Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Economia
Dólar encosta em R$ 4, e BC anuncia munição extra para conter disparada

Nesta quinta-feira o mercado entrou em "modo desespero"

Sexta, 8/6/2018 7:36.

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SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após um dia de pânico nesta quinta-feira (7) nos negócios no Brasil com Bolsa, juros e câmbio, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse que intervirá no mercado vendendo US$ 20 bilhões até o fim da próxima semana para conter a disparada do dólar e usará todos os recursos disponíveis caso a volatilidade cambial se agrave.

Logo após a abertura dos negócios, sem que ninguém conseguisse explicar o porquê, o mercado entrou no "modo desespero", como descreveu um analista: o dólar disparava rumo aos R$ 4, a Bolsa despencava mais de 6% e os juros de prazo curto precificavam até mesmo uma reunião extraordinária do Copom (Comitê de Política Monetária) para uma elevação das taxas.

Ao longo do dia, sem que também houvesse novidades, os ativos se recuperaram um pouco: o dólar, que chegou a bater R$ 3,968 (+3%), fechou em alta de 2,24%, cotado a R$ 3,925, maior nível, em valores nominais, desde 1º de março de 2016 (R$ 3,942).

A Bolsa brasileira registrou forte queda. O Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas, recuou 2,98%, para 73.851,47 pontos, no menor nível desde 18 de dezembro do ano passado. Das 67 ações do índice, 64 caíram -subiram apenas Embraer (+1,94%) e Telefônica (+0,96%).

Encerrados os pregões, Ilan convocou jornalistas para apresentar esclarecimentos sobre ações do BC e tentar levar um pouco de tranquilidade ao mercado.

Ele disse que o BC está disposto a usar todos os mecanismos de que dispõe (swaps, operações de linha e reservas) para suavizar a volatilidade do câmbio.

Afirmou, também, que no caso dos swaps, pode ir além até mesmo do que o BC foi nos picos de 2015 e 2016. E repetiu que a relação entre câmbio e inflação não é mecânica -sinalizando que uma elevação dos juros não está no horizonte de curto prazo.

Para tentar conter a disparada da moeda americana na quinta, o BC já havia colocado uma oferta adicional de até 40 mil novos swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares, totalizando US$ 2 bilhões.

Além de Ilan, o presidente Michel Temer disse nesta quinta ao programa Nos Corredores do Poder, da TV Brasil, que o governo tem todas as condições para enfrentar a alta do dólar. "Não há risco de crise cambial no Brasil", afirmou.

Analistas avaliam que investidores podem estar testando o BC para ver até onde ele consegue segurar o câmbio com swaps e, assim, pressionar por intervenções ainda mais fortes, como leilões de linha -quando o BC vende dólar à vista, mas com compromisso de recompra.

"Alguns 'players' do mercado dizem que o BC precisa começar a agir com mais força, inclusive elevando juros", afirma Bruno Foresti, gerente de câmbio do banco Ourinvest.

A situação cambial do Brasil se deteriora conforme as eleições de outubro se aproximam e pesquisas de intenção de voto não comprovam o avanço de candidatos considerados pelo mercado como comprometidos com o ajuste fiscal.

Incertezas no front político nacional afastam investidores, ao mesmo tempo em que expectativas de alta de juros nos Estados Unidos atraem fluxo de capital até então alocado em países emergentes para a economia americana, mais sólida e menos arriscada.

O Federal Reserve (o banco central americano) fará nova decisão sobre juros na próxima semana, e a projeção dos especialistas é de alta.

Das 31 principais divisas do mundo, 17 perdem para o dólar nesta quinta, incluindo o rand sul-africano (-1,94%), o rublo russo (-1%) e o peso mexicano (-0,78%).

O quadro brasileiro piorou também após a paralisação dos caminhoneiros. Investidores temem o reflexo do movimento na produção e na inflação -o IPCA de maio será divulgado nesta sexta (8), e o mercado vê uma taxa de 0,29%-, bem como o impacto que as medidas do governo para subsidiar o diesel podem ter nas contas públicas.

"Foi uma tempestade perfeita: externamente uma situação pior e internamente menores condições de identificar o que vai acontecer nas eleições", disse Leandro Ruschel, do Grupo L&S.

Ilan destacou que o balanço de pagamentos do país é "muito bom" e a conta corrente está equilibrada. Lembrou ainda que os investimentos estrangeiros alcançaram 3,4% do PIB. Ou seja: para ele, o país tem um colchão mais do que suficiente para enfrentar essa situação.

Ele também negou que o BC poderá realizar reunião extraordinária para elevar os juros e conter a desvalorização do real. "A política monetária é separada da política cambial. Não há relação mecânica entre as duas. A política monetária não será usada para controlar a taxa de câmbio", disse.

O discurso de Ilan serviu também de resposta aos rumores dentro do próprio governo de que ele poderia deixar a presidência do BC diante de pressão do Palácio do Planalto por medidas de gestão da crise.

"Sigo trabalhando com todo afinco com a equipe até o fim do ano", disse Ilan.

Agora, a equipe econômica trabalha para identificar os fatores que influenciam na desvalorização cambial. Técnicos da Fazenda querem avaliar se esse movimento não é o início de um ataque especulativo. Só depois disso, será possível decidir o tamanho do "remédio" a ser aplicado pelo BC.

O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, disse que o Brasil e outros emergentes, como Chile, Argentina, Colômbia e Turquia, também perdem investidores com a nova política comercial dos EUA e a tendência de alta de juros por lá.

Embora o governo insista que a disparada do dólar se deve a uma crise externa, integrantes da equipe do presidente Michel Temer avaliam que a greve dos caminhoneiros elevou a incerteza que contaminou a política e a economia, pressionando ainda mais o câmbio.

Nos bastidores, a avaliação é que a negociação com os caminhoneiros não só enfraqueceu o governo como elevou o risco do país.

Banqueiros e gestores de investimentos consultados pela reportagem concordam. Para eles, ficou a imagem de que "o piloto sumiu" e o governo é suscetível a pressões.

O resultado foi que, em duas semanas, investidores estrangeiros sacaram R$ 12 bilhões em investimentos na Bolsa migrando para lugares mais seguros com bons retornos.


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Página 3

Dólar encosta em R$ 4, e BC anuncia munição extra para conter disparada

Nesta quinta-feira o mercado entrou em "modo desespero"

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Sexta, 8/6/2018 7:36.

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após um dia de pânico nesta quinta-feira (7) nos negócios no Brasil com Bolsa, juros e câmbio, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse que intervirá no mercado vendendo US$ 20 bilhões até o fim da próxima semana para conter a disparada do dólar e usará todos os recursos disponíveis caso a volatilidade cambial se agrave.

Logo após a abertura dos negócios, sem que ninguém conseguisse explicar o porquê, o mercado entrou no "modo desespero", como descreveu um analista: o dólar disparava rumo aos R$ 4, a Bolsa despencava mais de 6% e os juros de prazo curto precificavam até mesmo uma reunião extraordinária do Copom (Comitê de Política Monetária) para uma elevação das taxas.

Ao longo do dia, sem que também houvesse novidades, os ativos se recuperaram um pouco: o dólar, que chegou a bater R$ 3,968 (+3%), fechou em alta de 2,24%, cotado a R$ 3,925, maior nível, em valores nominais, desde 1º de março de 2016 (R$ 3,942).

A Bolsa brasileira registrou forte queda. O Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas, recuou 2,98%, para 73.851,47 pontos, no menor nível desde 18 de dezembro do ano passado. Das 67 ações do índice, 64 caíram -subiram apenas Embraer (+1,94%) e Telefônica (+0,96%).

Encerrados os pregões, Ilan convocou jornalistas para apresentar esclarecimentos sobre ações do BC e tentar levar um pouco de tranquilidade ao mercado.

Ele disse que o BC está disposto a usar todos os mecanismos de que dispõe (swaps, operações de linha e reservas) para suavizar a volatilidade do câmbio.

Afirmou, também, que no caso dos swaps, pode ir além até mesmo do que o BC foi nos picos de 2015 e 2016. E repetiu que a relação entre câmbio e inflação não é mecânica -sinalizando que uma elevação dos juros não está no horizonte de curto prazo.

Para tentar conter a disparada da moeda americana na quinta, o BC já havia colocado uma oferta adicional de até 40 mil novos swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares, totalizando US$ 2 bilhões.

Além de Ilan, o presidente Michel Temer disse nesta quinta ao programa Nos Corredores do Poder, da TV Brasil, que o governo tem todas as condições para enfrentar a alta do dólar. "Não há risco de crise cambial no Brasil", afirmou.

Analistas avaliam que investidores podem estar testando o BC para ver até onde ele consegue segurar o câmbio com swaps e, assim, pressionar por intervenções ainda mais fortes, como leilões de linha -quando o BC vende dólar à vista, mas com compromisso de recompra.

"Alguns 'players' do mercado dizem que o BC precisa começar a agir com mais força, inclusive elevando juros", afirma Bruno Foresti, gerente de câmbio do banco Ourinvest.

A situação cambial do Brasil se deteriora conforme as eleições de outubro se aproximam e pesquisas de intenção de voto não comprovam o avanço de candidatos considerados pelo mercado como comprometidos com o ajuste fiscal.

Incertezas no front político nacional afastam investidores, ao mesmo tempo em que expectativas de alta de juros nos Estados Unidos atraem fluxo de capital até então alocado em países emergentes para a economia americana, mais sólida e menos arriscada.

O Federal Reserve (o banco central americano) fará nova decisão sobre juros na próxima semana, e a projeção dos especialistas é de alta.

Das 31 principais divisas do mundo, 17 perdem para o dólar nesta quinta, incluindo o rand sul-africano (-1,94%), o rublo russo (-1%) e o peso mexicano (-0,78%).

O quadro brasileiro piorou também após a paralisação dos caminhoneiros. Investidores temem o reflexo do movimento na produção e na inflação -o IPCA de maio será divulgado nesta sexta (8), e o mercado vê uma taxa de 0,29%-, bem como o impacto que as medidas do governo para subsidiar o diesel podem ter nas contas públicas.

"Foi uma tempestade perfeita: externamente uma situação pior e internamente menores condições de identificar o que vai acontecer nas eleições", disse Leandro Ruschel, do Grupo L&S.

Ilan destacou que o balanço de pagamentos do país é "muito bom" e a conta corrente está equilibrada. Lembrou ainda que os investimentos estrangeiros alcançaram 3,4% do PIB. Ou seja: para ele, o país tem um colchão mais do que suficiente para enfrentar essa situação.

Ele também negou que o BC poderá realizar reunião extraordinária para elevar os juros e conter a desvalorização do real. "A política monetária é separada da política cambial. Não há relação mecânica entre as duas. A política monetária não será usada para controlar a taxa de câmbio", disse.

O discurso de Ilan serviu também de resposta aos rumores dentro do próprio governo de que ele poderia deixar a presidência do BC diante de pressão do Palácio do Planalto por medidas de gestão da crise.

"Sigo trabalhando com todo afinco com a equipe até o fim do ano", disse Ilan.

Agora, a equipe econômica trabalha para identificar os fatores que influenciam na desvalorização cambial. Técnicos da Fazenda querem avaliar se esse movimento não é o início de um ataque especulativo. Só depois disso, será possível decidir o tamanho do "remédio" a ser aplicado pelo BC.

O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, disse que o Brasil e outros emergentes, como Chile, Argentina, Colômbia e Turquia, também perdem investidores com a nova política comercial dos EUA e a tendência de alta de juros por lá.

Embora o governo insista que a disparada do dólar se deve a uma crise externa, integrantes da equipe do presidente Michel Temer avaliam que a greve dos caminhoneiros elevou a incerteza que contaminou a política e a economia, pressionando ainda mais o câmbio.

Nos bastidores, a avaliação é que a negociação com os caminhoneiros não só enfraqueceu o governo como elevou o risco do país.

Banqueiros e gestores de investimentos consultados pela reportagem concordam. Para eles, ficou a imagem de que "o piloto sumiu" e o governo é suscetível a pressões.

O resultado foi que, em duas semanas, investidores estrangeiros sacaram R$ 12 bilhões em investimentos na Bolsa migrando para lugares mais seguros com bons retornos.


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