estrutura da cadeia de fornecimento e da economia global sejam transformadas permanentemente. Mas, claro, tudo isso pode ser muito pessimista e o vírus pode acabar sendo controlado no verão (do Hemisfério Norte). Aí, seria algo menos grave. Mas, neste momento, me parece mais provável que haja uma recessão grave.

Em sua última coluna, o sr. escreveu que precisaremos de líderes fortes e inteligentes para lidar com essa crise. As principais lideranças globais são capacitadas para isso?

O problema é que, ao contrário da crise financeira, as principais economias do mundo hoje são incapazes de colaborar umas com as outras. Trump é um ignorante nacionalista que não entende como lidar com esse tipo de problema. Essa questão está completamente além dele intelectualmente. Por sorte, tem uma ou duas pessoas competentes no seu governo. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) é eficiente e o Congresso americano está fazendo alguma coisa. Os europeus estão desmoronando. Muitos países europeus estão respondendo de modo nacionalista, sem solidariedade. O Japão está lidando bem. Isso porque já teve a experiência com a Sars antes. Mas, se olharmos para a Europa e para os EUA, é assustador. Na crise financeira (de 2008), tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Eles produziram um plano comum que funcionou bem para o setor financeiro e em termos de política fiscal. A recuperação pode não ter sido como se esperava, mas havia qualidade de lideranças Houve muita colaboração nos primeiros encontros do G-20. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado. Não sei como essas pessoas vão cooperar. Já pararam de comercializar itens vitais, como ventiladores e máscaras.

O sr. acredita que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preparado para o desafio?

Não conheço pessoalmente o sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso. Como Trump, mas um pouco pior. Apesar disso, sua equipe econômica parece competente e inteligente. São provavelmente muito mais Chicago do que preferiria. Mas as reformas que estão fazendo eram necessárias. Como eles vão funcionar nessa crise, dado que o Brasil não está numa posição econômica forte e não pode aumentar seus gastos facilmente, realmente não sei. Será um desafio grande para o Brasil. É preciso uma capacidade do governo para gastar mais e rapidamente, o que é difícil para o Brasil, que já está altamente endividado. Vai ser um desafio grande para o Brasil e para muitos emergentes.

O sr. mencionou que o Brasil já está bastante endividado. E o sr. também tinha escrito que os governos deveriam prover solvência ao sistema. Se o Brasil não pode fazer isso, como fica a situação do País?

Vai ser difícil para o Brasil conseguir financiamento em moeda estrangeira. Talvez a questão seja quanto o governo conseguirá emprestar domesticamente. Provavelmente, precisará da ajuda do Banco Central. Mas, dada a história brasileira de inflação e altas taxas de juros, vai ser muito difícil fazer isso sem criar pânico no mercado financeiro. O Brasil terá de realocar gastos existentes, o que pode ser difícil politicamente. Politicamente, é quase impossível mudar os gastos nessa situação. Mas essa parece ser a coisa lógica a se fazer. Gastar com o que realmente é prioridade. Mas, para ser honesto, para um país como o Brasil responder de forma efetiva a essa emergência, vai ser um desafio gigantesco. Se você comparar o Brasil com a China, a China obviamente tem vantagens enormes em termos de recursos financeiros e de poder de organização e controle social. A maioria dos países emergentes não tem esses ativos. Os próximos dois anos vão ser muito difíceis para os mercados emergentes.

Uma das medidas que o governo brasileiro anunciou foi a autorização para empresas reduzirem jornadas e salários dos trabalhadores. É uma boa opção?

Na Alemanha, que é um país rico, o governo financia o trabalhador de meio período. O governo diz para a empresa reduzir o número de horas que o funcionário trabalha e cobre a diferença de salário. Mas o governo alemão tem solvência, pode emprestar a taxas de juros negativas. Se o governo brasileiro não tem condições financeiras de fazer isso, então o que está sugerindo me parece fazer sentido. Caso contrário, as pessoas ficarão desempregadas e em um problema terrível. Acho que não é uma má ideia se for algo organizado. Para mim, o problema no Brasil é que a maioria das pessoas não trabalha em uma grande empresa. A maioria tem empregos informais. O que o governo vai fazer para ajudar essas pessoas?

Vai dar R$ 200 por pessoa por mês nos próximos três meses

Não parece muito. Isso é suficiente para viver no Brasil?

Não.

O problema é que, em um país pobre como o Brasil, o governo não tem os recursos para proteger as pessoas. No Brasil, a grande questão não é salvar o setor organizado, é proteger a população. É preciso encontrar um jeito que possibilite que as pessoas sobrevivam. Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um.

O sr. já disse também que estamos em uma situação de guerra e que os países devem gastar o quanto for preciso para incentivar a economia. Eles estão agindo nessa direção?

Os Estados Unidos estão fazendo isso. Eu não ficaria surpreso se alguns países tiverem um déficit neste ano e no próximo de 10% do PIB ou mais. Não estou prevendo isso, mas era onde estávamos na crise financeira. Os principais países desenvolvidos, com exceção da Itália, podem fazer isso de forma fácil sem gerar grandes problemas. Se você empresta na sua própria moeda, tem o Banco Central para ajudar e com as taxas de juros da dívida do governo próximas a zero, que é basicamente onde estão agora, não é problema aumentar a dívida. O problema fiscal vai ser negligenciável. Em muitos países emergentes, como discutimos antes, o problema é que vai ser mais difícil conseguir dinheiro no mercado global por causa da aversão ao risco.

Então, os brasileiros devem se preparar para uma recessão profunda neste e no próximo ano?

A economia global vai ter uma desaceleração massiva, possivelmente uma recessão. O Brasil não é superdependente dos mercados globais como outros emergentes, mas obviamente isso vai afetar os negócios brasileiros significativamente. Empresas importantes exportam e têm ativos no exterior. Deve haver um efeito deflacionário. As condições no mercado de crédito para o Brasil ficarão muito apertadas e as empresas brasileiras também terão mais dificuldade para emprestar nos mercados globais. Essa é uma segunda razão para haver recessão. Outra é que, aí, pessoas também vão ficar em casa e haverá um choque de oferta. Esperaria que a economia desacelerasse consideravelmente, e já está em uma taxa de crescimento muito lenta. Se o País for muito bem mesmo, o PIB será próximo de zero. Mas ficarei incrivelmente surpreso se não for negativo.

Combate à crise tem de passar pela área fiscal, dizem economistas

Luciana Dyniewicz
O governo Jair Bolsonaro demorou para agir diante da crise do novo coronavírus e ainda tomou medidas tímidas demais dada a situação de calamidade global, segundo economistas ouvidos pela reportagem. Os especialistas pedem, principalmente, medidas mais profundas na área fiscal, a exemplo do que já foi feito em países desenvolvidos.

O Reino Unido, por exemplo, anunciou na sexta-feira passada que vai pagar até 80% dos salários dos trabalhadores nos próximos meses, enquanto o governo dos Estados Unidos articula com o Congresso um pacote emergencial que pode chegar a US$ 1 trilhão - ante -R$ 184,6 bilhões no Brasil.

Para o economista Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami, o governo precisa injetar muito mais recursos na economia do que foi anunciado e, neste momento, seria melhor pecar pelo excesso. Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, afirma que a situação é de guerra e que, para bancar um aumento de gastos, o governo poderia se financiar através de instituições financeiras domésticas.

Teto de gastos. Se os especialistas são unânimes ao defender um aumento dos gastos neste ano, eles divergem em relação à manutenção do teto dos gastos (emenda constitucional que limita o aumento dos gastos à inflação). Segundo Monica, a regra deve ser temporariamente suspensa, já que a realidade é dramática.

Ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, no entanto, afirma que é possível aumentar os gastos abrindo um crédito extraordinário para despesas de calamidade pública, que não seria contabilizado no teto. A economista Zeina Latif também apoia a manutenção do teto. "Tem de haver um esforço para manter o teto. Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo. Grupos de interesse sempre tentam abocanhar partes crescentes do Orçamento."

Além de criticarem o alcance das medidas anunciadas, os economistas também apontam problemas políticos que têm atrapalhado o combate à pandemia e à crise econômica. Leme destaca que o governo precisa retomar a capacidade de informar a população de forma clara. "O presidente tem de apoiar a equipe de Saúde. O País tem de remar na mesma direção."

Zeina ataca a falta de articulação do governo e a demora do governo para reconhecer a gravidade da situação. "O governo subestimou o problema, agora será mais difícil lidar com essa crise. Não é que ela fosse inevitável, mas queimamos algumas etapas, como a da comunicação."

PONTOS DE VISTA

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute

‘Plano de Guedes não basta. Tem de ser maior’

A economista Monica de Bolle, que há algumas semanas vem defendendo a suspensão temporária do teto dos gastos durante a crise, afirma que o pacote de medidas do governo é tímido demais para a recessão que virá - ela estima uma queda do PIB de até 6% no Brasil neste ano. "Esse plano do Paulo Guedes não basta. Tem de ser algo muito maior. Tem de ser: o governo vai pagar os trabalhadores. O Reino Unido anunciou isso nesta semana." Ela propõe que o governo repasse R$ 50 bilhões ao Sistema Único de Saúde (o governo destinou R$ 11,8 bilhões ao combate da pandemia, sendo R$ 4,5 bilhões para o SUS) e outros R$ 30 bilhões para empresas mais afetadas pela crise. Monica sugere ainda, entre outras medidas, o repasse de R$ 500 mensais por um ano aos 36 milhões do Cadastro Único que não recebem o Bolsa Família. Todo o pacote elevaria a dívida brasileira em 4% do PIB, calcula. "4% não é nada. Alguém acha que o Brasil acaba se a dívida aumentar isso?"

Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami

‘É melhor errar por fazer demais’

"Esquece o teto dos gastos, agora é preciso cuidar dos doentes", diz o economista Paulo Leme, que já comandou o Goldman Sachs no Brasil. Para ele, dada a gravidade da situação, cumprir uma meta fiscal deixou de ter prioridade e a resposta para a emergência econômica é política fiscal. "Reconheço que o pacote fiscal apresentado pelo governo é significativo, são 2,3% do PIB. Mas acho melhor errar por fazer demais, porque temo que ainda possa ser insuficiente." O economista afirma que os R$ 11,8 bilhões que o governo destinou para a Saúde, é pouco. "Duplicaria, triplicaria esse valor para, por exemplo, a construção de hospitais." Leme afirma ainda que o governo deveria ampliar linhas de crédito tanto para pequenas e médias empresas, como para algumas maiores, como as aéreas, e usar o BNDES para comprar debêntures de companhias. Do lado do consumidor, outra rodada de liberação de recursos do FGTS deveria ser providenciada. "O jogo é ser gigantesco e rápido."

Zeina latif, consultora e doutora em Economia pela USP

‘Desarticulação do governo agrava situação’

Para Zeina Latif, o plano do governo de conceder R$ 200 por mês, durante três meses, aos trabalhadores informais não apenas é insuficiente para essa população como também é um projeto de difícil execução. Ela destaca que o governo se preparou mal para a crise e subestimou o problema, o que torna tudo mais complexo agora. Segundo Zeina, quando o Ministério da Saúde colocou o alerta em nível um, ainda em janeiro, era preciso ter começado a traçar um plano emergencial. "O governo é desarticulado. Isso agrava a situação. As medidas anunciadas ainda estão na borda do problema. Como executar medidas para ter capilaridade e para que recursos cheguem aonde é preciso rapidamente?", questiona. Para Zeina, deve-se aumentar os gastos agora - "não fazer isso é um equívoco" -, mas o teto de gastos precisa ser respeitado. "Acho que tem de fazer um esforço para manter o teto. "A questão é reduzir o sofrimento e tentar fazer com que a crise não seja tão forte."

Maílson de Nóbrega, ex-ministro da Fazenda

‘Governo tardou em agir na área econômica’

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega avalia que o governo Bolsonaro errou ao insistir que acelerar as reformas estruturais solucionaria a crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus. "O governo tardou em agir na área econômica. Quando a situação começou a se agravar, insistia no discurso equivocado de que era preciso fazer reformas. Se aprovadas, elas terão impactos daqui a anos. A crise precisa de algo emergencial." O economista destaca que é preciso aumentar o orçamento da Saúde para evitar mortes e providenciar um alívio de caixa para empresas e famílias. Ele sugere ainda que a contribuição previdenciária seja dispensada temporariamente. "É preciso colocar dinheiro no bolso das pessoas." Maílson admite que o déficit primário do Brasil vai aumentar neste ano, mas defende que o teto dos gastos não seja eliminado. "O governo pode propor a abertura de um crédito extraordinário para cobrir despesas de calamidade pública, que não é contabilizado no teto."


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