Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Economia
Retomada econômica do Brasil no pós-covid deve ser mais lenta que em 90% dos países

Forma descoordenada de lidar com pandemia prejudica o país

Terça, 16/6/2020 13:31.
EBC.

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Por Douglas Gavras

A recuperação do mundo após a pandemia do novo coronavírus será mais difícil agora do que foi em recessões anteriores - e especialmente para os brasileiros. Nove em cada dez países devem atravessar esta crise melhor do que o Brasil, de acordo com um levantamento que cruza previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) com a edição mais recente do Boletim Focus, do Banco Central.

A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desabe este ano e tenha uma recuperação tímida no ano que vem, com o impacto econômico das medidas de isolamento social implementadas para conter a covid-19. No biênio 2020/2021, o PIB deve cair 1,6%.

O levantamento do pesquisador Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), aponta que o Brasil ficará na 171.ª posição entre 192 países. Na lista dos sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior e deve ficar em penúltimo lugar. Enquanto isso, a China, onde a epidemia começou, poderá crescer 5,1%.

"O Brasil vive uma crise de saúde e uma crise política ao mesmo tempo, isso não tem paralelo internacional. O otimismo do começo do ano com o País ficou para trás e os principais agentes preveem uma queda forte para a economia nacional este ano", avalia Balassiano.

Ele lembra que as perspectivas do FMI e do Focus estão até otimistas, na comparação com outros agentes internacionais, como o Banco Mundial, que já espera uma queda de 3% para o País neste biênio. "O FMI deve fazer uma nova rodada de previsões no mês que vem e o desempenho esperado para o Brasil deve ser ainda pior."

Largando atrás

Um agravante para o baixo desempenho da economia brasileira é que o País já crescia pouco mesmo antes da pandemia. Desde 2017, o Brasil vinha crescendo na casa de 1%, após duas quedas seguidas de mais de 3%. O País estava atrás da maior parte do mundo: para se ter uma ideia, sete em cada dez países cresceram mais do que o Brasil no ano passado, ainda segundo o FMI.

"O Brasil veio de uma recessão forte e não conseguiu sair rápido dela. Entramos na crise atual com desemprego em dois dígitos e quase 70 milhões de vulneráveis", diz Balassiano.

Já sob efeito da pandemia, a desocupação era de 12,6% no trimestre até abril, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Como muita gente não consegue sair de casa para procurar trabalho, estima-se que a taxa seja, na verdade, de 16%, segundo o Itaú Unibanco.

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avalia que a crise da covid-19 deve marcar uma geração. "Órgãos como a OCDE (o clube dos países ricos) falam que será a pior crise em cem anos. A forma como a enfrentarmos será lembrada por anos."

Forma descoordenada de lidar com pandemia prejudica o país

Na avaliação de economistas ouvidos pelo ‘Estadão’, a forma descoordenada como o Brasil vem lidando com a pandemia faz com que as medidas de distanciamento durem mais e sejam menos efetivas do que as soluções encontradas por outros países, o que vai prejudicar a recuperação da economia brasileira.

Eles ressaltam que, embora políticas importantes como a implementação do auxílio emergencial de até R$ 1.200 para desempregados e informais tenham sido acertadas, a falta de organização levou uma multidão de brasileiros de baixa renda a se aglomerar nas agências da Caixa Econômica Federal, prejudicando o isolamento.

Outras medidas, como as linhas de crédito, sobretudo para as empresas médias e menores, não chegaram na ponta. Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontava que até o mês passado, 38% dos empresários solicitaram crédito. Desses, só 14% receberam e 86% aguardavam ou tiveram o pedido negado.

O balanço é que, na contramão de outros países, o governo federal coleciona uma série de erros. Nos últimos meses, o presidente Jair Bolsonaro chegou a subestimar a gravidade da covid-19 e insistiu no isolamento vertical. O governo alterou o protocolo para a hidroxicloroquina e tentou mexer na divulgação do número de mortes.

O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Luiz Carlos Mendonça de Barros lembra que o mundo inteiro terá o grande desafio de se recuperar após o baque de 2020. "A Alemanha, pela primeira vez na história recente, vai reduzir o imposto sobre o consumo, dar um bônus de US$ 300 para as famílias de baixa renda, socorrer empresas. É o caminho."

Ele avalia que o governo brasileiro precisa fazer um novo pacote fiscal para acelerar a recuperação a partir do ano que vem. "O problema aqui é que o governo é uma bagunça. Mas é preciso acenar com um projeto de reconstrução para depois da quarentena, dar esperança, mostrar à sociedade que algo está sendo planejado "

"Estamos há mais de 90 dias sem sair de casa e a curva está subindo. Na Espanha, foram 45 dias de lockdown total e eles começaram a reabrir em maio. Outros países que reabriram, como Portugal, chegaram a trancar fronteiras", compara José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Ele concorda que os sinais trocados do governo vão atrapalhar a recuperação, mas diz que o País poderá se reerguer, desde que a política econômica não crie obstáculos para a volta da demanda. "Se voltarmos a discutir austeridade fiscal, será outra década perdida. É preciso uma política contracíclica."

Já Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, defende que o País volte a fazer reformas, para crescer e gerar empregos sem descuidar das contas públicas. "Agora não há o que fazer, a dívida vai subir. Mas depois, as reformas devem voltar à mesa."


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Página 3
EBC.

Retomada econômica do Brasil no pós-covid deve ser mais lenta que em 90% dos países

Forma descoordenada de lidar com pandemia prejudica o país

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Terça, 16/6/2020 13:31.

Por Douglas Gavras

A recuperação do mundo após a pandemia do novo coronavírus será mais difícil agora do que foi em recessões anteriores - e especialmente para os brasileiros. Nove em cada dez países devem atravessar esta crise melhor do que o Brasil, de acordo com um levantamento que cruza previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) com a edição mais recente do Boletim Focus, do Banco Central.

A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desabe este ano e tenha uma recuperação tímida no ano que vem, com o impacto econômico das medidas de isolamento social implementadas para conter a covid-19. No biênio 2020/2021, o PIB deve cair 1,6%.

O levantamento do pesquisador Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), aponta que o Brasil ficará na 171.ª posição entre 192 países. Na lista dos sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior e deve ficar em penúltimo lugar. Enquanto isso, a China, onde a epidemia começou, poderá crescer 5,1%.

"O Brasil vive uma crise de saúde e uma crise política ao mesmo tempo, isso não tem paralelo internacional. O otimismo do começo do ano com o País ficou para trás e os principais agentes preveem uma queda forte para a economia nacional este ano", avalia Balassiano.

Ele lembra que as perspectivas do FMI e do Focus estão até otimistas, na comparação com outros agentes internacionais, como o Banco Mundial, que já espera uma queda de 3% para o País neste biênio. "O FMI deve fazer uma nova rodada de previsões no mês que vem e o desempenho esperado para o Brasil deve ser ainda pior."

Largando atrás

Um agravante para o baixo desempenho da economia brasileira é que o País já crescia pouco mesmo antes da pandemia. Desde 2017, o Brasil vinha crescendo na casa de 1%, após duas quedas seguidas de mais de 3%. O País estava atrás da maior parte do mundo: para se ter uma ideia, sete em cada dez países cresceram mais do que o Brasil no ano passado, ainda segundo o FMI.

"O Brasil veio de uma recessão forte e não conseguiu sair rápido dela. Entramos na crise atual com desemprego em dois dígitos e quase 70 milhões de vulneráveis", diz Balassiano.

Já sob efeito da pandemia, a desocupação era de 12,6% no trimestre até abril, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Como muita gente não consegue sair de casa para procurar trabalho, estima-se que a taxa seja, na verdade, de 16%, segundo o Itaú Unibanco.

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avalia que a crise da covid-19 deve marcar uma geração. "Órgãos como a OCDE (o clube dos países ricos) falam que será a pior crise em cem anos. A forma como a enfrentarmos será lembrada por anos."

Forma descoordenada de lidar com pandemia prejudica o país

Na avaliação de economistas ouvidos pelo ‘Estadão’, a forma descoordenada como o Brasil vem lidando com a pandemia faz com que as medidas de distanciamento durem mais e sejam menos efetivas do que as soluções encontradas por outros países, o que vai prejudicar a recuperação da economia brasileira.

Eles ressaltam que, embora políticas importantes como a implementação do auxílio emergencial de até R$ 1.200 para desempregados e informais tenham sido acertadas, a falta de organização levou uma multidão de brasileiros de baixa renda a se aglomerar nas agências da Caixa Econômica Federal, prejudicando o isolamento.

Outras medidas, como as linhas de crédito, sobretudo para as empresas médias e menores, não chegaram na ponta. Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontava que até o mês passado, 38% dos empresários solicitaram crédito. Desses, só 14% receberam e 86% aguardavam ou tiveram o pedido negado.

O balanço é que, na contramão de outros países, o governo federal coleciona uma série de erros. Nos últimos meses, o presidente Jair Bolsonaro chegou a subestimar a gravidade da covid-19 e insistiu no isolamento vertical. O governo alterou o protocolo para a hidroxicloroquina e tentou mexer na divulgação do número de mortes.

O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Luiz Carlos Mendonça de Barros lembra que o mundo inteiro terá o grande desafio de se recuperar após o baque de 2020. "A Alemanha, pela primeira vez na história recente, vai reduzir o imposto sobre o consumo, dar um bônus de US$ 300 para as famílias de baixa renda, socorrer empresas. É o caminho."

Ele avalia que o governo brasileiro precisa fazer um novo pacote fiscal para acelerar a recuperação a partir do ano que vem. "O problema aqui é que o governo é uma bagunça. Mas é preciso acenar com um projeto de reconstrução para depois da quarentena, dar esperança, mostrar à sociedade que algo está sendo planejado "

"Estamos há mais de 90 dias sem sair de casa e a curva está subindo. Na Espanha, foram 45 dias de lockdown total e eles começaram a reabrir em maio. Outros países que reabriram, como Portugal, chegaram a trancar fronteiras", compara José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Ele concorda que os sinais trocados do governo vão atrapalhar a recuperação, mas diz que o País poderá se reerguer, desde que a política econômica não crie obstáculos para a volta da demanda. "Se voltarmos a discutir austeridade fiscal, será outra década perdida. É preciso uma política contracíclica."

Já Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, defende que o País volte a fazer reformas, para crescer e gerar empregos sem descuidar das contas públicas. "Agora não há o que fazer, a dívida vai subir. Mas depois, as reformas devem voltar à mesa."


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