Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com

Vamos falar sobre gritos?

 

 

                      Ultimamente tenho experimentado uma sensação horrivel: uma dificuldade absurda de me concentrar, de escrever, de ler, de produzir qualquer coisa. Dormir também tem sido uma tarefa ingrata. Por mais que eu queira, o barulho ensurdecedor não me permite. Independente de onde eu esteja continuo ouvindo de forma incessante.

                   Gritos. Gritos desesperados. Pedidos de socorro. O mundo agoniza, as pessoas agonizam. Vez que outra, uma brechinha de luz parece que surge e acalma por um milionésimo de segundo a fúria insana dos clamores.

 

                      Ninguém ouve. Ninguém vê. Todos estão tão absortos, engolidos pela máquina do dia a dia, fazendo sempre as mesmas coisas, tentando atingir um ideal… Não sei se as pessoas ensurdeceram pelo barulho (porque a gente acaba se acostumando a tudo, infelizmente), ou pela falta de prática do exercício de ouvir.

 

                   Ouvir. Parece tão simples… mas de quantas maneiras diferentes nós gritamos? Há gritos literais, e gritos silenciosos. Grita aquele que cala, e grita talvez com muito mais ansiedade. Grita aquele que se embriaga… o que se droga com substâncias legais ou não. Mas eles gritam!!!

 

                   Nas ruas, todos os dias, vejo vários deles gritando enquanto caminham de olhos vazios suplicando em silêncio. Ocasionalmente um grita mais alto e daí as pessoas leem nos jornais e comentam em sussurros: “nossa… mais um suicídio...” Mas ninguém ouviu os gritos.

 

                     Eu também grito. Muitas vezes, grito em silêncio, num silêncio que minha família e amigos já conhecem e percebem as vezes até antes de mim. Porque eu aprendi que tenho o direito de gritar e ser ouvida, e acredito que todos também precisam aprender a ouvir até mesmo os seus próprios gritos.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/04/2018 às 16h26 | cereshmrc@gmail.com

Falando em faxina...

 

 

Há quanto tempo que você não faz uma boa faxina na sua casa? Com certeza muitos irão responder que fazem toda semana, ou a cada quinze dias, que é meio que o padrão da nossa sociedade. Mas, faxina de verdade mesmo, faz quanto tempo?

Talvez ao limpar o armário da cozinha, você encontre panelas que sem uso há anos. Eletrodomésticos empoeirados e enferrujados esquecidos no fundo dos balcões... Quantos apetrechos inúteis comprados no calor da emoção e nunca utilizados?

 E no guarda roupas? Quantas peças guardadas há anos esperando você emagrecer/engordar para usar de novo? E, se você conseguir atingir seu objetivo, estas peças de roupa ainda estarão na moda? Você realmente vai voltar a usar? Porque convenhamos, não é só o corpo da gente e a moda que mudam: tem coisas que a gente não vai mais usar porque passou o momento. Você pode voltar a ter o corpo de quando tinha 18 anos, mas isso não significa que a roupa que você usava naquela época vai cair bem em você agora. Mesmo que você ainda seja jovem, a sua cabeça não é mais a mesma, e você não se vê mais como antes. Aliás, com o tempo, passamos a nos olhar cada vez com maior rigor.

Da mesma forma que com os objetos, a gente precisa fazer uma boa faxina no coração de tempos em tempos. Tem certos sentimentos que não cabem mais dentro do peito, ou que já estão mais que ultrapassados. Por que guardar velhas mágoas? Para que deixar aquela vontade de dar um abraço em alguém esquecida num cantinho da memória? E aquele “me desculpe” ou “eu te perdôo” que você sufoca? Ou será que é você o sufocado?

Meus queridos, que tal aproveitar o início do ano para fazer uma boa faxina? Abra espaço para o novo: móveis, utensílios, roupas e sentimentos novos. Abra as janelas da casa, deixem que a luz do sol entre e que o vento renove o ar de cada cômodo. Faça o mesmo com o seu coração: deixe que o vento leve os sentimentos ruins que não combinam mais com você e permita que o seu novo eu floresça.

