Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Colunistas
Meu zoom leão

Ao ficarmos presos em casa, entregamos ao nada nosso mais valioso bem: o tempo.

Quarta, 25/11/2020 7:46.
Raul Tartarotti

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Raul Tartarotti*

O aplicativo mais utilizado nessa época, tão dura, se chama Zoom. Desde o início do ano até meados de março o uso do Zoom aumentou 67%, quando escolas e empresas adotaram essa plataforma de trabalho remoto, em resposta à pandemia do coronavírus.

Desde que o vírus se intensificou, milhares de instituições de ensino mudaram para aulas on-line, utilizando o zoom como meio.

A empresa ofereceu os seus serviços gratuitamente a escolas de ensino fundamental e médio, em diversos países.

Num dia somente, o zoom foi baixado 343.000 vezes, e ganhou mais de dois milhões de usuários nos primeiros meses de 2020.

Meu psicoterapeuta utiliza esse aplicativo na minha sessão, e muda de endereço a cada encontro. Às vezes ouço pássaros ao fundo; em outras, muito ruído de carros. Já ouvi trem passar no alto falante do meu tablet, durante a sessão, parecendo que o médico estava dentro dele.

Não descobri se ele estava em Londres, São Paulo ou Caruaru. Não quis perguntar, porque o foco da sessão eram outros assuntos, não o endereço dele.

Quando entro numa live com muita gente, analiso o fundo da sala das pessoas que estão na tela. Seus livros, quadros, estantes, janelas. Tento imaginar onde moram e com quem. Fico me perguntando se vivem a sós ou estão deprimidos por estarem trancafiados.

A mesmice do hábito representa a modorra, e o enfraquecimento do senso de tempo. Sabemos que a mudança dele constitui o único meio para manter a nossa existência e refrescar sua passagem. É um renovamento da nossa sensação de vida, em geral. Ao ficarmos presos em casa, entregamos ao nada nosso mais valioso bem: o tempo. E não recebemos um pingo que o valha em troca.

Faço dois cursos sobre literatura por semana, utilizando o zoom. Em um deles, todos alunos falam durante a aula; no outro, ninguém pode, além do professor, que, diga-se de passagem, é um mestre.

Alguns fumam todo tempo, outros bebem, escrevem, por vezes passam pessoas ao fundo. As mulheres se apresentam muito bem arrumadas, os homens raramente. Muitos estão de camiseta e eventualmente, ao levantar de suas cadeiras, dá pra ver a bermuda muito parecida com uma cueca.

Assim como a mim, essas aventuras na tela do outro são comuns a muitos.

"O escritor é voyeur", diria Gay Talese.

Como a reunião não tem limites de distância, surgem colegas em todo Brasil, por vezes alguns vizinhos de cidade.

Em um dos cursos que participo, entro na tela com 60 pessoas. Que vantagem a tecnologia nos proporcionou. Nunca antes realizei festa todas as semanas e com tanta gente.

Me disseram que essa vida híbrida, tela e presencial, veio pra ficar. Então, concluí que agora somos seres híbridos, e o pior é que a mãe foi o Corona. Mas o híbrido é aquilo derivado do cruzamento entre espécies, nascendo outro bixo, que geralmente é infértil. Por isso torço pra que minha vacina fique pronta urgentemente. Caso contrário, meus vizinhos podem se incomodar quando eu começar a rugir.

*Raul Tartarotti é escritor e engenheiro biomédico.


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Raul Tartarotti

Meu zoom leão

Ao ficarmos presos em casa, entregamos ao nada nosso mais valioso bem: o tempo.

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Quarta, 25/11/2020 7:46.

Raul Tartarotti*

O aplicativo mais utilizado nessa época, tão dura, se chama Zoom. Desde o início do ano até meados de março o uso do Zoom aumentou 67%, quando escolas e empresas adotaram essa plataforma de trabalho remoto, em resposta à pandemia do coronavírus.

Desde que o vírus se intensificou, milhares de instituições de ensino mudaram para aulas on-line, utilizando o zoom como meio.

A empresa ofereceu os seus serviços gratuitamente a escolas de ensino fundamental e médio, em diversos países.

Num dia somente, o zoom foi baixado 343.000 vezes, e ganhou mais de dois milhões de usuários nos primeiros meses de 2020.

Meu psicoterapeuta utiliza esse aplicativo na minha sessão, e muda de endereço a cada encontro. Às vezes ouço pássaros ao fundo; em outras, muito ruído de carros. Já ouvi trem passar no alto falante do meu tablet, durante a sessão, parecendo que o médico estava dentro dele.

Não descobri se ele estava em Londres, São Paulo ou Caruaru. Não quis perguntar, porque o foco da sessão eram outros assuntos, não o endereço dele.

Quando entro numa live com muita gente, analiso o fundo da sala das pessoas que estão na tela. Seus livros, quadros, estantes, janelas. Tento imaginar onde moram e com quem. Fico me perguntando se vivem a sós ou estão deprimidos por estarem trancafiados.

A mesmice do hábito representa a modorra, e o enfraquecimento do senso de tempo. Sabemos que a mudança dele constitui o único meio para manter a nossa existência e refrescar sua passagem. É um renovamento da nossa sensação de vida, em geral. Ao ficarmos presos em casa, entregamos ao nada nosso mais valioso bem: o tempo. E não recebemos um pingo que o valha em troca.

Faço dois cursos sobre literatura por semana, utilizando o zoom. Em um deles, todos alunos falam durante a aula; no outro, ninguém pode, além do professor, que, diga-se de passagem, é um mestre.

Alguns fumam todo tempo, outros bebem, escrevem, por vezes passam pessoas ao fundo. As mulheres se apresentam muito bem arrumadas, os homens raramente. Muitos estão de camiseta e eventualmente, ao levantar de suas cadeiras, dá pra ver a bermuda muito parecida com uma cueca.

Assim como a mim, essas aventuras na tela do outro são comuns a muitos.

"O escritor é voyeur", diria Gay Talese.

Como a reunião não tem limites de distância, surgem colegas em todo Brasil, por vezes alguns vizinhos de cidade.

Em um dos cursos que participo, entro na tela com 60 pessoas. Que vantagem a tecnologia nos proporcionou. Nunca antes realizei festa todas as semanas e com tanta gente.

Me disseram que essa vida híbrida, tela e presencial, veio pra ficar. Então, concluí que agora somos seres híbridos, e o pior é que a mãe foi o Corona. Mas o híbrido é aquilo derivado do cruzamento entre espécies, nascendo outro bixo, que geralmente é infértil. Por isso torço pra que minha vacina fique pronta urgentemente. Caso contrário, meus vizinhos podem se incomodar quando eu começar a rugir.

*Raul Tartarotti é escritor e engenheiro biomédico.


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