Jornal Página 3
Coluna
Vinho comigo
Por Carlos Mayer

Mudança de hábito.

Mudança de hábito sim, mas também poderíamos falar que é mudança de cor!

Me refiro à uma mudança que percebo na escolha de vinhos em geral por parte dos consumidores. Por todos esses anos que já trabalho com vinhos, vendendo e auxiliando as pessoas na escolha dos seus, elas nunca estiveram tão propensas e abertas a levarem para casa vinhos brancos e roses. A hegemonia sempre foi (e ainda é) dos tintos, não importa preço, estilo ou origem, a preferência sempre é dos tintos, mas isso parece dar sinal de mudar.

Não acredito que o consumo de brancos e roses ultrapasse o de tintos, penso que ainda estamos longe disso, mas vejo que está se formando um equilíbrio mais sensato. Regionalizando um pouco, nós que moramos aqui na praia, deveríamos ser consumidores mais frequentes de brancos e roses, pois, estes, “harmonizam” melhor com nosso clima praiano. Noutro dia fiquei feliz ao montar uma carta de vinhos para um cliente, cuja especialidade do restaurante é de peixes e frutos do mar, com predominantemente vinhos brancos e roses.

Outro comportamento que parece cair por terra devagarinho, é a percepção de valor entre vinhos tintos e brancos. Via de regra as pessoas aceitam pagar mais caro por uma garrafa de tinto do que de branco, mas essa diferença vem caindo, principalmente com a ajuda dos roses, que nos últimos anos chegaram com tudo, oferecendo grande qualidade e valor agregado.

Então, para você que sempre só olhou para os tintos, deixo aqui uma dica de rose e outra de branco para começar a se arriscar.

A primeira dica é um espanhol produzido pela Finca Constância, o Altozano Rose. Um corte das uvas Tempranillo e Syrah, meio a meio. Jovem, seco, com bem pouco açúcar residual e com aroma e sabor muito rico em frutas vermelhas frescas e um toque de especiarias. Vendido a menos de R$ 60,00 no varejo.

 

 

 

A outra dica que deixo é até meio nostálgica para os bebedores mais experientes. Um Riesling não alemão, mas brasileiro, que em nada lembra os vinhos simplesinhos (para ser simpático) que chegavam ao Brasil há algumas décadas. Falo da recente linha criada pela Miolo, o Single Vineyard Riesling Johannisberg que está excelente. Leve, fresco, lembrando frutas de polpas brancas e um toque floral inconfundível. Vendido também na casa dos R$ 60,00.

 

E então, que tal mudar de cor um pouco?

 

Escrito por Carlos Mayer, 10/08/2019 às 10h05 | carlos@casamayer.com.br

Tá tudo muito chato!

Nunca gostei muito do tema harmonização. Pronto, falei!

Apesar de eu ter estudado o assunto por alguns anos numa especialização, dar aulas e dicas sobre o tema constantemente e reconhecer que há muita diferença entre comer peixe com vinho branco e peixe com tinto, sinto que essas regras todas já foram longe demais.

Na verdade, não curto o modo como a harmonização é tratada no mundo do vinho. Tudo está muito complicado, muito chato, cheio de variáveis e dúvidas. Pra mim, o assunto harmonização chegou num ponto, que parece ter como único objetivo separar as pessoas entendidas do assunto das pessoas que bebem vinho e comem comida do jeito normal. Fazendo com que as segundas fiquem com cara de bobas frente às explicações enogastronômica subjetivas e impossíveis de contestar.

Precisamos relaxar!

Harmonizar é simples, fácil e pessoal. E é desse jeito que sempre deveria ser tratada, sem regras imutáveis, enigmas ou prepotência. Se eu quero comer peixe com vinho tinto a regra é minha. Certa vez comi ostras gratinadas com Merlot e tudo foi fantástico! Escolha sua comida favorita, um vinho que goste e seja feliz. Não deixe que outra pessoa dê palpite no seu paladar, afinal c* e gosto cada um tem o seu.

Outro ponto (irritante) que levanto é o excesso de detalhes e a busca por uma perfeição que não existe. Você não vai estragar a pizza se beber Pinot Noir ao invés de Carmenere. O mignon também não fica no prejuízo se você optar por Shiraz ao invés de Merlot. E o peixe fica tão gostoso com Sauvignon Blanc australiano quanto com o neozelandês ou o catarinense. Para quem tem medo de harmonizar, costumo tranquilizar dizendo que é mais fácil acertar uma boa harmonização do que errar feio e estragar tudo.

