Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre feminicidios...

Há mais de 20 anos eu morava em Joinville, no último andar de um edificio próximo ao centro da cidade. Uma noite eu acordei no meio da madrugada com gritos, fui até o banheiro e percebi que vinham do apartamento ao lado, onde morava um casal jovem com o filho recém-nascido. Interfonei para a síndica, e, em menos de 15 minutos TODAS as mulheres do prédio estavam no corredor. Tocamos a campainha e o marido ficou branco quando viu aquele monte de mulher na porta exigindo ver e falar com a esposa dele. Não houve mais gritos. Em poucos dias eles se mudaram do prédio e ela procurou a síndica para agradecer a intervenção e dizer que, ao ver que não estava só, encontrou força para por fim a uma relação abusiva.

Sempre que acontece um novo caso de feminicidio (e infelizmente cada vez acontece mais), os relatos incluem várias brigas e agressões presenciadas/ouvidas/constatadas por vizinhos, amigos, até parentes. E sempre as pessoas comentam, mas não interferem. A velha máxima de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” continua dominando.

Sou mulher, sou mãe de mulher, tenho irmãs mulheres. Vivo com este peso: o medo de que uma de nós seja agredida um dia e que NINGUÉM ajude. Que ninguém ouça nossos gritos, ou que, ouvindo, prefira não se meter. Ou até, numa versão mais moderna e repulsiva, fique a postos para fazer uma transmissão ao vivo nas redes sociais ou para ser o primeiro a postar as fotos.

Assusta ver que cada vez mais mulheres são mortas com requintes de crueldade pelos parceiros em quem elas um dia confiaram, a quem elas amaram. E que, do seu jeito, as tenham amado também. Mas me apavora muito mais a morbidez e frieza dos que veem e nada fazem. E nada dizem.

Acho que vale recordar também que, perante a lei, quem tem conhecimento de um crime e se cala passa a ser cúmplice. E que todos tem uma mãe/irmã/filha/sobrinha/prima. Por cada mulher que amamos, por cada uma de nós, eu suplico: NÃO SE CALEM MAIS.  

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/04/2019 às 09h00 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Há mais de 20 anos eu morava em Joinville, no último andar de um edificio próximo ao centro da cidade. Uma noite eu acordei no meio da madrugada com gritos, fui até o banheiro e percebi que vinham do apartamento ao lado, onde morava um casal jovem com o filho recém-nascido. Interfonei para a síndica, e, em menos de 15 minutos TODAS as mulheres do prédio estavam no corredor. Tocamos a campainha e o marido ficou branco quando viu aquele monte de mulher na porta exigindo ver e falar com a esposa dele. Não houve mais gritos. Em poucos dias eles se mudaram do prédio e ela procurou a síndica para agradecer a intervenção e dizer que, ao ver que não estava só, encontrou força para por fim a uma relação abusiva.

Sempre que acontece um novo caso de feminicidio (e infelizmente cada vez acontece mais), os relatos incluem várias brigas e agressões presenciadas/ouvidas/constatadas por vizinhos, amigos, até parentes. E sempre as pessoas comentam, mas não interferem. A velha máxima de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” continua dominando.

Sou mulher, sou mãe de mulher, tenho irmãs mulheres. Vivo com este peso: o medo de que uma de nós seja agredida um dia e que NINGUÉM ajude. Que ninguém ouça nossos gritos, ou que, ouvindo, prefira não se meter. Ou até, numa versão mais moderna e repulsiva, fique a postos para fazer uma transmissão ao vivo nas redes sociais ou para ser o primeiro a postar as fotos.

Assusta ver que cada vez mais mulheres são mortas com requintes de crueldade pelos parceiros em quem elas um dia confiaram, a quem elas amaram. E que, do seu jeito, as tenham amado também. Mas me apavora muito mais a morbidez e frieza dos que veem e nada fazem. E nada dizem.

Acho que vale recordar também que, perante a lei, quem tem conhecimento de um crime e se cala passa a ser cúmplice. E que todos tem uma mãe/irmã/filha/sobrinha/prima. Por cada mulher que amamos, por cada uma de nós, eu suplico: NÃO SE CALEM MAIS.  

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/04/2019 às 09h00 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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