Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Cultura
Grupo de brasileiros refaz traduções da obra completa de J.R.R. Tolkien

Quinta, 30/8/2018 8:59.
Reprodução
Godolin, ilustração

Publicidade

DIOGO BERCITO (FOLHAPRESS)

Um grupo de tradutores brasileiros tem se reunido nos últimos meses para tomar difíceis decisões. Apelidados em seu grupo de Whats- App como "O Conselho dos Magos", tiveram de escolher, por exemplo, se o plural da palavra "anão" é "anões" ou "anãos". Também precisaram eleger entre "orcs" e "orques".

São detalhes, mas com repercussões a longo prazo. Com o plano da editora HarperCollins de publicar toda a obra do britânico J. R. R. Tolkien no país, as palavras vão aparecer em dezenas de livros. O projeto, inaugurado neste dia 30 com o lançamento do inédito "A Queda de Gondolin", deve levar ao menos sete anos.

Mesmo os clássicos "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", que já estavam disponíveis em português, serão retraduzidos. Ambos são best-sellers e agregam uma massa de fãs exigentes, atentos às grafias.

"O Senhor dos Anéis", vertido para o português pela última vez em 1994, é uma das obras de fantasia mais famosas do mundo e inspirou a premiada trilogia de filmes lançada nos anos 2000. Influenciou ainda outros sucessos como "Harry Potter" e "Game of Thrones" -a Amazon prepara nova série baseada no universo de Tolkien, morto em 1973.

"A ideia é que toda a obra dele saia no Brasil", diz o tradutor Reinaldo José Lopes, colaborador deste jornal e tradutor de "A Queda de Gondolin". "Tudo, tudo", diz. Na comunidade de WhatsApp ele se apelidou Radagast, nome do mago que habita as florestas mágicas. Lopes mora em São Carlos, no interior de São Paulo.

Tudo inclui, além de "O Senhor dos Anéis", clássicos como "Silmarillion" e "Contos Inacabados". O pacote tem, ainda, ensaios e cartas de Tolkien. A surpresa, no entanto, é a série de 12 livros "História da Terra Média", nunca antes vista em língua portuguesa.

O catatau, lido só pelos fãs mais dedicados, que puderam acessar o texto em inglês, narra diversas versões -algumas delas conflitantes- sobre o complexo mundo onde se passam as histórias de Tolkien.

"A Queda de Gondolin", publicado neste dia 30, simultaneamente em todo o mundo, serve como uma espécie de prévia do "História". O livro pinça diversos trechos da epopeia da cidade de Gondolin, originalmente compilados naqueles 12 volumes. A edição foi feita por Christopher Tolkien, filho do autor, que já tinha lançado outras obras com recortes comentados. "Um dos charmes é esse, o de dar um gostinho de vários volumes do 'História'", afirma Lopes.

Mas "A Queda de Gondolin" é apenas uma espécie de prelúdio para o que está por vir. O grande projeto é traduzir uma outra vez o épico megamilionário "O Senhor dos Anéis", que atinge um público mais amplo e mais cativo.

Não é que a tradução anterior fosse ruim, explica Lopes, que descreve o grupo de WhatsApp como um "think tank" informal. Mas o texto dos anos 1990 não captura a gama de variações linguísticas presentes no original. As pequenas criaturas conhecidas como "hobbits", por exemplo, falam em uma linguagem rural do final do século 19, com gírias populares. Já os elfos usam uma variação mais formal, "meio shakespeariana".

"Na tradução que tínhamos, isso ficou um pouco achatado. Parece ser a mesma coisa. Nossa ideia é retornar a essa variação linguística e refletir mais de perto a língua do Tolkien", diz o tradutor Lopes. Tolkien era, afinal, um respeitado filólogo e foi professor da Universidade de Oxford.

Entre as qualificações para a tarefa, Lopes é mestre e doutor em Tolkien. Ele é daqueles fãs das antigas, frequentador dos populares fóruns de discussão dos anos 1990 e 2000.

"Sentia falta de não encontrar algo próximo à beleza literária do texto em inglês. Meu desafio é o de mostrar o valor literário dessa obra."

É um desafio mesmo. Tolkien criou uma série de neologismos dentro do seu universo de fantasia, alguns bastante difíceis de levar ao português.

Os tradutores tentam chegar a consenso em seus grupos online. "Ficamos batendo cabeça para encontrar soluções", diz Lopes. Ele decidiu, por exemplo, só usar palavras que entraram no português até o século 17. "Não é muito fácil, mas é divertido."