Você merece ser feliz.

E os outros também merecem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/01/2018 às 17h49 | cereshmrc@gmail.com

Sorria menos, por favor.

Tenho observado que grande parte dos meus amigos saiu das redes sociais. Inclusive notei até que os que nunca estiveram numa me parecem bem mais felizes (embora eu ache engraçado quando eles fazem algum comentário do tipo “não sei, como que é isso?” quando a gente se refere ao stories, por exemplo). Junto a isto, também tenho me analisado, e notado que ando acessando as redes cada vez com menor frequencia, e que não apenas não me faz falta como me parece ser até mais divertido.

Na semana passada enviei uma boneca de pano pra uma priminha linda que mora em São Paulo, e me lembrei que no ano anterior eu tinha recebido um bilhetinho manuscrito do vô dela e do quanto isso tinha me feito feliz. Não tive dúvidas, procurei papel de carta (ainda existe, acreditam?), uma caneta e sentei para escrever. A primeira sensação, preciso confessar, foi de dor no punho. Quanto tempo faz que não escrevo mais a mão? Nem me lembro… no consultório, no hospital, em casa, tudo informatizado. Caneta só pra assinar o nome, e pense que não uso talão de cheques há anos, então até isso é pouco.

Escrevi a primeira cartinha, a segunda, e logo tinha escrito para vários primos. E senti novamente o sabor de colocar no papel os sentimentos, e parece que assim, manuscritos, eles ficam até mais palpáveis. Sim, ao manuscrever cada cartinha, meu coração transbordou de amor e algumas lágrimas até chegaram aos olhos, a garganta apertou de saudade…

O que isso tem a ver com o início da conversa? Simples, estamos cansando de mundos de fachada, de poses de comercial, de vidas perfeitamente fakes. Por isso, estou pensando seriamente em sair das redes sociais, pelo menos por um tempo. Quero recordar que sou e somos reais, que sorrimos mas também choramos, temos momentos de raiva, de dor, de solidão. Não é só de alegria que a vida é feita, aliás, é nos momentos difíceis que a gente cresce.

Há alguns dias, um amigo me fez refletir muito nisso: quantos amigos de verdade você tem? Então, por favor, sorria menos. Seja mais você. O mundo precisa de gente de verdade.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/12/2017 às 12h58 | cereshmrc@gmail.com

Sobre amar e sobre amor

 

              De uma coisa eu tenho certeza: não estaremos aqui para sempre. Ou melhor, a única maneira de ficar aqui para sempre é ser diferente. O mundo está cansado do mesmo. Mesmas roupas, mesmos modos, mesmas idéias. É preciso que se reinvente a vida, que se dê um novo significado a existência. Sim, à vida. Esta mesma, que anda tão desvalorizada ultimamente...

Não gosto mais de ler jornais, de ver noticiários: a morte está presente o tempo inteiro. Ou ela ou seus cúmplices: a cobiça, o desespero, a vingança, o desamor... Ouvimos muitas vezes as pessoas falando em violência gratuita, mas é pior do que isso. É violência paga, financiada pelas manchetes de jornais e por leitores ávidos pelo sofrimento alheio. E é neste momento que pergunto o que estamos fazendo.

Nesta época de fim de ano, de festas, todos se tornam repentinamente solidários, e as instituições que acolhem os desamparados (sejam idosos ou crianças), ficam cheios de doações. De doações materiais, porque ninguém tem tempo de parar e dar alguns minutos de seu tempo. Ninguém pergunta como eles estão, porque não quer ouvir. Não queremos saber sobre as outras intermináveis 364 noites do ano. Não conseguimos suportar esta dor, e preferimos nos esconder atrás dos rostos sorridentes dos anúncios e dos cartões impressos de boas festas.