 Às vezes, quando já estou meio alto de tanto “estudar” a enogastronomia, penso que neste assunto teorias deveriam ser proibidas. Apenas interações práticas teriam valor científico e as mesmas deveriam ser testadas a exaustão. Tenho medo que algo tão legal e prazeroso que é comer e beber vinho, se torne chato para a maioria das pessoas devido ao comportamento de alguns diferentões. Essa é minha luta!

Espero não perder o emprego...

 

Escrito por Carlos Mayer, 01/04/2019 às 18h50 | carlos@casamayer.com.br

Fui xingado!

É real, fui xingado. Mas quem trabalha no comércio, tipo eu, sabe que muitas vezes escutamos coisas que não gostamos e ficamos quietinhos, tentando contornar a situação do melhor jeito possível. Mas nesse caso, resolvi desabafar aqui no Página3.

Vendi algumas garrafas de vinho para um homem, na casa dos 60 anos, boa aparência, até então educado e aceitou bem as sugestões de vinhos que eu ofereci. Pagou e foi embora com a caixa de vinhos. Tudo normal. Até que no dia seguinte ele, telefona para a loja e me solta os cachorros porque entre os vinhos, havia um com tampa rosca ao invés de rolha.

Pra quê?! Me deu um sermão sem fim, sobre como os vinhos sem rolha são “tudo porcaria”, são “vinhos baratos”, são vinhos “pra quem não entende nada de vinhos” e o resto da ladainha eu ativei meu ouvido seletivo e não lembro mais ao certo. É obvio que vou preservar a identidade da pessoa, mas você que me ligou, fique sabendo que você é um b... Não consigo!

Mas aproveito a situação para deixar bem claro que as screwcaps, como são chamadas essas tampas roscadas de alumínio, são amigas! Elas vêm para preservar melhor o vinho na gôndola do mercado, pra facilitar a vida do garçom, pra você não precisar pedir o saca-rolhas emprestado do vizinho, pra ser fácil de fechar a garrafa e beber o resto no dia seguinte e para baratear o custo total do vinho.

Aliás, a grosso modo, o preço que você paga em uma garrafa de vinho, é composto pelo vinho (líquido), pela garrafa (vidro), rótulo e rolha (e impostos, óbvio!). Então lembre-se de que, quando você compra um vinho numa garrafa chique, com um rótulo cheio de brilho ou purpurina e com uma rolha de cortiça da melhor qualidade, você está pagando por tudo isso. E nada disso pode fazer um vinho (líquido) ruim ficar bom. Pode até fazer bem pro ego e, se você aceita pagar, ok. Muitos vinhos merecem e precisam de boas garrafas e rolhas, mas minha crítica é que tem muita gente ainda preferindo pagar mais caro na rolha que no vinho.

Sobre o cliente, sugeri que me devolvesse a garrafa. Eu trocaria por outra ou devolveria o dinheiro. Mas ele já tinha bebido tudo.

 

Escrito por Carlos Mayer, 21/01/2019 às 10h39 | carlos@casamayer.com.br

Batalha

Fiquei olhando pra tela do computador, com as mãos passeando sobre as teclas pensando no que escrever para o post de final de ano. As ideias não surgiam e então, pow!! Abri um espumante para tentar ganhar inspiração.

 

Normalmente eu prefiro vinho para essas ocasiões, pois dá pra ir bebericando devagar, mas acreditem, eu não tinha nenhuma garrafa em casa (digna para o momento). Então achei um Nature chamado Batalha, nome sugestivo, que representa bem o ano que termina, pensei: mais uma batalha vencida!

 Nada de ideias ainda: outra taça...

Coincidência eu abrir o espumante. Sei de muitas pessoas que só os bebem nessa época do ano, mais precisamente no réveillon. Estranho, pensei de novo: Por que enclausuram uma bebida tão boa num período de tempo que quase nem existe, entre o fim e o começo de tudo?

 Mais uma taça...

Um espumante Nature é um espumante que teve fermentação completa, ou seja, praticamente todo açúcar da uva virou álcool. Significa que é o menos doce dos espumantes. Muito seco! Eu gosto, mas bem que pro ano que vem as coisas poderiam ser mais doces... me refiro aos dias, aos momentos, as alegrias e as batalhas. Os vinhos secos podem permanecer.

 E mais outra...

 Finalmente! Resolvi que vou guardar minhas ideias para o ano que vem.

Desejo que cada bolhazinha do seu espumante, represente uma conquista para 2019!

 

Escrito por Carlos Mayer, 21/12/2018 às 22h38 | carlos@casamayer.com.br

Vinho da Costela

Esses dias organizei uma degustação de vinhos e, entre um vinho e outro, chegamos em um tinto com bom corpo, madeira marcante, nem tão velho, era um da safra 2015, que na hora apelidamos de vinho da costela. Churrasqueiros entenderam bem a comparação.

Fazer uma costela no fogo, exige além de alguma perícia e conhecimento de causa, dedicação e paciência. Assar a costela leva tempo, é preciso ter paciência! Alguns vinhos também precisam de tudo isso e não devem ser abertos e bebidos de imediato. É preciso esperar um pouco, colocar no decanter, servir na taça e ir tomar banho, acender o fogo, ler duas páginas de um livro... é preciso tempo. E hoje, tempo é algo que parece raro para boa parte das pessoas.

Percebendo essa falta de tempo e de paciência das pessoas, a indústria vinícola se ajusta e produz vinhos bons, simples, fáceis e rápidos de tomar. A começar pela tampa rosca que dispensa o saca-rolhas e torna tudo mais fácil. Não é preciso conhecer, entender ou pensar. Basta abrir, beber e gostar. Normalmente são mais baratos até para justificar o risco: não gostou? Compra outro! Vou chamá-los de vinho do hambúrguer, pois fica pronto em poucos minutos.

Comprar uma garrafa de vinho para guardar?! Beber daqui a 3 anos e ver como está?! Algo quase impensável para muitos. As vezes até para mim, confesso. Isso que gosto de vinho, como podem deduzir...

Este texto não é uma crítica a esses vinhos fáceis nem a quem gosta deles, até por que adoro hambúrguer! É possível ter grande qualidade em ambos. Mas é uma constatação de uma realidade.

E você, está mais pra costela ou pro hambúrguer?

Escrito por Carlos Mayer, 29/10/2018 às 11h12 | carlos@casamayer.com.br

Vinhas velhas

Com este texto, completo três safras de produção! Foram 26 postagens, o que dá uma média de um texto a cada mês e meio, mais ou menos. Achei que produzi pouco...

Uma videira ao ser plantada, também não produz muito em seus primeiros anos. Neste tempo, a vinha considera mais importante se fortalecer no solo, criar raízes e um tronco firme, do que produzir frutos. Vou usar da mesma desculpa.

Após este tempo, com os frutos que a videira produz, já é possível elaborar vinhos com muito boa qualidade e melhorando ano após ano. Durante um período de quinze ou vinte anos, a videira se mantém firme na produção, gerando boas uvas e grandes safras em volume, mas depois disso, o cenário muda. A partir daí, elas já podem ser consideradas “vinhas velhas”, e a quantidade, definitivamente, deixa de ser o foco.

Neste estágio, as vinhas velhas já não produzem mais com tanto vigor, todavia, é possível obter um ganho de qualidade significativo, além de proporcionar um caráter exclusivo ao vinho. Vinhas velhas não são tão comuns. Uma praga, chamada filoxera, devastou grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX. Logo, as vinhas mais velhas não passam de 150 anos, com raras exceções. No Brasil, as mais antigas estão na cidade de Santana do Livramento, RS, nos vinhedos da Vinícola Almadén. Foram plantadas em 1977 e estão hoje com 41 anos. O vinho feito com elas ilustra esse post.

Comparo as vinhas velhas aos profissionais aposentados, bem vividos, bem-sucedidos, cheios de experiência e que ainda trabalham. Mas trabalham no ritmo que desejam, sem pressão, meta ou preocupação. O resultado, ou seja, o vinho produzido, é admirado e desejado por todos.

Vou finalizar com uma frase de Kevin Glastonbury, enólogo australiano, que copiei de uma matéria da Revista Adega (Inner): “As vinhas velhas não são boas porque são velhas, elas são velhas porque são boas”.

Com essa frase em mente, vou trabalhar para poder envelhecer!

Escrito por Carlos Mayer, 20/09/2018 às 18h38 | carlos@casamayer.com.br



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Por Carlos Mayer

Mudança de hábito.

Mudança de hábito sim, mas também poderíamos falar que é mudança de cor!

Me refiro à uma mudança que percebo na escolha de vinhos em geral por parte dos consumidores. Por todos esses anos que já trabalho com vinhos, vendendo e auxiliando as pessoas na escolha dos seus, elas nunca estiveram tão propensas e abertas a levarem para casa vinhos brancos e roses. A hegemonia sempre foi (e ainda é) dos tintos, não importa preço, estilo ou origem, a preferência sempre é dos tintos, mas isso parece dar sinal de mudar.

Não acredito que o consumo de brancos e roses ultrapasse o de tintos, penso que ainda estamos longe disso, mas vejo que está se formando um equilíbrio mais sensato. Regionalizando um pouco, nós que moramos aqui na praia, deveríamos ser consumidores mais frequentes de brancos e roses, pois, estes, “harmonizam” melhor com nosso clima praiano. Noutro dia fiquei feliz ao montar uma carta de vinhos para um cliente, cuja especialidade do restaurante é de peixes e frutos do mar, com predominantemente vinhos brancos e roses.

Outro comportamento que parece cair por terra devagarinho, é a percepção de valor entre vinhos tintos e brancos. Via de regra as pessoas aceitam pagar mais caro por uma garrafa de tinto do que de branco, mas essa diferença vem caindo, principalmente com a ajuda dos roses, que nos últimos anos chegaram com tudo, oferecendo grande qualidade e valor agregado.

Então, para você que sempre só olhou para os tintos, deixo aqui uma dica de rose e outra de branco para começar a se arriscar.

A primeira dica é um espanhol produzido pela Finca Constância, o Altozano Rose. Um corte das uvas Tempranillo e Syrah, meio a meio. Jovem, seco, com bem pouco açúcar residual e com aroma e sabor muito rico em frutas vermelhas frescas e um toque de especiarias. Vendido a menos de R$ 60,00 no varejo.

 

 

 

A outra dica que deixo é até meio nostálgica para os bebedores mais experientes. Um Riesling não alemão, mas brasileiro, que em nada lembra os vinhos simplesinhos (para ser simpático) que chegavam ao Brasil há algumas décadas. Falo da recente linha criada pela Miolo, o Single Vineyard Riesling Johannisberg que está excelente. Leve, fresco, lembrando frutas de polpas brancas e um toque floral inconfundível. Vendido também na casa dos R$ 60,00.

 

E então, que tal mudar de cor um pouco?

 

Escrito por Carlos Mayer, 10/08/2019 às 10h05 | carlos@casamayer.com.br

Tá tudo muito chato!

Nunca gostei muito do tema harmonização. Pronto, falei!

Apesar de eu ter estudado o assunto por alguns anos numa especialização, dar aulas e dicas sobre o tema constantemente e reconhecer que há muita diferença entre comer peixe com vinho branco e peixe com tinto, sinto que essas regras todas já foram longe demais.

Na verdade, não curto o modo como a harmonização é tratada no mundo do vinho. Tudo está muito complicado, muito chato, cheio de variáveis e dúvidas. Pra mim, o assunto harmonização chegou num ponto, que parece ter como único objetivo separar as pessoas entendidas do assunto das pessoas que bebem vinho e comem comida do jeito normal. Fazendo com que as segundas fiquem com cara de bobas frente às explicações enogastronômica subjetivas e impossíveis de contestar.

Precisamos relaxar!

Harmonizar é simples, fácil e pessoal. E é desse jeito que sempre deveria ser tratada, sem regras imutáveis, enigmas ou prepotência. Se eu quero comer peixe com vinho tinto a regra é minha. Certa vez comi ostras gratinadas com Merlot e tudo foi fantástico! Escolha sua comida favorita, um vinho que goste e seja feliz. Não deixe que outra pessoa dê palpite no seu paladar, afinal c* e gosto cada um tem o seu.

Outro ponto (irritante) que levanto é o excesso de detalhes e a busca por uma perfeição que não existe. Você não vai estragar a pizza se beber Pinot Noir ao invés de Carmenere. O mignon também não fica no prejuízo se você optar por Shiraz ao invés de Merlot. E o peixe fica tão gostoso com Sauvignon Blanc australiano quanto com o neozelandês ou o catarinense. Para quem tem medo de harmonizar, costumo tranquilizar dizendo que é mais fácil acertar uma boa harmonização do que errar feio e estragar tudo.

 Às vezes, quando já estou meio alto de tanto “estudar” a enogastronomia, penso que neste assunto teorias deveriam ser proibidas. Apenas interações práticas teriam valor científico e as mesmas deveriam ser testadas a exaustão. Tenho medo que algo tão legal e prazeroso que é comer e beber vinho, se torne chato para a maioria das pessoas devido ao comportamento de alguns diferentões. Essa é minha luta!

Espero não perder o emprego...

 

Escrito por Carlos Mayer, 01/04/2019 às 18h50 | carlos@casamayer.com.br

Fui xingado!

É real, fui xingado. Mas quem trabalha no comércio, tipo eu, sabe que muitas vezes escutamos coisas que não gostamos e ficamos quietinhos, tentando contornar a situação do melhor jeito possível. Mas nesse caso, resolvi desabafar aqui no Página3.

Vendi algumas garrafas de vinho para um homem, na casa dos 60 anos, boa aparência, até então educado e aceitou bem as sugestões de vinhos que eu ofereci. Pagou e foi embora com a caixa de vinhos. Tudo normal. Até que no dia seguinte ele, telefona para a loja e me solta os cachorros porque entre os vinhos, havia um com tampa rosca ao invés de rolha.

Pra quê?! Me deu um sermão sem fim, sobre como os vinhos sem rolha são “tudo porcaria”, são “vinhos baratos”, são vinhos “pra quem não entende nada de vinhos” e o resto da ladainha eu ativei meu ouvido seletivo e não lembro mais ao certo. É obvio que vou preservar a identidade da pessoa, mas você que me ligou, fique sabendo que você é um b... Não consigo!

Mas aproveito a situação para deixar bem claro que as screwcaps, como são chamadas essas tampas roscadas de alumínio, são amigas! Elas vêm para preservar melhor o vinho na gôndola do mercado, pra facilitar a vida do garçom, pra você não precisar pedir o saca-rolhas emprestado do vizinho, pra ser fácil de fechar a garrafa e beber o resto no dia seguinte e para baratear o custo total do vinho.

Aliás, a grosso modo, o preço que você paga em uma garrafa de vinho, é composto pelo vinho (líquido), pela garrafa (vidro), rótulo e rolha (e impostos, óbvio!). Então lembre-se de que, quando você compra um vinho numa garrafa chique, com um rótulo cheio de brilho ou purpurina e com uma rolha de cortiça da melhor qualidade, você está pagando por tudo isso. E nada disso pode fazer um vinho (líquido) ruim ficar bom. Pode até fazer bem pro ego e, se você aceita pagar, ok. Muitos vinhos merecem e precisam de boas garrafas e rolhas, mas minha crítica é que tem muita gente ainda preferindo pagar mais caro na rolha que no vinho.

Sobre o cliente, sugeri que me devolvesse a garrafa. Eu trocaria por outra ou devolveria o dinheiro. Mas ele já tinha bebido tudo.

 

Escrito por Carlos Mayer, 21/01/2019 às 10h39 | carlos@casamayer.com.br

Batalha

Fiquei olhando pra tela do computador, com as mãos passeando sobre as teclas pensando no que escrever para o post de final de ano. As ideias não surgiam e então, pow!! Abri um espumante para tentar ganhar inspiração.

 

Normalmente eu prefiro vinho para essas ocasiões, pois dá pra ir bebericando devagar, mas acreditem, eu não tinha nenhuma garrafa em casa (digna para o momento). Então achei um Nature chamado Batalha, nome sugestivo, que representa bem o ano que termina, pensei: mais uma batalha vencida!

 Nada de ideias ainda: outra taça...

Coincidência eu abrir o espumante. Sei de muitas pessoas que só os bebem nessa época do ano, mais precisamente no réveillon. Estranho, pensei de novo: Por que enclausuram uma bebida tão boa num período de tempo que quase nem existe, entre o fim e o começo de tudo?

 Mais uma taça...

Um espumante Nature é um espumante que teve fermentação completa, ou seja, praticamente todo açúcar da uva virou álcool. Significa que é o menos doce dos espumantes. Muito seco! Eu gosto, mas bem que pro ano que vem as coisas poderiam ser mais doces... me refiro aos dias, aos momentos, as alegrias e as batalhas. Os vinhos secos podem permanecer.

 E mais outra...

 Finalmente! Resolvi que vou guardar minhas ideias para o ano que vem.

Desejo que cada bolhazinha do seu espumante, represente uma conquista para 2019!

 

Escrito por Carlos Mayer, 21/12/2018 às 22h38 | carlos@casamayer.com.br

Vinho da Costela

Esses dias organizei uma degustação de vinhos e, entre um vinho e outro, chegamos em um tinto com bom corpo, madeira marcante, nem tão velho, era um da safra 2015, que na hora apelidamos de vinho da costela. Churrasqueiros entenderam bem a comparação.

Fazer uma costela no fogo, exige além de alguma perícia e conhecimento de causa, dedicação e paciência. Assar a costela leva tempo, é preciso ter paciência! Alguns vinhos também precisam de tudo isso e não devem ser abertos e bebidos de imediato. É preciso esperar um pouco, colocar no decanter, servir na taça e ir tomar banho, acender o fogo, ler duas páginas de um livro... é preciso tempo. E hoje, tempo é algo que parece raro para boa parte das pessoas.

Percebendo essa falta de tempo e de paciência das pessoas, a indústria vinícola se ajusta e produz vinhos bons, simples, fáceis e rápidos de tomar. A começar pela tampa rosca que dispensa o saca-rolhas e torna tudo mais fácil. Não é preciso conhecer, entender ou pensar. Basta abrir, beber e gostar. Normalmente são mais baratos até para justificar o risco: não gostou? Compra outro! Vou chamá-los de vinho do hambúrguer, pois fica pronto em poucos minutos.

Comprar uma garrafa de vinho para guardar?! Beber daqui a 3 anos e ver como está?! Algo quase impensável para muitos. As vezes até para mim, confesso. Isso que gosto de vinho, como podem deduzir...

Este texto não é uma crítica a esses vinhos fáceis nem a quem gosta deles, até por que adoro hambúrguer! É possível ter grande qualidade em ambos. Mas é uma constatação de uma realidade.

E você, está mais pra costela ou pro hambúrguer?

Escrito por Carlos Mayer, 29/10/2018 às 11h12 | carlos@casamayer.com.br

Vinhas velhas

Com este texto, completo três safras de produção! Foram 26 postagens, o que dá uma média de um texto a cada mês e meio, mais ou menos. Achei que produzi pouco...

Uma videira ao ser plantada, também não produz muito em seus primeiros anos. Neste tempo, a vinha considera mais importante se fortalecer no solo, criar raízes e um tronco firme, do que produzir frutos. Vou usar da mesma desculpa.

Após este tempo, com os frutos que a videira produz, já é possível elaborar vinhos com muito boa qualidade e melhorando ano após ano. Durante um período de quinze ou vinte anos, a videira se mantém firme na produção, gerando boas uvas e grandes safras em volume, mas depois disso, o cenário muda. A partir daí, elas já podem ser consideradas “vinhas velhas”, e a quantidade, definitivamente, deixa de ser o foco.

Neste estágio, as vinhas velhas já não produzem mais com tanto vigor, todavia, é possível obter um ganho de qualidade significativo, além de proporcionar um caráter exclusivo ao vinho. Vinhas velhas não são tão comuns. Uma praga, chamada filoxera, devastou grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX. Logo, as vinhas mais velhas não passam de 150 anos, com raras exceções. No Brasil, as mais antigas estão na cidade de Santana do Livramento, RS, nos vinhedos da Vinícola Almadén. Foram plantadas em 1977 e estão hoje com 41 anos. O vinho feito com elas ilustra esse post.

Comparo as vinhas velhas aos profissionais aposentados, bem vividos, bem-sucedidos, cheios de experiência e que ainda trabalham. Mas trabalham no ritmo que desejam, sem pressão, meta ou preocupação. O resultado, ou seja, o vinho produzido, é admirado e desejado por todos.

Vou finalizar com uma frase de Kevin Glastonbury, enólogo australiano, que copiei de uma matéria da Revista Adega (Inner): “As vinhas velhas não são boas porque são velhas, elas são velhas porque são boas”.

Com essa frase em mente, vou trabalhar para poder envelhecer!

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