Os fãs que fiquem avisados: algumas das palavras com que se acostumaram na tradução anterior serão repensadas.

O plural de "anão" vai ser "anãos", em vez de "anões" -para fazer jus à opção de Tolkien de grafar "dwarves" em vez do consagrado "dwarfs". "É estranho, mas cria a mesma estranheza do original", diz. Os asquerosos "orcs" serão "orques". "Vai dar um rolinho, já estou esperando", afirma.

Com essas novas traduções, a editora HarperCollins aposta em um mercado que seja mais amplo do que o dos fãs.

Clássicos como "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", acostumados às listas dos mais vendidos como um elfo está habituado à floresta, não devem enfrentar obstáculos no mercado. Mas a ideia de publicar a obra completa de Tolkien em português é mais ousada.

Alguns dos livros, como os 12 volumes de "História da Terra Média", devem a princípio interessar a fãs e a estudiosos de literatura fantástica, escapando de um público amplo.

Mas o gerente editorial Samuel Coto diz que o plano de mercado da HarperCollins já prevê isso. Nas contas, a empresa olha para a obra completa como um conjunto em que um livro segura o outro.

"O 'História' não necessariamente dá o mesmo retorno financeiro. Mas, em um contexto maior, auxilia na consolidação dos outros livros. Por exemplo, tornando Tolkien mais acessível no ambiente acadêmico, já que é uma coletânea fundamental para quem quiser estudar o autor."

Coto também acredita que, com a publicação de todos os livros, a editora pode ampliar o público. Tolkien, afirma, tem valor literário por si e não deveria depender de um nicho -nem de quem chegou à obra pelos filmes, nos anos 2000.

"No Brasil, mais do que em outros países, Tolkien é considerado uma coisa do público 'geek'", diz Coto, usando um termo que se refere aos aficionados por fantasia e ficção científica. "Mas fui criado nos Estados Unidos e, por exemplo, li os livros dele no ensino médio .Era literatura, e ponto final."

A QUEDA DE GONDOLIN
AUTOR J. R. R. Tolkien
TRADUÇÃO
Reinaldo José Lopes. Ed. HarperCollins
QUANTO R$ 59,90 (288 págs.)


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade


Publicidade


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Página 3

Grupo de brasileiros refaz traduções da obra completa de J.R.R. Tolkien

Reprodução
Godolin, ilustração
Godolin, ilustração

Publicidade

Quinta, 30/8/2018 8:59.

DIOGO BERCITO (FOLHAPRESS)

Um grupo de tradutores brasileiros tem se reunido nos últimos meses para tomar difíceis decisões. Apelidados em seu grupo de Whats- App como "O Conselho dos Magos", tiveram de escolher, por exemplo, se o plural da palavra "anão" é "anões" ou "anãos". Também precisaram eleger entre "orcs" e "orques".

São detalhes, mas com repercussões a longo prazo. Com o plano da editora HarperCollins de publicar toda a obra do britânico J. R. R. Tolkien no país, as palavras vão aparecer em dezenas de livros. O projeto, inaugurado neste dia 30 com o lançamento do inédito "A Queda de Gondolin", deve levar ao menos sete anos.

Mesmo os clássicos "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", que já estavam disponíveis em português, serão retraduzidos. Ambos são best-sellers e agregam uma massa de fãs exigentes, atentos às grafias.

"O Senhor dos Anéis", vertido para o português pela última vez em 1994, é uma das obras de fantasia mais famosas do mundo e inspirou a premiada trilogia de filmes lançada nos anos 2000. Influenciou ainda outros sucessos como "Harry Potter" e "Game of Thrones" -a Amazon prepara nova série baseada no universo de Tolkien, morto em 1973.

"A ideia é que toda a obra dele saia no Brasil", diz o tradutor Reinaldo José Lopes, colaborador deste jornal e tradutor de "A Queda de Gondolin". "Tudo, tudo", diz. Na comunidade de WhatsApp ele se apelidou Radagast, nome do mago que habita as florestas mágicas. Lopes mora em São Carlos, no interior de São Paulo.

Tudo inclui, além de "O Senhor dos Anéis", clássicos como "Silmarillion" e "Contos Inacabados". O pacote tem, ainda, ensaios e cartas de Tolkien. A surpresa, no entanto, é a série de 12 livros "História da Terra Média", nunca antes vista em língua portuguesa.

O catatau, lido só pelos fãs mais dedicados, que puderam acessar o texto em inglês, narra diversas versões -algumas delas conflitantes- sobre o complexo mundo onde se passam as histórias de Tolkien.

"A Queda de Gondolin", publicado neste dia 30, simultaneamente em todo o mundo, serve como uma espécie de prévia do "História". O livro pinça diversos trechos da epopeia da cidade de Gondolin, originalmente compilados naqueles 12 volumes. A edição foi feita por Christopher Tolkien, filho do autor, que já tinha lançado outras obras com recortes comentados. "Um dos charmes é esse, o de dar um gostinho de vários volumes do 'História'", afirma Lopes.

Mas "A Queda de Gondolin" é apenas uma espécie de prelúdio para o que está por vir. O grande projeto é traduzir uma outra vez o épico megamilionário "O Senhor dos Anéis", que atinge um público mais amplo e mais cativo.

Não é que a tradução anterior fosse ruim, explica Lopes, que descreve o grupo de WhatsApp como um "think tank" informal. Mas o texto dos anos 1990 não captura a gama de variações linguísticas presentes no original. As pequenas criaturas conhecidas como "hobbits", por exemplo, falam em uma linguagem rural do final do século 19, com gírias populares. Já os elfos usam uma variação mais formal, "meio shakespeariana".

"Na tradução que tínhamos, isso ficou um pouco achatado. Parece ser a mesma coisa. Nossa ideia é retornar a essa variação linguística e refletir mais de perto a língua do Tolkien", diz o tradutor Lopes. Tolkien era, afinal, um respeitado filólogo e foi professor da Universidade de Oxford.

Entre as qualificações para a tarefa, Lopes é mestre e doutor em Tolkien. Ele é daqueles fãs das antigas, frequentador dos populares fóruns de discussão dos anos 1990 e 2000.

"Sentia falta de não encontrar algo próximo à beleza literária do texto em inglês. Meu desafio é o de mostrar o valor literário dessa obra."

É um desafio mesmo. Tolkien criou uma série de neologismos dentro do seu universo de fantasia, alguns bastante difíceis de levar ao português.

Os tradutores tentam chegar a consenso em seus grupos online. "Ficamos batendo cabeça para encontrar soluções", diz Lopes. Ele decidiu, por exemplo, só usar palavras que entraram no português até o século 17. "Não é muito fácil, mas é divertido."

Os fãs que fiquem avisados: algumas das palavras com que se acostumaram na tradução anterior serão repensadas.

O plural de "anão" vai ser "anãos", em vez de "anões" -para fazer jus à opção de Tolkien de grafar "dwarves" em vez do consagrado "dwarfs". "É estranho, mas cria a mesma estranheza do original", diz. Os asquerosos "orcs" serão "orques". "Vai dar um rolinho, já estou esperando", afirma.

Com essas novas traduções, a editora HarperCollins aposta em um mercado que seja mais amplo do que o dos fãs.

Clássicos como "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", acostumados às listas dos mais vendidos como um elfo está habituado à floresta, não devem enfrentar obstáculos no mercado. Mas a ideia de publicar a obra completa de Tolkien em português é mais ousada.

Alguns dos livros, como os 12 volumes de "História da Terra Média", devem a princípio interessar a fãs e a estudiosos de literatura fantástica, escapando de um público amplo.

Mas o gerente editorial Samuel Coto diz que o plano de mercado da HarperCollins já prevê isso. Nas contas, a empresa olha para a obra completa como um conjunto em que um livro segura o outro.

"O 'História' não necessariamente dá o mesmo retorno financeiro. Mas, em um contexto maior, auxilia na consolidação dos outros livros. Por exemplo, tornando Tolkien mais acessível no ambiente acadêmico, já que é uma coletânea fundamental para quem quiser estudar o autor."

Coto também acredita que, com a publicação de todos os livros, a editora pode ampliar o público. Tolkien, afirma, tem valor literário por si e não deveria depender de um nicho -nem de quem chegou à obra pelos filmes, nos anos 2000.

"No Brasil, mais do que em outros países, Tolkien é considerado uma coisa do público 'geek'", diz Coto, usando um termo que se refere aos aficionados por fantasia e ficção científica. "Mas fui criado nos Estados Unidos e, por exemplo, li os livros dele no ensino médio .Era literatura, e ponto final."

A QUEDA DE GONDOLIN
AUTOR J. R. R. Tolkien
TRADUÇÃO
Reinaldo José Lopes. Ed. HarperCollins
QUANTO R$ 59,90 (288 págs.)


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade