Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade