Jornal Página 3

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Livro usa testemunhos para narrar fim da Primeira Guerra
Divulgação
Daniel Schönpflug.

Segunda, 19/11/2018 5:36.

GUILHERME MAGALHÃES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um jovem oficial do Exército americano que anos mais tarde seria o 33º presidente dos EUA, uma jornalista francesa pró-Europa décadas antes de a União Europeia existir, uma artista alemã que traduz em arte o sofrimento com a perda do filho, um vietnamita que lava pratos em Londres enquanto idealiza uma revolução em sua terra natal, e uma escritora britânica às voltas com a depressão.

O que une essas figuras é o fato de terem vivenciado, no front ou fora dele, o fim da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918.
Algumas, como Harry Truman, Virginia Woolf e Ho Chi Minh, de renome internacional. Outras, como Käthe Kollwitz e Louise Weiss, menos conhecidas do leitor brasileiro.

Seus diários, cartas e memórias servem de fio condutor para o historiador alemão Daniel Schönpflug narrar o que ele chama de "A Era do Cometa", que dá nome ao livro lançado neste mês pela Todavia, um ano depois da publicação na Alemanha.

A metáfora é oriunda de uma pintura do alemão Paul Klee, de 1918. No quadro "O Cometa de Paris", vê-se um equilibrista em uma corda sobre a capital francesa. Ao redor da cabeça dele estão dois cometas, um deles com a forma da estrela de Davi.

"Para mim, essa imagem realmente capturou esse momento de 1918", disse o historiador à reportagem, por telefone. "Esse homem está por um lado tomado entre os sonhos, as utopias de um futuro diferente, representados pelos cometas, e também pela realidade. E ele está em uma posição desconfortável, é um estado de incerteza, fragilidade."

Especialista em história europeia dos séculos 18 e 20, Schönpflug é professor da Universidade Livre de Berlim. O posto lhe deu a sorte de obter fácil acesso ao acervo de outras bibliotecas e arquivos na busca por testemunhos escritos entre 1918 e 1923.

Tal qual um cometa, "ideias e visões acendiam e desapareciam" durante esses cinco anos do pós-guerra, marcados pelo nascimento da União Soviética e a ascensão do fascismo na Itália, mas também pelo primeiro regime democrático da Alemanha, a conquista do sufrágio feminino e a discussão do pacifismo depois dos horrores da guerra.

Schönpflug disse que não pretendia escrever mais um livro analítico sobre causas do conflito. Para tanto, investiu em uma colagem de testemunhos, deixando claro ao leitor o risco de que o autor desses escritos tende a aumentar a importância de si mesmo e diminuir a de desafetos conforme lhe convém.

Não que a historiografia clássica não tenha sua carga de subjetividade, afirmou o alemão. "Todo historiador tem que escolher suas fontes, e então escolher a narrativa que irá integrar essas fontes."

Mas, para Schönpflug, isso geralmente é feito unificando-se histórias para se escrever "a uma história" em detrimento da perspectiva que tinham os atores daquele tempo.

"É algo que a historiografia clássica não é muito boa em mostrar, por causa dessa tendência unificadora. Eu queria experimentar o que acontece se nós fazemos das experiências algo mais importante que a narrativa unificada, que no fim é uma invenção subjetiva do historiador."

Teria o cometa de 1918 voltado a aparecer? Sim, disse Schönpflug, mas não ao final da Segunda Guerra, em 1945, que é cercado por uma atmosfera de visões pragmáticas pouco afeitas a utopias tendo em vista o resultado do experimento nazifascista.

"Vejo em 1989 [ano da queda do Muro de Berlim] esse momento do cometa. Não apenas pela demolição da ordem mundial, mas porque floresciam ideias de uma nova liberdade, alguns disseram que era o fim da história. E tudo foi utópico", avalia.

O que veio depois, porém, "não foi de forma alguma utópico". Schönpflug cita as guerras nos anos 1990, os atentados do 11 de Setembro, a crise econômica de 2008, o "brexit" e a ascensão do populismo.

"Em vez de uma era de paz e prosperidade, veio uma reação em cadeia de guerras e crises, a disrupção de muitas coisas que tomamos como certas. Poderia dizer que nós, hoje, somos o equilibrista de Paul Klee. Vivemos esse momento de visões e utopias, mas enfrentamos realidades duras e desencantos. Nossa posição é frágil e nem um pouco confortável."

A ERA DO COMETA

Autor: Daniel Schönpflug
Tradução: Luis S. Krausz
Editora: Todavia
Quanto: R$ 64,90 (304 págs.) 

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Página 3

Livro usa testemunhos para narrar fim da Primeira Guerra

Divulgação
Daniel Schönpflug.
Daniel Schönpflug.

Publicidade

Segunda, 19/11/2018 5:36.

GUILHERME MAGALHÃES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um jovem oficial do Exército americano que anos mais tarde seria o 33º presidente dos EUA, uma jornalista francesa pró-Europa décadas antes de a União Europeia existir, uma artista alemã que traduz em arte o sofrimento com a perda do filho, um vietnamita que lava pratos em Londres enquanto idealiza uma revolução em sua terra natal, e uma escritora britânica às voltas com a depressão.

O que une essas figuras é o fato de terem vivenciado, no front ou fora dele, o fim da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918.
Algumas, como Harry Truman, Virginia Woolf e Ho Chi Minh, de renome internacional. Outras, como Käthe Kollwitz e Louise Weiss, menos conhecidas do leitor brasileiro.

Seus diários, cartas e memórias servem de fio condutor para o historiador alemão Daniel Schönpflug narrar o que ele chama de "A Era do Cometa", que dá nome ao livro lançado neste mês pela Todavia, um ano depois da publicação na Alemanha.

A metáfora é oriunda de uma pintura do alemão Paul Klee, de 1918. No quadro "O Cometa de Paris", vê-se um equilibrista em uma corda sobre a capital francesa. Ao redor da cabeça dele estão dois cometas, um deles com a forma da estrela de Davi.

"Para mim, essa imagem realmente capturou esse momento de 1918", disse o historiador à reportagem, por telefone. "Esse homem está por um lado tomado entre os sonhos, as utopias de um futuro diferente, representados pelos cometas, e também pela realidade. E ele está em uma posição desconfortável, é um estado de incerteza, fragilidade."

Especialista em história europeia dos séculos 18 e 20, Schönpflug é professor da Universidade Livre de Berlim. O posto lhe deu a sorte de obter fácil acesso ao acervo de outras bibliotecas e arquivos na busca por testemunhos escritos entre 1918 e 1923.

Tal qual um cometa, "ideias e visões acendiam e desapareciam" durante esses cinco anos do pós-guerra, marcados pelo nascimento da União Soviética e a ascensão do fascismo na Itália, mas também pelo primeiro regime democrático da Alemanha, a conquista do sufrágio feminino e a discussão do pacifismo depois dos horrores da guerra.

Schönpflug disse que não pretendia escrever mais um livro analítico sobre causas do conflito. Para tanto, investiu em uma colagem de testemunhos, deixando claro ao leitor o risco de que o autor desses escritos tende a aumentar a importância de si mesmo e diminuir a de desafetos conforme lhe convém.

Não que a historiografia clássica não tenha sua carga de subjetividade, afirmou o alemão. "Todo historiador tem que escolher suas fontes, e então escolher a narrativa que irá integrar essas fontes."

Mas, para Schönpflug, isso geralmente é feito unificando-se histórias para se escrever "a uma história" em detrimento da perspectiva que tinham os atores daquele tempo.

"É algo que a historiografia clássica não é muito boa em mostrar, por causa dessa tendência unificadora. Eu queria experimentar o que acontece se nós fazemos das experiências algo mais importante que a narrativa unificada, que no fim é uma invenção subjetiva do historiador."

Teria o cometa de 1918 voltado a aparecer? Sim, disse Schönpflug, mas não ao final da Segunda Guerra, em 1945, que é cercado por uma atmosfera de visões pragmáticas pouco afeitas a utopias tendo em vista o resultado do experimento nazifascista.

"Vejo em 1989 [ano da queda do Muro de Berlim] esse momento do cometa. Não apenas pela demolição da ordem mundial, mas porque floresciam ideias de uma nova liberdade, alguns disseram que era o fim da história. E tudo foi utópico", avalia.

O que veio depois, porém, "não foi de forma alguma utópico". Schönpflug cita as guerras nos anos 1990, os atentados do 11 de Setembro, a crise econômica de 2008, o "brexit" e a ascensão do populismo.

"Em vez de uma era de paz e prosperidade, veio uma reação em cadeia de guerras e crises, a disrupção de muitas coisas que tomamos como certas. Poderia dizer que nós, hoje, somos o equilibrista de Paul Klee. Vivemos esse momento de visões e utopias, mas enfrentamos realidades duras e desencantos. Nossa posição é frágil e nem um pouco confortável."

A ERA DO COMETA

Autor: Daniel Schönpflug
Tradução: Luis S. Krausz
Editora: Todavia
Quanto: R$ 64,90 (304 págs.) 

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade