Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Colunistas
7,7 bilhões de máscaras

Eliana Jimenez

Quarta, 6/5/2020 10:59.
Arquivo Pessoal

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Um vírus revolve o planeta, numa possibilidade inimaginável fora da criatividade do cinema, ceifando vidas, trabalho e rotina.

A humanidade se vê irmanada contra um mesmo inimigo, que não distingue raças, línguas, religiões ou fronteiras geopolíticas. Heroicos agentes de saúde se doam nos cuidados com pacientes. A economia fecha as portas e espera. O futuro é nebulosa distante que não se deixa visualizar.

Mentes brilhantes travam homéricas batalhas em laboratórios buscando remédios e vacinas. Enquanto se espera por uma resposta eficaz no combate à pandemia, máscaras de todos os modelos e cores ganham as ruas. Carros de som percorrem as ruas informando que o uso é obrigatório, porém a adesão não é uma unanimidade.

Na calçada, uma tosse assusta os passantes. Olhos arregalados encaram o provável contaminado, com o rosto descoberto.

Abordar quem circula sem o anteparo protetor de nariz e boca, persuadir ou multar quem se recusa a aceitar esse novo modo de viver é tarefa tinhosa do poder público.

Cada um com sua razão de resistir. Caminha sem máscara um halterofilista, afinal, quem arranca e arremessa pesos não vai temer tão insignificante inimigo. Também desafiam a recomendação o cozinheiro de um food truck, o corretor de imóveis, o motorista, o ciclista, o otimista, o crédulo, o ingênuo e o tolo.

Outros até tentam se adequar e portam a máscara abaixo do nariz, pendurada na orelha, no queixo, no pescoço, no bolso ou na bolsa. Sufoco e coceira no tira e põe, diminuindo ou retirando a eficácia da providência.

Enquanto isso, do lado bom dessa história, um exército de senhoras retira de armários com cheiro de naftalina as velhas máquinas de costura, relíquias de devoção familiar, que agora se prestam à tarefa de fazer máscaras de tecido para doar.

Da nobreza do altruísmo em tempos tão desafiadores à total inobservância do que se tornou fundamental, vem a lição do clássico Do Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau: “cada um de nós põe em comum sua pessoa e toda a sua autoridade, sob o supremo comando da vontade geral, e recebemos em conjunto cada membro como parte indivisível do todo”.

Como engrenagem necessária ao funcionamento desse todo, cada indivíduo tem a tarefa e a responsabilidade de aderir ao uso da máscara, protegendo a si mesmo e aos outros de sprays infectantes exalados num simples “bom dia” de um doente assintomático. Não existe autoridade ou vontade própria que se sobreponha ao coletivo e ao bem comum.

E aproveitando que a população planetária está aderindo ao uso de máscaras, que tal averiguar se não há vasilhas com água parada servindo de criadouros ao mosquito da dengue em nossos quintais? Nem só de coronavírus vive o brasileiro.

Eliana Ruiz Jimenez
Presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú


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Página 3
Arquivo Pessoal

7,7 bilhões de máscaras

Eliana Jimenez

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Quarta, 6/5/2020 10:59.

Um vírus revolve o planeta, numa possibilidade inimaginável fora da criatividade do cinema, ceifando vidas, trabalho e rotina.

A humanidade se vê irmanada contra um mesmo inimigo, que não distingue raças, línguas, religiões ou fronteiras geopolíticas. Heroicos agentes de saúde se doam nos cuidados com pacientes. A economia fecha as portas e espera. O futuro é nebulosa distante que não se deixa visualizar.

Mentes brilhantes travam homéricas batalhas em laboratórios buscando remédios e vacinas. Enquanto se espera por uma resposta eficaz no combate à pandemia, máscaras de todos os modelos e cores ganham as ruas. Carros de som percorrem as ruas informando que o uso é obrigatório, porém a adesão não é uma unanimidade.

Na calçada, uma tosse assusta os passantes. Olhos arregalados encaram o provável contaminado, com o rosto descoberto.

Abordar quem circula sem o anteparo protetor de nariz e boca, persuadir ou multar quem se recusa a aceitar esse novo modo de viver é tarefa tinhosa do poder público.

Cada um com sua razão de resistir. Caminha sem máscara um halterofilista, afinal, quem arranca e arremessa pesos não vai temer tão insignificante inimigo. Também desafiam a recomendação o cozinheiro de um food truck, o corretor de imóveis, o motorista, o ciclista, o otimista, o crédulo, o ingênuo e o tolo.

Outros até tentam se adequar e portam a máscara abaixo do nariz, pendurada na orelha, no queixo, no pescoço, no bolso ou na bolsa. Sufoco e coceira no tira e põe, diminuindo ou retirando a eficácia da providência.

Enquanto isso, do lado bom dessa história, um exército de senhoras retira de armários com cheiro de naftalina as velhas máquinas de costura, relíquias de devoção familiar, que agora se prestam à tarefa de fazer máscaras de tecido para doar.

Da nobreza do altruísmo em tempos tão desafiadores à total inobservância do que se tornou fundamental, vem a lição do clássico Do Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau: “cada um de nós põe em comum sua pessoa e toda a sua autoridade, sob o supremo comando da vontade geral, e recebemos em conjunto cada membro como parte indivisível do todo”.

Como engrenagem necessária ao funcionamento desse todo, cada indivíduo tem a tarefa e a responsabilidade de aderir ao uso da máscara, protegendo a si mesmo e aos outros de sprays infectantes exalados num simples “bom dia” de um doente assintomático. Não existe autoridade ou vontade própria que se sobreponha ao coletivo e ao bem comum.

E aproveitando que a população planetária está aderindo ao uso de máscaras, que tal averiguar se não há vasilhas com água parada servindo de criadouros ao mosquito da dengue em nossos quintais? Nem só de coronavírus vive o brasileiro.

Eliana Ruiz Jimenez
Presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú


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