Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre amar e sobre amor

 

              De uma coisa eu tenho certeza: não estaremos aqui para sempre. Ou melhor, a única maneira de ficar aqui para sempre é ser diferente. O mundo está cansado do mesmo. Mesmas roupas, mesmos modos, mesmas idéias. É preciso que se reinvente a vida, que se dê um novo significado a existência. Sim, à vida. Esta mesma, que anda tão desvalorizada ultimamente...

Não gosto mais de ler jornais, de ver noticiários: a morte está presente o tempo inteiro. Ou ela ou seus cúmplices: a cobiça, o desespero, a vingança, o desamor... Ouvimos muitas vezes as pessoas falando em violência gratuita, mas é pior do que isso. É violência paga, financiada pelas manchetes de jornais e por leitores ávidos pelo sofrimento alheio. E é neste momento que pergunto o que estamos fazendo.

Nesta época de fim de ano, de festas, todos se tornam repentinamente solidários, e as instituições que acolhem os desamparados (sejam idosos ou crianças), ficam cheios de doações. De doações materiais, porque ninguém tem tempo de parar e dar alguns minutos de seu tempo. Ninguém pergunta como eles estão, porque não quer ouvir. Não queremos saber sobre as outras intermináveis 364 noites do ano. Não conseguimos suportar esta dor, e preferimos nos esconder atrás dos rostos sorridentes dos anúncios e dos cartões impressos de boas festas.

Há alguns anos temos o hábito de sair na noite de Natal, enquanto todos ceiam com sua famílias,  e levar comida e artigos de higiene pessoal, que arrecadamos em doações dos amigos, para os moradores de rua. Só Deus é testemunha do que vemos, dos sorrisos puros, das palavras que ouvimos,  do brilho nos olhos de cada um. Lembro-me bem de um homem jovem, que nos parou e fez um pedido: “vocês podem fazer uma oração por minha filha? Ela está com a mãe e faz tempo que não vejo...” Ou o senhor que estava sentado no calçadão, aparentemente embriagado, com as pessoas passando rapidamente ao seu redor e o ignorando, quando paramos o carro e nos dirigimos a ele. Ele nos agradeceu com os olhos cheios de lágrimas e disse que tinha certeza que Deus não tinha esquecido dele. Guardo estas memórias num compartimento especial do coração e elas me alimentam a cada dia.

No dia 24 de dezembro, quando você estiver com sua família comemorando a noite de Natal numa ceia linda com a mesa farta, tente não fechar as cortinas. Talvez do lado de fora esteja uma outra mãe/pai/filho(a)/avô/avó esperando apenas por um sorriso, uma palavra e um prato de comida. Talvez naquela noite você tenha a oportunidade única de ajudar alguém a se resgatar.

E, fazendo desta forma, talvez você crie o hábito de enxergar, e se torne, como tantos outros anônimos, alguém diferente para a humanidade. E, então, mesmo que o sopro da vida se apague e cerre seus olhos, ainda assim talvez você nunca parta, porque estará sempre vivo no coração de alguém que recebeu de você algo que trouxe de volta o seu sorriso. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/11/2017 às 21h22 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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