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Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

É como se fosse doce - capítulo 2

                              Embora respeitassem a vontade do filho de criar Beatriz sozinho, Fernanda e o marido não conseguiram deixar de se preocupar. Discutiram em casa o assunto e foram estudar as formas de tratamento. Questionaram se não havia possibilidade do diagnóstico estar errado, conversaram com amigos e foram procurar na internet.

                              Tudo apontava para o diagnóstico dado. Principalmente o fato dos sintomas terem surgido rapidamente, como eles mesmos tinham reparado. Acharam que o problema era mudança de escola, mas não era. Por algum motivo desconhecido, o sistema imunológico dela, aquele que deveria justamente defender seu corpo das agressões externas, havia destruido parte das células beta no pâncreas, que são as produtoras de insulina.

                              Ainda meio hesitante, sem querer invadir o espaço de Cauê, Fernanda ligou para o filho e se dispôs a ficar com Beatriz no hospital para que ele pudesse trabalhar. Cauê não queria sair de perto da filha, mas acabou concordando com a mãe que deveria ir ao trabalho, até para deixar tudo organizado, já que não sabia quando poderia voltar. O medo de perder a filha era maior que tudo, e ele não ficaria longe dela de jeito nenhum.

                               Cauê foi junto com a mãe fazer a internação de Beatriz, e, depois de ter certeza que estava tudo bem e que a filha estava tranquila, como seria apenas feita a coleta de novos exames, foi até o trabalho.

                               No seu escritório de advocacia, vários processos aguardavam por ele. Olhou desanimado para a pilha que só crescia em sua mesa. Olhou ao redor, viu seus títulos pendurados nas paredes. Nada daquilo fazia sentido naquele momento. Já havia perdido a esposa, não poderia correr o risco de perder a filha. Tudo o que fazia era pensando nela, buscando dar a ela o melhor que pudesse. Embora seus amigos procurassem convencê-lo a sair, a se divertir e quem sabe até conhecer alguém, Cauê não se achava pronto ainda para isso. Não enquanto Beatriz não fosse grande o suficiente. Não enquanto ela não tivesse sua própria vida.

                              Depois de alguns minutos só, chamou seu assessor e começou a encaminhar as diligências mais urgentes. Pediu então que seu sócio viesse à sua sala e, a portas fechadas, explicou o que estava acontecendo. Discutiu os casos que estavam em andamento, e solicitou que ele assumisse enquanto ele se dedicava a cuidar da filha. Disse que permaneceria com o celular ligado, e que qualquer coisa era só ligar para ele.

                             Ligou também para os clientes e explicou a situação, que teria que se afastar por alguns dias para cuidar da filha, mas que seu sócio assumiria seus casos por enquanto. Deu a eles a garantia de estar monitorando o andamento dos processos de qualquer forma.

                             Tudo resolvido, voltou para o  hospital. Beatriz estava deitada na cama, com um frasco de soro pendurado ao lado e que escorria por um cano até entrar por uma agulha em seu braço. Fernanda explicou que os exames tinham sido colhidos, e que ela havia feito exame através da picada de uma agulha bem pequena no dedo, que fornecia uma gota de sangue para o cálculo imediato da glicemia.

                             Conforme o Dr Marcoti tinha dito, este exame seria realizado várias vezes ao dia, para determinar a quantidade de insulina que seria necessária para ela. Este exame também diria em que horário, preferencialmente, a insulina seria aplicada.

                             Cauê sentou-se ao lado da filha, acariciou sua face cansada, e mais uma vez notou como ela havia emagrecido. Seu sorriso estava pálido, triste. Pensou em tudo que a filha gostava e que não poderia mais comer. Pensou nas festinhas infantis, nos brigadeiros, docinhos, sorvetes...

Continua na próxima semana!

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/06/2017 às 22h11 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - capítulo 1

Quando Beatriz voltou da escola, o pai, Cauê, notou que havia algo errado com a filha. Criava a filha sozinho, desde que a mãe tivera complicações na gravidez do segundo filho, e infelizmente, morrera. Os avós quiseram ficar com Beatriz, ou pelo menos que ele morasse com eles a fim de facilitar a vida do filho. Mas Cauê decidiu que iria enfrentar mais este desafio do destino, e dedicava-se a ela com todo o coração.

Há alguns dias notara que a filha estava meio abatida, sempre com sede e emagrecendo apesar de comer o tempo todo. Desta vez, retornou da escola mais cedo e muito pálida. Abraçou Beatriz com angústia, e não teve dúvidas, ligou para o pediatra e pediu para encaixar uma consulta para ela. Dr Marcoti cuidava da menina desde que nascera, e marcou para que ela fosse ao consultório no início da tarde.

Com seis anos incompletos, cabelos loiros iguais aos da mãe, Beatriz era uma menina bastante ativa, esperta, que surpreendia a todos com seu desempenho acima da média. Ultimamente, porém, estava com fraqueza, e vinha apresentando alterações de humor com frequencia. Dr Marcoti recebeu a menina com o carinho habitual, pois havia acompanhado Beatriz desde a sala de parto, onde a recebera logo após o nascimento. 

Ao vê-la, imediatamente percebeu que a angústia de Cauê não era em vão. Examinou a menina, conversou com ela e então solicitou exames com urgência. Felizmente a clínica contava com um laboratório que fazia os exames imediatamente, o que facilitava em muito a vida dos pais e dinamizava o atendimento.

Embora meio chateada, Beatriz não reclamou da coleta dos exames. Nem a picada da agulha parecia incomodar a menina. Durante a espera pelos resultados, foram alguns copos de água e algumas idas ao banheiro. Depois do que pareceu ser uma eternidade, Dr Marcoti os chamou para o retorno.

Pela expressão do médico, Cauê viu que algo de sério estava acontecendo. Segurou forte a mão da filha e entrou na sala do médico. Sem rodeios, Dr Marcoti explicou que os exames de Beatriz estavam bastante alterados. Que uma parte importante das células ddo pâncreas tinha deixado de funcionar , e que isto estava causando tudo o que a menina vinha apresentando.

Cauê ficou esperando a palavra, o termo que iria definir o diagnóstico da filha. Com os olhos úmidos, ouviu o médico dizer que Beatriz estava com Diabetes, que o exame de glicose no sangue tinha dado acima de 200, o que fora confirmado com a repetição do exame.

Com uma sensação de desespero e impotência, ele tentou imaginar que não entendera direito, que estava tendo um pesadelo. O medo de perder a filha fez com que a apertasse forte. A compreensão do médico acabou por tranquilizar Cauê, que questionou o que iria acontecer de agora em diante, qual seria o tratamento.

Diante da situação, Dr Marcoti explicou a ele que era melhor internar a menina por alguns dias a fim de ajustar a medicação. E então, falou que Beatriz teria que iniciar o uso de insulina. Cauê questionou se isso era temporário, se não tinha outra opção, se não tinha um comprimido, se não dava para usar células tronco, se não tinha qualquer outra coisa que pudesse fazer pela filha.

O médico permaneceu em silênci, dando tempo para que Cauê assimilasse a situação. Então, depois de algum tempo, começou a preencer os papéis para a internação de Beatriz, que permanecia alheia a tudo que estava acontecendo no consultório. Depois da parte burocrática pronta, foram para casa preparar o que iam precisar levar para o hospital, roupas, artigos de higiene, etc. Avisou também em seu emprego, que teria que acompanhar a filha na internação, e seus pais para que não se preocupassem. Lembrou ainda de avisar a senhora que cuidava de Beatriz enquanto ele trabalhava.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2017 às 06h42 | cereshmrc@gmail.com

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Qual a sua graça?

É verdade que não sou tão velha assim, mas antigamente era como as conversas começavam: Qual é a sua graça? Talvez a geração atual nem saiba o que isso significa, mas era a forma de se apresentar, tipo “Qual o seu nome?”.

Por isso essa coluna começa assim, para gente começar a se conhecer. São 49 anos de vida, 20 destes na nossa Balneário Camboriu, atuando na secretaria de saúde como  médica.  E, bem lá naquele comecinho, eu atuei por 8 anos junto ao programa de diabetes e hipertensão do município. As reuniões do grupo me incentivaram a iniciar as palestras sobre saúde, e daí para começar a escrever livros com este tema foi só um pulo.

Hoje a medicina vem notando um aumento importante número de pessoas com diabetes e hipertensão arterial, Além disso, a expectativa de vida da população vem aumentando. Como as pessoas vivem mais tempo, acabam por ter mais doenças crônicas e, por consequência, as complicações delas. Aliado a isso, a cultura do imediatismo tem feito proliferar os fast foods, e cada vez consumimos mais alimentos industrializados (com alto teor de sal, principalmente) e cada vez menos praticamos atividades físicas. Com todas estas escolhas, temos um aumento também na obesidade, e isso mesmo entre as crianças, que não brincam mais de pular corda, subir em árvores, jogar bola.

Talvez por tudo isso, eu resolvi começar esta coluna falando de antigamente. Daquela época em que comíamos as frutas colhidas no quintal de casa (ou roubadas do quintal dos vizinhos – as melhores!), e os alimentos industrializados além de raros, eram caros demais e inacessíveis para a maior parte da população. Aquela época em que a gente pulava o muro quando tinha pressa, e tinha que levantar da cadeira para trocar o canal da televisão (e tinha aquele botão de girar que também era pesado...). Antes da enceradeira elétrica, o escovão para dar brilho no chão da casa... E na hora de ir para escola, a mãe da gente fazia aquele sanduiche com pão caseiro para levar de lanche...

Não quero com isso dizer que sou contra o progresso (até porque eu odiava passar escovão na casa!), mas me preocupa sobremaneira o preço que estamos pagando e, pior, o preço que as próximas gerações irão pagar pelas escolhas que NÓS fazemos hoje.

Por isso tudo, essa é a proposta desta coluna: um capítulo semanal dos meus romances educativos sobre diabetes. Espero com isso que, conhecendo mais sobre o assunto, a gente possa mudar o futuro dos nossos netos, quem sabe... E também tentar minimizar o prejuízo que nossas escolhas hoje possam causar para nós mesmos.

Então, muito prazer, minha graça é Céres, e espero que tenhamos uma boa prosa!

Escrito por Céres Fabiana Felski, 07/06/2017 às 18h50 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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