Há alguns anos temos o hábito de sair na noite de Natal, enquanto todos ceiam com sua famílias,  e levar comida e artigos de higiene pessoal, que arrecadamos em doações dos amigos, para os moradores de rua. Só Deus é testemunha do que vemos, dos sorrisos puros, das palavras que ouvimos,  do brilho nos olhos de cada um. Lembro-me bem de um homem jovem, que nos parou e fez um pedido: “vocês podem fazer uma oração por minha filha? Ela está com a mãe e faz tempo que não vejo...” Ou o senhor que estava sentado no calçadão, aparentemente embriagado, com as pessoas passando rapidamente ao seu redor e o ignorando, quando paramos o carro e nos dirigimos a ele. Ele nos agradeceu com os olhos cheios de lágrimas e disse que tinha certeza que Deus não tinha esquecido dele. Guardo estas memórias num compartimento especial do coração e elas me alimentam a cada dia.

No dia 24 de dezembro, quando você estiver com sua família comemorando a noite de Natal numa ceia linda com a mesa farta, tente não fechar as cortinas. Talvez do lado de fora esteja uma outra mãe/pai/filho(a)/avô/avó esperando apenas por um sorriso, uma palavra e um prato de comida. Talvez naquela noite você tenha a oportunidade única de ajudar alguém a se resgatar.

E, fazendo desta forma, talvez você crie o hábito de enxergar, e se torne, como tantos outros anônimos, alguém diferente para a humanidade. E, então, mesmo que o sopro da vida se apague e cerre seus olhos, ainda assim talvez você nunca parta, porque estará sempre vivo no coração de alguém que recebeu de você algo que trouxe de volta o seu sorriso. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/11/2017 às 21h22 | cereshmrc@gmail.com

Gente de verdade

             

               Eu queria pedir a você apenas um favor: fecha teus olhos e fica em silêncio um minutinho. Só um minuto, nada mais. Acho que este é o tempo suficiente pra você ouvir. E daí, talvez você entenda do que a gente tem falado,  tudo que o mundo está passando, tudo o que a gente tem calado... A gente vive num barulho ensurdecedor. É uma barulheira lá fora, um caos dentro da mente... os pensamentos se atropelam freneticamente e a gente acaba assim. Surdo.

Quanto tempo faz que você não ouve o seu coração? Olha que ele tem pedido socorro várias vezes... Você bem sabe como ele tem sofrido ultimamente. Apanha de todo jeito: volta e meia uma palavra atirada acerta bem naquele pontinho doloroso. Mas você finge que não ouviu. Você cala. Você está ficando mestre nesta arte de disfarçar, né? Eu até posso concordar com você que é mais fácil assim, fazendo de conta que não percebeu. Mas as feridas vão ficando, viu? E, de repente, quando você percebe, já não tem dor porque não tem mais sentimento... Já não dói mais nem fora, nem dentro... 

Faz tempo, né? Lembra da última vez que você ouviu seu irmão? Não, né... sei, a gente anda bem egoísta ultimamente. A gente só pensa em ser feliz, em ser melhor, em ser mais. Mais tudo. Menos humano. Porque gente de verdade também tem momentos de fraqueza, tem momentos de depressão, e até momentos de raiva. Gente de verdade as vezes bate, as vezes apanha, e noutras, corre junto.

Lembra quando você era bem criança e corria junto com os amiguinhos de mãos dadas? Gente de verdade é assim. Tem hora que se abraça e corre juntinho. Rindo. Dando gargalhada. Porque gente de verdade sabe que a vida é passageira, que num minuto estamos aqui e no outro fomos embora. Viramos apenas lembrança. E gente de verdade quer ser lembrança boa na vida dos outros. Gente de verdade quer levar lembranças boas da vida...

Porque no final, tudo se resume a isso: ao que você pode carregar com você. Ao que ninguém pode te roubar. Então, por isso te peço apenas este favor: fecha teus olhos e escuta teu coração. E escolhe fazer o que ele te mandar. Porque o mundo precisa disso: de gente de verdade.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/11/2017 às 11h51 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com

Vamos falar sobre gritos?

 

 

                      Ultimamente tenho experimentado uma sensação horrivel: uma dificuldade absurda de me concentrar, de escrever, de ler, de produzir qualquer coisa. Dormir também tem sido uma tarefa ingrata. Por mais que eu queira, o barulho ensurdecedor não me permite. Independente de onde eu esteja continuo ouvindo de forma incessante.

                   Gritos. Gritos desesperados. Pedidos de socorro. O mundo agoniza, as pessoas agonizam. Vez que outra, uma brechinha de luz parece que surge e acalma por um milionésimo de segundo a fúria insana dos clamores.

 

                      Ninguém ouve. Ninguém vê. Todos estão tão absortos, engolidos pela máquina do dia a dia, fazendo sempre as mesmas coisas, tentando atingir um ideal… Não sei se as pessoas ensurdeceram pelo barulho (porque a gente acaba se acostumando a tudo, infelizmente), ou pela falta de prática do exercício de ouvir.

 

                   Ouvir. Parece tão simples… mas de quantas maneiras diferentes nós gritamos? Há gritos literais, e gritos silenciosos. Grita aquele que cala, e grita talvez com muito mais ansiedade. Grita aquele que se embriaga… o que se droga com substâncias legais ou não. Mas eles gritam!!!

 

                   Nas ruas, todos os dias, vejo vários deles gritando enquanto caminham de olhos vazios suplicando em silêncio. Ocasionalmente um grita mais alto e daí as pessoas leem nos jornais e comentam em sussurros: “nossa… mais um suicídio...” Mas ninguém ouviu os gritos.

 

                     Eu também grito. Muitas vezes, grito em silêncio, num silêncio que minha família e amigos já conhecem e percebem as vezes até antes de mim. Porque eu aprendi que tenho o direito de gritar e ser ouvida, e acredito que todos também precisam aprender a ouvir até mesmo os seus próprios gritos.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/04/2018 às 16h26 | cereshmrc@gmail.com

Falando em faxina...

 

 

Há quanto tempo que você não faz uma boa faxina na sua casa? Com certeza muitos irão responder que fazem toda semana, ou a cada quinze dias, que é meio que o padrão da nossa sociedade. Mas, faxina de verdade mesmo, faz quanto tempo?

Talvez ao limpar o armário da cozinha, você encontre panelas que sem uso há anos. Eletrodomésticos empoeirados e enferrujados esquecidos no fundo dos balcões... Quantos apetrechos inúteis comprados no calor da emoção e nunca utilizados?

 E no guarda roupas? Quantas peças guardadas há anos esperando você emagrecer/engordar para usar de novo? E, se você conseguir atingir seu objetivo, estas peças de roupa ainda estarão na moda? Você realmente vai voltar a usar? Porque convenhamos, não é só o corpo da gente e a moda que mudam: tem coisas que a gente não vai mais usar porque passou o momento. Você pode voltar a ter o corpo de quando tinha 18 anos, mas isso não significa que a roupa que você usava naquela época vai cair bem em você agora. Mesmo que você ainda seja jovem, a sua cabeça não é mais a mesma, e você não se vê mais como antes. Aliás, com o tempo, passamos a nos olhar cada vez com maior rigor.

Da mesma forma que com os objetos, a gente precisa fazer uma boa faxina no coração de tempos em tempos. Tem certos sentimentos que não cabem mais dentro do peito, ou que já estão mais que ultrapassados. Por que guardar velhas mágoas? Para que deixar aquela vontade de dar um abraço em alguém esquecida num cantinho da memória? E aquele “me desculpe” ou “eu te perdôo” que você sufoca? Ou será que é você o sufocado?

Meus queridos, que tal aproveitar o início do ano para fazer uma boa faxina? Abra espaço para o novo: móveis, utensílios, roupas e sentimentos novos. Abra as janelas da casa, deixem que a luz do sol entre e que o vento renove o ar de cada cômodo. Faça o mesmo com o seu coração: deixe que o vento leve os sentimentos ruins que não combinam mais com você e permita que o seu novo eu floresça.

Você merece ser feliz.

E os outros também merecem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/01/2018 às 17h49 | cereshmrc@gmail.com

Sorria menos, por favor.

Tenho observado que grande parte dos meus amigos saiu das redes sociais. Inclusive notei até que os que nunca estiveram numa me parecem bem mais felizes (embora eu ache engraçado quando eles fazem algum comentário do tipo “não sei, como que é isso?” quando a gente se refere ao stories, por exemplo). Junto a isto, também tenho me analisado, e notado que ando acessando as redes cada vez com menor frequencia, e que não apenas não me faz falta como me parece ser até mais divertido.

Na semana passada enviei uma boneca de pano pra uma priminha linda que mora em São Paulo, e me lembrei que no ano anterior eu tinha recebido um bilhetinho manuscrito do vô dela e do quanto isso tinha me feito feliz. Não tive dúvidas, procurei papel de carta (ainda existe, acreditam?), uma caneta e sentei para escrever. A primeira sensação, preciso confessar, foi de dor no punho. Quanto tempo faz que não escrevo mais a mão? Nem me lembro… no consultório, no hospital, em casa, tudo informatizado. Caneta só pra assinar o nome, e pense que não uso talão de cheques há anos, então até isso é pouco.

Escrevi a primeira cartinha, a segunda, e logo tinha escrito para vários primos. E senti novamente o sabor de colocar no papel os sentimentos, e parece que assim, manuscritos, eles ficam até mais palpáveis. Sim, ao manuscrever cada cartinha, meu coração transbordou de amor e algumas lágrimas até chegaram aos olhos, a garganta apertou de saudade…

O que isso tem a ver com o início da conversa? Simples, estamos cansando de mundos de fachada, de poses de comercial, de vidas perfeitamente fakes. Por isso, estou pensando seriamente em sair das redes sociais, pelo menos por um tempo. Quero recordar que sou e somos reais, que sorrimos mas também choramos, temos momentos de raiva, de dor, de solidão. Não é só de alegria que a vida é feita, aliás, é nos momentos difíceis que a gente cresce.

Há alguns dias, um amigo me fez refletir muito nisso: quantos amigos de verdade você tem? Então, por favor, sorria menos. Seja mais você. O mundo precisa de gente de verdade.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/12/2017 às 12h58 | cereshmrc@gmail.com

Sobre amar e sobre amor

 

              De uma coisa eu tenho certeza: não estaremos aqui para sempre. Ou melhor, a única maneira de ficar aqui para sempre é ser diferente. O mundo está cansado do mesmo. Mesmas roupas, mesmos modos, mesmas idéias. É preciso que se reinvente a vida, que se dê um novo significado a existência. Sim, à vida. Esta mesma, que anda tão desvalorizada ultimamente...

Não gosto mais de ler jornais, de ver noticiários: a morte está presente o tempo inteiro. Ou ela ou seus cúmplices: a cobiça, o desespero, a vingança, o desamor... Ouvimos muitas vezes as pessoas falando em violência gratuita, mas é pior do que isso. É violência paga, financiada pelas manchetes de jornais e por leitores ávidos pelo sofrimento alheio. E é neste momento que pergunto o que estamos fazendo.

Nesta época de fim de ano, de festas, todos se tornam repentinamente solidários, e as instituições que acolhem os desamparados (sejam idosos ou crianças), ficam cheios de doações. De doações materiais, porque ninguém tem tempo de parar e dar alguns minutos de seu tempo. Ninguém pergunta como eles estão, porque não quer ouvir. Não queremos saber sobre as outras intermináveis 364 noites do ano. Não conseguimos suportar esta dor, e preferimos nos esconder atrás dos rostos sorridentes dos anúncios e dos cartões impressos de boas festas.

Há alguns anos temos o hábito de sair na noite de Natal, enquanto todos ceiam com sua famílias,  e levar comida e artigos de higiene pessoal, que arrecadamos em doações dos amigos, para os moradores de rua. Só Deus é testemunha do que vemos, dos sorrisos puros, das palavras que ouvimos,  do brilho nos olhos de cada um. Lembro-me bem de um homem jovem, que nos parou e fez um pedido: “vocês podem fazer uma oração por minha filha? Ela está com a mãe e faz tempo que não vejo...” Ou o senhor que estava sentado no calçadão, aparentemente embriagado, com as pessoas passando rapidamente ao seu redor e o ignorando, quando paramos o carro e nos dirigimos a ele. Ele nos agradeceu com os olhos cheios de lágrimas e disse que tinha certeza que Deus não tinha esquecido dele. Guardo estas memórias num compartimento especial do coração e elas me alimentam a cada dia.

No dia 24 de dezembro, quando você estiver com sua família comemorando a noite de Natal numa ceia linda com a mesa farta, tente não fechar as cortinas. Talvez do lado de fora esteja uma outra mãe/pai/filho(a)/avô/avó esperando apenas por um sorriso, uma palavra e um prato de comida. Talvez naquela noite você tenha a oportunidade única de ajudar alguém a se resgatar.

E, fazendo desta forma, talvez você crie o hábito de enxergar, e se torne, como tantos outros anônimos, alguém diferente para a humanidade. E, então, mesmo que o sopro da vida se apague e cerre seus olhos, ainda assim talvez você nunca parta, porque estará sempre vivo no coração de alguém que recebeu de você algo que trouxe de volta o seu sorriso. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/11/2017 às 21h22 | cereshmrc@gmail.com

Gente de verdade

             

               Eu queria pedir a você apenas um favor: fecha teus olhos e fica em silêncio um minutinho. Só um minuto, nada mais. Acho que este é o tempo suficiente pra você ouvir. E daí, talvez você entenda do que a gente tem falado,  tudo que o mundo está passando, tudo o que a gente tem calado... A gente vive num barulho ensurdecedor. É uma barulheira lá fora, um caos dentro da mente... os pensamentos se atropelam freneticamente e a gente acaba assim. Surdo.

Quanto tempo faz que você não ouve o seu coração? Olha que ele tem pedido socorro várias vezes... Você bem sabe como ele tem sofrido ultimamente. Apanha de todo jeito: volta e meia uma palavra atirada acerta bem naquele pontinho doloroso. Mas você finge que não ouviu. Você cala. Você está ficando mestre nesta arte de disfarçar, né? Eu até posso concordar com você que é mais fácil assim, fazendo de conta que não percebeu. Mas as feridas vão ficando, viu? E, de repente, quando você percebe, já não tem dor porque não tem mais sentimento... Já não dói mais nem fora, nem dentro... 

Faz tempo, né? Lembra da última vez que você ouviu seu irmão? Não, né... sei, a gente anda bem egoísta ultimamente. A gente só pensa em ser feliz, em ser melhor, em ser mais. Mais tudo. Menos humano. Porque gente de verdade também tem momentos de fraqueza, tem momentos de depressão, e até momentos de raiva. Gente de verdade as vezes bate, as vezes apanha, e noutras, corre junto.

Lembra quando você era bem criança e corria junto com os amiguinhos de mãos dadas? Gente de verdade é assim. Tem hora que se abraça e corre juntinho. Rindo. Dando gargalhada. Porque gente de verdade sabe que a vida é passageira, que num minuto estamos aqui e no outro fomos embora. Viramos apenas lembrança. E gente de verdade quer ser lembrança boa na vida dos outros. Gente de verdade quer levar lembranças boas da vida...

Porque no final, tudo se resume a isso: ao que você pode carregar com você. Ao que ninguém pode te roubar. Então, por isso te peço apenas este favor: fecha teus olhos e escuta teu coração. E escolhe fazer o que ele te mandar. Porque o mundo precisa disso: de gente de verdade.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/11/2017 às 11h51 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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